Papillon dispensa apresentações, mas continua a merecê-las. Merece-as porque, a cada segundo que “perdemos” a viajar pela arte que nos oferece, encontramos dentro de nós um sinal ou uma razão para continuar a fazer o que fazemos – seja eu, que escrevo estas linhas com um sorriso pela oportunidade que me foi dada, seja quem lê, que procura saber mais e/ou guarda no coração espaço para arte do rapper, quase sentindo o seu trabalho com a mesma intensidade que o próprio.
Ainda parece que foi ontem que Deepak Looper era editado, e ainda há bocadinho que Rui Pereira nos deixava as suas histórias em Jony Driver. O artista que depois de se afirmar em 2018 com o seu primeiro álbum a solo – vindo já com o peso e reconhecimento que havia construído com os GROGNation – e ter assegurado em 2022 que havia deixado o hip-hop português em boas mãos, apresenta-nos agora o seu terceiro álbum de estúdio: WONDER.
Composto por treze faixas, WONDER vem encerrar a trilogia iniciada há sete anos – e de que maneira. Em cada trabalho que lança, o rapper de Mem-Martins aposta tudo: volta a presentear-nos com uma curta-metragem – desta vez intitulada SONHOS, onde vemos fragmentos da sua vida até ao momento, entrelaçados com as novas músicas do projeto, que antecede o álbum. Brilha na forma como transforma problemas em letra; volta a dar significado aos títulos das canções, brincando agora com o facto de poderem ser lidos de trás para a frente. Além disso, reinventa-se mais uma vez na sonoridade. Traz consigo, na produção, os GÓIAS, Diogo Púrpura, ARIEL e MIGZ; agarra-se a Duarte Cotta, Hayden Nóbrega, Hugo Lobo e frankieontheguitar para dar ainda mais vida aos temas; e reserva um espaço especial para as vozes da Carla Prata e da Bárbara Tinoco, que acrescentam brilho nesta viagem. A mistura do projeto ficou ainda encarregue de Charlie Beats e a masterização esteve nas mãos de Chris Athens.
Num projeto onde deixa encaixado de forma mais melódica o peso das palavras, Papillon chega ao ponto alto de uma evolução que já vinha a construir com os últimos dois projetos. Volta a arriscar depois de Jony Driver, um álbum muito mais conceptual comparado ao seu antecessor, levando nas músicas outro nível de maturidade artística, que se preocupa em tocar na sensibilidade do coração de quem ouve, revivendo a jornada do rapper até ao momento. Deixa um pouco de lado o tom explosivo, mas que ainda está presente em ¡ +1 !, ¡ WOW ! e ¡ REVIVER !, procurando explorar mais o seu nível vocal, materializando de forma mais crua as suas histórias.
Para o ano, mais precisamente a 20 de março, vai pisar o palco do Coliseu dos Recreios a nome próprio, apresentando ao vivo o WONDER, com a possível oportunidade de viajar por toda a discografia do artista. Quase 14 anos depois de se ter revelado na indústria musical, Papillon segue firme e com lugar na tribuna do hip-hop nacional.
Na listening party do projeto, em Lisboa, a Hip-Hop Rádio teve a oportunidade de trocar umas palavras com o rapper.
Se no Deepak Looper víamos um Papillon a afirmar uma posição na música mais firme, viámos também que era alguém que estava numa jornada de aprendizagem, e no Jony Driver vemos alguém que dá uma faceta mais pessoal e que tem uma matéria mais sabida. Aqui no WONDER, vemos alguém que está numa fase pronto para ensinar. Sentes o mesmo?
Aaaaaa ao contrário [risos]. Eu acho que pensava que tinha mais para ensinar no primeiro, fui percebendo que não tinha assim tanto para ensinar no segundo, e agora tou só aqui a aprender [risos]. Acho que o WONDER é essencialmente aceitar que existe muita coisa que eu não sei, que nunca vou conseguir ser perfeito, que tenho de aceitar os erros como parte da minha aprendizagem e também entender que vai haver um momento onde eu vou saber tudo. Eu comecei o meu caminho a pensar dessa forma, que sabia mais, mas agora cheguei à conclusão que não é bem assim.
Este projeto parece-me ter um destinatário bastante óbvio. Enquanto no Jony Driver contas muito sobre quem te ensinou e quem te fez seres quem és, aqui também acabas por demonstrar essa faceta, só que mais do teu lado.
Ya, é mais do meu lado, exatamente. Tou numa posição diferente, acho que agora tenho uma experiência de paternidade que me faz ver as coisas com outra perspetiva até então. E lá está, acho que posso sempre ensinar, tenho já perspetiva de vida e experiência, mas também sei que sou humilde o suficiente para aprender.
Porquê WONDER? Há ainda uma luta e uma procura por um sonho, de uma criança dentro de ti?
A procura acabou, agora tamos só a explorar [risos]. Eu antes estava na procura de algo, de uma meta, de uma melhor versão de mim…agora tou só aqui. Tou só a viver e a tentar todos os dias dar o meu melhor, e provar a mim próprio – quer dizer, nem é tanto provar, é mais saber usufruir das cenas. Inconscientemente todo o caminho que fiz até chegar ao WONDER foi a tentar resolver as minhas insatisfações, mas agora já estou satisfeito. Não sei se isto é bom ou mau [risos].
Do Deepak Looper para cá, o que sentes que mudou? Seja na forma de pensar ou de trabalhar.
Mudou tudo. Eu normalmente tento transmitir isto nos álbuns, dizer o que é que mudou, o que não mudou, o que é que eu aprendi e que lições é que vieram. A nível pessoal muita coisa aconteceu, desde perder o meu pai, perder amigos, acabar relações, ser pai. A nível profissional muita coisa mesmo, comecei a rimar num quarto com uns amigos e hoje em dia é o meu trabalho, é aquilo que eu penso 24/7.
Depois de teres lançado o Jony Driver começaste logo a pensar ou a trabalhar neste projeto?
Não, não, ainda levou um tempo. Tive este lado pessoal de ser pai para assentar as coisas. O processo deste álbum ainda durou uns dois anos.
Qual foi a parte que perdeste mais tempo? No sentido de bater mais crânio e demorar mais a chegar a um resultado.
Foram as ideias. Foi saber a ideia certa, saber o que eu queria transmitir, depois disso foi mãos à obra. A parte mais difícil foi mesmo essa de querer saber o que dizer.
Novamente 13 músicas num projeto. Quem canta seus males espanta?
Acho que sim ya, sempre [risos]. O objetivo é esse.


