Hip Hop Rádio

Valas: “Quando fiz este disco não estava à espera que o mundo caísse aos meus pés”

Depois do seu último álbum “Check-In” ter sido lançado em 2018, já com cunho da Universal Music Portugal, o rapper de Évora esteve agora à conversa com a Hip Hop Rádio, para nos falar de “Animália”: O seu novo projeto de cariz intimista e pessoal. Este álbum abre caminho à metamorfose do artista, acompanhado por grandes colaborações como Alice Martin, D.Beat e Brazza nas vozes e Boss Ac, Lhast, Haze, Suaveyoukow, Nzhinga, Alfaccino, Fumaxa e APS na produção.

Perante um novo capítulo da sua vida, com todos os desafios que a paternidade traz e juntamente com a necessidade constante de se melhorar individualmente, “Animália” é  simultaneamente um testemunho de uma mudança, consequente da superação de dificuldades, e um hino ao início de algo melhor, que ainda está por vir.

“Animália” saiu no passado dia 11 de dezembro, com uma capa claramente ilustrativa do título. Qual o conceito deste projeto e porquê a escolha desta temática?

“Animália” surgiu há cerca de dois anos. É um projeto que fala do comportamento humano baseado e inspirado nas minhas vivências, nas minhas ações e acaba por ser uma autocrítica. Tem também outro lado, o lado positivo, que é o lado da liberdade. Passando pela capa, que foi feita por um grande amigo meu artista plástico, Zé Ardisson, foi escolhido o lince ibérico. Este é um animal que está em vias de extinção, não da minha zona, mas que já habitou em Portugal durante algum tempo. Foi a imagem que o artista quis dar à capa e que eu adorei, pois vai ao encontro daquela ligação do homem/animal que eu tento fazer no disco e nas músicas.

Portanto, foi o artista que optou pelo lince?

A finalidade da capa e do lince acaba por ser ideia dele. Sendo eu artista e não designer, quis que ele fizesse algo como se fosse uma peça ou um quadro dele e não apenas um pedido meu específico.

Este álbum tem bem vincada a ideia de metamorfose, quer pela história que contas, quer exatamente por ser um projeto bastante diferente dos anteriores. Sentes que foi o facto de estares numa nova fase da tua vida (até por teres sido pai) que te influenciou a sentires essa necessidade, de passares essa mensagem, através da tua arte?

Este disco não é representativo desta última fase da minha vida, passando pela parte de ter sido pai. Tudo o que engloba o projeto estava definido antes e a única música que vai mais ao encontro disso é a “Papá”, que fala inclusive de vir a ser pai, num futuro próximo, não de já o ser. A ideia para este disco foi sendo construída ao longo do tempo, e senti a necessidade de o lançar o mais rápido possível, especificamente neste ano ainda, pois a minha vida, assim como a de toda a gente, mudou muito; especialmente por ter sido pai. Sendo assim, este projeto não é representativo da fase em que estou, neste preciso momento, mas sim dos últimos dois anos da minha vida. Por isso é quase como que o fechar de um ciclo, e daí querer passar essa ideia de necessidade de metamorfose, de mudar e de me tornar numa pessoa melhor, digamos assim.

Este é um disco que já está em produção há algum tempo, certo?

Sim, começou a ser feito há cerca de dois anos. Toda a ideia do disco tem mais ou menos esse tempo, alguns temas foram concluídos no princípio deste ano ainda, mas não vão ao encontro da pandemia ou do facto de ter sido pai.

Este álbum conta com colaborações muito interessantes, nomeadamente Dj Sims, Brazza, Alice Martin e grandes referências na produção como Lhast e Boss Ac, entre muitos outros nomes. Como se deram estas parcerias? 

Este é um projeto muito pessoal, que retrata o que tem sido a minha vida e por isso as participações são todas elas de grandes amigos meus. Tirando a Alice, que conheci há uns anos e não me é assim tão próxima, o Brazza, o Dj Sims, o D.Beat, são todos grandes amigos e colegas de trabalho, já de há muitos anos, e eu quis que este projeto se mantivesse em casa.

Ainda no que toca a colaborações, uma das faixas mais curiosas deste álbum é precisamente a “Pack”, que conta com a participação de Alice Martin. Nessa música há uma parte em alemão, é utilizada uma sample de uma música do Bonga e não deixas de fazer novamente referência ao teu Alentejo. Qual foi a ideia por detrás desta música tão  multicultural?

A ideia que eu quis passar foi precisamente o facto de a união fazer a força, neste caso até entre línguas, entre povos, entre raças diferentes. Com esta música quis reforçar aquela ideia de conseguirmos alcançar os nossos objetivos, quando nos unimos e quando ignoramos completamente a parte do ódio, ou daquilo que possa ser mais adverso ao nosso desenvolvimento pessoal e à nossa vida. Há que aproveitar aquilo que realmente temos de bom, como o companheirismo, a amizade e tudo isso.

Na tua faixa “Vou” falas de ires e de te refugiares num porto de abrigo. Para onde vais quando precisas de te inspirar e para onde foges quando precisas de um porto de abrigo?

A “Vou” é das faixas mais antigas do disco. Já tinha o refrão há algum tempo e é um tema que explora a ideia de conhecermos o nosso porto de abrigo; de reconhecermos que é lá que nos sentimos bem e que também é lá que voltamos para nos encontrarmos, mesmo nas fases da nossa vida em que nos sentimos mais perdidos. É sempre bom saber que existe esse lugar, onde reside o amor e a compaixão, seja ele onde for. O nosso cantinho, onde sabemos com o que podemos contar.

Esta é certamente uma altura desafiante para lançares este disco, pelo contexto de pandemia no qual vivemos. Esperas conseguir apresentar este projeto ao vivo brevemente, ou não consideras essa uma questão tão relevante para agora?

Não penso muito nisso, sabes? Quando fiz este disco, não estava à espera de que o mundo caísse aos meus pés (risos) por assim dizer. Este não é propriamente um disco no qual eu procurasse essa notoriedade, é um disco que me liberta de certas emoções, de certos sentimentos, e senti necessidade de o criar por essa mesma razão. Agora está cá fora e espero que as pessoas também consigam encontrar alguma semelhança com a sua vida e com a sua luta interior.

Então não tens planos para um futuro próximo?

Infelizmente não. Podia até tentar organizar algo por minha conta, para tentar apresentar o disco, mas não tenho essa necessidade extrema. É um disco que senti necessidade de lançar, pois senti necessidade de que as pessoas que gostam da minha música o ouvissem. Se daqui a um tempo a nossa vida nos permitir voltar a atuar, e a ser produtivo nesse sentido, terei todo o gosto em apresentá-lo, mas não penso muito nisso, de momento.

Mas isso é ótimo, sentires essa realização pessoal, criar pela necessidade de criar e isso ser o suficiente. 

Exato. Às vezes é necessário também fazermos a nossa arte para nós, sem pensar só na recetividade e nos concertos ao vivo e em tudo isso. Por vezes isso baralha-nos um pouco. Aquilo que à partida sentias que seria o disco, ou que querias apresentar, pode ser abafado, se começarmos a pensar demasiado em questões como: “O que será que as pessoas vão achar?” ou “Como será que este disco vai ser recebido?”. Tentei abstrair-me disso e dar o melhor de mim nessa parte e mostrar uma parte de mim que estava mais escondida, um lado mais pessoal. Como já referi, este é um disco com o qual eu espero que as pessoas se identifiquem, ou que pelo menos quem o ouça se identifique e que ajude, de certa forma, quem esteja a passar pelas mesmas situações que eu passei e que passo.

Por fim, sentes que te falta dar algum passo?

Não. Sinto-me realizado, não só por ter sido pai, mas neste momento é de facto aquilo de que mais me orgulho e que me ocupa mais tempo da minha vida. Estou realizado e quero continuar a trabalhar e continuar a fazer música. Espero que 2021 nos permita estar mais em contacto com o público, que exista mais proximidade com as pessoas. Vamos ver o que está reservado, mas vou continuar a trabalhar e a fazer a minha música.

“Animália” encontra-se disponível em todas as plataformas digitais.

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