Hip Hop Rádio

Uzzy: “Quem desiste do seu sonho é porque não merece estar aqui”

Uzzy é de Portimão, começou em 2010 e, 8 anos depois, já é um ‘faz tudo’ do Hip Hop nacional. Começou a trabalhar numa pizzaria com 15 anos para conseguir comprar material de gravação. Por necessidade de fazer música 100% à maneira dele começou a fazer instrumentais e a produzir vídeoclipes. 2018 reserva-lhe um ep de um projeto chamado ‘Gangarve’ e quem sabe outro ep como artista a solo. Do início do ano até agora já pudemos ver o trabalho dele como produtor de vídeo em músicas como “Voar” do Gson e vamos poder ouvir instrumentais dele em singles de outros artistas. Uzzy está com força no Hip Hop Tuga e promete não ficar por aqui.

Fala-nos um pouco do teu começo no mundo do Hip Hop.

Eu comecei a gravar em 2010. Não fiz como a maioria dos rappers, no primeiro dia em que escrevi uma letra gravei logo, claro que foi bué amador com a webcam, no Movie Maker que nem sequer dava para gravar sons…
Depois no Verão de 2011, com 15 quase a fazer 16 anos, fui trabalhar para uma pizzaria para ter dinheiro para comprar o meu primeiro microfone de estúdio, o tripé, as colunas e assim.


Foi só nessa altura que o Hip Hop entrou na tua vida?

Eu oiço hip hop praticamente desde que nasci. Quando tinha mais ou menos 12 anos a minha mãe mostrou-me um ‘cd pirata’ e disse que quando era bebé eu só me acalmava a ouvir aquilo. O cd tinha para aí 20 músicas e 90% era só hip hop old school.


Consegues escolher o teu melhor projeto? Ou o que mais prazer te deu fazer…

Não te sei dizer qual foi o meu melhor projeto, ou aquele que mais gostei de fazer. Eu gosto sempre de inovar. A minha cena básica é aquela cena ‘street’, mas também tenho a cena ‘love’ mais de decepção, depois tenho o “Segura” que tem um beat mais reggateon, tenho também o “Pega” que foi com o G-Amado, que é um artista de Kizomba, em que eu tenho um toque na produção do beat que torna a cena mais “Gansgter” e eu tou a rimar não tou a cantar Kizomba. E recentemente lancei um trap pela primeira vez. Eu gosto de inovar, não consigo escolher o projeto que mais gostei de fazer, gosto de fazer tudo.


És do Algarve. De que forma é que achas que isso é um obstáculo no teu percurso como rapper?

Toda a gente diz que é mais dificil, mas eu tenho a minha ideologia, que tentei passar no som “Por Aqui” com o Baqui. Dizem que temos de trabalhar 3 vezes mais, mas sinceramente não vejo isso como uma coisa negativa, isso só me faz querer evoluir mais e no dia em que eu chegar aos ouvidos de toda a gente já vai ser uma versão muito mais evoluída de mim. Eu acho que na vida temos sempre de ver o lado positivo porque se só nos ficarmos a queixar não vamos andar para a frente. Ser do Algarve filtra mais porque há pessoas que desistem no meio. A mim não me faz desistir, a mim faz-me ter mais gana, faz-me querer evoluir mais. Para mim quem desiste do seu sonho é porque também não merece estar aqui. Para além disso, hoje em dia isso já está menos acentuado, a internet é para todos, não há uma internet para Lisboa e uma para o Algarve. A maior dificuldade é o facto de os promotores terem de te pagar mais em deslocação e por vezes vão preferir um artista mais barato, mas se tu fores mesmo bom eles vão te querer lá na mesma.


E os teus contactos com o resto da malta do meio, como é que surgiram?

Simplesmente surgiu. Por exemplo, o Bispo conheci-o numa noite de Hip Hop em Faro. Com o Kappa Jotta surgiu pelo facto de eu produzir vídeos, ele contactou-me e já que estávamos a falar ao telefone eu disse-lhe “Por acaso tenho aqui uma faixa em que tu encaixavas mesmo fixe”, eu tava a fazer o meu ep “Realidades” na altura, ele disse-me que estava cheio de trabalho com o “Vírus” mas que se sentisse fazia. Mandei-lhe e passado duas horas ele pediu-me o mail e disse que me ia enviar a parte dele gravada.


És produtor não só de vídeo, mas também de instrumentais. Como é que essa faceta surgiu?

Eu misturo, masterizo, produzo instrumentais e produzo vídeos. Mas tudo isso surgiu pelo facto de eu ser perfecionista. O que é que é estar perfeito? Estar perfeito é estar ao teu gosto. E nunca irei encontrar alguém que faça as coisas tão à minha maneira como eu, por isso decidi começar a fazer isso tudo muito cedo. Vídeo nos finais de 2012 e beats no início de 2013, foi muito próximo. A mistura e a masterização sempre fui eu que tratei disso nas minhas músicas.


Sabemos que estás a cozinhar um projeto com mais malta do Algarve, o que é que podes adiantar?

A única coisa que posso adiantar sobre “Gangarve” é que vai sair um ep com rappers de Portimão, Albufeira e Quarteira.


Para além do projecto coletivo, estás a preparar algo a solo?

Estou a trabalhar no Gangarve e em singles meus. Eu sou apologista de que nunca devemos deixar-nos para trás, temos de estar em primeiro lugar. Por isso estou sempre a trabalhar nas minhas cenas a solo e pode surgir aí um ep meu que não tem data, mas pouco a pouco se vai construindo.


Tens aparecido cada vez mais como produtor de vídeo. Isso é uma vertente que queres explorar mais?

Embora sejam cenas diferentes, para mim é tudo a mesma coisa. Tudo implica a criação de um single musical por isso para mim está incluído o vídeo. Há pessoas que dizem que não podemos ser muito bons em tudo o que fazemos, eu não sou a favor disso. Acho que basta empenho e dedicação. Eu gosto de levar tudo ao mesmo tempo, quero fazer a minha evolução na escrita, nos beats, na mistura, na masterização e no vídeo de modo a que fique tudo ao mesmo nível.


Os instrumentais que produzes são maioritariamente para ti ou pretendes também produzir para outros artistas?

Em 2018 já vão sair instrumentais meus em músicas de outros artistas. Mas até agora não tenho muito isso porque este povo não dá muito valor ao trabalho dos outros. Para estar a vender um beat exclusivo por 30€ ou 40€ prefiro guardar o beat e mais tarde sou capaz de o usar noutro som e ganhar mais com isso.


O teu último som foi trap. Vais continuar a seguir essa vibe?

Eu vario, o próximo som tanto pode ser com um beat de Kizomba como de Club, etc.. Eu não me limito mas sim, vão sair mais cenas Trap.


Quais são as tuas maiores referências em relação à música?

Não tenho uma referência física, ouço hip hop desde sempre e acho que fui buscar influências a todo o lado e acho que é por isso que me dizem que eu tenho um estilo único, que é um elogio que fico contente por receber.


Consegues destacar um dos teus versos para acabar esta entrevista?

Há vários versos que eu senti bué, por exemplo: “”Faz um fininho” nunca faças/ P’ra isso pego no dinheiro vou até a um mendigo e ofereço uma carcaça/ Ele precisa de mais na barriga do que eu de droga no pulmão/ Precisa disso em vez de álcool p’ra aquecer o coração”  (Uzzy – Tudo o que faço)

Texto por: André Batista

Leave a Comment