Hip Hop Rádio

Tilt, Praso e Nerve ao leme de um barco que nunca afundou

Sábado à noite no Cais Do Sodré. Destino mais que habitual para o dia de semana em questão. Para nós e para muitos “hip-hop heads” a festa estava marcada para o Titanic Sur Mer, bar que costuma acolher vários concertos de hip-hop. Desta vez os comandantes do navio eram Tilt, Praso e Nerve. Tínhamos a certeza absoluta que este barco, ao contrário do outro, não ia afundar. Chegámos ao Titanic por volta das 23:30h (a abertura de portas tinha sido às 23) e já DJ Apu soltava os primeiros beats, ouvia-se muito hip-hop old-school… sabíamos que nos esperava uma noite muito à base de boom-bap. Para quem conhece o espaço sabe que a porta traseira que dá para o cais costuma estar aberta e podemos afirmar que nesta altura da noite estavam mais pessoas nas imediações do que propriamente dentro do bar, muito devido ao calor que se fazia sentir no espaço. Independentemente da temperatura ambiente, esperava-se uma noite quente corrosiva.
O primeiro MC a lançar achas para a fogueira foi Tilt que, mal subiu ao palco, fez com que o pessoal que se encontrava à deriva nas imediações, entrasse no navio e não apenas isso, que se deslocasse até à proa. Com uma frontline bem composta o rapper do coletivo Orteum apresentou-se em palco com Muka e com Dysiled nos pratos. Começou a sua atuação com “Epidural” e ao longo do concerto puderam ouvir-se vários temas dos seus trabalhos. “A cassete está estragada, a cassete está estragada” era o grito que ouvíamos, claro está, era o tema “Loop de Pensamentos” que estava a ser tocado, tema esse que aborda a sanidade mental e que conta com a colaboração de Muka. “Karma d’Éden”, tema também colaborativo com Muka (que a determinada altura do concerto pôde tocar duas músicas a solo) entrou também para a tracklist.
Tilt presenteou o público com um acapella inédito a que decidiu dar o nome de “Carta Aberta Para o Hip-Hop”. Palavras bastantes agressivas, algumas menções e ataques diretos a alguns MC’s. Tudo isto para expor ao público o que era antes o hip-hop e no que se está agora a tornar. Para finalizar o seu concerto, Tilt decidiu chamar a palco os seus companheiros , Mass e Nero e com eles tocou dois temas, “R.U.A.” do álbum “Perdidos e Hashados” de Orteum e “Anda”, tema ainda não lançado mas que a tripulação do Titanic pôde escutar nesta noite. Estava dado o mote para uma noite que se esperava que continuasse a ser alucinante e corrosiva.
O senhor que se seguiu foi Praso. A transição para o MC de Sines que se fez acompanhar em palco com Jugador, Subtil e o seu DJ, Richard Beats quase não se fez notar, o público não queria pausas. Sabemos que Praso se sente completamente em casa no Titanic, não fosse este o palco de dois dos últimos concertos de Alcool Club. A primeira faixa foi “1,86 do céu” e o público reagiu logo de forma calorosa, já sabiam para o que vinham, ouvir hip-hop jazzy, do melhor que se faz em Portugal. Praso passou por toda a sua discografia, pudemos ouvir temas como “Sim à Vida”, “Tanto Não Chega”, “Sindroma de Estocolmo” assim como temas mais recentes que têm sido lançados de forma solta para o canal do YouTube como “Artesanacto”, “Não procures a explicação”, “Lucy” e “A culpa não é do nosso romance”.
Houve também espaço para cada um dos 2 MC’s que acompanhavam Praso em palco soltar o seu accapella. Na reta final do concerto tivemos o adorado “Qualquer coisa e um pouco de jazz” (é impressionante a forma como todos sabiam a letra de cor e cantaram em uníssono), a clássica faixa de Alcool Club “Fico” e um acapella de praso que antecedeu a última faixa cantado pelo rapper “Raiva de ontem”, coincidentemente a última faixa lançada por Praso que irá fazer parte do seu novo álbum “Lev” com data marcada para 2018 e que deixou todos com água na boca. Praso é a prova de que o hip-hop e o jazz combinam e de que maneira, pena que sejam poucos em Portugal os que combinam os dois estilos.
Findado o segundo concerto já se sabia o que vinha a seguir. Nerve era o senhor que tinha como função fechar a noite em termos de rimas. Ao contrário da transição para Praso, para Nerve fez-se um compasso de espera. O rapper bracarense apareceu em palco sozinho, como é habitual, para um concerto em que se ia poder ouvir maioritariamente temas do seu aclamado álbum “Trabalho e Conhaque”. Nerve abriu as ostes com “’98”, passou depois por “Deserto”, “Água do Bongo” e “Coincidências”. Houve também espaço para um acapella do MC para quem “A Vida Não Presta” (também tem direito) antes de uma pausa no concerto não agendada. Uma das colunas deixou de funcionar e foi preciso proceder à reparação. “Epá lindo, espetacular” disse Nerve quando voltou a palco após a reparação, num registo em tom de ironia que lhe é tão habitual.
Seguiram-se temas como “Lenda”, “Acena” (faixa em conjunto com Blasph) que contou com a presença do mesmo em palco e “Cidade Perfeita”. “Bom e agora vamos para a parte fofinha” disse-nos Nerve antes de tocar os temas “Gainsbourg”, “Pobre de Mim” e “Nós e Laços”. Tendo em conta o artista de que estamos a falar, estas podem sim ser consideradas as suas músicas de amor, por mais estranho que isso pareça. O MC do (ainda existente) sistema intravenoso finalizou o concerto com “Conhaque”, “Monstro Social” e “Subtítulo”, a única faixa do rapper que conta com videoclip. Nerve é um autêntico poeta e além disso um excelente executante. É de salientar a forma como solta todo aquele “palavreado” sem se enganar ou tropeçar uma única vez e como consegue colocar o público completamente comprometido com o seu concerto, que acaba sempre por ser bastante intimista.
A after-party ficou a cargo de DJ Apu, no entanto, quase todo o público do Titanic abandonou o barco após o concerto de Nerve. Este navio não se afundou, mas sabemos que mesmo se isso tivesse acontecido, os seus tripulantes não se importavam nada e afundavam com ele pois se “a cassete está estragada” e “a vida não presta”, tudo o que precisamos é de “qualquer coisa e e um pouco de jazz”.
Artigo por: Daniel Pereira
Fotografias por: Carlos Pfumo e Daniel Pereira

 

Leave a Comment