Hip Hop Rádio

Tilt na Casa Independente: De volta ao Karrossel

Passados dois anos desde o seu último concerto a solo, voltamos a dar uma volta no Karrossel com Tilt. Desta vez com a instalação montada na Casa Independente, o rapper agraciou-nos com um concerto repleto de convidados especiais, temas novos e interação com o público, numa véspera de Halloween que voltou atrás na hora, como que deixa dos astros, para podermos celebrar durante mais tempo este regresso cósmico.

A noite arrancou com DJ Ketzal, que abriu a bilheteira e iniciou o espetáculo com um DJ set onde demonstrou as suas skills de scratch. Após ter guiado o público durante uma hora de viagem pela mais refinada seleção de rap tuga, preparando-o para o que estava para vir, a personagem principal do espetáculo revelou-se, sorrateiramente, por detrás da cortina lateral e avançou, pronto para assombrar.

Tilt pisou o palco ao som de “Epidural“, com toda a vontade de aniquilar e uma saudação: “Boa noite, sobreviventes do apocalipse! Que bom ver-vos.”, o que verdade seja dita, não tem tanto de hipérbole como se possa pensar num primeiro instante, relembrando-nos do surreal que é poder-se finalmente celebrar música ao vivo nestas condições.

Prontamente levou-nos numa volta alucinante ao som de temas como “Tecnologia Primitiva, O Museu“, uma faixa “com dez anos, mas sempre atual”, “Perdido e Hashado” produzido por Metamorfiko, -apresentado por Tilt como um dos seus produtores preferidos-  e “1926”, onde foi feito um feat com o público, entusiasta, na parte do refrão.

O artista apresentou ainda temas como “Bilheteira” e “Calhau” -uma faixa pela qual admitiu ter um carinho especial- antes de chamar ao palco a primeira grande convidada da noite: Cora. Juntos apresentaram o seu novo tema “Orla”, que se encontra presente no primeiro álbum da artista, “Trochilidae”.

Seguindo o tema de diversão efémera, lema pelo qual se parece reger, o rapper anunciou que iria fazer uma “brincadeira”, que se traduziu num medley pesado onde juntou os temas “Ugh”, com beat de IL-BRUTTO, “Eliminação”, “Doentes” e “Mercenários”.

Logo de seguida e sem dar tempo ao público para recuperar do arraial de lírica que tinha acabado de testemunhar, foram chamados ao palco os próximos convidados: Nero e Mass, completando assim 3/3 de ORTEUM em palco, para cantarem “Indigesto”. Antes de se retirarem, Tilt anunciou concerto do conjunto dia 19 de novembro, no Musicbox.

Mas a procissão ainda ia no adro no que toca a surpresas. Em mais um momento de partilha a mãos largas, o artista revelou que está a preparar um novo disco intitulado “Espirro” e presenteou-nos com um sneak peek a capella mortífero, com a qualidade de barras a que já estamos habituados: “Música para os teus ouvidos era cair-te um piano em cima”.

Para o deleite do público, a faixa que se seguiu foi a emblemática “Homem do Lixo”, que arrancou fortes entoações da letra, da parte dos presentes, prosseguindo-se de “Amor a Roma” e ainda “Lei”, antes de ser evocado o último convidado especial da noite: Nerve. Uma das duplas mais temidas juntou-se em palco, para abanar placas tectónicas ao som de ”Thomasin”, naquela que não seria a última performance de 2/3 de Escalpe naquela noite.

Depois de apresentar a sua mais recente faixa “Treze”, humoristicamente dedicada por Tilt “às pessoas que tiveram que comprar bilhete à porta” e “Amor Romano”, sobre um instrumental diferente e numa performance intimista, Nerve marcou novamente presença em palco, para nos brindar com a maior surpresa da noite: em celebração do primeiro aniversário de Escalpe, assinalado naquela noite, a dupla apresentou um novo som, ainda sem título, que vamos apelidar de “uma promessa de rebentar com a tuga”. Foram assim levantados mais uns milímetros do véu sobre o que será Escalpe, um projeto há muito a ser magicado e por isso coberto por uma aura de misticismo, que os fãs urgem em desmistificar. No entanto, ainda não existe data para a grande revelação, pelo que é recomendada paciência.

Ainda com a cabeça à roda de tal volta no Karrossel, foi a vez de DJ Nelassassin apresentar um DJ set de hip hop maioritariamente internacional, para uma pista repleta de pessoas determinadas a dançar, que certamente não ficaram desiludidas. Podia sentir-se na atmosfera a euforia e uma desenfreada vontade de dançar, consumada ao som dos inúmeros temas que o DJ ia passando, enquanto riscava os discos com uma mestria invejável.

Foi assim o regresso de Tilt em nome individual aos palcos, num concerto marcado por convidados especiais, surpresas e pela destreza lírica do artista, que nunca para de surpreender. Com barras mordazes inseridas em verdadeiros poemas, -que contam elaboradas histórias que muitas vezes não parecem encaixar neste mundo, mas que talvez encaixem noutros- Tilt pode ser considerado como detentor de um dos melhores pen game do rap português, mostrando-se ciente do peso que a lírica possui no género e carregando-o às costas “até que o ombro estale.” Concertos como este fazem-nos relembrar do incomparável que é ouvir rap puro ao vivo, deixando-nos cada vez mais impacientes na expectativa do que mais poderá vir por aí … é de ficar de olho na Raia.

Fotografias por Sebastião Santana.