Hip Hop Rádio

Tekilla no Time Out Market: Shots de energia numa festa de reencontro

Na passada quarta-feira, dia 22 de setembro de 2021, noite de trovoada, o Time Out Market recebeu mais que um abalo que abanou (e de que forma) as suas estruturas: Tekilla, uma força da natureza.

Uma noite que estava destinada à apresentação do seu novo álbum “Olhos de Vidro”, e na qual se prometia a presença de vários convidados especiais, acabou por ser muito mais que isso: uma verdadeira festa, onde se celebrou o lento e há muito esperado regresso à normalidade, na presença de amigos, fãs e família. A energia elétrica de Tekilla fez-se sentir em todos os segundos do concerto, onde houve momentos de dança, extrema interação com o público, desabafos e até abraços, num culminar de um concerto eletrizante. E nós estivemos lá para testemunhar.

O ambiente foi preparado pelo DJ Kool Isac Ace, que proporcionou ao público uma viagem aos primórdios do hip-hop, deixando de imediato a sala na expectativa do que se avizinhava: uma performance conduzida pela vontade de passar a mensagem, da maneira mais crua e eletrizante possível.

A suave mas inesperada transição de hip-hop para a música “Saudade Vem Correndo” de Stan Getz trouxe com ela uma bailarina de dança contemporânea, indicando assim a chegada próxima do tão aguardado artista, que surgiu breves momentos depois, estreando o palco com o seu tema “Homens”.

Frisando sempre a gratidão sentida em relação a este regresso à normalidade, e agradecendo com largos elogios ao público que saiu de casa para o ver, o artista prosseguiu com o tema “90s”, incitando os presentes, fervendo para se levantar, a abanarem a cabeça, mencionando o quanto arriscaram para realmente proporcionar uma performance “à altura” pois, nas palavras do artista, o seu objetivo é sempre apresentar a melhor performance possível, “não só porque ouviram e gostaram do álbum, mas para superar as vossas expectativas”.

De seguida, foi aberto o leque de convidados especiais com a chamada ao palco de Ana Semedo, apelidada de Underground Diva, para cantarem o tema “Puxão de Orelhas”.

Não faltaram momentos de interação com o público entre músicas, onde Tekilla fez questão de relembrar o seu principal objetivo no rap: passar a mensagem. Estando há mais de 20 anos no rap, o artista defende que não é, nem alguma vez foi a parte financeira que o estimula, mas sim o veículo que esta forma de arte proporciona, para poder passar a mensagem.

Seguiu-se a apresentação do tema “Love you”, que suscitou um pico de energia na sala. Tekilla incentivou todos os presentes a proferir as palavras “Fuck You”, num exercício libertador de expressão, contra as amarras da liberdade de expressão artística, o que abriu caminho para o próximo tema apresentado: “Tem Juízo”, “aquele single mesmo sujo, onde tens que cuspir muito”, nas palavras do próprio.

A plateia ao rubro ficou de novo em silêncio, para mais um momento de conversa, onde o artista elaborou sobre a existência de dois tipos de pessoas: os sugadores e os doadores. Identificando-se como um doador, Tekilla mostrou-se agradecido pelo sentimento de reciprocidade sentido na sala, uma das principais ignições de um espetáculo tão voltaico.

A festa continuou com o tema “Se Eu”, com direito a solo de bongos no fim, por Afrogame, pintando o ambiente para a faixa especial apresentada de seguida: “Sinónimo“, um clássico que partilha com Sam the Kid.

Em mais um momento de interação com o público, em tom de desabafo, o artista proporcionou um momento refletivo onde falou sobre deixar a sua música falar por si, independentemente das opiniões de outrem, afirmando que sabe quais são as suas causas e as lutas que abraça. Tekilla explicou que atribui a maior importância ao facto de pretender espalhar uma mensagem de inclusão, especialmente depois de uma pandemia: “agora é uma bênção estar a partilhar convosco cada minuto.”

Com influências de nomes como Method Man, “Oportunistas” foi um dos temas onde mais se sentiu a energia presente na sala, tendo Tekilla saltado para o público enquanto cantava o tema, porque seria, a seu ver, “uma falta de respeito não transmitir esta energia”; uma energia que foi certamente recebida e interiorizada, pelos gritos que se ouviam na sala a perguntar onde era a after party.

Com a aproximação do final do espetáculo, Tekilla apresentou o tema “Olhos de Vidro”. Sendo o tema homónimo do seu álbum, foi apresentado um momento especial: reforçando a importância dada à letra e à passagem de uma mensagem, o artista proporcionou-nos com um momento acapella.

Não abrandando nos momentos especiais, foi chamada Amaura ao palco, para brilharem “Em Sintonia”, como o próprio título da música indica.

Com uma plateia em chamas, envolta num ambiente de intimidade quase familiar, juntou-se desta vez Dino D´Santiago em palco, para incentivar à dança com a melódica “Meu Bem”, faixa que o público recebeu levantado e com toda a vontade para se mexer.

Estando o ambiente de festa no auge, como tínhamos tantas saudades, Dino não abandonou o palco, presenteando-nos desta vez com uma homenagem a Tito Paris e aos anos 90, com o tema “Dança ma mi criola”, onde se juntaram todos os artistas convidados, assim como a plateia, numa animada dança que honrava tradições.

Terminou assim o concerto, em nota alta, com a entoação dos parabéns ao DJ presente e com a apresentação de toda a equipa e convidados, acompanhados de uma vénia coletiva ao público. Foi ainda possível ouvir a entoação, em cântico, das palavras “Olhos de Vidro”, seguida de um abraço pessoal a cada pessoa do público, pela parte de Tekilla.

Mais que um concerto, este evento revelou-se como uma experiência: um hino de volta à normalidade, um grito de esperança e uma relembrança do que é dançar, numa sala envolta em energia. Embora permaneça o distanciamento social, Tekilla, honrando o papel de Master of Cerimonies, não só entregou uma performance cheia de garra, como há muito não se via, como moveu toda uma sala pelo espírito de união e amor pela cultura, uma das melhores sensações que a música pode proporcionar. As rimas mordazes com os beats ferozes, acompanhados pelos bongos de Afrogame e seguimento de DJ Kool Isac Ace, fizeram a sala do Time Out Market parecer menos um amplo sótão, e mais um transporte aéreo para a viagem vivida pelos presentes. Tekilla chegou viu e venceu e pela importância dada à escrita, cultura e entrega, parece-nos que veio para ficar.

O álbum “Olhos de Vidro” encontra-se disponível em todas as plataformas digitais.