Hip Hop Rádio

vado más ki ás

ENTREVISTAS ROCK IN RIO C/ BEATRIZ FREITAS & DANIEL PEREIRA

A HHR esteve nos quatro dias de Rock In Rio, maioritariamente no Palco Yorn da Chelas é o Sítio, que foi repleto de Hip-Hop.

Lá, a Beatriz Freitas e o Daniel Pereira estiveram à conversa com Valete, Kappa Jotta, 9 Miller, GROGNATION, Ary Rafeiro, Phoenix RDC, Vado, Eva RapDiva, G Fema e Malabá.

São dez entrevistas numa única edição imperdível que podes ouvir abaixo:

Fotografias por Daniel Guerreiro

“Mudjer Africana” une Vado Más Ki Ás e Pragga Donzalla

Um mês depois de lançar “Godzilla”, Vado Más Ki Ás acaba de apresentar o seu último single. “Mudjer Africana” é o seu novo tema, ao qual se juntou Pragga Donzalla.

Esta música surge como uma “homenagem a todas as mulheres africanas que todos os dias lutam e se superam”, refere Vado no seu Instagram, dedicando-o à sua mãe e a todas as “mães guerreiras”. “Mudjer Africana” conta com a composição de Vado, Pragga Donzalla, Rizzo, Serra, Dodas Spencer, produção de Rizzo e Serra, mistura e masterização de Serra e ainda com Dodas Spencer nas guitarras.

Apesar de estar no ar há quatro dias, o videoclip encontra-se já nas tendências do YouTube. A música já se encontra também nas plataformas digitais.

A História do Hip- Hop Tuga: O Cliente nem sempre tem razão

Falta precisamente um mês para o evento mais importante da história do Hip-Hop Tuga.
Fácil de perceber porquê: dia 8 de março o Altice Arena será o palco que irá juntar cerca de 40 nomes do hip-hop nacional entre DJs, b-boys, writers e MCs. Inédito? Sim. Enorme passo para esta nossa cultura? Claro. Então porque te queixas só porque o teu rapper preferido não vai lá estar?
| Por Daniel Pereira

Há cerca de 10 anos era quase impensável que fosse existir um evento na maior sala de espetáculos do país virado exclusivamente para a cultura Hip-Hop de Portugal. Dessa altura para cá muito mudou e atualmente são raros os cartazes de festivais, semanas académicas, viagens de finalistas e qualquer outro tipo de evento que não conste com pelo menos um nome de hip-hop nacional e, por vezes, até internacional. 16 de julho de 2016 foi, para muitos, o dia que mudou de vez o paradigma nos cartazes dos grandes festivais quando Kendrick Lamar foi o cabeça de cartaz do SuperBock SuperRock e o único a esgotar os bilhetes no dia em que atuou. O concerto, claro está, foi memorável. Falo por experiência própria e do que pude presenciar: hip-hop heads ou não, todos ficaram pasmados com a atuação de K.Dot. Parece que foi ontem, mas 2016 foi há três anos e a partir daquele momento o género afirmou-se cada vez mais na música portuguesa.

Depois, veio o dia 30 de junho de 2017, um marco tão ou mais importante para o movimento. O Sumol Summer Fest tinha no seu cartaz “A História do Hip-Hop Tuga”. Sim, o evento do próximo mês não é totalmente inédito. Esta primeira versão contou com mais de 20 nomes que fizeram, fazem e continuarão a fazer história no hip-hop. No entanto, faltava algo. Faltava pegar em todas as vertentes da cultura. O único DJ era Nel’Assassin. De resto, eram todos MCs e, para mim, o grande ponto forte desta versão 2.0 é existir nomes, mesmo que não estejam em igualdade de número, que representem todas as vertentes do movimento hip-hop.

Quando o primeiro cartaz d’”A História do Hip-Hop Tuga”, em 2017, foi divulgado para o público houve algo que, talvez por ingenuidade minha, me surpreendeu bastante. Nas redes sociais e mesmo no boca-a-boca os comentários de ódio era superiores aos comentários elogiosos. As críticas apontavam ao facto de “faltar gente” ou “esse não merece estar aí”. Ora eu que simplesmente estava radiante pelo primeiro concerto a comprometer-se, através de vários artistas, a fazer uma retrospetiva da história do hip-hop nacional, estava completamente perplexo.

Haters há em todo o lado e há que saber lidar com isso, mas foi algo que me aborreceu bastante. Falo agora para uma dessas pessoas, que espero que também esteja a ler este artigo: tu que apontaste o dedo à organização por não trazer o Zé Manel (nome fictício que estou a dar ao teu rapper preferido) paraste para pensar se foi realmente culpa da organização? Sabes se não houve o convite? Sabes se houve e foi recusado? Sabes se houve e simplesmente o Zé Manel não pôde ir porque já tinha concerto agendado para esse dia? Não sabes. Nem tu. Nem eu. São assuntos relativos à organização e ao artista. O que eu sei é que cheguei a ver rappers que têm mais que lugar na história do hip-hop na área VIP enquanto “A História do Hip-Hop” estava a decorrer, portanto, neste exemplo, de quem é a culpa? Deixo a reflexão para ti. Cada caso é um caso e todos têm a sua razão para aderir ou não a eventos. Sim, estive neste primeiro evento e o que pude ver foi um público extremamente animado e feliz. Acredito que parte desse público pertencia à falange que falou mal, mas pagou bilhete e adorou o que viu porque o seu gosto pelo hip-hop e pela música ainda é superior ao seu ódio.

Em 2018 foi anunciado que o novo evento d’”A História do Hip-Hop” iria acontecer em 2019. Rapidamente o cartaz foi disponibilizado e quantidade e diversidade de artistas é superior em dobro à primeira edição. Ingenuamente, mais uma vez, acreditei que este cartaz seria abraçado por todos e de forma inequívoca. Basta aceder por exemplo ao evento no Facebook para ver que estou errado. As críticas ao facto de o Zé Manel não ir continuam, “faltam nomes da velha escola”, “Como é possível ir este?”, e são o repetir de um filme que já tínhamos visto. Há, no entanto, uma inovação com comentários como “O nome deveria ser ” História do HH e derivados” lol “. Se antes faltava muito gente, agora há gente a mais, gente que supostamente não faz parte. Vamos então ver, e vou meter apenas aqui os rappers:

Ace & Presto, Bispo, Black Company, Bob Da Rage Sense, Boss AC, Capicua, Carlão, Chullage, Dealema, Deau, Dillaz, General D, GROGNation, Holly Hood, Keso, Micro, NBC, Nerve, NGA, Piruka, Phoenix RDC, ProfJam, Sam The Kid, Sanryse & Blasph, Sir Scratch, SP & Wilson, Tekilla, Tribruto, Vado Mas Ki Ás, Virtus, Wet Bed Gang e Xeg

Não há um único nome aqui que não represente hip-hop. Sim eu compreendo que o teu rapper preferido não vá mas será que no teu dia-a-dia, tu que és fã de rap tuga não ouves nenhum destes nomes? Duvido. É óbvio que não são apenas estes nomes que fazem parte da história do Hip-Hop Tuga, para englobarmos toda a gente teríamos de fazer um festival que durasse um mês inteiro ou até mais, e isso é simplesmente impossível. Também não vão muitos dos meus rappers preferidos, mas isso não é motivo para eu dizer mal do evento. Há que elogiar o excelente e árduo trabalho da organização em juntar todos estes nomes mais os restantes das outras três vertentes, no mesmo dia, no Altice Arena. Infelizmente raros são os comentários a elogiar o evento mais importante da história do hip-hop nacional.

Vivemos numa era em que a tendência é criticar o pouco que está mal em vez de elogiar o muito que está bem. Se estavas à espera de ” A História do Hip-Hop Underground”, de “A História Do Trap”, de “A História do Boom-Bap”, de “A História do Storytelling”, de “A História do Gangster Rap”, ou outras segmentações, este evento não é para ti. A divisão da história não é toda a história do Hip-Hop Tuga. É a tua história do Hip-Hop Tuga. E isso é legítimo… mas só para ti. Não és só tu que vais estar na plateia.

“Não percebes o hip-hop”, está mais atual que nunca.

Guia HHR: verão de São Martinho são três dias e mais um bocadinho

Verão de São Martinho são três dias e mais um bocadinho. Neste caso, o São Martinho trouxe com ele muito rap, o sol brilhou por bem mais de três dias – no que toca ao calendário hiphopiano, este novembro que agora termina contou com muitos singles e pouco álbuns, mas tudo bem: “chuva em novembro, Natal em dezembro”.  No território nacional, chegaram-nos os singles de ZA, Harold, Malabá ou Scorp, entre tantos outros, assim como a edição do primeiro EP de Domi ou o segundo EP colaborativo de Fonseca e Cripta. Lá fora, Earl Sweatshirt acaba de editar Some Rap Songs e The Alchemist The Alchemist Bread EP, Chuck D regressa a solo com Celebration of Ignorance, mas o principal destaque do mês vai para Oxnard, terceiro longa-duração de Anderson .Paak, mas não é no hip-hop internacional que nos focamos. O São Martinho, este mês, foi proveitoso: para finalizar da melhor forma, Slow J lança novo single e xtinto rima num beat de VULTO. Halloween rima e produz novo tema: “Meu Querubim”. Muitos dias de sol para ouvir muita – e boa – música. 

Logo no primeiro dia do mês, ZA une-se ao veterano Nameless no tema “#TUDOCÓPIAS”, com produção de Facto e scratch de Dj Kronic. O sabor a boombap é acompanhado pela crítica e opinião dos dois MC’s à estagnação da veia inovadora do hip-hop (A “C ” ’tá a vir com droga tão cá tudo quer ser dealers/Dillaz) . Ainda este ano, ZA lançou “Só quero que saibas”, com Tito, e participou nos cyphers da Rec Fellaz (#SAFODASESSIONS).

“soam sempre a blá blá blá, mas por cá, cara pi
flows viraram vestuário e vai tudo à Zara, G”

Seguiram-se os singles em catadupa. Valdir publicou “Bébi” no seu Soundcloud, com produção de tenro), Ferry rimou num beat de Xpress em “Nada“, Estraca e Madkutz voltaram a a unir esforços em “Espíritos“, uma “homenagem ao hip-hop nacional e a todos os que partiram e fizeram parte desta cultura”. Também YOUNGSTUD (o seu EP Aversão chegou-nos em Junho) voltou aos temas inteiramente produzidos por si (e sem samples) com “Sem Olá não há Adeus“:

“aguenta coração tipo um relato do euro
mas o herói improvável no fim nunca vou ser eu
as luzes do túnel renovam ânimo em cada paragem
mas quando chegar ao fim da linha vai ser tudo igual man”

Ao mesmo tempo, NGA publica o videoclip de “Depois do Amor“, tema do seu mais recente álbum Filhos da Rua 2, e Kappa Jotta revela “Coragem“, faixa integrada na Mixtape Ser Humano Vol.II, com Macaia e Khapo, que também oferece o instrumental. Harold e Lon3r Johny são também os donos de dois temas noticiados pela Hip-Hop Rádio, a solo e com videoclip, respetivamente: “Eterna” e “Trapstar“.

O trabalho de estreia de Domi há muito tinha que sair e, por fim, está nas ruas. O EP 3º Maior é o primeiro projeto do rookie algarvio, com selo Universal, com os singles  “Pensamento Leve” e “Não Esqueço” entre novidades. Conta com colaborações de Murta e Jimmy P e produções de Andrezo e Charlie Beats, que também misturou e masterizou.

A meio do mês, Malabá, Sacik Brow (“sinto o game grave cada vez que gravo”) e Evang disponibilizaram “Circo”, com produção de Ray Denz, em mais uma faixa com selo SeriousRecords. O tema tem videoclip assinado por João Azevedo.

Subindo um pouco no mapa, destaque para o hip-hop da Zona Centro, que prolifera: com dois temas, “Alcoolémia” e “Mema Zona” (instrumental de SCUM49), Scorp, rapper das Caldas da Rainha, antecipou UMPORUM 2 nas redes sociais, depois de editar UMPORUM com Stereossauro o ano passado, álbum considerado nos doze melhores do ano pela Hip-Hop Rádio. Contudo, ainda se aguarda por Visão Noturna – cujos singles já estão nas ruas, com selo Crate Records e Razat.

Das Caldas da Rainha para a Marinha Grande, Tony Bounce (que também publicou a beat tape R Mutt Vol.2 este mês) empresta um instrumental Fonseca e Cripta que se uniram mais uma vez, depois de A Um Traço da Loucura (2016), para lançar para as ruas Domínio do Delírio, EP de quatro faixas, também noticiado pela tua rádio.

“quando tu precisas conta quantos se mobilizam
é ridículo
objetivo sempre foi fechar o Círculo
histórias nunca pararão
esteja eu na poça ou na piscina de um casarão
à beira-mar com gin e camarão
mas por agora vou sonhando enquanto fumo no paradão”

Por Leiria, também Xtigas e The Dude se juntaram para “Milli” e, mais a norte, em Coimbra, holympo acaba de lançar “Índio“, com produção de l0tus. Também Vado Más Ki Ás aproveitou o final do mês para divulgar “Brincar é no parque“, tema alusivo ao beef com Mota Jr (“fui na tua zona e andas fugido”), assim como o videoclip do tema “Gabriel”, faixa criada para a banda sonora do filme homónimo, a estrear em Março de 2019.

Para finalizar o mês – e quem sabe colher em dezembro – o hip-hop encheu-se de luz: Slow J publica a faixa “Teu Eternamente“, com uma produação de luxo (ele próprio, DJ Ride, Fumaxa, Holly e Papillon); xtinto rima num beat de VULTO, disponível no Bandcamp do produtor, noticiada hoje pela Hip-Hop Rádio; Allen Halloween produz (como Maradox Primeiro) e canta em “Meu Querubim“, com um videoclip produzido inteiramente através de imagens de Taxi Driver, filme de Martin Scorsese de 1976.

“os meus olhos não fingem eu não oiço o que eles dizem
mas vou onde te virem mesmo quando me mentirem
atrás de ti em bares que me fiem”

Para finalizar este guia Hip-Hop Rádio, onde destacamos o que melhor se faz no hip-hop nacional e deixamos também uma palavra de apreço para a qualidade internacional, fica o videoclip de “E Coli”, faixa do novo EP, The Alchemist Bread EP, do produtor norte-americano, com a colaboração de Earl Sweatshirt. O genial vídeo é de Jason Goldwatch.