Hip Hop Rádio

tom

F*ck you Corona! Quero as noites Hip-Hop de volta

Há meses que não vou ao sítio onde sou mais feliz. Nunca imaginei que o mundo virasse do avesso e que os únicos concertos que podia ver fossem através de LIVES de Instagram. O sentimento varia entre tristeza e raiva, mas é a esperança que tem de prevalecer. Pela cultura, pelo Hip-Hop.

Texto e fotografias por Daniel Pereira

Dia 21 de fevereiro foi a data da primeira Raia Sesh, mas também da última grande noite Hip-Hop a que fui este ano. Para quem vive na Grande Lisboa como eu vivia sabe que acaba quase por ser banal: todas as semanas (ou mesmo dias) há algo novo para ver, um concerto novo a cada esquina. Havia. É um lugar comum falar que a pandemia Covid-19 mudou a vida de todos, mas a realidade é que mudou mesmo. A cultura é ainda o setor mais afetado e talvez seja a imensa saudade dela que revela a sua importância para a sociedade. As atividades presenciais continuam suspensas, porém a cultura nunca deixou de existir, aliás, é ela que nos tem ajudado a superar esta crise. É uma forma de escape. Exige respeito, não podemos descurar algo sem o qual não conseguimos viver.

Aquela noite era especial. Os Orteum eram cabeça de cartaz de uma noite de, e para, a cultura Hip-Hop. Bdjoy, Tom, DJ Ketzal e muitos outros acompanharam a banda numa sala mítica: O Cine Incrível. Os grandes eventos estavam de volta a Almada e eu não podia estar mais contente pois apesar de não ter nascido na cidade, sinto-me um filho da terra – na altura vivia a minutos da sala de espetáculos. Pude presenciar de perto toda a envolvência daquela noite, os concertos, o público tipicamente Hip-Hop, o convívio dentro e fora da sala, antes, durante e após as atuações. Rap corrosivo, outras vezes mais melódico, improvisos, beatbox, dj sets e um público que estava lá não apenas para ver, mas para viver. Houve de tudo durante aqueles concertos e quanto mais escrevo aqui mais o sentimento de nostalgia se adensa. Não sei se isso é bom, ou mau.

Foi uma noite que não queria terminar, mas, infelizmente, acabou e mal sabia eu que não iria ter mais destas tão cedo. Passado um mês foi decretado estado de emergência. Entretanto ainda consegui ir a dois concertos, mas é esta que recordo como a última grande noite Hip-Hop deste ano. Atualmente, ainda não sei quando voltaremos aos concertos (tal como eram antes), e isso assusta-me. Os tempos são de adaptação e paciência e uma coisa é certa: a carga de tristeza presente neste desabafo é igual ao peso da esperança que tenho, e que todos devemos ter, de que um dia vai voltar tudo ao normal. Hustle, agora, mais do que nunca.

Be Bless at Home: de ecrã em ecrã, o festival de Hip-Hop que precisávamos

10 artistas, 10 cidades, um fim-de-semana e uma conta de Instagram. Os tempos são estranhos, mas nós não. O espírito de comunidade elevou-se, o Hip-Hop tuga veio até nós e nem tivemos de sair de casa. Por Daniel Pereira | Imagens: Instagram Be Bless

É verdade que os Lives de Instagram são o tipo de conteúdo “da moda”, não por qualquer acaso da vida, mas porque em altura de quarentena não há muita maneira diferente de expressar arte. O “ao vivo” revelou-se agora fundamental e é de salientar os esforços de diversas iniciativas para trazerem até nós conteúdos artísticos. A Be Bless é uma delas, no entanto o que pudemos assistir no fim-de-semana passado revelou-se diferenciado.

O conceito é conhecido pelas festas Hip-Hop no SOLO CLUB em Cascais, porém a sua capacidade de adaptação era ainda desconhecida por parte do público. Nós, e também a Tranqui.low, como parceiros, não duvidámos nem um pouco e abraçámos o evento, participando de forma ativa e de perto em toda a sua organização. Mas mais importante que isto tudo foi adesão da comunidade Hip-Hop: essa foi a verdadeira vitória.

Tudo começou no final de tarde de sexta-feira na conta de Instagram da Be Bless, espaço onde iriam acontecer todos os concertos – o que por si só é um fator diferenciador. Às 19h atuou Tristany que só pelo simples facto de a câmara do seu telemóvel estar colocada no tecto deu para entender que seria um concerto diferente. E assim foi, visualmente e musicalmente. Um concerto intimista de um artista a ter em conta. De Sintra fomos até Espinho para ver NTS. O versátil MC cantou temas icónicos como “Ela quer” e “Odeio-te”, bastante celebrados pelo público (aqui trocamos as habituais palmas e gritos por comentários cheios de emojis e corações). No entanto, foram os habitualmente espetaculares freestyles que mais ficaram na retina num concerto que acabou em ritmo de rave com “Nova Gera”. A última atuação veio de Almada pela parte de TOM que apesar de cantar alguns temas focou o seu concerto numa beat session. Hip-Hop dos pés à cabeça, brinca com as palavras e com os sons com a mesma qualidade. Houve também bastante interatividade com o público o que fez querer mais. Felizmente, havia ainda 2º e 3º dia.

Sábado começou com Afonso Ventura (membro da Tranqui.low) a assumir o papel de entrevistador, algo que já tinha acontecido no dia anterior e iria suceder no resto dos dias, antes de cada concerto. Rush Rap foi o primeiro a entrar em cena, mostrou alguns dos seus discos mais raros durante a entrevista e a seguir fez uma atuação que nos deixou a viajar pela evolução da cultura urbana. Por falar em viagem, não saímos de casa, mas fomos desde a Ilha Terceira até Viana do Castelo onde encontrámos Skinny, provavelmente o nome que mais surpreendeu ao longo de todo o evento. Uma atuação exímia que tornou o público do Live fã do rapper. “És Isto?” foi bastante celebrado e acreditamos que essa faixa tenha ingressado em várias playlists pessoais. Depois de dois concertos foi altura de Sacik Brow atuar. Com a qualidade que lhe é reconhecida e músicas com forte mensagem, este foi mais um concerto que ficou na memória e que deixou todos a pedir já nova música, depois do recente “Ferro”. Do sul do país para o Norte: Puro L estava à nossa espera em Penafiel. Provavelmente no concerto com mais vibe de todo o evento, o rapper trouxe não só barras mas também várias melodias vocais, revelando toda a sua elasticidade artística. Principalmente entre músicas do “Último Mortal” e “Ohme Sessions”, Puro L deixou todos a cantar em casa ora não fossem vários os comentários com letras das músicas constantemente a surgir no ecran. Final de segundo dia perfeito.

Infelizmente, chegávamos ao último dia do evento. O sentimento era de dever cumprido, excelentes concertos, público participativo e mínimas falhas técnicas que podiam ser muitas não fosse o esforço de todos os envolvidos, organização e artistas. Começando por volta das 19h, Lazuli, que na entrevista com a Tranqui.low explicou um pouco do processo de fazer beats, mostrou a todos que apesar de novo tem muito talento e conhecimento. O produtor apresentou depois um set extraordinário que não deixou ninguém indiferente. Do Porto para Estremoz, começava a atuação de D.beat que veio cheio de barras e mostrou que no Alentejo há muito bom rap por descobrir. Na reta final do evento fomos até Cascais, localidade casa da Be Bless. HipnoD no mic e DJ Perez nos pratos conseguiram um dos concertos mais especiais onde foi possível sentir ainda mais o ambiente de família. Quanto à performance, temas mais antigos do Projeto Com sequência, do EP Notas à Parte, singles recentes e ainda faixas por lançar. Um prato cheio. Antes do último concerto, de DJ Perez, entrámos em direto com a Be Bless e falámos um pouco com o próprio. Sendo um dos organizadores confirmou o balanço positivo, disse-nos que estava “muito contente com tudo o que se passou” e deixou a promessa: “vamos todos voltar ao SOLO outra vez!”. A sua atuação, na realidade, antecipou isso: fez-nos voltar ao club de Cascais com o dj set que todos adoram, e ansiavam ouvir e sentir. Não havia melhor maneira de terminar o Be Bless at Home.

No próximo sábado há nova edição HHR EM CASA no nosso instagram, desta vez especial Be Bless com DJ Perez, Lazuli e NTS. Não te preocupes, vamos mesmo voltar ao Solo Club! Até lá mantém-te seguro e acompanha o que esta nossa cultura oferece diariamente. Somos Hip-Hop!

O Hip-Hop ainda é clandestino e isso não é necessariamente mau

Texto: Daniel Pereira
Fotografia: Sebas Ferreira e Bernvs_


No passado sábado parecia que estava de volta a 2012. Menciono esta data porque foi por volta dessa altura que comecei a ir a festas de Hip-Hop na minha terra, Sines. Os meus primeiros headshakes foram mesmo ao som de Alcool Club em festas organizadas pelas comissões de finalistas. Apesar de estas festas serem legais, pareciam sempre algo clandestinas, pelo menos para a generalidade da população. Eu não vivi os 90’s mas acredito que nessa altura a sensação de clandestinidade fosse ainda maior. Em 2012 era algo que ainda perdurava. Mas e em 2019? Será que se extinguiu? De maneira nenhuma: e isso não tem de ser mau.

Coincidentemente ou não, os cabeças de cartaz do LX Rap Clandestino Vol II eram também os Alcool Club. Quando cheguei à FLUL o sentimento de nostalgia surgiu num ápice. Graffitis nas imediações (proporcionados pela própria organização), porta de entrada minúscula, sala escura, quadrada e pequena, ausência de zona VIP e muito Boom-bap no ar. Depois de no dia anterior ter visto o já mítico concerto de Sam The Kid no Coliseu Dos Recreios e ser praticamente impossível algum evento superar esse, senti no entanto que ali era onde devia estar, era ali que devia continuar a festa que tinha começado no dia anterior. E é isso que faz esta nossa cultura ser algo tão grande e complexo: ali estava eu num evento com dimensões muito menores, mas igual em termos “Hip-Hopianos”. Infelizmente não consegui ver as rodas de Break Dance mas cheguei a tempo de ver os momentos finais de Uno que deu o mote para um concerto de um tipo que já há muito não via de Alcool Club. O ambiente era propício, afinal estávamos a falar de de “Rap Clandestino” e este tipo de rap não é exatamente para todos os que estavam presentes. Letras sabidas de cor, nem um único telemóvel levantado a gravar e microfones que chegaram a muitos dos espetadores da frontline (Subtil a determinada altura encarregou-se dessa tarefa). Por lá também passou Uno, Mass, TOM e Sara D Francisco numa noite em que os artistas se confundiram com o público ora não fosse a noite terminada com DJ Set e Open Mic ao leme de DJ Pilha.

A festa acabou, mas continuou lá fora com um convívio brutal entre todos os que simplesmente não queriam ir embora. Mil e uma conversas sobre rap em que cada um podia ser interveniente e que duraram até muito depois de as portas fecharem. Algo tão clandestino mas que ao mesmo tempo, de clandestino, não tem nada.

Quando os Alcool Club dizem que não querem ser mais do que aquilo que eles são, não falam só por si, falam por todos os que sentem o “Rap clandestino”. Claro que há outras formas legítimas de sentir a cultura, mas isso, para eles, está fora de questão.

Festa do Avante! 2019 trouxe Hip-Hop revolucionário

Foi no passado dia 7 de agosto que estivemos na Quinta Da Atalaia para assistir a mais uma edição da Festa Do Avante! A Festa mais antiga de Portugal, fortemente ligada à revolução trouxe neste dia vários concertos de Hip-Hop com os nomes, claro está, mais revolucionários. Por Daniel Pereira | Fotografia de Irina Gonçalves

Os concertos Hip-Hop começaram cedo com Papillon a atuar logo por volta das 16h00 no palco 25 De Abril. Acompanhado da sua banda, o rapper tocou grande parte daquele que para muitos foi o melhor álbum de Hip-Hop de 2018 “Deepak Looper”. No Cartaz era mencionado que Rui Pereira traria convidados e assim foi. Vasco Ruivo, antigo guitarrista da sua banda, fez parte do leque de músicos e Harold e Nasty Factor, fiéis colegas pertencentes aos GrogNation, cantaram “Voodoo”, êxito do coletivo. Nota ainda para “Camadas”, mais recente single de Papillon que foi muito bem recebido pelo público que era muito e não arredou pé durante todo o concerto, apesar do extremo calor que se fazia sentir.

Achero subiu a palco do Café-Concerto Lisboa perto das 19h e apesar do pouco público presente no início do concerto, fez uma atuação segura que a pouco e pouco foi chamando cada vez mais gente. O newcomer cantou músicas do seu primeiro álbum “Tráfico de Rimas” e mostrou que o Lumiar está muito bem representado através dele. Houve ainda espaço para um accapella. Esperamos ouvir mais rapper que acreditamos ainda tem muito para oferecer.

Já no período da noite, Tom Freakin Soyer atuou por volta das 23h30 no palco Novos Valores. Com uma T-shirt que mostrava em letras gordas a palavra “Almada”, de onde o rapper é oriundo e um grande chapéu de palha que, fora de brincadeiras, lhe fica bastante bem como podem ver através das nossas fotografias, Tom mostrou porque é um dos rappers que dos quais não se pode perder de vista. “M.A.D.”, álbum de estreia, foi a banda sonora principal deste concerto que decorreu na perfeição. Subtil foi o backvoice de luxo e TNT e Silab foram os convidados representando bem a label Mano a Mano. “VNNO” e “No Drama” foram os temas mais celebrados de um concerto cheio de energia e qualidade.

Xtinto fechou o Palco Novos Valores por volta das 00h30. Caso sério no Hip-Hop Nacional e um dos nomes que acreditamos que vai “rebentar” em 2020 teve uma atuação praticamente incólume. Algumas faixas do projeto “Odisseia” e outros temas soltos antes do primeiro álbum do rapper surgir pautaram o concerto. “Sangue Novo” foi um dos momentos altos, tema que contou com a presença de DEZ em palco. Seja em Trap ou Boom Bap, Xtinto tem música com qualidade para apresentar. O mais recente “Pentagrama”, uma autêntica balada, funcionou bastante bem ao vivo e Quentin Miller fechou o concerto com todos o público aos pulos. Uma performance de mão cheia de um dos rappers mais promissores da nova escola.

Aguardamos já a edição da Festa Do Avante! de 2020. Acreditamos que mais uma vez o Hip-Hop fará parte do cartaz pois se há algo revolucionário nos tempos atuais é certamente este estilo de música e de vida de que todos tanto gostamos.

Foto-Galeria para ver aqui.

GuiaHHR: Dez discos para ouvir em 2019

Em 2018, o Guia Hip-Hop Rádio teve o intuito de analisar e contextualizar os “doze projetos que mais se destacaram no movimento – e porquê”, um pequeno ensaio fruto de infindáveis horas de audição. Neste caso, isso será (quase) impossível, já que o Guia HHR de janeiro se vai debruçar sobre a música que ainda não saiu, à excepção dos singles reproduzidos. Para este ensaio, entrei em contacto com os MC’s e produtores com projetos anunciados, recém-publicados e ainda por desvendar em 2019, com uma só questão. Ficam as respostas. Por Bruno Fidalgo de Sousa.

Como descreves o álbum que te preparas para lançar?

Stereossauro - Bairro da Ponte

“Estou muito ansioso por lançar este trabalho, o Bairro da Ponte é o trabalho mais importante que fiz até agora e o que gostei mais de fazer também, este disco inspira-se na nossa música tradicional, o fado, com vários samples dos “cofres” da Valentim de Carvalho, e tem gente talentosa de todas as idades e estilos musicais a participar, todos os vocalistas e musicos que participam foram incríveis e fizeram este disco possivel.”

Bairro da Ponte chega amanhã às lojas. “Flor de Maracujá” é o primeiro single:

Reflect

Amanhã lanço o meu “Castelo de Cartas”, que continua a contar uma história no ponto em que o “Barco de Papel” a deixou e que começou na “Eu fico bem”.) Tal como aconteceu com o meu primeiro álbum “Último acto”, voltei a criar música desprendido de tudo o que não seja a minha inspiração.Decidi dedicar mais tempo a cada tema e ir contando esta nova história por capítulos. No final, transformar-se-ão no meu terceiro álbum, quando a minha inspiração me permitir dizer tudo até à data em que decida lançá-lo.Até lá e para quem segue o meu trabalho, resta-vos desfrutar da viagem porque o final ainda só eu conheço. E obrigado.”

Reflect, MC e fundador da Kimahera, label algarvia, prepar-se para lançar o seu terceiro álbum. “Barco de Papel”, publicada em fevereiro de 2018, é o primeiro single:

xtinto - Latência

O conceito do Latência começa no retardamento propositado do seu lançamento. Depois da Odisseia, Latência é o jet lag consequente dessa viagem, desta vez mais sozinho e introspetivo.”

Odisseia, com Dez, foi a primeira amostra do trabalho de xinto. O rapper de Ourém prepara Latência, EP em colaboração com benji price. “Quentin Miller”, o último tema do MC, tem produção de rkeat, também da Think Music.

Grilocks - Nimbus

O Nimbus é um álbum introspectivo onde dizimo o meu ego para ouvir o meu eco, transformando problemas em soluções, onde assumo uma forma diferente de estar na vida, menos ingénua e mais confiante. Com vários ambientes, uns mais agitados outros mais românticos, com várias cores e sensações, viaja a vários desassossegos do nosso âmago, que penso serem abrangentes a todos nós, de formas e perspectivas distintas. É inteiramente produzido e dirigido pelo Khapo, sem uma linhagem muito concreta ou definida, há sempre um tema que está ligado a outro, é um álbum dinâmico e com uma intenção profunda.”

Depois de CARISMA, em 2016, Grilocks prepara-se para editar Nimbus, com a Mano a Mano. Por agora, “Labirintos” é o primeiro single, com participação de Bibi Ross. Segue-se “Mais Do Que Pele”, com Napoleão Mira, agendado para dia sete de fevereiro.

Macaia

“É um álbum de ensino para quem crê que pode aprender sempre mais. Um lembrete de que podemos ser mais e melhores, ainda que tudo à nossa volta não esteja em favor do nosso futuro. E é, sem dúvida, um agradecimento a todos os amigos, familiares e desconhecidos que me dão força para subir esta montanha que é a vida. Subimos Todos.”

O álbum de estreia de Macaia, que já demonstrou o seu talento ao lado de Mundo Segundo, Kappa Jotta ou Cálculo, era há muito esperado. O artista de Abrantes tem já dois singles na rua deste projeto ainda sem nome. “Casa de Oportunidades” foi o primeiro tema a ser divulgado:

Tom - MAD

“É complicado descrever uma dica cujo título é Mente a Divagar em simplesmente duas ou três frases… já tinha pensado em fazer uma cena mais consensual e específica mas a meio do trajeto decido abordar mais os aspetos técnicos do meu rap e tentei caminhar por vibes diferentes! Novos flows, métricas, etc… mas tudo dentro das “legalidades”. É uma espécie de egotrip consciente… Onde um gajo se preocupa com o que vai dizer, mas também anda ali à procura duma forma diferente de o poder fazer.”

Mente a Divagar, segundo álbum de originais de Tom (sucessor de Guarda-Factos, de 2016) ainda não tem data. Contudo, já podemos ouvir o tema “O que é que a vida traz”, com instrumental de Razat, primeiro single do disco:

TNT

Este ano vou lançar um novo trabalho, um EP de sete temas, todo produzido pelo DJ Player. Tem algumas participações de pessoal ligado à Mano a Mano, como Amaura e Jay Fella, e outras por revelar. Em breve irei lançar novo vídeo e avançar mais detalhes.”

O rapper de Almada tem já um vasto portefólio. O último trabalho tinha sido Menino de Ouro. “Flow” é o primeiro single, com participação de Amaura.

Praso - L.E.V.

“O nome do álbum diz tudo. É um álbum livre, que me sai por espontânea vontade.”

LEV (Livre e Espontânea Vontade) tem data marcada: 25 de abril. Já estão disponíveis seis temas, um deles, “Até virar pó”, com Sara D. Francisco:

Russa - Mixtape L.S.D:

“Esta mixtape é muito diferente do álbum Catarse, lançado em março. São beats mais clássicos (todos do Madkutz) e o maior foco é em storytelling e não em punchlines, como é hábito. Foi tudo escrito e gravado em apenas um mês, num ambiente descontraído e mais numa de let’s have fun!”

 

Do “Bules Para o Mercado” e “Yoyoyo” foram os primeiros temas desta mixtape de Russa, com produção de Madkutz. Os restantes temas vão ser revelados ao longo das próximas quatro semanas.

Phoenix RDC - O Melhor Álbum de Hip-Hop Português

“Já faço castelos com a merda que esses putos metem na boca”

 

Ainda em janeiro, Phoenix RDC divulgou uma mão cheia de singles e O Melhor Álbum de Hip-Hop Português. O disco tem o selo de sete produtores. “Chiripiti” tem (mais um) instrumental de Lazuli:

Com O Melhor Álbum de Hip-Hop Português já nas ruas e Reflect e Sterossauro com novidades para amanhã, resta aguardar pelo próximo MC a deixar a sua marca em 2019.

Guia HHR: outubro quente traz o diabo no ventre

Outubro quente traz o diabo no ventre. Podia também escrever “outubro quente traz hip-hop no ventre”, que faria igualmente sentido quando nos deparamos com o que este mês deu aos hip-hop heads de Portugal: álbuns, singles, videoclips de renome, bangers, temas ainda por desvendar. Do regresso a solo de Sam The Kid – coroando o ano com Mechelas – à estreia no formato longa-duração de Subtil, a mais um (grande) disco underground dos Colónia Calúnia, aos singles aclamados de Deau, Allen Halloween, Virtus e Holly Hood, entre tantos outros. Não obstante os lançamentos internacionais, o Guia HHR deste mês é dedicado ao hip-hop nacional.

Foi Holly-Hood quem estreou o mês com mais um single da segunda parte de Sangue Ruim, após “Cala a Boca”, lançada há cerca de um ano.”Miúda”, produzida, misturada e masterizada por Here’s Johnny (quem mais?), apresenta-se com um vídeo realizado pelo próprio MC, que já arrecadou mais de dois milhões de visualizações no YouTube e até contou com uma “resposta”, por Annia. O artista da Superbad. ainda não revelou qualquer data para Sangue Ruim. 

Regressou com um “Aviso”, este ano deu o “Ponto de Partida” e no final de setembro disse ser”O Mesmo”, e a verdade é que o mesmo Deau conquistou mais uma vez o público com “Traça a Linha” e “Simples“, ambos os singles produzidos por Charlie Beats nesta que é muito provavelmente a amostra de um novo álbum, depois do  rapper portuense editar Retissências (2012) e Livro Aberto (2015).

“Parceiro tu não te baralhes
Se estiveres a dar cartas na área
Guarda os trunfos que tiveres na manga
Para na altura certa recolheres a bazada
Porque se eles quiserem o ouro
Dão-te com paus até te virares do avesso
Ficares encurralado entre a espada e a parede
Fechado em copas até te encontrares seco”

Deau em “Simples”

Fonseca e Senhor Timóteo foram dois dos artistas que iniciaram o mês com o pé direito: “Deixa Que A M*rda Passe” é o single de apresentação da dupla para um EP em conjunto de quatro temas, no momento em que Fonseca se prepara também para lançar Domínio Do Delírio, com Cripta, que assina a realização deste videoclip, assim como a mistura, a masterização e as vozes adicionais da faixa.

O início do mês trouxe também à tona Subtil, outrora conhecido por 100Nome, que chegou “sem nada a temer”. Áquem-mar é o seu álbum de estreia, “um disco produzido e gravado por Praso no Artesanacto”, que sucede ao EP Venho Pelo Meu Nome e conta com 12 temas, incluindo o single “Cada Um”. É de notar o carinho da label Artesanacto pelo newcomer algarvio (…), apadrinhando o projecto com as suas produções (Montana e RichardBeats assinam um instrumental cada, Praso compôs os restantes onze, incluíndo a “Intro”) e com participações de Mass, Tom, RealPunch, Dani, JV e Odeo.

“não sou velha nem nova eu sempre fui expulso da school”

https://www.youtube.com/playlist?list=PLF374FfAS_kioVqSaFu0SxT8zn1cJ2y0R

Mas foi a 13 de outubro que Samuel Mira abalou a estrutura com Mechelas, o álbum de regresso, sucessor de Pratica(mente). Note-se que é maioritariamente um álbum em que STK atua como maestro, o inevitável produtor de toda a obra, alicerando nela nomes como GROGNation, Phoenix RDC, Ferry, Blasph ou Sir Scratch, sendo que todas as faixas já foram publicadas na plataforma TV Chelas. “Sendo Assim” foi a cereja no topo do bolo: Samuel a solo, desde sempre “na life de mil e cem romanos” a rimar num tema que já encontrou lugar no coração dos hip-hop heads. 

Sam The Kid prepara agora Classe Crua com Beware Jack. A edição física do Mechelas pode ser adquirida na loja online da TV Chelas por dez euros.

Confirma-se o mês entusiasmante. E ainda não está perto de terminar:

A 12 de outubro, Amon e Nero e Dj Sims brilharam num instrumental de Groove Synthdrome numa faixa intitulada “Sem Tirantes”, editada pela Pipa de Vinho Rec.

Allen Halloween e Maradox Primeiro, que são um e o mesmo, tentaram diminuir a ansiedade dos fãs do MC “Na Porta do Bar”.

Mais música por Apollo G, “Bem di Baixo”, desta vez com Bispo e Landim e produção de RDG. O tema pertence à mixtape Sucess after Struggle.

Com produção de Andrezo e participação de Murta, Domi estreou “Rosas”, tema que é acompanhado pelo vídeo de Tomás Zimmermann.

A recente Andamento Records publicou “Way”, tema que une Lil Ameal e VIC3 num produção de mendez.

Depois de “Ainda Não Tem Nome”, Virtus aliou-se a SP Deville para o tema “Trapézio”, prenúncio para um novo álbum depois de UniVersos, e conta com uma animação e ilustração de excelência, por Paco Pacato:

“não é questão de lógica é a relação morfológica
não recito ou declamo, repito o que reclamo
na verdade que nos afronta sem frente
que me desmonta e desmente
esta é a segunda a vez que eu fico assim para sempre”

rap das Caldas da Rainha também teve uma palavra a dizer este mês: “Flor de Maracujá é o novo single de Stereossauro, o sucessor de “Nunca Pares”, e conta com letra de Capicua, voz de Camané e uma sample de Amália Rodrigues. A realização é de Bruno Ferreira. O tema fará parte de Bairro da Ponte, que é esperado sair em breve e será editado pela Valentim de Carvalho. O comunicado refere-se ao álbum como “a nova voz de uma velha cidade que pede para ser ouvida”.

Ainda na “cidade das rotundas”, Scorp publicou “Cara Lavada” e já tem nome para o novo projeto: Visão Noturna. Também T-Rec publicou “2T”, faixa com scratch de Stereossauro e instrumental de DONTLIKE.

Com mais um lançamento em 2018, A Vida Continua é o novo álvum de estúdio de Boss AC, sucedendo ao EP Patrão. do qual se reeditaram os temas “As Coisas São Como São”, “O Verdadeiro” e “A Vida (Ela Continua)”. “Por Favor (Diz-me)” é o primeiro single do álbum de 12 faixas e conta com a voz de Matay e vídeo da WILSOLDIERS.

Também Spliff, produtor e agora MC da Madorna, estreou o seu primeiro álbum na arte das rimas este mês. “Miráculo” fora o mais recente aviso e Risco o culminar. São, ao todo, 14 temas, com participações de Zeca, Vulto, Nog e KidSimz. Quase todos os instrumentais foram produzidos pelo habitual companheiro de Dillaz, este que não entra em nenhuma faixa.

E a corda já tá no pescoço
Tu não faças o que eu digo
É mais fácil ires a Marte
Do que seres aquilo que eu vivo

Spliff em “Confundido”

A fechar o mês, destaque ainda para Chá de Camomila, EP de Toy Toy T-Rex, rapper da Linha de Sintra associado à BANDOMUSIC, que conta com 11 faixas e participações de Mafia73, Yuri da Cunha, DCOKY e Nimsay.

Single novo de Jotta R, MC de Évora: “Tão Good“.

holympo também tem novo música: “Palavras”, uma ” versão da balance do lord d”. Manthinks colaborou com DUQUEGOTBEATZ em “GAME MODE“.

TNT foi outro dos rappers com singles publicados. “Flow” é a primeira amostra do próximo EP do MC de Almada, que se alia a DJ Player e AMAURA (Maura Magarinhos), num videoclip assinado por Manuel Casanova. A Mano a Mano disponibilizou também “Missão a Cumprir” no seu YouTube oficial, o primeiro álbum dos M.A.C.

Para o final, reservamos o álbum de outubro (talvez do ano). Os Cólunia Calúnia já tinham avisado com “Caixão” [em baixo], mas só no final do mês é que [caixa] chegou ao público. O coletivo edita mais um trabalho este ano, desta vez com rimas de Secta e instrumentais de Metamorfiko. L-Ali, Nerve e Tilt são os convidados deste álbum que sucede a MONRÓVIA, CONSÓRCIO, LISTA DE REPRODUÇÃO, YARIKATA, RETARDED TEMAKI, EYELASHES GONE a@, todos eles publicados este ano no BandCamp do coletivo.

Se a expressão “quantidade não é qualidade” costuma vestir o hábito da verdade, com os Colónia Calúnia essa métrica não se aplica. Rui Miguel Abreu, na sua crítica ao álbum, afirma mesmo:

[caixa] exige atenção. Cospe na cara, chuta nos tomates, grita nos ouvidos. Não admite distracções. Não dá para ouvir a fazer o jantar ou enquanto se está de olhar perdido na janela que desenrola o caminho que falta para chegar a casa, ao sofá. Escutar no escuro, sem estímulos externos, é a melhor maneira de entrar neste labirinto de sons, de sílabas, de ideias, de nós de sentido, de pequenas torturas ao pensamento. Dói, mas é bom. Custa, mas é de borla”

e acrescenta ainda:

“Este é o melhor disco do ano que quase ninguém vai ouvir.”

Afinal, “qual é a cor do céu da boca de um Estrumfe?”

Um outubro quente, um novembro para ficar em casa a ouvir todos os singles, mixtapes, EP’s e álbuns que o Guia HHR aqui lista, analisa e destaca. Um mês para recordar. 

Ensaio de Bruno Fidalgo de Sousa