Hip Hop Rádio

sir scratch

Galeria | ID NO LIMITS

Estivemos presentes na 1ª edição do ID NO LIMITS.

Com um cartaz bastante diversificado, o festival teve lugar no Centro De Congressos Do Estoril e pudemos presenciar uma energia bastante boa e acima de tudo, singular no panorama de eventos nacional. MadLib, IAMDDB, Pedro Mafama, Dino D’Santiago, DJ Kwan, DJ Kronic e Sir Scratch foram alguns dos nomes representativos do Hip-Hop. Certamente a primeira de muitas edições.

Fica AQUI com a Foto-Galeria completa por Daniel Pereira (dia 29) e Alicia Gomes (dia 30).

A marcha dos 10 mil homens e mulheres que fez a História do Hip-Hop Tuga

8 de março de 2019. Altice Arena, Lisboa. São dez horas da noite e o recinto do pavilhão começa a encher, à medida que as luzes vão diminuindo de intensidade e o primeiro MC do hip-hop nacional sobe a palco. “Black Magic Woman” inicia os seus primeiros acordes. É visível a idade avançada dos artistas que abrem a noite, mas a ovação recebida indica que o icónico General D e Os Karapinhas, que o acompanham, ainda não foram esquecidos das playlists de muitos hip-hop heads presentes. Seguiu-se o coletivo Black Company, de Gutto, Bambino, Makkas e KJB. O ano é 1994. E, se até então, com a gloriosa Rapública, ninguém “sabia nadar”, mais de duas décadas depois, o que é difícil é deixar-se ficar à tona – que o digam as 12 000 pessoas presentes, na passada noite, num concerto único e sem repetição possível. Será que é esta a marcha dos 10 000 homens – e mulheres – da qual falou Valete?

O ano era 2009. O sonho era este: a marcha dos 10 000. E o caminho foi longo, os anos passaram calmamente, com tempo para escutar. Ace e Presto honraram os extintos Mind da Gap, Chullage levou consigo a intervenção a palco, Sam The Kid provou mais uma vez a razão da sua marca neste longo romance: “Não Percebes”, “Tu Não Sabes”, a icónica “Poetas de Karaoke” e “O Crime do Padre Amaro”, com Carlão (que contou à multidão ter conhecido a mãe das suas filhas e atual esposa quando da realização da banda sonora do filme homónimo) foram as músicas escolhidas pelo MC e produtor. Boss AC também trouxe consigo os clássicos e “ninguém parou”. Micro, de Sagas, D-Mars e Nel’Assassin, NBC, Tekilla ou SP & Wilson, com o beatbox sempre presente, seguiram a cronologia da história do hip-hop nacional, que também viu o mítico coletivo Dealema subir a palco, por duas vezes, com “A Cena Toda” e “Sala 101”, Sir Scratch, com os clássicos “Nada a Perder” e “Tendências” (com STK na MPC), e Xeg, com o hit “Verão Passado” – “é só uma brincadeira”, garantiu a todas as mulheres presentes.

Escusado será dizer que, em pleno Dia Internacional da Mulher, o género feminino foi representado a rigor: Capicua, M7, Tamin e Eva RapDiva uniram-se para cantar o tema “Maria Capaz” e incendiar a plateia, nunca esquecendo a eterna mensagem da mais aclamada MC portuguesa de que “faltam mais mulheres a fazer rap”.

E o tempo avança – o que, para desilusão de toda uma geração de ouvintes de hip-hop, significa que a “Brilhantes Diamantes” não será cantada por Maze. É altura de uma nova década, introduzindo novas vozes, novas tendências: o rap algarvio conta com os Tribruto, de Kristóman, Realpunch e Sickonce (também conhecido como Gijoe), e o seu mote de “é grande e grosso”; a norte, Deau, sem Bezegol, cantou “Diz-me Só” acompanhado de um mar de luzes e de braços, tal como Bispo com a sua “Nós2” – também sem Deezy – ou “Conheço-te de algum lado”, de Bob Da Rage Sense. A história cantava-se, os anos passavam. Virtus, com o tema “Sinónimos”, e Keso, com “Underground”, podem não ter levado a maior salva de palmas – ainda que merecidas – mas levaram para a Altice Arena a arte da palavra – assim como Nerve que, com “Subtítulo”, foi ele próprio antes e depois de subir a palco. É o auge da nova escola, quando o Gancho, de Regula, chega às plataformas mainstream e aos ouvidos de um novo público. E, em representação de uma nova guarda, Dillaz, ProfJam, GROGNation e Piruka sobem, por duas vezes cada, ao palco, obrigando os presentes a cantar com eles os seus temas mais marcantes, como “Não Sejas Agressiva”, “Queq Queres” ou “Aleluia”; e Phoenix RDC, “um gajo fodido”, e Vado Mas Ki Ás, o único representante do rap crioulo, que saiu a cantar “brincar é no parque”, também mostraram o porquê de fazer parte desta história, com grandes reações do público. NGA, que estava no cartaz, não apareceu.

E o ano é 2017. São quase duas da manhã e a noite foi longa, entusiasmante. Não é para menos. Todas as vertentes que fazem esta cultura viver passaram diante dos nossos olhos: Nomem e Youthone pintaram o cenário durante todo o espetáculo; os quatro Dj’s de serviço foram alternando nos pratos (Bomberjack, Cruzfader, Kronic e Nel’Assassin) e até o breakdance esteve presente com as atuações das crews 12 Makakos e Gaiolin City Breakers. Aproxima-se o final do concerto: ProfJam, de branco e com Mike El Nite na back, prova a todos que não é “Água de Coco”. Holly-Hood cospe “Miúda”. E o coletivo de Vialonga, Wet Bed Gang, fecha a festa com o grande êxito do último ano, “Devia Ir”. Ficou, talvez, a faltar a cereja no topo do bolo, “Sendo Assim”.

E o ano é 2019. Todos os artistas sobem ao palco. Abraçam-se. Tentam falar ao microfone já desligado, para falar com o público, mas não conseguem. Para falar com o exército de mais de 10 000 que marchou toda a noite, sem descanso. E, tal como o sonho de Valete se cumpriu e um movimento nascido do underground foi, ontem, capaz de “encher o Pavilhão Atlântico”, Boss AC também se emocionou com o peso do legado: aplaudiu esta cultura que, depois de mais de duas décadas de crescimento, levou pais e filhos, juntos, a um concerto que marca, sobretudo, todo o caminho percorrido pelos que, ao amar a arte das rimas e batidas, ontem puderam pisar aquele palco, mas lembrando também todos os que, mesmo ausentes, foram essenciais para a definição de hip-hop tuga, desde as rimas de Barrako 27, Nigga Poison, Nexo, Esquadrão Central ou Reyes, às tags de Obey ou Exas, aos vários grupos pioneiros do breakdance. Kappa Jotta, que também estava na plateia, foi outro dos mencionados pelo voz-off que, por quatro vezes, intermediou o concerto em honra dos pioneiros.

Com organização da Faded., a História do Hip-Hop Tuga faz, agora, também ela parte da própria história, essa ainda não escrita teoria, vincada pela mão de centenas de MC’s, Dj’s, writters, b-boys b-girls. E a marcha dos 10 000 homens e mulheres teve, por fim, a meta pretendida. É preciso reconhecer que todos os soldados são importantes, em todas as batalhas, quando o objetivo é ganhar a guerra. A “nossa” história ainda mal começou.

Talvez daqui a vinte anos sejamos 20 000. Pais e filhos, juntos, a ver e a marcar presença na história do hip-hop tuga.

 

Foto-galeria  de Carlos Pfumo disponível para ver aqui.

Rap Notícias celebra sétimo aniversário em festa

O sétimo aniversário da plataforma digital Rap Notícias tomou lugar nos estúdios do TimeOut e tinha hora marcada de arranque para as 22:00. Com um cartaz bem representado – como já nos tem habituado – e um line up diferente do habitual, não se podia pedir melhor | Por Rodrigo Santos

O espaço foi ficando cada vez mais composto até subirem ao palco Sir Scratch, João Moura e Sam the Kid, para levarem a cabo uma emissão do seu podcast “Três Pancadas”, num contexto bastante diferente daquele que o público está habituado: foi uma iniciativa arriscada pelas repercussões que os espetadores, ansiosos pelo espetáculo musical, poderiam sentir ao assistir a tudo menos a um concerto. No entanto, o conceito “pegou” e, de facto, existiu espaço para intervenção do público e para debates construtivos sobre temas mais sérios, relacionados com o hip-hop, mas também houve espaço para assuntos mais descontraídos – como a história de como STK conseguiu assistir a um dos concertos mais marcantes da sua vida (U2, no Estádio de Alvalade).

Podcast Três Pancadas, pela primeira ao vivo. Fotografia de Rodrigo Santos

Prosseguida a conversa, era agora tempo de passar à música e quem abriu as hostilidades foi Dj Perez, contando exclusivamente com temas de hip-hop nacional: o suficiente para começar a criar um clima festivo entre o público que se ia aproximando cada vez mais do palco com vista a estar mais próximo do primeiro MC da noite, Estraca, que pisou o palco do TimeOut pela meia-noite. O concerto começou bastante agitado, com uma energia contagiante trazida pelo rapper do Lumiar, que em uma
hora teve tempo para passar pelo seu reportório mais conhecido e fazer ecoar entre o público as letras dos seus temas. Contou com Pajo, que atuou ao lado do MC, completando o entusiasmo e dinamismo vivido em palco. A atuação serviu ainda para demonstrar a boa relação de Estraca com os seus fãs: ao longo das músicas existiam sempre bastantes trocas de cumprimentos e “propz” de parte a parte – estava montado o clima ideal. A audiência estava agora mais atenta e mais quente depois de terem vibrado ao som de Estraca e preparava-se a entrada de Keso e Virtus em palco. E o mesmo aconteceu já de madrugada.

Os dois artistas alternaram entre as suas músicas, dividindo quase por metade os temas cantados pelos dois. Virtus foi o primeiro a trazer o norte à capital, interpretando letras sentidas com uma musicalidade interessante. Apesar de ser o MC que à partida detinha o menor protagonismo, até por não ter um grande destaque num cenário atual, foi uma agradável surpresa, boa interação com o público, uma energia muito própria, deixando até aqueles que desconheciam com uma impressão muito favorável ao mesmo. Com Keso, o nível era mais exigente, já familiarizado com a casa, e perspetivava-se uma atuação ao nível daquilo que já lhe é habitual e assim foi, com um estilo bastante próprio e algo obscuro (“baixa lá as luzes pah”), fez o público prestar atenção a temas bastante delicados que não eram de todo desconhecidos. “Gente e pedra” e “Underground” foram apenas duas das faixas mais sentidas pela sua popularidade, que o rapper fez questão de modificar com o arranjo do som, pedindo ao Dj
que parasse o beat e prosseguiu à capela, mostrando os seus dotes vocais em perfeita sinfonia com as letras.

Antes do nome mais esperado da noite houve uma entrada de última hora, Ary Rafeiro, com uma passagem curta pelo palco, mas com uma boa impressão, trouxe mais andamento a quem assistia, com temas festivos e uma boa dinâmica de palco: o público cooperou bem na apresentação do seu novo single, “O Último dos Reais”. Nota para a mensagem final que deixou, apelando ao respeito pela diversidade de género, raça e religião,
ensaiando votos de uma cooperação entre todos, de modo a formar um mundo mais desprovido de ódio e desrespeito: uma mensagem importante tendo em conta o cenário de tensão vivido em Portugal nos últimos tempos.

Pouco antes das três da manhã, o nome mais aguardado entrava em ação: Phoenix Rdc, acompanhando do seu “gang”, marcava com impacto o primeiro tema trazido a concerto, um autêntico espetáculo visual que agradava quem estava a assistir, vestido de colete anti-balas e acompanhado por danças várias trazidas por quem se encontrava na sua back. Sentia-se entre o público um verdadeiro sentimento de admiração e isso talvez tenha sido provocado pelo novo álbum lançado pelo MCde Vialonga: “Melhor Álbum de Hip-Hop Português”. De facto, as faixas do novo álbum entraram bem no alinhamento e isso era visível através das expressões de quem assistia, que acompanhavam o rapper com exímia distinção na interpretação das letras. Phoenix passou também pelos seus temas mais antigos e até convidou quem não soubesse o refrão do tema “12:00” a sair do recinto- “quem não souber este refrão pode
bazar”. Nota positiva para o último MC da noite, que deixou o público a falar e com sede de mais atuações do rapper. Nota menos positiva para o hypeman, com intervenções forçadas e às vezes pouco pertinentes. No geral uma fantástica atuação.

O sétimo aniversário da Rap Notícias foi fechado pelo Dj Kwan que atribuiu o final ideal para a festa que já se prolongava para lá das quatro da manhã, com temas de hip-hop familiares e inclusive dos intervenientes no evento, despertando no público os últimos passos de dança antes das portas fecharem.

O evento dava-se assim por terminado: uma noite bastante bem passada, com uma organização a roçar o impecável e com atuações bastante bem conseguidas. No geral, foi uma boa escolha de intervenientes que, em conjunto, enriqueceram mais uma celebração promovida por umas das mais antigas plataformas de divulgação deste movimento.

Foto-galeria de Rodrigo Santos aqui.

[PARCERIA] Sam The Kid e DJ Big em festa que une Manjedoura e Hip Hop Rádio

Hip Hop Rádio em todo o lado, é este um dos nossos lemas. Tentamos que todos os dias chegue até ti o melhor hip-hop e sabes que, se não conseguires ir àquela festa, nós pomos-te a par de tudo, como se estivesses lá. E “aquela festa” pode ser em qualquer ponto do país, com a música de que todos gostamos a invadir as festas de norte a sul. Tentamos chegar ao maior número de palcos para contar como se vive o movimento nas mais variadas zonas de Portugal. Para tal, contamos com várias parcerias porque, afinal de contas, hip-hop também é união. | Por Daniel Pereira

Neste final de ano apresentamos-te mais uma nova parceria: a HHR une-se à Manjedoura. Em funcionamento desde 2o11, a famosa discoteca de Vila Nova Milfontes agitou e continua a agitar o litoral alentejano com as suas festas de hip-hop “Damn”. Estivemos presentes nas duas primeiras edições e, acreditem, sentimos algo de especial. O público alentejano que, sem sombra de dúvidas, não é nem um bocadinho parado, como muitos podem pensar, correspondeu de forma exímia ao que deve ser uma verdadeira festa de hip-hop.

Se a festa é boa, seja onde for, sabes que a tua rádio vai estar presente.

A próxima “Damn”, desta vez já com o selo HHR, tem data marcada para próximo dia 21 de dezembro e o cartaz é de luxo. O club alentejano vai contar com Sam The Kid (DJ Set) e DJ Big, evento que vai ter ainda como host Sir Scratch. Nomes que dispensam apresentações. O que há para não gostar?

Fica aqui com o evento oficial. A entrada custa 10€ na porta e 5€ se estiveres na guestlist. Para entrares na guestlist é muito simples, basta contactares o Daniel Pereira ou a Nayara Silva até dia 20 de dezembro.

 

 

Damn… é proibido faltar.

Dissecação | ProfJam

“Ma’ nigga sou profjam, um tipo que vive num beat”

Em 2014, numa faixa intitulada “Mambo Nº1”, o MC de Telheiras cantou “Sou o prof dos putos da nova gen”. Hoje, quatro anos depois de The Big Banger Theory, EP de estreia de ProfJam, é indiscutível a notoriedade e a preponderância que o artista teve – e tem – no meio musical do rap. O auto-intitulado professor da nova escola não rimou mal: assimilou o trap e o autotune a uma multiplicidade de flows e a uma lírica que não é “água de coco”, contaminou uma verdadeira geração de ouvintes de hip-hop e inverteu o jogo. Prepara-se para lançar um novo projeto com Lhast e anunciou em março do ano passado que está pronto para “matar o game” |Por Bruno Fidalgo de Sousa

“Já viste e ouviste tudo, já nada te impressiona… Então se sentes isso, vem ter comigo à minha zona”

Foi em Telheiras (“Zona T, finest”) que Mário Cotrim começou a rimar, em 2008, depois dos primeiros contactos com a música, diretamente no mundo do hip-hop com Jay-Z ou Eminem, por influência da irmã, como refere em entrevista ao Três Pancadas. Menciona também nomes portugueses como SP Wilson, Halloween, Sam The Kid, Dealema ou Sir Scratch. Desde cedo um hip-hop head, nascido e criado no ceio da primeira grande explosão do rap (a acompanhar a explosão dos mídia online), afirmou-se com o nome artístico ProfJam, iniciando os primeiros passos através do SoundCloud e YouTube: “Nuvens” ou “Metades” foram algumas das faixas sem teto, ou melhor, sem Profecia – uma maquete que nunca chegou a ser mixtape.

“Víris, Gula e Sam, Mundo, Allen Halloween ‘tão dentro de mim
Por isso é que eu cuspo bué”

Em entrevistas passadas confessou ser um admirador de George Orwell e de Aldous Huxley (“admirável novo mundo, faz tu a tua Soma“), revelando uma faceta artística de Mário Cotrim que se espalha pela mensagem que inevitavelmente tenta reproduzir e passar, mascarada em referências (“só porque falo com ghosts tipo o Mill e o Kant, ou o Virgílio Romano, vivo a divina co’Dante“) e jogos de palavras, acondicionadas por um flow extremamente versátil, principalmente considerando o estatuto de newcomer com que chegou à Liga Knockout.

“Sou um puro rapper culto cultivado por 2pac
Tratado pelo Slim, paiado pelo Jay Rock
Comprado pelo Big, fumado pelo K-Dot”

“‘Tou quase a chegar à lua, sou gigante a rimar, pego no taco a brilhar e jogo bilhar com o sistema solar”

Em 2013, ProfJam destaca-se na Liga Knockout. Sai derrotado da battle com Young e voltou a esgrimar rimas na edição Hip-Hop All Stars contra 9miller. Com a simpatia de uma fanbase em formação, o próximo passo levou Mário Cotrim a Londres, para investir na formação enquanto engenheiro do som e produção de áudio. A primeira mixtape chegou às ruas em 2014, pela ASTRORecords de Vilão (atualmente extinta).

“tenho a doença do rap, um síndrome de MC”

The Big Banger Theory (TBBT) conta com vinte e duas faixas: da clássica “Frank Einstein” a “HydroGénio”, passando por temas como “O Jogo”, “Manny Pacquiao”, Money” ou “Viciada”. Navegando entre batidas mais trap autotune prodigioso, a metafísica e o existencialismo tácito sempre estiveram presentes no esquema rimático e no ideal artístico do MC que, meros quatros anos depois, se solidificou nas tendências do hip-hop nacional e com ele um novo prisma sobre o universo das rimas e batidas.

“Vou rumo ao topo, só que o topo sabe a pouco
E sozinho lá em cima aborreço-me a jogar o jogo”

O ano era 2014 e estavam dados os primeiros passos de um MC com muito potencial, colaborando lado a lado com os também newcomers Vilão, Papillon, Magboy ou Mike El Nite. TBBT tornou-se uma mixtape muito acarinhada pelos fãs de ProfJam, coincidindo com a sua ascensão mediática, também fruto do auge de sucesso que a própria Liga Knockout manteve durante as primeiras edição, e com as primeiras experiências com autotune registadas em Portugal. Uma entrada no Genius cita: “The Big Banger Theory vem de duas ideias. Criar um novo universo no hip hop nacional, daí no nome “Big Bang”. “Banger” vem da sonoridade.”

“Sa’foda that! Tou co’feeling do Valete quando ele deu lições visuais
Não tenho visões, tenho visuais, é que eu procuro dentro sempre mais”

“Desculpa amor, eu tive que me ir embora, criar a minha escola, fazer a minha turma”

Depois da temporada na capital britânica, em 2016, Mário Cotrim alia-se a Nélson Monteiro na criação de uma das labels de maior infuência na nova escola de ouvintes de hip-hop, reafirmando ao mesmo tempo uma posição cimeira no crescimento das diferentes sonoridades. A estrear na editora: Mixtakes, segundo trabalho da discografia do MC de Telheiras, o agora CEO da nova turma do hip-hop nacional, uma mixtape de 18 temas sem nenhuma colaboração para além de Hypnotic no primeiro skit, todos eles com sucesso imediato, aproveitando o hype de “Além” e “Queq Queres”, os dois singles que, atualmente, acumulam quase dois milhões e meio de visualizações no YouTube.

A versatilidade de flows e a exímia capacidade para rimar com o que quer que seja – “Rastafari! Se o demo for ter comigo eu mando-o p’ó caralho” – condecoraram Mixtakes como um dos melhores álbuns do ano, com críticas globalmente positivas e aclamado pelos fãs, ao mesmo tempo que mantém o seu aspeto conceptual, de acordo com a leitura do universo de Mário Cotrim.

“E se o John imagina, eu tiro a fotografia”

ProfJam, para a Rimas e Batidas, explicou que “a mensagem aqui presente é o balanço do nosso ser e por sua vez do Universo. O yin [e o] yang,a vida e a morte, o escuro e o claro, o bem e o mal, o ser e o não ser… Uma sopa da pedra de pensamentos“. Descreve ainda o projeto, produzido e construído durante a sua estadia em Londres, como “uma mixtape onde abordo e escrutino erros de navegação da vida para me tornar melhor indivíduo, os tais mistakes, sejam eles da nossa vida terrena ou a teimosia dos vícios do espírito que teimam em nos reduzir perante todo o nosso potencial divino”.

“Junta as mãos numa oração, pede ajuda a ti próprio
Cuidado com o vinho, o haxixe e o ópio
Cuida do teu vizinho, vive acima do ódio
Segue o teu caminho sozinho e o resto fode-o”

Quando da estreia da mixtape, afirmou: “Inspiro-me com a vida e os seus mistérios. Na minha opinião simplesmente não existe nada mais interessante do que a origem do cosmos e da consciência. Acredito que o estudo da nossa consciência individual e da nossa consciência colectiva contêm a chave para a paz e felicidade.” Por outras palavras, “a mensagem é que a mensagem és tu que fazes“, e isso sempre foi uma peça chave na base artística de Mário Cotrim, “génio monstruoso, Frank Einstein“.

“Eu ’tou no topo do meu game”

O primeiro aviso pós-Mixtakes surgiu ainda em 2016, com “Xamã“, produção de Lhast.Em 2017 publicou “Matar o Game” e “Mortalhas“, temas que colecionaram críticas de alguns ouvintes indignados, penalizando o “autotune abusivo” (“o peso da minha caneta partia-te o braço/e a dor de cotovelo impedia que ele dobrasse”). Em 2018 já conta no portefólio com dois temas a solo, “Yabba” e “Água de Coco“, último tema divulgado e que se junta a “Xamã” como single do próximo – e primeiro – álbum, que sairá com selo Sony Music, em conjunto com o produtor Lhast.

“Eu vim pa’ matar o game e vim po’ ressuscitar”

Atualmente, a “festa privada” de ProfJam não tem apenas a “paranóia” como convidada. Dois anos depois, tem a presença de MC’s como Mike El Nite, Yuzi, Fínix MG ou Prettieboy Johnson, servidos com instrumentais de Benji Price, Osémio Boémio, Rkeat, Ice Burz, Oseias e Ventura, e recentemente adicionou ao elenco os rookies do game SippinPurpp e Lon3r Jony. Os álbuns com selo Think Music ainda são escassos (para além de Mixtakes, apenas o EP Níveiseditado em 2017), mas todos os singles produzidos pela label têm gerado um tremendo sucesso – independentemente da participação do CEO, que disparou rimas em “UAIA“, com L-Ali, e em “Gwapo“, com Yuzi. É uma revolução musical com espaço para todos – e a Think Music tem sido uma das “turmas” no comando, com o professor a dirigir nos bastidores.

“Os que duvidaram agora pensam no “uau!”
Muitos me imitaram, desistiram, sou o auge
Juntos num destino num caminho curto e fausto
Na broa co’s meus putos a curtir e muito o caos
Esses não são meus filhos, nunca tive de educá-los
E se ficaram sem concerto é porque eu tive de ir tocá-los”

“Só me sai a voz da missa, meu pai deu-me a missão, Prof vai dá a lição”

A par de Slow J, ProfJam é muito provavelmente o MC que mais preponderância conquistou no rap tuga nos últimos quatro anos. Desdobrando-se entre colaborações (Vácuo, Mike El Nite, Isaura, D.A.M.A., 9miller ou Valas) e apadrinhando as novas promessas do rap nacional, o seu trabalho marca distintivamente a pessoa que é Mário Cotrim e o enquadramento artístico neste “game”, qual a sua missão (“eu não curto estrada, faço o caminho que m’apetece/ yes, irás a caminho do Everest/ Congrats! «you’re now fuckin with the best»!“), qual a lição a dar:

“Sê bem-vindo à aula, abre o estojo…
Eu nem vou à sala dos stores
Prefiro ir po intervalo, hoje é hoje…
E hoje é pa’ matar o game”

Em 2014, Mário Cotrim rimou ser “o prof dos putos da nova gen”: o verso não mente. É indiscutível a influência de Profjam como um dos catalisadores do trap nacional, para além de professor, um cientista musical com uma habilidade rara para escrever e uma enorme vontade de experimentar, criar, mexer. Com apenas duas mixtapes, a expectativa recai agora sobre o primeiro longa-duração do MC, um trabalho há muito esperado, mas também no que pode ProfJam construír com o selo Think Music, nos dias atuais, onde se vai afirmando como um dos mais aclamados artistas nacionais, certamente um dos mais criativos, construíndo bangers que se tornarão clássicos, desenvolvendo e alargando as barreiras do hip-hop.

“Dread eu vim matar o game, ay
Não vim sozinho, fiz a team metade do game
Tua não coube e eu vi o fade
Eu mato o jogo todo e também mato o treino”

Fotografias de Arquivo

 

 

 

Guia HHR: outubro quente traz o diabo no ventre

Outubro quente traz o diabo no ventre. Podia também escrever “outubro quente traz hip-hop no ventre”, que faria igualmente sentido quando nos deparamos com o que este mês deu aos hip-hop heads de Portugal: álbuns, singles, videoclips de renome, bangers, temas ainda por desvendar. Do regresso a solo de Sam The Kid – coroando o ano com Mechelas – à estreia no formato longa-duração de Subtil, a mais um (grande) disco underground dos Colónia Calúnia, aos singles aclamados de Deau, Allen Halloween, Virtus e Holly Hood, entre tantos outros. Não obstante os lançamentos internacionais, o Guia HHR deste mês é dedicado ao hip-hop nacional.

Foi Holly-Hood quem estreou o mês com mais um single da segunda parte de Sangue Ruim, após “Cala a Boca”, lançada há cerca de um ano.”Miúda”, produzida, misturada e masterizada por Here’s Johnny (quem mais?), apresenta-se com um vídeo realizado pelo próprio MC, que já arrecadou mais de dois milhões de visualizações no YouTube e até contou com uma “resposta”, por Annia. O artista da Superbad. ainda não revelou qualquer data para Sangue Ruim. 

Regressou com um “Aviso”, este ano deu o “Ponto de Partida” e no final de setembro disse ser”O Mesmo”, e a verdade é que o mesmo Deau conquistou mais uma vez o público com “Traça a Linha” e “Simples“, ambos os singles produzidos por Charlie Beats nesta que é muito provavelmente a amostra de um novo álbum, depois do  rapper portuense editar Retissências (2012) e Livro Aberto (2015).

“Parceiro tu não te baralhes
Se estiveres a dar cartas na área
Guarda os trunfos que tiveres na manga
Para na altura certa recolheres a bazada
Porque se eles quiserem o ouro
Dão-te com paus até te virares do avesso
Ficares encurralado entre a espada e a parede
Fechado em copas até te encontrares seco”

Deau em “Simples”

Fonseca e Senhor Timóteo foram dois dos artistas que iniciaram o mês com o pé direito: “Deixa Que A M*rda Passe” é o single de apresentação da dupla para um EP em conjunto de quatro temas, no momento em que Fonseca se prepara também para lançar Domínio Do Delírio, com Cripta, que assina a realização deste videoclip, assim como a mistura, a masterização e as vozes adicionais da faixa.

O início do mês trouxe também à tona Subtil, outrora conhecido por 100Nome, que chegou “sem nada a temer”. Áquem-mar é o seu álbum de estreia, “um disco produzido e gravado por Praso no Artesanacto”, que sucede ao EP Venho Pelo Meu Nome e conta com 12 temas, incluindo o single “Cada Um”. É de notar o carinho da label Artesanacto pelo newcomer algarvio (…), apadrinhando o projecto com as suas produções (Montana e RichardBeats assinam um instrumental cada, Praso compôs os restantes onze, incluíndo a “Intro”) e com participações de Mass, Tom, RealPunch, Dani, JV e Odeo.

“não sou velha nem nova eu sempre fui expulso da school”

https://www.youtube.com/playlist?list=PLF374FfAS_kioVqSaFu0SxT8zn1cJ2y0R

Mas foi a 13 de outubro que Samuel Mira abalou a estrutura com Mechelas, o álbum de regresso, sucessor de Pratica(mente). Note-se que é maioritariamente um álbum em que STK atua como maestro, o inevitável produtor de toda a obra, alicerando nela nomes como GROGNation, Phoenix RDC, Ferry, Blasph ou Sir Scratch, sendo que todas as faixas já foram publicadas na plataforma TV Chelas. “Sendo Assim” foi a cereja no topo do bolo: Samuel a solo, desde sempre “na life de mil e cem romanos” a rimar num tema que já encontrou lugar no coração dos hip-hop heads. 

Sam The Kid prepara agora Classe Crua com Beware Jack. A edição física do Mechelas pode ser adquirida na loja online da TV Chelas por dez euros.

Confirma-se o mês entusiasmante. E ainda não está perto de terminar:

A 12 de outubro, Amon e Nero e Dj Sims brilharam num instrumental de Groove Synthdrome numa faixa intitulada “Sem Tirantes”, editada pela Pipa de Vinho Rec.

Allen Halloween e Maradox Primeiro, que são um e o mesmo, tentaram diminuir a ansiedade dos fãs do MC “Na Porta do Bar”.

Mais música por Apollo G, “Bem di Baixo”, desta vez com Bispo e Landim e produção de RDG. O tema pertence à mixtape Sucess after Struggle.

Com produção de Andrezo e participação de Murta, Domi estreou “Rosas”, tema que é acompanhado pelo vídeo de Tomás Zimmermann.

A recente Andamento Records publicou “Way”, tema que une Lil Ameal e VIC3 num produção de mendez.

Depois de “Ainda Não Tem Nome”, Virtus aliou-se a SP Deville para o tema “Trapézio”, prenúncio para um novo álbum depois de UniVersos, e conta com uma animação e ilustração de excelência, por Paco Pacato:

“não é questão de lógica é a relação morfológica
não recito ou declamo, repito o que reclamo
na verdade que nos afronta sem frente
que me desmonta e desmente
esta é a segunda a vez que eu fico assim para sempre”

rap das Caldas da Rainha também teve uma palavra a dizer este mês: “Flor de Maracujá é o novo single de Stereossauro, o sucessor de “Nunca Pares”, e conta com letra de Capicua, voz de Camané e uma sample de Amália Rodrigues. A realização é de Bruno Ferreira. O tema fará parte de Bairro da Ponte, que é esperado sair em breve e será editado pela Valentim de Carvalho. O comunicado refere-se ao álbum como “a nova voz de uma velha cidade que pede para ser ouvida”.

Ainda na “cidade das rotundas”, Scorp publicou “Cara Lavada” e já tem nome para o novo projeto: Visão Noturna. Também T-Rec publicou “2T”, faixa com scratch de Stereossauro e instrumental de DONTLIKE.

Com mais um lançamento em 2018, A Vida Continua é o novo álvum de estúdio de Boss AC, sucedendo ao EP Patrão. do qual se reeditaram os temas “As Coisas São Como São”, “O Verdadeiro” e “A Vida (Ela Continua)”. “Por Favor (Diz-me)” é o primeiro single do álbum de 12 faixas e conta com a voz de Matay e vídeo da WILSOLDIERS.

Também Spliff, produtor e agora MC da Madorna, estreou o seu primeiro álbum na arte das rimas este mês. “Miráculo” fora o mais recente aviso e Risco o culminar. São, ao todo, 14 temas, com participações de Zeca, Vulto, Nog e KidSimz. Quase todos os instrumentais foram produzidos pelo habitual companheiro de Dillaz, este que não entra em nenhuma faixa.

E a corda já tá no pescoço
Tu não faças o que eu digo
É mais fácil ires a Marte
Do que seres aquilo que eu vivo

Spliff em “Confundido”

A fechar o mês, destaque ainda para Chá de Camomila, EP de Toy Toy T-Rex, rapper da Linha de Sintra associado à BANDOMUSIC, que conta com 11 faixas e participações de Mafia73, Yuri da Cunha, DCOKY e Nimsay.

Single novo de Jotta R, MC de Évora: “Tão Good“.

holympo também tem novo música: “Palavras”, uma ” versão da balance do lord d”. Manthinks colaborou com DUQUEGOTBEATZ em “GAME MODE“.

TNT foi outro dos rappers com singles publicados. “Flow” é a primeira amostra do próximo EP do MC de Almada, que se alia a DJ Player e AMAURA (Maura Magarinhos), num videoclip assinado por Manuel Casanova. A Mano a Mano disponibilizou também “Missão a Cumprir” no seu YouTube oficial, o primeiro álbum dos M.A.C.

Para o final, reservamos o álbum de outubro (talvez do ano). Os Cólunia Calúnia já tinham avisado com “Caixão” [em baixo], mas só no final do mês é que [caixa] chegou ao público. O coletivo edita mais um trabalho este ano, desta vez com rimas de Secta e instrumentais de Metamorfiko. L-Ali, Nerve e Tilt são os convidados deste álbum que sucede a MONRÓVIA, CONSÓRCIO, LISTA DE REPRODUÇÃO, YARIKATA, RETARDED TEMAKI, EYELASHES GONE a@, todos eles publicados este ano no BandCamp do coletivo.

Se a expressão “quantidade não é qualidade” costuma vestir o hábito da verdade, com os Colónia Calúnia essa métrica não se aplica. Rui Miguel Abreu, na sua crítica ao álbum, afirma mesmo:

[caixa] exige atenção. Cospe na cara, chuta nos tomates, grita nos ouvidos. Não admite distracções. Não dá para ouvir a fazer o jantar ou enquanto se está de olhar perdido na janela que desenrola o caminho que falta para chegar a casa, ao sofá. Escutar no escuro, sem estímulos externos, é a melhor maneira de entrar neste labirinto de sons, de sílabas, de ideias, de nós de sentido, de pequenas torturas ao pensamento. Dói, mas é bom. Custa, mas é de borla”

e acrescenta ainda:

“Este é o melhor disco do ano que quase ninguém vai ouvir.”

Afinal, “qual é a cor do céu da boca de um Estrumfe?”

Um outubro quente, um novembro para ficar em casa a ouvir todos os singles, mixtapes, EP’s e álbuns que o Guia HHR aqui lista, analisa e destaca. Um mês para recordar. 

Ensaio de Bruno Fidalgo de Sousa

1 ano de “TV Chelas”

O canal “TV Chelas” fez no mês passado 1 ano desde o upload do primeiro vídeo. “TV Chelas” foi o nome escolhido por Sam The Kid, autor do canal, que nos brinda semanalmente com conteúdos exclusivos dedicados ao Hip Hop.

Primando por um estilo próprio nunca antes explorado em Portugal, o canal já passou a meta dos 20 mil subscritores e continua em grande crescimento.

O autor e artista, Sam The Kid, de vez em quando publica vídeos já com bastantes anos onde é possível recordarmos momentos vividos por ele, na estrada, em concertos e no backstage que trazem grandes memórias mesmo a quem não esteve presente. Faz questão de homenagear lendas já partidas, amigos de infância, como o GQ e o Snake.

Como se já não bastasse, criou o programa “Às 3 pancadas” onde se junta a Sir Scratch e João Moura – Dono da Rap Notícias – e juntos recebem um convidado do panorama Hip Hop onde os 3 “entrevistadores” fundem os largos conhecimentos da cultura e conseguem criar um debate que nos prende ao ecrã durante mais de uma hora.

Sam The Kid tem na sua posse centenas (ou milhares) de conteúdos exclusivos, por isso ficaremos sempre na incógnita de como vai ser o próximo vídeo. Uma coisa é certa, nunca desilude.

Este é um canal que todos os ouvintes de Hip Hop têm que seguir obrigatoriamente.

Por tudo isto e não só, a cultura Hip Hop só te tem a agradecer. Obrigado, Sam The Kid.