Hip Hop Rádio

piruka

A improbabilidade e o Hard Club

“Na vida não há impossíveis”, já dizia Piruka… 2020 tem sido a prova disso.

Por Rita Carvalho | Fotografias de Beatriz Dias

Os Quatro Cantos do Hard Club continuam os mesmos, a realidade é que não. As mudanças foram notáveis: o convívio, que começa logo à sua porta, já não é uma possibilidade. Agora a fluidez acalma quando temos de tirar a temperatura antes de entrar no estabelecimento.

As 1000 almas que em tempos eram uma certeza estarem dentro da mítica sala 1 passaram a 200, a energia frenética de quem fica cansado de pé, passou a ter o seu lugar sentado… Sem tempo para Preliminares, porque o tempo estava contado, Piruka acomodou-se como se estivesse em família. E a minha pergunta é: não será mesmo onde muitos artistas se sentem em casa? Simples assim: um sofá e um candeeiro. Como se não houvesse mais nada entre nós.

Não vimos o Piruka que costumamos ver: ele bem queria, entusiasmado, demonstrando que precisava de descarregar energia. Mas não era possível. Entre temas atuais, do seu álbum antigo e do mais recente – Iluminado (que ainda está para sair) – lá foi entretendo os presentes que, por muito que fossem muito menos do que aquilo que se está a espera, em termos de sinergia foram inalcançáveis.

Parece que estamos no Sudoeste“, dizia Piruka. “O Norte é raça” dizia Jimmy P que também esteve presente e nos envolveu com dois sons dele, não deixando de mostrar a gratidão que tem por André (ou Piruka, como lhe quiserem chamar). As realidades são diferentes, mas a emoção foi tão ou mais intensa do que num “ambiente normal”.

O concerto durou pouco, ainda não eram 23h quando acabou: o tempo estava contado e nem sequer houve espaço para “só mais uma”…. Sair do Hard Club sem ser de madrugada, suada, cansada e com a voz a tremer nem pareceu realidade. Mas é assim: 2020 é mesmo o ano da improbabilidade, não é? Há de chegar o dia que voltamos à realidade que gostamos, mas até lá, vamos sendo felizes assim. Obrigada André, obrigada por permitires isso.

Vê todas as fotografias do concerto aqui

Salazar: “é a vida que eu levo “Entre Aspas” porque, apesar de não viver da música, é através dela que quero transmitir a minha vivência”

O rapper da linha de Cascais acaba de lançar a sua primeira mixtape com colaboração de Dj Perez, Z 2775, Maik e Skiit. Estivemos à conversa com Salazar sobre o seu novo projeto, as suas influências e o seu futuro.

Depois de lançar, em 2018, dois temas do seu mais recente projeto, Salazar disponibiliza agora, na íntegra, “Entre Aspas“.

Em conversa com o rapper, revelou-nos que o principal objetivo é dar a conhecer-se ao público, explicar quem é e o porquê de estar a seguir este trajeto. “É a vida que eu levo “Entre Aspas”, porque, apesar de não viver da música, é através dela que quero transmitir a minha vivência“.

Assim que Baralho” e Churrascada foram disponibilizadas, vários foram os comentários a comparar Salazar com Piruka e Dillaz. O rapper não escondeu que têm uma grande influência na sua escrita e flow, “pelo facto de sermos amigos chegados, de termos “crescido” juntos, de ter acompanhado a caminhada de ambos desde o início… Para além de serem dois ídolos que admiro muito, provaram não só à zona, mas ao país inteiro que é possível viver disto“.

Em relação ao futuro, afirmou que podemos esperar novos lançamentos, colaborações e videoclips ainda este ano. Com os pés bem assentes na terra, concluiu que não tem ambições específicas relativamente a palcos, mas revelou que “é nos palcos que quero levar a minha vida, se as massas o permitirem“.

Entre Aspas” está disponível em todas as plataformas digitais e em formato físico.

A marcha dos 10 mil homens e mulheres que fez a História do Hip-Hop Tuga

8 de março de 2019. Altice Arena, Lisboa. São dez horas da noite e o recinto do pavilhão começa a encher, à medida que as luzes vão diminuindo de intensidade e o primeiro MC do hip-hop nacional sobe a palco. “Black Magic Woman” inicia os seus primeiros acordes. É visível a idade avançada dos artistas que abrem a noite, mas a ovação recebida indica que o icónico General D e Os Karapinhas, que o acompanham, ainda não foram esquecidos das playlists de muitos hip-hop heads presentes. Seguiu-se o coletivo Black Company, de Gutto, Bambino, Makkas e KJB. O ano é 1994. E, se até então, com a gloriosa Rapública, ninguém “sabia nadar”, mais de duas décadas depois, o que é difícil é deixar-se ficar à tona – que o digam as 12 000 pessoas presentes, na passada noite, num concerto único e sem repetição possível. Será que é esta a marcha dos 10 000 homens – e mulheres – da qual falou Valete?

O ano era 2009. O sonho era este: a marcha dos 10 000. E o caminho foi longo, os anos passaram calmamente, com tempo para escutar. Ace e Presto honraram os extintos Mind da Gap, Chullage levou consigo a intervenção a palco, Sam The Kid provou mais uma vez a razão da sua marca neste longo romance: “Não Percebes”, “Tu Não Sabes”, a icónica “Poetas de Karaoke” e “O Crime do Padre Amaro”, com Carlão (que contou à multidão ter conhecido a mãe das suas filhas e atual esposa quando da realização da banda sonora do filme homónimo) foram as músicas escolhidas pelo MC e produtor. Boss AC também trouxe consigo os clássicos e “ninguém parou”. Micro, de Sagas, D-Mars e Nel’Assassin, NBC, Tekilla ou SP & Wilson, com o beatbox sempre presente, seguiram a cronologia da história do hip-hop nacional, que também viu o mítico coletivo Dealema subir a palco, por duas vezes, com “A Cena Toda” e “Sala 101”, Sir Scratch, com os clássicos “Nada a Perder” e “Tendências” (com STK na MPC), e Xeg, com o hit “Verão Passado” – “é só uma brincadeira”, garantiu a todas as mulheres presentes.

Escusado será dizer que, em pleno Dia Internacional da Mulher, o género feminino foi representado a rigor: Capicua, M7, Tamin e Eva RapDiva uniram-se para cantar o tema “Maria Capaz” e incendiar a plateia, nunca esquecendo a eterna mensagem da mais aclamada MC portuguesa de que “faltam mais mulheres a fazer rap”.

E o tempo avança – o que, para desilusão de toda uma geração de ouvintes de hip-hop, significa que a “Brilhantes Diamantes” não será cantada por Maze. É altura de uma nova década, introduzindo novas vozes, novas tendências: o rap algarvio conta com os Tribruto, de Kristóman, Realpunch e Sickonce (também conhecido como Gijoe), e o seu mote de “é grande e grosso”; a norte, Deau, sem Bezegol, cantou “Diz-me Só” acompanhado de um mar de luzes e de braços, tal como Bispo com a sua “Nós2” – também sem Deezy – ou “Conheço-te de algum lado”, de Bob Da Rage Sense. A história cantava-se, os anos passavam. Virtus, com o tema “Sinónimos”, e Keso, com “Underground”, podem não ter levado a maior salva de palmas – ainda que merecidas – mas levaram para a Altice Arena a arte da palavra – assim como Nerve que, com “Subtítulo”, foi ele próprio antes e depois de subir a palco. É o auge da nova escola, quando o Gancho, de Regula, chega às plataformas mainstream e aos ouvidos de um novo público. E, em representação de uma nova guarda, Dillaz, ProfJam, GROGNation e Piruka sobem, por duas vezes cada, ao palco, obrigando os presentes a cantar com eles os seus temas mais marcantes, como “Não Sejas Agressiva”, “Queq Queres” ou “Aleluia”; e Phoenix RDC, “um gajo fodido”, e Vado Mas Ki Ás, o único representante do rap crioulo, que saiu a cantar “brincar é no parque”, também mostraram o porquê de fazer parte desta história, com grandes reações do público. NGA, que estava no cartaz, não apareceu.

E o ano é 2017. São quase duas da manhã e a noite foi longa, entusiasmante. Não é para menos. Todas as vertentes que fazem esta cultura viver passaram diante dos nossos olhos: Nomem e Youthone pintaram o cenário durante todo o espetáculo; os quatro Dj’s de serviço foram alternando nos pratos (Bomberjack, Cruzfader, Kronic e Nel’Assassin) e até o breakdance esteve presente com as atuações das crews 12 Makakos e Gaiolin City Breakers. Aproxima-se o final do concerto: ProfJam, de branco e com Mike El Nite na back, prova a todos que não é “Água de Coco”. Holly-Hood cospe “Miúda”. E o coletivo de Vialonga, Wet Bed Gang, fecha a festa com o grande êxito do último ano, “Devia Ir”. Ficou, talvez, a faltar a cereja no topo do bolo, “Sendo Assim”.

E o ano é 2019. Todos os artistas sobem ao palco. Abraçam-se. Tentam falar ao microfone já desligado, para falar com o público, mas não conseguem. Para falar com o exército de mais de 10 000 que marchou toda a noite, sem descanso. E, tal como o sonho de Valete se cumpriu e um movimento nascido do underground foi, ontem, capaz de “encher o Pavilhão Atlântico”, Boss AC também se emocionou com o peso do legado: aplaudiu esta cultura que, depois de mais de duas décadas de crescimento, levou pais e filhos, juntos, a um concerto que marca, sobretudo, todo o caminho percorrido pelos que, ao amar a arte das rimas e batidas, ontem puderam pisar aquele palco, mas lembrando também todos os que, mesmo ausentes, foram essenciais para a definição de hip-hop tuga, desde as rimas de Barrako 27, Nigga Poison, Nexo, Esquadrão Central ou Reyes, às tags de Obey ou Exas, aos vários grupos pioneiros do breakdance. Kappa Jotta, que também estava na plateia, foi outro dos mencionados pelo voz-off que, por quatro vezes, intermediou o concerto em honra dos pioneiros.

Com organização da Faded., a História do Hip-Hop Tuga faz, agora, também ela parte da própria história, essa ainda não escrita teoria, vincada pela mão de centenas de MC’s, Dj’s, writters, b-boys b-girls. E a marcha dos 10 000 homens e mulheres teve, por fim, a meta pretendida. É preciso reconhecer que todos os soldados são importantes, em todas as batalhas, quando o objetivo é ganhar a guerra. A “nossa” história ainda mal começou.

Talvez daqui a vinte anos sejamos 20 000. Pais e filhos, juntos, a ver e a marcar presença na história do hip-hop tuga.

 

Foto-galeria  de Carlos Pfumo disponível para ver aqui.

Beat Fest: um marco na história, uma herança para o futuro

No Alto Alentejo não há rede. Pelo menos, não em Ribeira da Venda. Não há como estar online e só durante as tardes – para quem viajou de carro – é que é possível deslocar-se aos aglomerados vizinhos em busca daquele traço a mais, na tentativa de carregar as instastories gravadas na véspera. Assim, as fotografias e entrevistas ficam para depois. Por agora, é tempo de tomar um banho, descansar e, porventura, ler este ensaio e esta reflexão sobre o que o Beat Fest foi, o que criou e representa | Por Bruno Fidalgo de Sousa

A equipa da Hip Hop Rádio esteve em Portalegre para assistir à primeira edição do certame que prometia muito: os nomes de Piruka, Slow J e a dupla de veteranos STK e Mundo Segundo eram cabeças de um cartaz recheado de rap e batidas portuguesas. Agora que a tenda está arrumada e o calor alentejano ficou para trás, é hora de afirmar que a consagração do hip-hop nacional já tem nome e marca. O festival que se orgulha – e com todo o direito – da sua programação exclusiva de rappers e DJ’s e da sua identidade singular chegou ao fim, depois de quatro dias de temperaturas elevadas, durante a tarde no campismo, à noite em palco.

Falar das infraestruturas é redundante, falar das condições é supérfluo. Contar os braços que, para cima e para baixo e vice-versa se agitavam na multidão é missão impossível. Mais fácil seria contar as horas de calor extremo que os campistas superaram, ávidos pelo próximo concerto. Hoje, muitos hip-hop heads podem sentir-se orgulhosos de ter estado na primeira edição de um certame feito para durar e que, das mais variadas formas, se distingue dos demais.

Há muito que os festivais deixaram de ser festivais de música para passar a ser festivais de verão. É inegável o quão rentável para as organizações é a aposta nos nomes mais conhecidos das massas, nos nomes que se colocam no topo de vendas em Portugal e não só. Já não é só pela programação que se vai a um festival. É pelo espírito, pela festa, pela moda ou pelo que quer que seja. Quando falamos do Beat Fest, não podemos falar em festival de verão ou em festival de música. Falamos em festival de hip-hop. Não de rap, mas de hip-hop. E isso – seja para os veteranos e pioneiros, seja para os recém-chegados a esta cultura – é, não só um prazer, mas uma vitória. Porque o espírito, em Comenda, Gavião, era muito mais do que aquele que se esperava: “aquele sabor e toque das old school hip-hop parties”.

Obviamente que esse sabor e toque já não são os mesmos, também por culpa da própria evolução do movimento. Se faltava alguma coisa, seria o breakdance, a única vertente sem representação – Youth One, um dos pioneiros do graffiti nacional, esteve durante os três dias oficias de festival encarregue das tintas. Também um cypher à moda antiga se enquadraria, ou até mesmo um confronto de turntablism (sugestões para as próximas edições?). Mas, se hoje em dia esta cultura se pode orgulhar de ter um festival exclusivo, muito se deve à aproximação do público, cada vez mais numeroso.

(Relembro-me do meu primeiro festival, de todos os outros que vieram por contágio, das festas de hip-hop e das festas caseiras com a coluna de mão a vibrar. A diferença entre todas essas sessões musicais está no público, na forma como sentem o que cantam e na forma como, todos juntos, sentem o hip-hop. Phoenix RDC contou à Antena 3 que só no Hard Club sentira o mesmo ambiente que em Comenda. Isso é de louvar.)

O Beat Fest tem agora espaço para deixar uma herança pesada às próximas gerações. É um marco no movimento, como quase todos os que passaram pelo palco nestes últimos dias afirmaram. É o fator exclusividade: um festival de hip-hop, organizado por malta do hip-hop para malta do hip-hop – quando digo “malta”, refiro-me a todos os hip-hop heads e a todos os fãs que marcaram presença e não arredaram pé durante as horas de concertos, refiro-me à malta que cá caminha desde o início. E, quando falo em exclusividade, falo do quão única é esta arte. Se, antigamente, havia a “malta do rock”, a “malta do metal”, “a malta do funk”, hoje – e já há alguns anos – podemos falar da “malta do hip-hop” e da forma como, a pouco e pouco, se vai conquistado cada vez mais espaço, seja em boombap ou trap, seja nova ou velha escola.

Foram quatro duros dias – muito sol, demasiado calor e bastantes horas de pé. Foram muitos braços no ar e muitas rimas e batidas levadas pelos mais eclécticos artistas dentro daquilo que é o rap e, acima dele, o hip-hop: do freestyle de Eva RapDiva e Sangue Bom (MC do coletivo Alcool Club), aos mosh pits incentivados pelos GROGNation, por Kappa Jotta ou Holly Hood, aos refrões de Phoenix RDC ou Dillaz, cantados do fundo do peito pelo público, aos pratos de Nel’Assassin, Gijoe, Kwan, à guitarra de Slow J ou à vibe de Mishlawi ou Cálculo.

O hip-hop nacional está mais vivo do que nunca – o hip-hop nacional esteve em peso em Comenda e o Beat Fest tem tudo para continuar. E, como a última frase do set de Stereossauro que encerrou a festa, a mensagem de despedida só podia ser esta: “se é para morrer, morremos de pé”.

Fotografia de Bruno Fidalgo de Sousa

“A História do Hip Hop Tuga” vai ter novo capítulo


Segunda edição vai ter lugar em Lisboa, na Altice Arena, dia 8 de março de 2019. Bilhetes já à venda a partir de 20€.

“A História do Hip Hop Tuga” marcou o Sumol Summer Fest e o verão de 2017. Face ao sucesso do espetáculo, tanto dentro como fora de palco, o público poderá ver um novo capítulo já no próximo ano.

O conceito do evento é simples: percorrer a história do Hip Hop português – que conta com mais de 25 anos –  trazendo a palco nomes representativos desta cultura. Sam The Kid, General D, Black Company, NBC, Mind Da Gap, Dealema, Capicua, Allen Halloween, Dillaz ou GROGNation foram alguns dos nomes que subiram a palco no ano passado. A nova edição  contará com mais nomes, tanto rappers old school como emergentes, mas não só: também dj’s, writersb-boys completarão a festa.

O elenco será apresentado a partir de setembro. Entretanto, os bilhetes estão à venda na Blueticket e nos locais habituais.

BEAT FEST: Um festival de batidas, rimas e tintas

 

O hip-hop volta a estar em destaque no panorama dos festivais de verão. No Beat Fest “só” não há breakdance, mas, em contrapartida, apresenta uma programação de luxo a nível de MC’s e DJ’s nacionais. A praia fluvial da Ribeira da Venda, em Comenda, Gavião, recebe, de 2 a 5 de Agosto, o certame que tem como objetivo colocar o Alto Alentejo no mapa do movimento e, “quem sabe, trazer de volta aquele sabor e toque das old school hip-hop parties”. | Por Bruno Fidalgo de Sousa

Não só de MC’s se faz a festa em Comenda. A programação, que conta com Piruka, Slow J ou Mundo Segundo e Sam The Kid como cabeças de cartaz e  Nel’Assassin, Dj Kwan e Stereossauro nos pratos, “seja em clubbing ou turntablism”, só fica completa com Youth One, writer português que irá estar a pintar durante a tarde nos três dias de festival, explica Ivo Novais, um dos organizadores do evento, que acrescenta ainda “principalmente porque o consideramos um artista com alma hip-hop e, sendo a nossa primeira edição, queremos começar com uma vibe distinta”.

Embora o plano inicial contasse com a presença do breakdance e com dois artistas internacionais, o cartaz está fechado. Ivo explica que “infelizmente não conseguimos trazer artistas de breakdance, foi uma dificuldade que não conseguimos ultrapassar, estamos na primeira edição, esperemos que para o ano consigamos ter as quatro vertentes em pleno.”

Para além dos concertos já mencionados, também Mishlawi, GROGNation, Phoenix RDC, Cálculo, Kappa Jotta, TNT, Dillaz, Eva RapDiva e Holly Hood têm presença marcada nos três dias de festival. A completar o certame, a receção ao campista recebe ainda Kroniko, Sacik Brow e Alcool Club, para além de DJ Gijoe. “Esperemos conseguir criar um evento cujo o estado de espírito do público esteja interligado com o dos artistas, e quem sabe trazer de volta aquele sabor e toque das old school hip hop parties”, conclui Ivo.

O festival tem o apoio da autarquia e os bilhetes de entrada diária ficam a 10€, com o passe geral a rondar entre 22€ e 26€.

Fotografia de Arquivo

 

Crónica | Quem matou Ronald Opus?


“Eu nunca vou querer ganhar nada onde não há nada para ganhar”,

disse-nos ontem Holly Hood. Inicia assim a sua carta de suicídio. “Cala a Boca” e “Não Faz Isso” foram subtis crescendos de punchlines e abanões, e nas passadas duas semanas era esperada uma resposta no que deve – ou devia? – acabar por aqui.

Afinal, a primeira estrofe de uma grande música, assim como a primeira cena de um grande filme, tem uma importância intrínseca. O que seria o mundo sem a cena inicial do The Dark Knight onde nos é revelado o melhor vilão da sétima arte, o que seria o mundo sem a beleza de

“Pareceu-me que pretendias agradar-me embora não me conhecesses…”?

Grandes estrofes abrem grandes músicas. Neste “R.I.P” “não há nada para ganhar”. Encerra-se assim este caso, como o caso fictício do suicida Ronald Opus, num justo desenlace e momento iluminado do médico legista. É o fim?

Se – e é – difícil rimar contra a mais recente faixa do assassino de Golias, quero e espero que pelo menos se tente. Porque, e no fim, é esta cultura que se agita e aplaude, que faz o hip-hop vivo. E que vontade tinha a tuga de um bife à portuguesa…  O suicídio, mesmo que descargo de consciência, deve ser evitado pelo bem do hip-hop português. É bom ver boa música, é bom ver novo hip-hop todos os dias. Respostas e diss tracks? Que bem que soa esta rivalidade.

(aguardemos para que seja uma justa competição, agora que a fasquia subiu a pique)

Ontem, os cães ladraram e a caravana pode nem vir a passar. Holly Hood não é Ronald Opus. Piruka não é o homem com a arma. Quem é o suicida, afinal? Metam mais carne no assador.

Texto escrito por: Bruno Fidalgo de Sousa

Festival Académico de Lisboa

A Cidade Universitária recebeu o Festival Académico de Lisboa nas duas últimas noites do mês, e brindou os universitários (e não só) presentes com bom hip-hop. No primeiro dia, depois de Alpha Heroes, Piruka teve de intervir e levou o público ao rubro durante 1 hora e meia. A energia era contagiante em músicas como “Sirenes”, “Não Se Passa Nada” ou “Ca Bu Fla Ma Nau” que infelizmente não contou com a presença de Mota Jr. Já a meio do concerto, Piruka apresenta o seu novo single que vai sair oficialmente nos finais de Outubro. No final do concerto Piruka cantou a meias com o público o tema “Música” e “Se Eu Não Acordar Amanhã”.

Continuando no primeiro dia, o próximo a atuar foi Virgul, que chamou ao palco Supa Squad para cantar “The One”,aparecendo logo de seguida Putzgrilla, para meterem a Cidade Universitária a cantar “Squeeze Me”. Depois disso, o ex-membro de Da Weasel não desiludiu os fãs do grupo que acabou no final de 2010, reservando um bocado do seu concerto para relembrar alguns dos êxitos mais antigos, como “Força”, “Re-Tratamento” e “Dialetos da Ternura”. O público já estava aquecido para Putzgrilla fecharem a primeira noite do festival.

Para a segunda noite tinha sido reservado mais hip-hop e, depois de Trevo fazerem as honras da casa, foi a vez de todos olharem para Wet Bed Gang. O grupo de Vialonga levou ao recinto uma quantidade ingente de fãs, tendo mesmo sido impossível entrarem todos a tempo do espetáculo, devido à longa fila de entrada para o recinto. Um desses fãs confessou-nos que mesmo chegando 20 minutos antes do concerto de Wet Bed Gang, só entrou no recinto durante a atuação de Dillaz. No entanto, mesmo quem não presenciou o concerto em frente ao palco reconhece que este foi um dos pontos altos do festival: ‘’Ainda que não tenha visto, certamente que o momento alto da noite (não da minha) foi Wet Bed Gang’’.

E desta forma, Kroa, Gson, Zizzy e Zara G provaram mais uma vez que conseguem brilhar em qualquer palco, apesar de ter sido dos concertos mais curtos do festival. Abriram com o single lançado em março deste ano ‘’Todos Olham’’ e continuaram a ‘’abanar a rasta’’ com ‘’Essa Life é Good’’, a festa estava bem lançada e Zizzy decidiu acalmar os ânimos com uma ‘’música para todas as princesas presentes’’. Saíram todos do palco e Gson começou a cantar a solo “Já Passa’’ partilhando depois o palco com Zizzy, num momento mais emotivo, diferente daquilo a que o grupo nos tem habituado. Após uma ovação (merecida) do público entram de novo em palco Zara G e Kroa, e começa a tocar ‘’50/50’’, o single de Zara G e Giovanni, que mais uma vez só contou com a presença do membro de Wet Bed Gang. ‘’Kill ‘Em All’’ foi só o que se ouviu a seguir, seguido pelo ‘’Não Sinto’’ e depois do grupo cantar ‘’Não Tens Visto’’, que contou mais uma vez com um moche intenso do público, toda a gente do recinto acompanhou ‘’Aleluia’’.

No final do concerto, Gson fez um pequeno discurso onde referiu que o sucesso do seu grupo, e a ascensão do hip hop nacional, depende em boa parte do contributo que MC’s como Dillaz e Regula deram a esta causa, contando que Regula estava no backstage pronto para atuar, dando assim o mote ao concerto de Dillaz, que começou a festa com ‘’Pula Ou Levas Bléu’’, como ninguém quis ‘’levar bléu’’ todos saltavam na plateia e foi assim que continuou durante os próximos temas, desde ‘’Paga P’ra Ver’’ até ‘’Caminho Errado’’, passando por ‘’Protagonista’’, ‘’Pedras No Meu Sapato’’, ‘’Reflexo’’, e ‘’ Eu Estou Bem’’. E nesta altura a audiência já estava à espera da participação de Regula, que aparece logo a seguir a ‘’Agarra Q’é Ladrão’’ para cantar ‘’Wake N Bake’’. A partir deste momento o público já estava a cantar com Dillaz as músicas na íntegra, e até ao fim ouviu-se ‘’ Não Sejas Agressiva’’, ‘‘Falas de Má Língua’’, ‘’Arena’’ e ‘’Mo Boy’’, antes de acabar com ‘’Saudade’’, que é o que Dillaz deixou a todos com certeza, após mais um grande concerto.

O último nome da noite de dia 30 e do festival era DJ Ride, metade dos Beatbombers, que deu um excelente espetáculo como de costume. No entanto, o Festival Académico de Lisboa preparou uma surpresa para a última noite e Alpha Heroes fecharam o festival, depois de terem sido os primeiros a atuar na noite anterior, demonstrando aqui, a organização, que também se faz a festa com talentos emergentes.

Fora dos concertos, o público destacou de forma positiva o ambiente vivido dentro do festival, e valorização que as bancas de diversas faculdades tiveram para a animação do público. Referindo apenas que a festa deveria durar mais tempo.

Este ano o hip-hop tem estado em peso nas festas académicas, e se continuarem todas com esta qualidade nós não nos importamos nada. Ficaremos à espera de mais.

Escrito por: André Batista
Fotografias por: Carolina Costa e Daniel Pereira

Dillaz | Dissecação

Sentado, com um cigarro na boca, o maço de Lucky Strike em cima da mesa e um copo de balão na mão. Cinzeiro cheio no meio do vazio enquanto as ruas da Madorna eram a sua vista, o seu mundo. Enquanto o dia não passava, ficava ele na sua desgraça, a sonhar e a fazer desenhos no pó …

“Nascido no Zambujeiro, desenvolvido na Madorna. Dillaz para os ouvintes, Chapz para os do bairro, André para os chegados, filho para a minha mãe.” É assim que o rapper de 25 anos se apresenta. Se haviam dúvidas de quem estávamos a falar, ficam agora dissipadas.

A “Dissecação” é um conjunto de artigos que pretende dar a conhecer as origens dos artistas através das suas letras e, neste caso, não seria possível de outra forma. Dillaz “é rapper não é estrela” e não liga nada… a entrevistas. São poucos os dados biográficos que se conhecem e que o artista revela.

“Aquilo que eu te vou dizer, ouve que é coisa secreta. Tu nunca desconfies duma lágrima de um poeta.” – A Nossa Vida

Piruka, conhecido rapper também criado na Madorna, afirma que este é reservado. Certamente, que já todos reparámos que se contam pelos dedos das mãos as entrevistas cedidas. Mesmo a um convite feito por Rui Unas para o seu conhecido programa, “Maluco Beleza”, Dillaz deu uma nega dizendo que não se sente confortável. Não chega ao extremo do poeta português Herberto Hélder, mas podemos dizer que é também um “poeta oculto”.

“Acredito que já não rimam como há 10 anos e tal, mas não digas que não há rap se só ouves mini-mal” – Falas de Má Língua

Desde pequeno que a música o apaixona e o influencia. O surgimento dos Mind da Gap e de Dealema é fulcral para Dillaz se decidir pelo mundo do Hip Hop. No entanto, muitos outros estilos o moldam. O fado sempre esteve presente na sua vida, não fosse o seu pai guitarrista deste género. E o próprio conta que com apenas “oito aninhos” viu ao vivo “Gabriel, o Pensador” “numa aldeola de Lisboa”. Num dia tanto ouve puro rap americano como Alfredo Marceneiro – fadista português. As suas influências, contudo, não se ficam por aqui. Valete, Fuse, Sam the Kid e Sabotage têm grande importância para o artista. Este último tem um peso maior. Mas sonharia ele alguma vez que passados apenas 3 anos desde o lançamento da sua primeira mixtape, viria a partilhar palco, no Hard Club, com os outros três monstros referidos primeiramente.

“Vou arrancar e marcar boy, um “M” na lua” – Igual Aos Outros

Dillaz entra neste mundo com o grupo M75. Vulto e Zeca acompanham-no e continuam juntos, até aos dias de hoje. No início da segunda década do presente século, saem para a rua os volumes I e II da Mixtape “Sagrada Família”. Pretende mostrar o que as pessoas vêm no seu dia-a-dia, mas que não dão importância, seja por culpa da rotina, da pressa ou de outras barreiras.

“Aqui no bairro nada muda, quem muda é a gente” – Sr. Presidente

Com um flow fiel à velha escola e com uma simples, mas poderosa batida, flui a letra que se torna íntima para cada um dos ouvintes. Temas pessoais – desabafos do rapper – mas nos quais cada um de nós se revê. O segundo volume vem afirmar e abrir caminho para o rapper lusitano. Temas como “Pedras no meu sapato”, “Caravanas passaram” e “Não sejas agressiva” explodem no panorama do Hip Hop português. Ainda de salientar “A Carta” e “Sr. Presidente”. Esta última mostra bem a importância da Madorna para o artista e de como este quer elevar o seu nome, marcando a cidade no mapa.

“Até o ferro a chuva emperra. Não é seres patrão é só não seres mais um balão que sobe com medo da terra” – Copo de Balão

Há dois anos, surge em cena o EP Dillaz & Spliff que mostra bem a grandeza do rapper e consolida a legião de fãs. Tanto apresenta temas bem irónicos – “Gangsters à Sexta-Feira” e “Bocas Falam Tudo” – como bastante sensíveis, com uma lírica impressionante parecendo mesmo que se está a dirigir a cada um de nós, tendo uma conversa connosco – tais como “Copo de Balão” e “Não é só chorar”.

São poetas de cantigas todos escrevem todos ditam, mete o rap nas urtigas conta quantos é que ficam” – Mo Boy

Mais recentemente lança o seu primeiro álbum “Reflexo”, produzido totalmente por si. Se com os anteriores consolidava uma pequena legião de fãs, com este ganha decididamente lugar no Hip Hop português como um dos melhores da Nova Escola – se não mesmo o melhor. As visualizações no Youtube falam por si: a faixa “Mo Boy” chega quase às sete milhões de views e metade das músicas deste álbum passam o milhão.

“Tu tens a arte no organismo e não te dão valor, como tu que viraste arquiteto e querias ser pintor” – Protagonista

Sentimos, claramente, uma evolução avassaladora. E, por outro lado, todas as suas influências vêm à tona. O fado e a musicalidade da guitarra, que em criança nas ruas desconhecidas da Madorna certamente ecoava e influenciava o pequeno Chapz, sente-se agora em músicas como “Sonhar nesta vida” ou “Saudade”. Surge um contraste perfeito entre sons e letras tipicamente da velha guarda – mais agressivas, de disputa – e de temas que atingem qualquer um e que são de grande fragilidade – como a saudade, a tristeza e a perda.

“Quem sente saudade, não sente saúde meu boy” – Saudade

A biografia de Dillaz é fácil e não precisa de ser o próprio a contá-la: as letras falam por si, os beats dão ritmo ao seu discurso e oferecem, a qualquer pessoa, espaço para sonhar. Em tempos, possivelmente, esteve sentado, com um cigarro na boca, o maço de Lucky Strike em cima da mesa e um “copo de balão” na mão. “Cinzeiro cheio no meio do vazio” enquanto as ruas da Madorna eram a sua vista, o seu mundo. E enquanto o dia não passava, ficava ele na sua desgraça, a sonhar e a “fazer desenhos no pó” …

Mas como “sonhar nesta vida não chega”, vemos hoje que Chapz se levantou e tornou-se o “protagonista” – dando voz ao seu sonho.

Escrito por: Nuno Mina