Sendo assim, obrigado

Sendo assim, só resta uma forma de concluir esta crónica.

Escrevo, enquanto oiço pela oitava vez seguida a nova música de Sam The Kid. E foi precisamente no dia 8 que “Pratica(mente)” foi lançado. Mas porquê falar desse tempo?

“Tá tudo inverso e o mundo diverte-se, é um dissabor
Como nunca houvesse quem visse o verso e ouvisse a cor”

“Sendo Assim” tem uma sonoridade familiar. A primeira vez que se ouve não parece ser a primeira. É tal e qual aquela sensação que temos quando vemos uma cara conhecida na rua, mas não fazemos ideia nenhuma quem essa pessoa é. Andamos depois horas e horas a pensar nisso, sem chegar a nenhuma conclusão.

(Assim sendo, o melhor é ativar o repeat).

Esta música parece ser de outro tempo – apesar de, paradoxalmente, cimentar que Sam the Kid é de todos os tempos. “Sendo Assim” podia muito bem estar em “Pratica(mente)”. Tal como qualquer das músicas desse álbum poderia ser lançada neste momento que não estaria fora do seu tempo. “Sendo Assim” comprova o génio e consolida o nome de Sam The Kid como o de melhor MC português de sempre. Simplesmente, por uma razão: ser intemporal.

Este som é uma chapada de luva branca. É um redirecionar do Hip Hop – ou devia ser. É um acalmar da correria em que a cultura andava e um redirecionar da visão que temos do futuro da mesma. No meio de tanta guerra, tanto “beef”, de tanto cardume aos berros, surge uma voz de calma. Um raio de luz que nos indica o caminho. A pressão da aceitação, da aderência, a pressão de tornar tudo “trap” “porque é o que bate” é aqui desmistificada. Sam the Kid deixa uma mensagem bem simples, mas que parece por muitos esquecida.

“Faço algo que eu adoro e ignoro o prazer ruim
Eu não quero ser o melhor eu melhoro a fazer de mim”

Que este Sam que só quer ser o melhor dele, inspire a que outros façam o mesmo. Que voltem a escrever para eles e não para o público. Que voltem a sentar-se no seu bairro a fazer desenhos no pó e a escrever, enquanto a única coisa que levanta são eles e não o seu copo de balão. Que os bandidos velhos permaneçam nos seus quintais e nos mostrem o quão belos são os jardins do mundo. Que, a partir deles, continuem a querer furar a atmosfera e elevar o rap tuga. Que se escrevam mais serenatas e se promova mu(n)dança.
Nós estaremos cá para os ouvir.

“Com a Sony Digital ganhei a noção da lente
Para um dia ser imortal como a nação valente”

(Já conseguiste, Samuel. És tu quem lidera os mil e noventa e nove soldados que marcham todos os dias).

Sendo assim, obrigado.