Hip Hop Rádio

mc

Nova música vinda de “Gaia/Chelas”: Mundo Segundo & Sam the Kid estão de volta

Depois de “Brasa”, Mundo Segundo e Sam the Kid reúnem-se novamente para dar vida a “Gaia/Chelas”.

Música com mistura e masterização por Gustavo Carvalho e videoclip por Cheezy Ramalho.

“Na origem de originais sempre originei mais, dos mais reais de facto baseado em factos reais!
O amor que sinto por isto? Segunda “Paixão de Cristo” prefiro aparecer menos nisto e fazer muito mais!”

Kappa Jotta sobre “Tribo”: “Vou lançar algo quando me apetecer”

Fotografia de Bruno Fidalgo de Sousa

Kappa Jotta tem novo tema solto, “Tribo”. O videoclip está assinado por John Doe Shotz (que também realizou o vídeo de “Fala a Sério”), instrumental de Reis e pós-produção de Here’s Johnny, da Superbad., também encarregue da captação, mistura e masterização. O rapper da Linha de Cascais afirma não pensar em álbuns: “vou lançar algo quando me apetecer”.

Antes de “Tribo” e depois de Ligação, o seu segundo álbum de estúdio (e um dos melhores do ano para a Hip Hop Rádio), Kappa Jotta tinha publicado “Fala a Sério“, produzida pelo newcomer Lazuli e que conta já com quase 1 milhão de visualização, assim como um tema incluído na mixatpe Ser Humano Vol.2, com Khapo e Macaia, intitulado “Coragem“.

Neste momento, o MC não se foca num projeto específico. Quando questionado pela Hip-Hop Rádio sobre o primeiro aniversário do álbum Ligação (1 de dezembro) e sobre o balanço do ano civil, Kappa Jotta respondeu que “correu bem melhor do que esperava, os sons têm visualizações lineares, vários sons com um milhão, alguns com mais, outros com menos. Vendi os discos quase todos, tendo já muito pouco stock, o álbum trouxe-me também outras oportunidades, muitos concertos em bons palcos. Foi bastante positivo, a meu ver, graças à malta que tem consumido e se tem ligado a nós deste lado”.

“lágrimas que a vista sangra, miopia e astigmatismo de tanto ver de perto a cor da lama
se o passado foram traumas e dramas, para muitos o futuro era funeral ou cana
para ter uns grifes eram fatias e gramas, presente da cabeça aos pisos com Reebok e Bana”

 

 

Domínio do Delírio é o novo EP de Fonseca e Cripta

Novidades do movimento hip-hop na Zona Centro. Depois do aviso “Punho Cerrado”, o single que Fonseca e Cripta disponibilizaram este verão, o EP Domínio do Delírio chega agora às plataformas digitais. “Urna”, “Ode” e “Sinais” completam o projeto de quatro faixas da dupla da Marinha Grande que inclui ainda uma produção de Tony Bounce. 

Domínio do Delírio sucede A Um Traço Da Loucura, EP de estreia colaborativo de Fonseca e Cripta, de 2016, mas também o completa. Com quatro temas, apenas “Punho Cerrado” e “Sinais”, tiveram direito a videoclip, gravado e editado por Cripta, que projeta um trabalho de excelência em todo o processo de produção do EP, seja no instrumental, na mistura, na masterização ou no vídeo.

Fonseca e Cripta há muito que têm trabalhado em conjunto. O regresso da dupla neste novo projeto era inevitável, numa fase em que Fonseca prepara ainda um EP com o produtor Sr. Timóteo (antecipado por “Deixa Que a Merda Passe“, com o apoio das rimas de Jota), ao mesmo tempo que atua também com o coletivo Jack Limbo, nascido e criado na Marinha Grande.  “Pista“, “Vaguear na minha mente” ou “Assim na Cara” foram os últimos temas que divulgou, sendo que o primeiro também tem produção de Cripta e trabalha ainda no projeto Círculo – que já tem dois singles. 

“quando tu precisas conta quantos se mobilizam
é ridículo
objetivo sempre foi fechar o Círculo
histórias nunca pararão
esteja eu na poça ou na piscina de um casarão
à beira-mar com gin e camarão
mas por agora vou sonhando enquanto fumo no paradão

 

“Eterna” é o novo tema de Harold

Nova faixa solta de Harold. O MC dos GROGNation disponibilizou “Eterna”, com instrumental de FRXH e co-produção de Conductor. O videoclip é assinado por Leonor Bettencourt Loureiro e gravado por Bernardo Infante, neste tema que é “uma homenagem a todas as mães”.

À revista digital Rimas e Batidas, Harold explicou: “em todos os meus trabalhos, tanto em GROGNation como a nível individual, sempre falei da minha mãe indirectamente e nunca tinha feito uma canção para ela, e aqui está (…) inspirei-me em amigos que perderam as mães, amigos que têm a mãe longe, pessoas que têm a mãe como pai e mãe, bem como em todos aqueles que amam e admiram a mãe, a avó, e que possam usar esta música como dedicatória.”

Depois de editar, em 2017, Nada é Por Acaso, com os GROGNation, e em 2016 Indiana Jones, a solo, o MC de Mem Martins disponibiliza agora o quarto tema solto, sucedendo a “Seguir em Frente”, com produção e vídeo selada pelos mesmos nomes de “Eterna”, assim como “Excêntrico Freestyle” e “32”, noticiada pela Hip-Hop Rádio, onde Harold rima sobre um instrumental de Sam The Kid.

“desde os tempos em que a nossa cama era o chão
e dividia contigo o mesmo colchão
a gritaria que ouvias sem tem razão
se hoje eu quero o mundo inteiro é a tua garra que eu tenho então”

Dissecação | GriLocks

“Mente rasta no hip-hop, natty dread” 

Natural da Margem Sul de Lisboa, artista e compositor com um hip-hop consciente, com algumas referências do movimento rastafari, abordando por vezes as questões e injustiças sociais, como as questões do nosso interior e da nossa maneira de estar e de ver a vida | Por Jéssica Ferreira

João Grilo, mais conhecido por GriLocks, é um jovem músico natural do Miratejo, um dos berços do rap em Portugal, lugar que leva sempre com ele nas suas rimas e faz questão de salientar. Com uma mensagem de paz, amor, respeito e união desde a primeira mixtape Fyah Na Babilónia (2012), começou a chamar a atenção das pessoas e desde então nunca abandonou essa base nos seguintes trabalhos que viria a divulgar, revelando fortes raízes no reggae.

“Rap é responsabilidade, compromisso e atitude
Rasta é mudar o mundo e não esperar que ele te mude
Por mais que a gente mude de solo o céu é sempre igual
Raízes são as amizades e o nosso colo maternal
Trago o Miratejo no peito, a rua guarda o que eu fiz”

 

GriLocks faz questão de levar consigo a mensagem ou o movimento rastafari nas rimas e expõe os seus pensamentos acerca das relações, da vida e das questões sociais, relembrando sempre de onde veio e quem o acompanhou.

“Eu vim de Zion, filho de Selassie The King, com a visão aberta e nela o sonho de Luther King.” 

Como sempre, as referências ao movimento rasta e agora ao sonho de Luther King, a liberdade. GriLocks vai demonstrando a sua visão perante o mundo e tudo o que rodeia com pontos e pessoas de referência que o influenciaram.

“Inspirado por Rui Veloso, Vitorino e Camané,
 o meu hip-hop são epopeias e tu?
Poupa as ideias”

GriLocks conta com inúmeras inspirações na sua vida artística e expõe as suas influências em vários versos, neste caso com os artistas citados como ponto fulcral de inspiração. Também expressou sempre a sua vontade perante a existência da consciência coletiva, não exclusiva mas sim de toda a gente, das pessoas que o rodeiam, das pessoas que lutam pelo mesmo que ele luta. 

Eu sou a prova viva
que a arte está bem viva,
nós somos a prova viva da consciência coletiva
” 

Nas suas rimas GriLocks tenta manter o equilíbrio sobre os assuntos que vai expondo e assume um compromisso com o rap como sendo uma parte dele. Em inúmeros versos faz críticas sociais de como seguem todos um só caminho, cegos da verdade. Menciona mais uma vez a “cena rasta” como algo sério e não apenas aparências.

Levo a cena Rasta a sério não é só um penteado diferente
Tu não precisas de ser igual aquilo que é uma maioria
Acredita que não é real, justiça e tal democracia
Eles comem tudo já o Zeca Afonso dizia
Abri a pestana desde cedo com a música que o meu pai ouvia”

Com uma vontade imponente de expressar o seu pensamento sobre o sistema e as pessoas que nos rodeiam, GriLocks tenta sempre expressar uma mensagem de positividade e mudança de mentalidade.Mais uma vez salienta que a cultura que carrega é vasta e não se prende a uma só “verdade”, foi moldando o seu pensamento com o passar do tempo mantendo sempre a base de tudo: paz, amor, união e respeito. 

Meu estilo é diferente sou tranquilo e reverente
Faço pela minha gente, faço por te abrir a mente
Cedente e coerente vou-me excedendo sem excepções
Não vim para ser servente de meras opiniões
Minha cultura é vasta, raízes são de um rasta
Só Jah me afasta desta cidade rasca
E essa atitude de Hollywood que só te ilude
Ser rude passou de ser defeito a ser virtude” 

(Fotografia de Arquivo)

Dj Big celebra 28 anos com noite de DJing

Na passada sexta-feira, o Copenhagen Bar, em Lisboa, acolheu o aniversário de Dj Big, produtor que já trabalhou com artistas como Kappa Jotta ou Sam The Kid e que tem pisado vários palcos nacionais e brilhado em instrumentais da sua autoria – em maio deste ano lançou o seu primeiro singleem colaboração com os Mundo Secreto. E não havia melhor maneira de celebrar o seu 28º aniversário que rodeado de toda a sua equipa e amigos, incluíndo a presença de alguns nomes do hip-hop nacional nesta que foi uma grande noite dedicada, quase em exclusiva, à arte do DJ’ing | Ensaio de Leandro Peleja

Para começar, DJ Riskit abriu a noite enquanto o Copenhagen Bar já ia começando a encher aos poucos. Depois seguiu-se DJ Kwan na cabine, o irmão do aniversariante, que foi responsável por começar a aquecer o ambiente. Mas foi o Dj Onit que pegou fogo à casa, que já estava completamente lotada, e preparou o cenário para o homem da noite vir partir o que ainda havia por partir.

DJ Big fez aquilo que sabe fazer melhor e deu um pouco do melhor hip-hop português a todos os presentes antes de passar o lugar na cabine a um dos nomes do momento: o autor do hit “Cafeína”, Dj Dadda, veio dar uma nova fonte de energia a todos.

Ao longo da noite o Copenhagen Bar, completamente lotado, presenciou um ambiente fantástico que acolheu da melhor maneira esta noite dedicada ao hip-hop, como foco especial no DJ’ing – quatro nomes nacionais a pisar o palco – e, como é óbvio, a HipHop Rádio não podia deixar de marcar presença.

Muitos parabéns, DJ Big!

Fotografia de Leandro Peleja

 

Guia HHR: outubro quente traz o diabo no ventre

Outubro quente traz o diabo no ventre. Podia também escrever “outubro quente traz hip-hop no ventre”, que faria igualmente sentido quando nos deparamos com o que este mês deu aos hip-hop heads de Portugal: álbuns, singles, videoclips de renome, bangers, temas ainda por desvendar. Do regresso a solo de Sam The Kid – coroando o ano com Mechelas – à estreia no formato longa-duração de Subtil, a mais um (grande) disco underground dos Colónia Calúnia, aos singles aclamados de Deau, Allen Halloween, Virtus e Holly Hood, entre tantos outros. Não obstante os lançamentos internacionais, o Guia HHR deste mês é dedicado ao hip-hop nacional.

Foi Holly-Hood quem estreou o mês com mais um single da segunda parte de Sangue Ruim, após “Cala a Boca”, lançada há cerca de um ano.”Miúda”, produzida, misturada e masterizada por Here’s Johnny (quem mais?), apresenta-se com um vídeo realizado pelo próprio MC, que já arrecadou mais de dois milhões de visualizações no YouTube e até contou com uma “resposta”, por Annia. O artista da Superbad. ainda não revelou qualquer data para Sangue Ruim. 

Regressou com um “Aviso”, este ano deu o “Ponto de Partida” e no final de setembro disse ser”O Mesmo”, e a verdade é que o mesmo Deau conquistou mais uma vez o público com “Traça a Linha” e “Simples“, ambos os singles produzidos por Charlie Beats nesta que é muito provavelmente a amostra de um novo álbum, depois do  rapper portuense editar Retissências (2012) e Livro Aberto (2015).

“Parceiro tu não te baralhes
Se estiveres a dar cartas na área
Guarda os trunfos que tiveres na manga
Para na altura certa recolheres a bazada
Porque se eles quiserem o ouro
Dão-te com paus até te virares do avesso
Ficares encurralado entre a espada e a parede
Fechado em copas até te encontrares seco”

Deau em “Simples”

Fonseca e Senhor Timóteo foram dois dos artistas que iniciaram o mês com o pé direito: “Deixa Que A M*rda Passe” é o single de apresentação da dupla para um EP em conjunto de quatro temas, no momento em que Fonseca se prepara também para lançar Domínio Do Delírio, com Cripta, que assina a realização deste videoclip, assim como a mistura, a masterização e as vozes adicionais da faixa.

O início do mês trouxe também à tona Subtil, outrora conhecido por 100Nome, que chegou “sem nada a temer”. Áquem-mar é o seu álbum de estreia, “um disco produzido e gravado por Praso no Artesanacto”, que sucede ao EP Venho Pelo Meu Nome e conta com 12 temas, incluindo o single “Cada Um”. É de notar o carinho da label Artesanacto pelo newcomer algarvio (…), apadrinhando o projecto com as suas produções (Montana e RichardBeats assinam um instrumental cada, Praso compôs os restantes onze, incluíndo a “Intro”) e com participações de Mass, Tom, RealPunch, Dani, JV e Odeo.

“não sou velha nem nova eu sempre fui expulso da school”

https://www.youtube.com/playlist?list=PLF374FfAS_kioVqSaFu0SxT8zn1cJ2y0R

Mas foi a 13 de outubro que Samuel Mira abalou a estrutura com Mechelas, o álbum de regresso, sucessor de Pratica(mente). Note-se que é maioritariamente um álbum em que STK atua como maestro, o inevitável produtor de toda a obra, alicerando nela nomes como GROGNation, Phoenix RDC, Ferry, Blasph ou Sir Scratch, sendo que todas as faixas já foram publicadas na plataforma TV Chelas. “Sendo Assim” foi a cereja no topo do bolo: Samuel a solo, desde sempre “na life de mil e cem romanos” a rimar num tema que já encontrou lugar no coração dos hip-hop heads. 

Sam The Kid prepara agora Classe Crua com Beware Jack. A edição física do Mechelas pode ser adquirida na loja online da TV Chelas por dez euros.

Confirma-se o mês entusiasmante. E ainda não está perto de terminar:

A 12 de outubro, Amon e Nero e Dj Sims brilharam num instrumental de Groove Synthdrome numa faixa intitulada “Sem Tirantes”, editada pela Pipa de Vinho Rec.

Allen Halloween e Maradox Primeiro, que são um e o mesmo, tentaram diminuir a ansiedade dos fãs do MC “Na Porta do Bar”.

Mais música por Apollo G, “Bem di Baixo”, desta vez com Bispo e Landim e produção de RDG. O tema pertence à mixtape Sucess after Struggle.

Com produção de Andrezo e participação de Murta, Domi estreou “Rosas”, tema que é acompanhado pelo vídeo de Tomás Zimmermann.

A recente Andamento Records publicou “Way”, tema que une Lil Ameal e VIC3 num produção de mendez.

Depois de “Ainda Não Tem Nome”, Virtus aliou-se a SP Deville para o tema “Trapézio”, prenúncio para um novo álbum depois de UniVersos, e conta com uma animação e ilustração de excelência, por Paco Pacato:

“não é questão de lógica é a relação morfológica
não recito ou declamo, repito o que reclamo
na verdade que nos afronta sem frente
que me desmonta e desmente
esta é a segunda a vez que eu fico assim para sempre”

rap das Caldas da Rainha também teve uma palavra a dizer este mês: “Flor de Maracujá é o novo single de Stereossauro, o sucessor de “Nunca Pares”, e conta com letra de Capicua, voz de Camané e uma sample de Amália Rodrigues. A realização é de Bruno Ferreira. O tema fará parte de Bairro da Ponte, que é esperado sair em breve e será editado pela Valentim de Carvalho. O comunicado refere-se ao álbum como “a nova voz de uma velha cidade que pede para ser ouvida”.

Ainda na “cidade das rotundas”, Scorp publicou “Cara Lavada” e já tem nome para o novo projeto: Visão Noturna. Também T-Rec publicou “2T”, faixa com scratch de Stereossauro e instrumental de DONTLIKE.

Com mais um lançamento em 2018, A Vida Continua é o novo álvum de estúdio de Boss AC, sucedendo ao EP Patrão. do qual se reeditaram os temas “As Coisas São Como São”, “O Verdadeiro” e “A Vida (Ela Continua)”. “Por Favor (Diz-me)” é o primeiro single do álbum de 12 faixas e conta com a voz de Matay e vídeo da WILSOLDIERS.

Também Spliff, produtor e agora MC da Madorna, estreou o seu primeiro álbum na arte das rimas este mês. “Miráculo” fora o mais recente aviso e Risco o culminar. São, ao todo, 14 temas, com participações de Zeca, Vulto, Nog e KidSimz. Quase todos os instrumentais foram produzidos pelo habitual companheiro de Dillaz, este que não entra em nenhuma faixa.

E a corda já tá no pescoço
Tu não faças o que eu digo
É mais fácil ires a Marte
Do que seres aquilo que eu vivo

Spliff em “Confundido”

A fechar o mês, destaque ainda para Chá de Camomila, EP de Toy Toy T-Rex, rapper da Linha de Sintra associado à BANDOMUSIC, que conta com 11 faixas e participações de Mafia73, Yuri da Cunha, DCOKY e Nimsay.

Single novo de Jotta R, MC de Évora: “Tão Good“.

holympo também tem novo música: “Palavras”, uma ” versão da balance do lord d”. Manthinks colaborou com DUQUEGOTBEATZ em “GAME MODE“.

TNT foi outro dos rappers com singles publicados. “Flow” é a primeira amostra do próximo EP do MC de Almada, que se alia a DJ Player e AMAURA (Maura Magarinhos), num videoclip assinado por Manuel Casanova. A Mano a Mano disponibilizou também “Missão a Cumprir” no seu YouTube oficial, o primeiro álbum dos M.A.C.

Para o final, reservamos o álbum de outubro (talvez do ano). Os Cólunia Calúnia já tinham avisado com “Caixão” [em baixo], mas só no final do mês é que [caixa] chegou ao público. O coletivo edita mais um trabalho este ano, desta vez com rimas de Secta e instrumentais de Metamorfiko. L-Ali, Nerve e Tilt são os convidados deste álbum que sucede a MONRÓVIA, CONSÓRCIO, LISTA DE REPRODUÇÃO, YARIKATA, RETARDED TEMAKI, EYELASHES GONE a@, todos eles publicados este ano no BandCamp do coletivo.

Se a expressão “quantidade não é qualidade” costuma vestir o hábito da verdade, com os Colónia Calúnia essa métrica não se aplica. Rui Miguel Abreu, na sua crítica ao álbum, afirma mesmo:

[caixa] exige atenção. Cospe na cara, chuta nos tomates, grita nos ouvidos. Não admite distracções. Não dá para ouvir a fazer o jantar ou enquanto se está de olhar perdido na janela que desenrola o caminho que falta para chegar a casa, ao sofá. Escutar no escuro, sem estímulos externos, é a melhor maneira de entrar neste labirinto de sons, de sílabas, de ideias, de nós de sentido, de pequenas torturas ao pensamento. Dói, mas é bom. Custa, mas é de borla”

e acrescenta ainda:

“Este é o melhor disco do ano que quase ninguém vai ouvir.”

Afinal, “qual é a cor do céu da boca de um Estrumfe?”

Um outubro quente, um novembro para ficar em casa a ouvir todos os singles, mixtapes, EP’s e álbuns que o Guia HHR aqui lista, analisa e destaca. Um mês para recordar. 

Ensaio de Bruno Fidalgo de Sousa

Boiler Beatz: “It Was Onyx”

Depois de assistirmos a Profjam como cabeça de cartaz na Moita, o conceito de festa Boiler Beatz faz agora a travessia da Margem Sul para Lisboa. O evento que, ao contrário da primeira edição, se assumiu claramente como uma festa de hip-hop oldschool, teve lugar no Estúdio Time Out e contou como protagonista o icónico e histórico coletivo de Queens, Onyx. DJ Dadda e Phoenix RDC completaram mais um cartaz vencedor | Ensaio de Daniel Pereira e fotografia de Alicia Gomes

É seguro afirmar que esta foi uma noite histórica para o hip-hop nacional, tendo em conta a presença em Portugal de um dos nomes mais importantes na história do movimento, diretamente de Nova Iorque para Lisboa. Os Onyx eram claramente o nome mais aguardado da noite e tudo previa o concerto formidável, desde a energia alucinante, aos saltos regulares e às vozes bem altos,  três aspetos que sobressaíram tanto na arte de Fredro Starr e Sticky Fingaz como para os ouvidos do público português.

DJ Dadda, que desde o início da noite brindou o público com pérolas da velha escola do hip-hop norte-americano, deu desde logo o mote para o espetáculo. Phoenix RDC, através do seu rap sem adereços, deu continuação ao clima gangster que se fazia sentir e não o fez sozinho. Kosmo, Malabá e Syer foram alguns dos convidados de honra na celebração da segunda edição do Boiler Beatz.

De realçar também a presença de grandes nomes do panorama do hip-hop nacional, como por exemplo Dillaz, Valete e Holly Hood, cuja participação enquanto espetadores revela também o quão marcante foi esta noite para o hip-hop nacional, na presença de mais um clássico coletivo norte-americano.

Fiquem com as fotografias de Alicia Gomes neste noite que foi histórica, não apenas pela presença de um dos maiores nomes da cena hip-hop oldschool norte-americana mas também pela excelente adesão e compromisso do público português, uma prova viva da força do boombap na atualidade.

Foto-galeria aqui.

 

 

Meo Sudoeste 2018: Rap tuga, nunca me falhas

Texto por Daniel Pereira

Fotografia por Nayara Silva e Daniel Pereira


Mais uma edição de MEO Sudoeste e novamente o hip-hop fez-se ouvir no Alentejo.

O início do mês de agosto é já sinónimo de uma coisa: MEO Sudoeste. O icónico festival da Zambujeira do Mar esteve este ano na sua vigésima (20ª) edição e, para quem é fã de Hip-Hop, dificilmente se pediria um cartaz melhor, pelo menos no que toca aos nomes nacionais… A realidade é esta: no que ao rap diz respeito, os nomes que saltavam à vista no cartaz eram Lil Pump e Desiigner.  Os cabeças de cartaz (atuaram no mesmo dia) . o resto do nomes hip-hop confinados no habitual “E muito mais”. E na verdade havia muito mais para ver e ouvir, mais e melhor, mas já lá iremos.

Por motivos de agenda não pudemos estar presentes no dia em que o recinto abriu pela primeira vez ao público. Este é portanto o primeiro dia oficial de MEO Sudoeste, apesar de há dias terem havido os já habituais concertos no campismo. Do que chegou até nós, Piruka deu um excelente concerto no palco principal, com direito a alguns momentos especiais (a família do rapper subiu a palco), deixando já a sensação de que os concertos dos rappers portugueses iriam ser bons. Na realidade isso seria já expectável, visto que a vontade dos artistas nacionais em atuar neste que é já um dos mais importantes festivais do país é imensa.

Algo para constatar no segundo dia de festival. Muitos eram os concertos a ver e começaram cedo. Por volta das 19h30 entraram no palco LG os Richfellaz, banda de 5 elementos, da cada um com o seu estilo musical, criada neste ano de 2018. Devido à hora precoce do concerto e ao desconhecimento por parte do público seria de esperar uma pequena audiência –  assim foi. No entanto, os que lá estiveram passaram um excelente bocado com a energia ao vivo que esta banda proporcionou. Um nome a manter em conta.

A partir das 20h30 o recinto do palco LG começou a encher. Fácil de adivinhar o porquê, o senhor que se seguia era Papillon. “Deepak Looper”, primeiro álbum do MC de Mem-Martins, por muitos aclamado como álbum do ano, ia ser apresentado ao vivo no MEO Sudoeste e ninguém queria perder. O concerto começou e a enchente revelou-se. Muitos foram os que vibraram com as letras e flows do rapper do grupo GROGNation, mas também com Dj e a banda que Papillon normalmente leva para os seus concertos a solo. Nota para um momento emotivo do concerto, antes de cantar a faixa “Imagina”, em que o artista revelou e admitiu perante o seu público que não tinha preparado cantar essa faixa e que não sabia se conseguiria. É notória a ligação sentimental do rapper com o tema e verdade é que esta foi executada, sim, e da única forma que Papillon sabe fazer as coisas: na perfeição. O público ficou arrepiado. A partir daqui a festa continuou até por volta das 22h, hora em que acabou. Foi “só” um dos melhores concertos que pudemos ver na edição deste ano de MEO Sudoeste.

O Hip-Hop não parava no palco LG e de seguida tivemos Eva Rap Diva, MC que tem ganho cada vez mais espaço no panorama do rap nacional. A rapper angolana não desiludiu e apesar de ter contado com um público em menor dimensão comparativamente com o concerto anterior, viveu-se uma autêntica “Hip-Hop Party”. E claro está, os habituais e exímios freestyles e empatia com o público não faltaram no concerto de Eva.

Passámos de seguida para o Moche Ring e, por falar em empatia, se houve senhor que teve empatia com o público foi Cálculo. Cada vez mais o público o adora e é merecido. O rapper de Barcelos conta com dois álbuns espetaculares e cheios de boa vibe (“A Zul” e “Tourquesa”) que começam cada vez mais a entrar nos ouvidos dos portugueses. Ainda por cima estamos no verão, e é este o tradicional tipo de música para a época em questão. Cálculo fez o seu concerto passando por estes seus dois trabalhos e o público não poderia pedir mais.

“Pessoal, não tenho mais nada para tocar para vocês portanto vou meter a música do Dragon Ball”. Sim, o final de concerto foi com a música de genérico da série “DragonBall GT”, deixando claro está, todos bem dispostos para os concertos que se seguiriam.

Neste palco tivemos depois Phoenix RDC, Estraca, Nasty + Harold, Mike El Nite e DJ Kronic para finalizar a noite.

Phoenix teve uma das mais bem ensaiadas plateias, foi um dos melhores concertos que já assistimos do MC de Vialonga.

Estraca mostrou a todos que numa época em que o mumble rap ganha cada vez mais seguidores é ainda possível dar concertos de rap com mensagem e pôr todos a cantar.

Nasty Factor e Harold foram um bocado prejudicados pela atuação dos Wet Bed Gang no palco principal (tal como Kura, colmataram o cancelamento do concerto de Hardwell) mas não deixaram de animar o público que fez questão de os ver neste novo formato em que são cantadas músicas em conjunto dos dois rappers do coletivo GROGNation, mas também faixas “a solo”.

Mike El Nite fez um autêntico riot com direito a arremesso de rebuçados Dr. Bayard para o público. O rapper contou ainda com a participação especial de SippinPurp neste tema e o concerto acabou em êxtase com “T.U.G.A.”.

Ainda neste dia e em relação ao palco principal, descurámos completamente o concerto de Wizkid, pois ficámos na dúvida se realmente estava a acontecer uma perfomance do artista nigeriano ou se se tratava de um DJ Set. No que ao rap internacional diz respeito, não estava a começar bem.

Wet Bed Gang foi o completo oposto. Simplesmente espetacular. Avisados 4 horas antes de que iam atuar no palco principal do MEO Sudoeste (GSon fez questão de mencionar isto várias vezes ao longo do concerto), não deixaram de ter a pujança que lhes é habitual. Sem banda mas com Conductor nos pratos muitos foram os hits tocados na Zambujeira Do Mar e que puseram todos a cantar. Feedback brutal do público visto o cada vez maior número de seguidores da banda (perdemos o número das vezes que ouvimos músicas de Wet Bed Gang a “bombar” nas colunas dos campistas) e mais um concerto que nos faz pensar que estamos perante o maior fenómeno atual do rap português.

Depois de tantos concertos de hip-hop neste dia, passamos agora para o terceiro dia de Meo Sudoeste.

O dia começou perto das 21h com Domi no palco LG. Por volta das 21h30 começaram Mundo Segundo e Sam The Kid no palco principal. A Hip Hop Rádio teve portanto de fazer “piscinas” para poder ver os dois concertos. Pudemos constatar uma coisa: o público para o concerto de Domi esteve sempre presente em enorme quantidade. Raros foram os que arredaram pé para ver o concerto de Mundo Segundo e Sam The Kid, fazendo-o apenas quando Domi finalizou o seu concerto. O MC do Algarve, que recentemente assinou pela Universal, deu um concerto seguro e cheio de energia que não deixou ninguém indiferente. Começa a ser um caso sério no panorama do rap nacional.

Entretanto Mundo Segundo e Sam The Kid atuavam no palco principal e contavam com um público não em grande número para o habitual número que este palco fiel costuma trazer. Concerto que contou com os clássicos do costume, executados com perfeição pelos dois MC’s, DJ Guze e Cruzfader. Maze apareceu para tocar alguns temas em parceria com os dois MC’s e o seu “Brilhantes Diamantes”, música icónica do Rap Português. Nota ainda para o facto de Sam The Kid ter cantado “Retrospectiva De Um Amor Profundo”, faixa que não era cantada ao vivo há já algum tempo e que infelizmente não foi executada na totalidade. Bem, deduzimos o porquê de Sam The Kid ter optado por não cantar os oito minutos da música. A realidade é que muito do público presente não “aguenta” mais do que dois minutos por faixa ora não estivesse a marcar presença neste concerto pura e simplesmente para guardar lugar para os concertos de Desiigner e Lil Pump.

Sobre estes dois concertos internacionais: já lá iremos. Antes ainda tivemos Bispo no palco LG. O MC de Algueirão Mem-Martins contou com a maior enchente que pudemos ver neste palco e com um público fiel. Bispo atua agora com banda e os seus concertos estão cada vez melhores. Deezy marcou a sua presença para cantar “Nós2”, tema recente em parceria entre os dois e que está a fazer um enorme sucesso. Bispo é provavelmente um dos nomes que mais está a subir a pulso no panorama do Hip-Hop nacional e é fácil perceber porquê. A qualidade está toda lá e capacidade de se reinventar também e o público percebe isso.

Vamos então agora falar de Desiigner e Lil Pump e perceber o porquê do facto de Mundo e STK abrirem para estes dois concertos ser ridículo. Sim, o hype está lá, os hits também e a histeria do público sem dúvida mas será que tudo isto vale a pena quando as performances em palco são sofríveis e descomprometidas? O rap tuga responde a esta pergunta com um redondo não, acreditamos nós.

Se Desiigner foi razoável, Lil Pump foi péssimo.

O primeiro ganha pontos pela sua energia e pujança em palco (em palco como quem diz porque esteve maior parte do tempo agarrado às grades que separam o público do palco). No entanto não podemos deixar de dizer que o concerto de Desiigner foi um autêntico mar de adlibs.

O segundo, é difícil arranjar palavras para descrever. Acreditamos que qualquer miúdo da frontline, fã acérrimo do rapper de Miami, Florida, caracterizado de forma a fazer parecer ele, se tivesse ido a palco atuar, ninguém notaria a diferença. Do que a Hip Hop Rádio apurou com os festivaleiros, alguns já esperavam um concerto duvidoso, outros esperavam ansiosamente pelo concerto do seu trapper favorito e muitos estavam simplesmente curiosos para saber o que Gazzy Garcia, MC com 17 anos, na altura (fez 18 anos no passado dia 17 de agosto) seria capaz de fazer ao vivo. A realidade é que Lil Pump não esteve em palco mais de meia hora e mesmo assim foi muito. Dúvida desfeita.

Antes de passarmos para o último dia de festival em que pudemos ver o concerto de Yuzi, notas de destaque para o palco Vila Santa Casa no campismo que contou ao longo dos quatro dias com vários DJ Set de Sensi a começar os dias dos festivaleiros, a Curadoria de Xeg com o projeto “Animação Em Acção”, a Curadoria de Francisco Rebelo com o projeto “OPA” e a Curadoria de Capicua com o projeto “OUPA!”. Iniciativas de louvar que permitem mostrar novos talentos do Hip-Hop Nacional. Também uma ressalva para Krayze, que animou todos com os seus passos de dança no Palco EDP nos intervalos entre concertos.

Como dissemos, no último dia de Meo Sudoeste pudemos ver Yuzi,  rapper que tem ganho cada vez mais notoriedade no panorama do trap nacional. Assistimos a um dos concertos mais enérgicos do palco LG e provavelmente ao maior mosh pit de todo o festival (nem no palco principal assistimos a um maior). Yuzi não estava sozinho, Benji Price acompanhou-o nos pratos e Yellow nas backs. Por lá passaram também Profjam, SippinPurp e Lon3r Johny como participações especiais e os restantes membros da Think Music que marcaram presença apenas para ajudar à festa. O único que não esteve presente foi Fínix MG. Yuzi deu uma autêntica lição do que é um bom concerto de trap, ao contrário de Desiigner não deslizou apenas por adlibs e ao contrário de Lil Pump… bem… simplesmente não esteve parado em palco.

Já demonstrámos o quanto gostámos do rap tuga ao invés do rap internacional na edição deste ano?

Os Karetus fecharam o palco principal e felizmente pudemos ouvir Hip-Hop mais umas quantas vezes, fosse através dos pratos do DJ ou através da chamada ao palco, mais uma vez, de Wet Bed Gang para o sempre espetacular e poderoso “Maluco”.

Fiquem com as nossas Foto-Galerias:

Nayara Silva – Galeria 1

Daniel Pereira – Galeria 2

Até para o ano MEO Sudoeste!

BEAT FEST: Um festival de batidas, rimas e tintas

 

O hip-hop volta a estar em destaque no panorama dos festivais de verão. No Beat Fest “só” não há breakdance, mas, em contrapartida, apresenta uma programação de luxo a nível de MC’s e DJ’s nacionais. A praia fluvial da Ribeira da Venda, em Comenda, Gavião, recebe, de 2 a 5 de Agosto, o certame que tem como objetivo colocar o Alto Alentejo no mapa do movimento e, “quem sabe, trazer de volta aquele sabor e toque das old school hip-hop parties”. | Por Bruno Fidalgo de Sousa

Não só de MC’s se faz a festa em Comenda. A programação, que conta com Piruka, Slow J ou Mundo Segundo e Sam The Kid como cabeças de cartaz e  Nel’Assassin, Dj Kwan e Stereossauro nos pratos, “seja em clubbing ou turntablism”, só fica completa com Youth One, writer português que irá estar a pintar durante a tarde nos três dias de festival, explica Ivo Novais, um dos organizadores do evento, que acrescenta ainda “principalmente porque o consideramos um artista com alma hip-hop e, sendo a nossa primeira edição, queremos começar com uma vibe distinta”.

Embora o plano inicial contasse com a presença do breakdance e com dois artistas internacionais, o cartaz está fechado. Ivo explica que “infelizmente não conseguimos trazer artistas de breakdance, foi uma dificuldade que não conseguimos ultrapassar, estamos na primeira edição, esperemos que para o ano consigamos ter as quatro vertentes em pleno.”

Para além dos concertos já mencionados, também Mishlawi, GROGNation, Phoenix RDC, Cálculo, Kappa Jotta, TNT, Dillaz, Eva RapDiva e Holly Hood têm presença marcada nos três dias de festival. A completar o certame, a receção ao campista recebe ainda Kroniko, Sacik Brow e Alcool Club, para além de DJ Gijoe. “Esperemos conseguir criar um evento cujo o estado de espírito do público esteja interligado com o dos artistas, e quem sabe trazer de volta aquele sabor e toque das old school hip hop parties”, conclui Ivo.

O festival tem o apoio da autarquia e os bilhetes de entrada diária ficam a 10€, com o passe geral a rondar entre 22€ e 26€.

Fotografia de Arquivo

 

Dissecação | Regula

“Como eu não sei quando é que o tecto cai-me em cima,
Eu juro, por mais guita que eu faça do rap eu não saio da esquina”

Independente, irreverente, dono de personalidade artística vincada e singular. Foi (também) com a edição de Gancho que o rap se tornou uma potência musical no nosso país, fruto das novas sonoridades e estilo que Tiago Lopes implantou. A tendência inverteu, o rap popularizou-se e novas estéticas sonoras surgiram. Até à data, o hip-hop era um movimento underground. Regula, “nascido nos Olivais, criado no Catujal”, inverteu a balança mediática, vendeu centenas de cópias e arrecadou milhares de visualizações | Por Bruno Fidalgo de Sousa

“Eu não nasci num berço d’ouro, vi muita merda e rezei tanto gastei o terço todo”

Bellini “já girava nos blocos, ainda era um meia foda”. Foi precisamente no Catujal (“sabes qual é o local/ onde todos vendem material como se fosse legal”), em Loures, que cresceu e descobriu o ninho do qual nunca saiu. Do mesmo modo que a “Catuja” se tornou um palco para a arte de Regula e uma referência em várias das faixas do – extenso – portefólio do MC português, tornou-se também o palco que o viu evoluir e destacar-se nas battles da escola – e nas posteriores.

“No bules eu varro o salão e chamam-me patrão a mim?
Devem tar a falar da battle. Heavy metal.
Pa’ postura da altura eram dicas heavys né’ram?”

“A primeira vez que ouvi rap português, é que eu decidi que queria ser MC”, explica Don Gula no seu documentário. Em 1996, depois de longas horas a ouvir Black Company e Da Weasel (“eu ouço o Pacman desde os tempos dele no Casal”), forma os Duke Skill. A primeira música chamava-se “Fim do Mundo”, mas foi com o 1ª Jornada (editado pela Encruzilhada Records, do DJ Cruzfader) que o – ainda – Bellini cravou raízes num movimento em expansão. Com ele rimaram NBC e Sam The Kid (com quem já tinha participado em Sobre(tudo)) e o videoclip de “Especial” passou por várias vezes na SIC Radical e na extinta Sol Música.

“Desde a 1ª Jornada vi aparecer haters do nada
a tentar destruir uma carreira formada
até me verem com a algibeira jardada”

Ao mesmo tempo, Valete, Xeg, DJ Bomberjack, Tekilla, Madvision ou Kacetado marcavam posição no game com as suas primeiras mixtapes, algumas das quais com a presença de Don Gula. Também as participações com os (à data) veteranos Cool Hipnoise, New Max ou SP & Wilson lhe granjearam algum reconhecimento. Mas foi mais precisamente em 2005, com o apoio de STK e com as rimas ágeis de Xeg, que o Tira-Teimas saiu para a rua. E, com ele, a expansão: nos quatro anos que se seguiram houve tempo para duas mixtapes que engrossaram o leque musical de Regula, alguns freestyles e uma escrita crua e braggadocious: Kara Davis (2007) e Kara Davis Vol.2: Lisa Chu (2009), ambas mixadas por DJ Kronic. Foi a Horizontal Records – guiada por Valete – que deu o mote e o MC do Catujal não vacilou, vendendo cerca de mil cópias no primeiro mês.

“Valete diz que eu ’tou no auge da minha carreira
e já me pôs 10,000 paus na minha carteira”

Simultaneamente a cumprir uma carreira de MC e de barbeiro (na Vasco’s Barbershop), foi preciso chegar a 2013, quatro anos depois de Lisa Chupara Don Gula passar a atuar para multidões e não para nichos. Foi com a edição de Gancho, pela Superbad., que temas como “Casanova” ou “Cabeças de Cartaz” se tornaram músicas obrigatórias para os vários hip-hop heads que acompanharam a expansão do movimento – seja no palco, na Internet ou na rádio. Moisés Regalado descreve o álbum na perfeição: “Em Gancho não há pérolas escondidas ou momentos secundários — como acontece na esmagadora maioria dos álbuns — e todos os temas se tornaram imediatamente icónicos, assumindo o estatuto de singles sem que o fossem e até de clássicos instantâneos.”

“Eu vivo a vida num auge máximo, depois de umas quantas bottles sou um alvo fácil”

Casca Grossa (2015) e 5-30 (2014) foram os trabalhos que se seguiram. No primeiro, voltou a “apadrinhar” Holly-Hood (o seu antigo hypeman), com quem já tinha rimado anteriormente (Lisa Chu e Gancho) e colaborou com STK, Valete ou Blaya num projeto bastante eclético que dividiu opiniões. Pretendia, à maneira de Regula, criticar a comercialização do rap e o “rap que bate”, com ajuda de videoclips realizados pelo próprio.

O “Toni do Rock” não colocou o álbum à venda em grandes centros (“Sa’foda os royalties nem o da FNAC bate”), mas sim na sua barbearia (Pente Fino, nos Olivais, que abriu portas quase na mesma altura em que lançou Casca Grossa) e tatuadoras conhecidas. De facto, o bairrismo de Gula sempre fez parte da sua lírica. O próprio afirma-o em entrevista ao jornal PÚBLICO, quando da edição do álbum: “Sou bairrista. Até posso dar um grande salto em termos de sucesso, mas nesse caso faço uma vivenda aqui nos Olivais. (…)Não é por acaso que a minha empresa se chama Stay Local. Isto tem a ver com a minha identidade.”

Identidade essa que se manteve presente nas várias colaborações e em 5-30, álbum homónimo do grupo que compôs com Carlão e Fred Ferreira (Orelha Negra). Com temas marcantes (“Vício”, “Chegou A Hora” ou “Pitas Querem Guito) na cena musical da altura, o projeto teve um êxito inegável e imediato. Juntar Don Gula, um Pacman renascido e o primogénito de Kalu (Xutos e Pontapés) num super-grupo é arte – ainda que o coletivo tenha ficado por aí. No ano anterior, foi com “Solteiro”, tema dos Orelha Negra, que os versos de Regula chegaram – novamente – a todo o país.  É quase certo poder afirmar que literalmente todos os ouvintes de hip-hop reconhecem a resposta para o o clássico “E em homenagem à Amy”…

“reflito numa bula enquanto o Gula me apara” – STK

“Passaram-se anos, eu ainda ’tou a gastar grana do Gancho”

Ouro Sobre Azul já conta com cinco singles e uma colaboração (Dillaz, em “Wake n’ Bake”). O lançamento pode estar para breve: já passam três anos de Casca Grossa e as cinco faixas “cá fora” agoiram o (já) habitual: um Regula com novas sonoridades (trap à Gula na ementa), mas com o mesmo egotripping, bairrismo, a mesma competitividade (“Mas quem é que disse que tu bates? É preciso ter tomates”), ostentação e autenticidade. Como – e bem – se mantém durante tantos anos.

“Eu não espero um Globo d’Ouro
boy, eu quero o globo todo
Porque mesmo quando eu estava na merda
Nadava no topo do lodo”

“Baralho azul e roxo como se fosse do Barça”

Tiago Lopes é, indiscutivelmente, um dos mais prolíficos MC’s nacionais. Não só pela maneira genuína como encara o seu rap e a sua pessoa, como pela importância que teve enquanto umas das principais figuras do movimento: seja pelo portefólio de renome, pautado com projetos pioneiros e álbuns de relevo na cena musical nacional, como pelo impacto que o seu hip-hop e R&B deixou, números que não se contam, qualificam-se em singles bangers, concertos e vendas. Don Gula contribuiu com novas estéticas e sonoridades, manteve-se fiel ao seu humor característico e à sua personalidade vincada que tanto se traduz em música.

“Quando era puto, metia o dinheiro debaixo do colchão
Agora eu saio do banco a rir, com dois maços no blusão”

Fotografias de Arquivo

Entrevista | Domi: o jovem promessa!

Domi é um MC que com apenas 18 anos já se afirma a pés juntos no Hip Hop Nacional. Reside no Algarve e já tem milhões de visualizações no Youtube, centenas de fãs e é já considerado por muitos uma das grandes promessas da nova escola.

Hip Hop Rádio teve uma pequena conversa com o artista:

 

Tens apenas 18 anos e já tens milhões de visualizações no Youtube, modéstia à parte, a que achas que se deve uma afluência tão grande?

Essa é realmente uma pergunta que me é muito solicitada e até eu próprio por vezes me questiono o porquê de ter tido uma grande afluência em tão curto espaço de tempo. Num dia era apenas “eu” por assim dizer e no outro tornava-me quase que como uma “promessa”.  Ainda é com alguma incerteza que respondo a essa pergunta, mas quero acreditar que tudo isto se deve ao facto de as pessoas terem visto em mim algo diferente, algo invulgar, algo genuíno pois eu nunca tentei ser, nem sou o típico estereotipo de “rapper” a que as pessoas estão habituadas.
Sempre fui simplesmente eu e transmiti uma mensagem que era genuinamente minha, acho que isso é o que faz não só seres 100% real mas também faz com que as pessoas se interessem por ti.

Consideras que o facto de viveres no Algarve te dá menos oportunidades de expansão comparativamente com, por exemplo, Lisboa ou Porto?

Se me perguntasses isso há uns anos atrás diria sem pensar duas vezes que sim.
Hoje em dia felizmente as coisas têm vindo a melhorar nesse aspecto. Cada vez mais a sociedade
está virada para o mundo virtual e com isso facilmente posso chegar de uma ponta à outra do país em milésimos de segundos sem sequer saber como.
Agora, falando particularmente do Algarve, acho que sempre fomos um pouco postos de parte por assim dizer e apesar de existirem rappers algarvios com nomes de peso no movimento, penso que ainda está por vir o “profeta algarvio”, se é que me entendem. Na minha opinião, para o resto do país o Algarve é aquele “apartamento” que alugas no verão com os teus amigos, convidas mais pessoal do que é suposto, fazes uma festa de arromba, partes aquilo tudo e no dia seguinte vais-te embora e dizes “para o ano há mais” sem sequer teres a decência de pensar que alguém vai ter de limpar os teus estragos no dia seguinte, mas pronto. Sem apostas para além do turismo, é certo que não vamos longe.

Um álbum, está nos teus próximos planos?

Sem dúvida que é um dos projectos que mais ambiciono, contudo, penso que para tal é necessário um pouco mais de maturidade em termos musicais e não só. Quero que o meu álbum seja pensado do início ao fim, que tenha um propósito e uma mensagem maior do que meras faixas construídas aleatoriamente sem sequer se interligarem entre si. Por enquanto o que posso adiantar é que podem esperar mais facilmente um EP.

Qual é o palco que sonhas pisar um dia? E porquê?

Existem realmente alguns que faço questão de pisar se realmente surgir essa oportunidade, mas qualquer um dos nossos palcos de maior nome a nível nacional será um privilégio para mim pois, na minha opinião, não há nada melhor do que tocar para o público Português e sentires que estás “em casa”.

Com quem sonhas um dia dividir uma música?

Tenho muitos artistas com quem seria a maior honra para mim poder dividir uma música, até porque gosto muito de partilhar toda a parte criativa com outro músico e acaba sempre por sair algo muito mais enriquecedor, não só para mim mas como para quem vai consumir a música.
A minha escolha talvez seja demasiado óbvia e corresponda à resposta de todos os rappers que respondem a esta pergunta, mas, para mim, Sam The Kid é e sempre será um verdadeiro génio desta nossa arte e com quem teria o maior privilégio de partilhar uma faixa.

Qual foi, para ti, o álbum de 2016?

Sem qualquer contestação – “Reflexo”, do Dillaz – é sem dúvida, para mim, o álbum de 2016. Vemos um Dillaz com maior maturidade, maior introspecção e com uma maior reflexão. Não só temos que reconhecer mais um grande trabalho lírico a que nos tem vindo a habituar, mas também de temos de admirar todo o trabalho relativo à produção que é da sua autoria.

 

Alguns dos trabalhos de Domi, no Youtube: