Pedro Mafama @ Núcleo dos Anjos 70 – A arte de dançar sentado

No passado sábado dia 19, deste desafiante ano que é 2020, a alegria de experienciar música ao vivo foi-nos devolvida, dentro das regras deste novo normal, no mítico Núcleo dos Anjos 70. O autor desta festa foi nada mais, nada menos, que Pedro Mafama.

O carismático artista lisboeta fez a sua grande entrada descendo as escadas, que se encontravam por cima do palco, ao som de fervorosas palmas da plateia e, abrindo com o chavão “ZIMBORA”, tão característico do mesmo, veio com toda a determinação de fazer dançar o máximo que uma pessoa pode dançar sentada.

Começando por apresentar o  seu mais recente single Não Saio, lançado em quarentena a 3 de abril deste ano, o ritmo manteve-se e  também nós não saímos, à medida que o artista apresentava faixas dos seus dois EP – Má Fama (2017) e Tanto Sal (2018)- como Tomada, Torneira e Fama.

 Sempre acompanhado da aclamação do público que, mesmo de máscara, se fez ouvir, a alto e bom som, as suas músicas com ritmos dançáveis criaram agitação, que embora controlada, foi efusiva. Tudo isto juntamente com os momentos de dança proporcionados pelo artista, levaram o próprio a exclamar “Tá a ficar calor”, uma transição smooth para o próximo single que apresentou, Arder Contigo (2019) . A bonita frase “Eu ato as mãos só para não querer mexer contigo” presente nesta música, fez lembrar que também só atados às cadeiras seria possível não nos mexermos com este som.

Nos intervalos entre cada canção, Mafama expressou o seu contentamento em estar com o público, neste reencontro apelidado pelo próprio como o seu “ primeiro relacionamento depois da quarentena”. O artista avançou ainda que pretendia assim também celebrar esta nova fase da sua carreira, especialmente no Núcleo dos Anjos 70, que confessou ter sido onde tudo começou, no verão, há dois anos. Talvez esta nova fase diga respeito a este momento mais áureo da carreira do artista, recentemente assinado pela Sony Music Portugal.

A agitação continuou com a música Terra Treme, outro single lançado este ano, em colaboração com PEDRO. Segundo o artista, foi a primeira vez que cantou este tema ao vivo, depois de o ter apresentado no Festival #EuFicoEmCasa. O palco tremeu, certamente.

Após fazer novamente o público mexer com Jazigo, seguiu-se outra faixa que partilha com outro grande nome, Dino D´Santiago: Sô Bô. Já em tom de conclusão, levou-nos a um dos sons mais esperados -e também mais populares- Lacrau e terminou a apresentação de músicas do seu repertório com Como Assim.

Mafama tinha, no entanto, uma última surpresa para quem estava presente. Após ter afirmado que não ia permanecer no palco para cantar a última música, apelou ao público para que, quando a ouvisse, evocasse a sua capacidade de interpretação e refletisse sobre “o importante que foi o que está para trás e o que ainda está para vir”. Deixou-nos assim, subindo as escadas por onde entrou e passados alguns segundos, a ilustre música Grândola Vila Morena, da autoria de Zeca Afonso (versão auto-tune, cantada por Mafama), fez-se ecoar pela sala, juntamente com as vozes do público. Foi um bonito momento de reflexão, feita de forma imersiva, numa sala escura, onde predominava uma luz azul forte.

O artista revelou ainda que está a trabalhar num novo disco, pelo qual ansiamos.

Graças às regras impostas por este novo normal, os fãs de Pedro Mafama tiveram assim oportunidade de se tornar mestres na arte de dançar sentados – uma skill fundamental para os tempos que correm- dado o cariz dançável de todos os seus hits. A personalidade  e o carisma do artista fizeram-se notar, através da interação com o público, o que criou uma intimidade e proximidade para com o mesmo, algo muito agradável na ausência da possibilidade de poder ser física. Os ritmos aliciantes, acompanhados de bonitas letras, escritas pelo próprio e por sua vez magnificadas e reinventadas com o auxílio do auto-tune, fazem de Pedro Mafama um artista muito interessante e inovador, a ter em atenção.

Este espetáculo foi então uma boa forma de relembrar como concertos nos podem dar uma sensação de esperança para o que aí vem e distrair por umas horas, o que cimenta a importância da arte nas nossas vidas e o apoio que este setor merece. De realçar ainda o sítio onde tomou lugar este concerto, Núcleo dos Anjos 70, uma comunidade repleta de gente simpática e boas vibes.