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André “Speedy” Garcia: “O truque para me fazeres apaixonar pelas coisas é fazeres-me entender o seu porquê”

 

Nasceu dentro de uma família de artistas e a ligação de Speedy com a arte aparece cedo. Desde uma irmã a dar aulas de música a um pai saxofonista, a relação desenvolve-se rapidamente mas só mais tarde a dança assume um papel de maior destaque, como uma ponte entre a música e a expressão que André procura dela | Por Carolina Costa

A relação entre André Garcia e o que viria a ser a sua “arte” dá-se de forma muito natural, com uma valiosa vertente jazz. Para Speedy, a dança começou a afirmar-se por volta dos seus 15 anos, entre tentativas de moonwalking ao som de Michael Jackson. Numa tarde de verão, juntamente com o seu melhor amigo, decidem experimentar os básicos do hip-hop que viam nos videoclips e, com um rádio e meia dúzia de pilhas, dirigem-se ao parque infantil mais próximo (em Palmela, onde residia na altura), para se “atirarem” ao que seria um talento por descobrir. A brincadeira transformou-se em rotina e a imitação de vídeos tornou-se no desmembrar do movimento para sentir a sensação correta. Acima de tudo, a consciência das partes do corpo que são precisas para controlar certos movimentos começou a ter um papel fundamental.

 

“A partilha era a peça-chave desta crew que tinha como lema ‘Each One Teach One’”

 

Começa a juntar-se um grupo mais sólido que posteriormente se transforma numa crew, o que permite aprenderem com os erros uns dos outros e limarem arestas em conjunto. Eram todos altruístas o suficiente para despenderem do seu tempo a ajudar o outro, a partilha era a peça-chave desta crew que tinha como lema “Each One Teach One”. Ainda no mesmo parque infantil um de cada vez, para não baterem com os pés nos baloiços, fizesse chuva ou sol lá se encontravam eles a treinar. Alguns dias chegavam a dançar com três camisolas vestidas a tremer de frio, se começava a chover e recolhiam o tapete para debaixo de um telheiro à espera que, quando a meteorologia o permitisse, pudessem retomar a dança. Para além do b-boying também se começava a interessar por outra vertente: o graffiti. Este surgiu como uma necessidade de se centrar em si mesmo e estar realmente focado a criar algo. Todas estes componentes contribuíram para que Speedy fosse cada vez mais puxado para dentro da cultura hip-hop.

 

“O sentimento de pequenez, que podia ter sido desmotivante, foi como um estímulo”

 

Os pais não achavam muita piada ao estilo de música. Nos anos 90, o hip-hop nos Estados Unidos estava envolvido em vários escândalos, nomeadamente a rivalidade entre East e West Coast. O pai considerava a cultura uma má influência até ver uma mudança na autoconfiança de André, o breakdance – mais do que algo que lhe dava gozo – era um grupo no qual ele se sentia integrado e que tinha um objetivo comum: o progresso de todos. Em 2003, um ano após terem começado a dançar, participam na sua primeira battle no campeonato nacional de b-boying. Das três da tarde às três da manhã sempre a dançar, descobrem um novo mundo de break em Portugal. O sentimento de pequenez, que podia ter sido desmotivante, foi como um estímulo para se agarrarem a esta paixão com mais força e quererem evoluir ainda mais.

 

“Todas estas influências, pessoas, músicas, foram como peças de um puzzle que ainda se está a montar mas que cada vez mais está a ganhar forma”

 

A arte surgiu como o seu maior veículo de liberdade de expressão. A música, a dança e a expressão artística, bem como a ligação entre estas, faziam com que o hip-hop fosse orgânico e não tivesse limites. Em 2012 teve a oportunidade de trabalhar com André Mesquita, um conceituado coreógrafo que, tal como Speedy, não via limitações nos estilos de dança em termos conceptuais de movimento. Em março de 2017 deu início a uma campanha de crowdfunding, com o objetivo de angariar vinte mil euros para colocar uma prótese. Esta contou com o apoio de muitos, entre eles Slow J que convidou Speedy para participar no videoclip de “Arte”, primeira faixa do seu último álbum, The Art of Slowing Down. A ideia da colaboração surge ainda antes de se conhecerem pessoalmente: foram dois artistas com formas de expressão diferentes que se ligaram intimamente pela mesma visão de arte, encontrando-se como “dois monges da meditação” para a realização de um sonho.

 

“Pareço uma criança a aprender a andar mas com as mãos”

 

O objetivo foi alcançado levando Speedy à cidade que inspirou o movimento em que se insere, Nova York (Bronx), para receber um novo antebraço. Este processo de conhecer a cultura hip-hop e as ruas onde esta nasceu, fê-lo também centrar-se em si mesmo e perceber o que queria realmente para o seu futuro. A adaptação à prótese foi lenta e gradual, “tal como um skater se torna um com o seu skate, a prótese é como uma prancha de skate a quem me tenho de habituar.” Agora com 31 anos, tudo o que veio a consolidar com a prática tem de ser reformulado, os vícios antigos precisam de ser “apagados” em termos de postura para conseguir fazer deste “objeto” parte do seu corpo.

“A sensação que tens quando conquistas um tipo de movimento, com aquela dificuldade do break, há-de ser o mais parecido com o ter um filho. É veres a nascer de ti uma sensação que ninguém pode provocar sem seres tu, faz-te sentir com super-poderes”. André vê a dança como um vício, a procura de sensações novas, o querer mais até que passa a ser uma viagem dentro de si próprio, um egocentrismo em forma de movimento que, ao mesmo tempo, é uma forma de se ligar à música e de mostrar o que está a sentir.

(Fotografias de Arquivo)

 

Tilt, Praso e Nerve ao leme de um barco que nunca afundou

Sábado à noite no Cais Do Sodré. Destino mais que habitual para o dia de semana em questão. Para nós e para muitos “hip-hop heads” a festa estava marcada para o Titanic Sur Mer, bar que costuma acolher vários concertos de hip-hop. Desta vez os comandantes do navio eram Tilt, Praso e Nerve. Tínhamos a certeza absoluta que este barco, ao contrário do outro, não ia afundar. Chegámos ao Titanic por volta das 23:30h (a abertura de portas tinha sido às 23) e já DJ Apu soltava os primeiros beats, ouvia-se muito hip-hop old-school… sabíamos que nos esperava uma noite muito à base de boom-bap. Para quem conhece o espaço sabe que a porta traseira que dá para o cais costuma estar aberta e podemos afirmar que nesta altura da noite estavam mais pessoas nas imediações do que propriamente dentro do bar, muito devido ao calor que se fazia sentir no espaço. Independentemente da temperatura ambiente, esperava-se uma noite quente corrosiva.
O primeiro MC a lançar achas para a fogueira foi Tilt que, mal subiu ao palco, fez com que o pessoal que se encontrava à deriva nas imediações, entrasse no navio e não apenas isso, que se deslocasse até à proa. Com uma frontline bem composta o rapper do coletivo Orteum apresentou-se em palco com Muka e com Dysiled nos pratos. Começou a sua atuação com “Epidural” e ao longo do concerto puderam ouvir-se vários temas dos seus trabalhos. “A cassete está estragada, a cassete está estragada” era o grito que ouvíamos, claro está, era o tema “Loop de Pensamentos” que estava a ser tocado, tema esse que aborda a sanidade mental e que conta com a colaboração de Muka. “Karma d’Éden”, tema também colaborativo com Muka (que a determinada altura do concerto pôde tocar duas músicas a solo) entrou também para a tracklist.
Tilt presenteou o público com um acapella inédito a que decidiu dar o nome de “Carta Aberta Para o Hip-Hop”. Palavras bastantes agressivas, algumas menções e ataques diretos a alguns MC’s. Tudo isto para expor ao público o que era antes o hip-hop e no que se está agora a tornar. Para finalizar o seu concerto, Tilt decidiu chamar a palco os seus companheiros , Mass e Nero e com eles tocou dois temas, “R.U.A.” do álbum “Perdidos e Hashados” de Orteum e “Anda”, tema ainda não lançado mas que a tripulação do Titanic pôde escutar nesta noite. Estava dado o mote para uma noite que se esperava que continuasse a ser alucinante e corrosiva.
O senhor que se seguiu foi Praso. A transição para o MC de Sines que se fez acompanhar em palco com Jugador, Subtil e o seu DJ, Richard Beats quase não se fez notar, o público não queria pausas. Sabemos que Praso se sente completamente em casa no Titanic, não fosse este o palco de dois dos últimos concertos de Alcool Club. A primeira faixa foi “1,86 do céu” e o público reagiu logo de forma calorosa, já sabiam para o que vinham, ouvir hip-hop jazzy, do melhor que se faz em Portugal. Praso passou por toda a sua discografia, pudemos ouvir temas como “Sim à Vida”, “Tanto Não Chega”, “Sindroma de Estocolmo” assim como temas mais recentes que têm sido lançados de forma solta para o canal do YouTube como “Artesanacto”, “Não procures a explicação”, “Lucy” e “A culpa não é do nosso romance”.
Houve também espaço para cada um dos 2 MC’s que acompanhavam Praso em palco soltar o seu accapella. Na reta final do concerto tivemos o adorado “Qualquer coisa e um pouco de jazz” (é impressionante a forma como todos sabiam a letra de cor e cantaram em uníssono), a clássica faixa de Alcool Club “Fico” e um acapella de praso que antecedeu a última faixa cantado pelo rapper “Raiva de ontem”, coincidentemente a última faixa lançada por Praso que irá fazer parte do seu novo álbum “Lev” com data marcada para 2018 e que deixou todos com água na boca. Praso é a prova de que o hip-hop e o jazz combinam e de que maneira, pena que sejam poucos em Portugal os que combinam os dois estilos.
Findado o segundo concerto já se sabia o que vinha a seguir. Nerve era o senhor que tinha como função fechar a noite em termos de rimas. Ao contrário da transição para Praso, para Nerve fez-se um compasso de espera. O rapper bracarense apareceu em palco sozinho, como é habitual, para um concerto em que se ia poder ouvir maioritariamente temas do seu aclamado álbum “Trabalho e Conhaque”. Nerve abriu as ostes com “’98”, passou depois por “Deserto”, “Água do Bongo” e “Coincidências”. Houve também espaço para um acapella do MC para quem “A Vida Não Presta” (também tem direito) antes de uma pausa no concerto não agendada. Uma das colunas deixou de funcionar e foi preciso proceder à reparação. “Epá lindo, espetacular” disse Nerve quando voltou a palco após a reparação, num registo em tom de ironia que lhe é tão habitual.
Seguiram-se temas como “Lenda”, “Acena” (faixa em conjunto com Blasph) que contou com a presença do mesmo em palco e “Cidade Perfeita”. “Bom e agora vamos para a parte fofinha” disse-nos Nerve antes de tocar os temas “Gainsbourg”, “Pobre de Mim” e “Nós e Laços”. Tendo em conta o artista de que estamos a falar, estas podem sim ser consideradas as suas músicas de amor, por mais estranho que isso pareça. O MC do (ainda existente) sistema intravenoso finalizou o concerto com “Conhaque”, “Monstro Social” e “Subtítulo”, a única faixa do rapper que conta com videoclip. Nerve é um autêntico poeta e além disso um excelente executante. É de salientar a forma como solta todo aquele “palavreado” sem se enganar ou tropeçar uma única vez e como consegue colocar o público completamente comprometido com o seu concerto, que acaba sempre por ser bastante intimista.
A after-party ficou a cargo de DJ Apu, no entanto, quase todo o público do Titanic abandonou o barco após o concerto de Nerve. Este navio não se afundou, mas sabemos que mesmo se isso tivesse acontecido, os seus tripulantes não se importavam nada e afundavam com ele pois se “a cassete está estragada” e “a vida não presta”, tudo o que precisamos é de “qualquer coisa e e um pouco de jazz”.
Artigo por: Daniel Pereira
Fotografias por: Carlos Pfumo e Daniel Pereira