Hip Hop Rádio

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rEPORT SDC: HHR À CONVERSA C/ BISPO | PLUTÓNIO | iVANDRO | AJAXX

Estivemos à conversa com BispoPlutónioIvandro e Ajaxx sobre as suas carreiras, a volta aos palcos, o panorama atual da cultura Hip-Hop e tantos outros temas, que aconteceram durante a nossa passagem no festival Sol da Caparica.

Ouve abaixo esta emissão conduzida por Daniel Pereira

Vê ainda fotografias de alguns momentos Hip-Hop que aconteceram na edição deste ano do festival, por Nayara Silva e Bruno Marques.

Fmm sines 2022: há tanto hip-hop por esse mundo fora

Passados dois anos estivemos de volta ao festival mais multicultural de Portugal. Para a HHR, o final de julho é sempre de descoberta porque vamos a Sines, onde tem lugar o Festival Músicas do Mundo. Vem connosco e descobre o Hip-Hop, em toda a sua extensão mundial. | Por Daniel Pereira

É um facto que neste ano não tivemos nenhum rapper português presente no cartaz do FMM no entanto o Hip-Hop e a cultura urbana estiveram bem presentes.

O dia 27 de julho trouxe-nos Flavia Coelho Soundsystem e a cantora brasileira prestou uma atuação bastante enérgica em que o fast flow foi imagem (ou som) de marca. Logo de seguida foi a palco Dubioza Kolektiv, grupo bósnio, cheio de pujança, que mistura o rock, o punk e o rap.

No dia seguinte tivemos o “dia do Hip-Hop” que contou logo às 18h com Bia Ferreira num concerto cheio de “barras” que nunca mais acabavam, no bom sentido. A partir das 22h atuou James BKS, que acompanhado por Gracy Hopkins e Anna Kova e tantos outros músicos, apresentou uma autêntica “Hip-Hop Party” em que não faltou o hit “New Breed”. Seguiu-se Ana Tijoux, rapper franco-chilena, que deu um concerto que tocou, e cativou, todo o público presente no palco do Castelo.

No último dia de FMM tivemos Pedro Mafama, artista emergente português, que entrevistámos, e que te conta abaixo, em primeira pessoa, como foi o seu concerto, e muito mais…

O cartaz fechou com a atuação de Batida B2B DJ Dolores que contaram com várias músicas de rap “mixadas” com tantas outras sonoridades.

Adoramos o FMM e a comunhão que só este festival sabe fazer entre estilos. Afinal de contas Hip-Hop é isso mesmo: é união, é mistura.

Fotografias por Daniel Pereira e Carlos Pfumo

REPORT + ENTREVISTAS HHR | NOS ALIVE C/ BEATRIZ FREITAS

1 emissão: 12 entrevistas!

Estivemos no NOS ALIVE e hoje contamos-te tudo
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Beatriz Freitas esteve à conversa com muitos dos artistas que fizeram parte do cartaz e que vão revelar como foi a sua passagem pela edição deste ano do festival. E sim, temos algumas surpresas para ti: curiosidades, exclusivos, novos lançamentos e muito mais!

Uma emissão especial que conta com as entrevistas de:

Eu.clides – (02:18)

Dino D’Santiago – (10:00)

Amaura – (16:54)

Jura – (23:46)

Pedro Mafama – (27:34)

DJ Danifox – (34:02)

Lord XIV – (39:43)

Yuri NR5 – (44:28)

Holly – (52:02)

Russa – (56:55)

Da Weasel – (1:08:31)

Cintia – (1:10:53)

Ouve abaixo!


Edição de áudio por Nuno Mina.

Na escola que é o Hard Club, os Grognation são os melhores professores

No sábado passado dia 14, tivemos encontro marcado no Hard Club com os Grognation para uma aula de anatomia.

Nada é por acaso, nem mesmo a escolha desta data que o grupo revelou ser especial. Neste que foi o primeiro concerto de apresentação do álbum “Anatomia De Grog “ não houve jogo sujo nem orelhas quentes, chapadas de luva branca.

O concerto foi uma viagem anatómica onde de música a música sentimos um upgrade na forma como estas eram cantadas. Assistimos a  um trabalho que mistura a sonoridade de Sam The Kid com as ideias do coletivo, mas também tivemos a oportunidade de viajar a sons mais antigos que o público ia pedindo. Estes professores da “nova” escola andam na via há mais de 10 anos e com eles não há o politicamente (in)correto: $em avisar, lá foram dando a sua aula, examinando o body desde a cara ao calcanhar.

No próximo sábado, dia 21, vamos ter a segunda vaga desta apresentação no Time Out Market. Deles podem esperar a máxima energia e máxima entrega porque nem faria sentido de outro modo.

Nós vamos lá estar, e tu? Vais mesmo perder a aula com os melhores professores de Portugal e arredores?

QUEIMA DAS FITAS PORTO 22: O lembrete que todos precisávamos

Passado tanto tempo desde a última edição da queima das fitas, não havia melhor maneira para voltar: uma semana cheia de Hip Hop.

O que para  muitos significava apenas o início do mês de maio, para os estudantes aquela noite de sábado a bater a 00h significava o início da melhor semana do ano. Loner Johnny foi o primeiro a estrear o palco principal do Queimódromo ( e deixem-me que vos diga que a tarefa não podia ter sido melhor entregue). A nave vai em tour e nós fomos com ela porque o verdadeiro Trapstar mostrou-nos  que nem o DAMN/SKY é o limite.

Sem adornos, banda ou qualquer tipo de “distração”, Profjam sobe ao palco apenas depois do espaço estar todo arrumado e só existir uma coisa no palco: ele próprio.  Na plateia, o pessoal estava eufórico.. Prontos para gritar WOUW. Prof, desta vez todo #000000 e não #FFFFFF, estava pronto para matar o game. Não estávamos em Malibu mas parecia: energia quente e intensa que só uma água de coco poderia fazer arrefecer o ambiente. 

Domingo é dia de família e o Julinho KSD e o Plutónio encarregaram-se de não falhar com a tradição.  Julinho trouxe as suas influências Cabo Verdianas ao palco do Queimódromo, pois só assim é que Sabi na Sabura.  Acompanhado do coletivo Instinto 26 e do seu mix cultural, atuam todos sincronizados como se o beat falasse com eles. Deste concerto só se podia esperar duas coisas: frescura e originalidade.  Plutónio é, tal como o Julinho, um artista que tem as suas origens vincadas onde procura sempre encontrar um equilíbrio entre o rap e o R&B, entre a dança e a vida de rua. 

A sua atuação teve toda uma preparação demorada não quisesse contar algumas Histórias da sua Life com o palco organizado visualmente.  A sua identidade é inconfundível no entanto pode confundir os mais sensíveis: Desde o rap cru, ao rap cantado, ao rap agressivo, ao rap emocional… Disse e repito,  Plutónio é assim que canta, é assim que atua e é assim que é – inconfundível. 

Quarta feira foi dia de Wet Bed Gang e Dillaz. Foi a primeira noite esgotada da queima, mas também, pudera não é? Por muito que já fossemos a meio da semana e isso pudesse significar algum cansaço, a cabeça só sabia dizer go, go, go. 

Não foi a primeira vez que Wet atuaram na queima das fitas, mas pareceu. Porque destes Filhos do Rossi, Malucos e Sem Juízo nunca se sabe o que se esperar. Não importa de onde éramos, naquele momento éramos todos do mesmo Bairro não querendo ninguém Voltar para Casa.  Selvagens, sem remorsos e imparáveis, são assim, inesquecíveis. Porque goste-se ou não se goste, é impossível ficar indiferente à vibe deste grupo. E isso foi, mais uma vez, comprovado. 

Quanto ao Dillaz, este nunca tinha pisado o palco mas parecia que se conheciam desde sempre. Diz-se por aí que a música é a oitava maravilha do mundo e o Dillaz não poderia ter arranjado melhor sítio para esta morar:  no Oitavo Céu

Se com ProfJam sentimos a vontade de beber água de coco, Dillaz abriu-nos o apetite para a salada de fruta mais exótica de sempre: Só com Maçãs, Mangos e Papaias.  Este protagonista mostrou-nos que não há caminho errado e que sonhar nesta vida não chega.  Entre as variações de sonoridades que prometem, vimos Dillaz, ou André como preferirem, a transcender e quebrar barreiras, finalizando da melhor maneira esta que foi a primeira noite esgotada da semana: com saudade. Infelizmente, a semana estava a chegar ao fim e a queima das fitas despedia-se do Hip Hop na penúltima noite (sexta feira) com Nenny.

A Nenny representa a jovialidade, a frescura e a wave da  música de hoje e de amanhã, mas tem em si também uma maturidade fora de série. Proporcionou-nos um dos  momentos mais emocionais da semana: chamou a sua mãe ao palco e juntas cantaram intensamente para todas as Donas Marias do Mundo. A ementa era sushi e uma boa dose de tequila à mistura. Nenny, com a sua aura jovem e cheia de energia, não deixou o público ficar indiferente tornando assim a segunda e última noite da semana esgotada inesquecível. 

Assim foi a queima muito esperada pelos estudantes que há 2 anos já não a viviam: intensa, cheia de música para todos os gostos, e acima de tudo, um lembrete de como é bom voltar à normalidade. 

Jüra: “Quando estou muito cheia de emoções, descarrego na música e elas nascem”

Jüra é uma das novos nomes do panorama musical português, mas as artes já lhe correm nas veias há vários anos: a artista já esteve ligada ao circo e à dança. Numa altura em que se prepara para atuar em estreia absoluta, na Time Out (Lisboa), no próximo dia 19, a Hip Hop Rádio esteve à conversa com a artista para saber mais sobre o seu primeiro EP.

Foto: Keveni Stphvne

Para quem não te conhece, uma vez que começaste a lançar músicas só em 2020, como te caracterizas enquanto artista?

Obrigada pelo convite e por me receberem. Essa pergunta não é nada fácil para mim… não sei como é que me caracterizo, mas sei que tudo o que eu faço e a minha arte é uma consequência da pessoa que eu sou, da maneira como eu me sinto e acho que isso por si só vai caracterizar e mostrar logo, a partir da minha arte, aquilo que eu sou.

Este teu novo trabalho intitula-se “Jüradamor” e já são conhecidos alguns temas. Como é que tem sido o feedback do público até agora?

Tem sido muito bom. As pessoas têm ouvido, têm aderido e algumas têm-se surpreendido, o que é fixe, e a família está a crescer. Já conseguimos chegar a mais sítios, a mais pessoas, a mais corações e é fixe.

Como é que descreves todo o processo criativo ao longo deste EP?

As minhas canções nascem naturalmente, é uma expressão e uma consequência: é quando eu preciso e quando já estou muito chateada com a vida ou mesmo feliz. Quando estou muito cheia de emoções, descarrego na música e elas nascem, por isso é uma cena muito fácil. Não tenho um tempo ou um modo, é mais uma expressão.

O que significa para ti este EP, sobretudo sendo o primeiro trabalho mais sério?

É a minha apresentação, é a forma de as pessoas me conhecerem. Nenhuma destas canções nasceu com o intuito de lançar, mas sim de me expressar e então é tudo verdade e é tudo sobre o que é sentir e claro, consequentemente, isso vai chegar a outras pessoas, porque todos sentimos coisas e é um bocadinho uma apresentação do que é a minha arte.

Foto: Keveni Stphvne

Neste EP está muito presente a temática do amor. É um caminho que pretendes continuar a seguir na tua arte ou simplesmente era o tema que te fazia mais sentido abordar neste momento?

Pois, não sei bem… acho que a vida me vai dar o tema a escolher. Também me interesso muito sobre outras questões que são importantes hoje em dia, mas aí se calhar vou pensar mais sobre o que quero escrever. Como estas foram mais intuitivas, é tudo sobre o que eu sinto… eu sou uma pessoa muito emotiva e falei mais sobre isso. Também é uma coisa que gosto – a emoção, o que é o amor e a dor, mas decerto que vão surgir outros temas para abordar.

Em alguns temas teus é possível vermos várias palavras juntas numa só, como “Aluzétudo” ou mesmo “Jüradamor”. Qual é o teu objetivo ao fazer estas junções: apenas uma brincadeira com as palavras ou também de alguma forma uma “marca” da tua identidade artística?

Eu acho que sim, transformou-se nisso… comecei a escrever assim no secundário. Andei no Chapitô, que é uma escola de circo, e a certa altura comecei a escrever como falava, porque às vezes comemos palavras entre umas e outras, mas começou a surgir isso mesmo antes de pensar em tudo isto de uma carreira ou construir alguma coisa. Escrevo assim em mensagens com os meus amigos, com a minha família, com toda a gente… então é uma coisa super natural que acaba por também vir para a minha área artística e acho que se torna uma marca e algo que depois as pessoas vão ver logo que é meu.

Em termos de influências, tens algum artista que te tem servido de inspiração/referência, em especial neste EP, ou mesmo ao longo da tua carreira?

Eu acho que nós somos muito influenciáveis e é normal, estamos sempre a ouvir e a receber informação – ainda por cima agora com os telemóveis e o Youtube – e temos acesso a tudo, mas não tenho assim ninguém a quem recorra. Sei que de certeza tenho muitas influências de tudo o que ouço: gosto de ouvir um bocadinho de tudo, acho que tudo tem lugar e não tenho uma referência que possa dizer que é concreta, mas acho que tudo influencia. Tudo o que ouço influencia, tudo o que eu vivo… então não tenho assim nenhum nome que possa dar.

Foto: Keveni Stphvne

No próximo dia 19 apresentas este EP na Time Out (em Lisboa). Como te sentes ao estar prestes a apresentar pela primeira vez em palco uma obra tua?

Estou muito feliz! Já estive nos palcos noutras áreas – no circo e na dança -, mas agora é completamente diferente e é a primeira vez que me vou apresentar mesmo a cantar em público. É o meu primeiro concerto de sempre, mas estou super feliz por poder agora partilhar [o EP] mesmo ao vivo, ver as pessoas… estou muito feliz, a minha banda é incrível, os ensaios estão a ser espetaculares, e já estava na hora… estou muito ansiosa e já só quero isto!

De que forma é que achas que o facto de seres uma pessoa já com um background ligado à dança, por exemplo, pode ajudar-te em palco, desta vez enquanto artista de música? Ou seja, sentes que essa experiência em palco te vai ajudar ou é completamente novo e diferente, tendo em conta que agora vais cantar e não dançar?

Acho que me ajuda, sem dúvida… eu costumo dizer que a vida me preparou para onde estou agora, ou seja, passei por todos estes caminhos e agora vou fazer a minha cena… e todas essas áreas vão-se cruzar, porque são áreas que eu amo. A música é a minha vida, eu amo música, é a forma como me expresso e é o que traduz mesmo o que vai em mim, mas todas as outras áreas se cruzam… então eu cada vez mais quero que elas se interliguem e que possa fazer mais do que um concerto ou um espetáculo.

Para este concerto, o que irás buscar mais da dança e de todas as outras áreas em que já estiveste?

O à-vontade, a experiência… é uma cena incrível. Claro que vou estar super nervosa, mas sinto-me preparada… não há nenhum artista que entre em palco sem nervos [durante] a vida toda, mas sinto essa preparação. O rigor é também influencia muito e o estar em palco já não é uma novidade para mim, então acho que vai ser diferente, mas sei que todo esse background me dá um à-vontade maior e me vai dar liberdade para eu me expressar também através do corpo enquanto canto.

Tendo em conta que se trata de um concerto “especial”, o que se pode esperar desta noite?

Vai ser muito especial. É o primeiro de todos e quero muito que venham partilhar isto comigo. Estas canções vão ser apresentadas ao vivo pela primeira vez e vai ser uma experiência nova, porque é com banda e então é diferente. Vamos fazer um espetáculo corridinho e vamos ter canções novas… vai ser muito fixe. Quero muito que venham!

Como imaginas o público naquela noite? Já imaginaste algo na tua mente?

Já sei que os meus amigos e a minha família vão estar lá e vai estar tudo louco (risos), um amor imenso… mas quero muito ver caras novas e partilhar isto com toda gente.

Para finalizar, o que esperas agora alcançar a nível do EP e mesmo na tua carreira?

A nível do EP, quero rodá-lo, quero ir a mais sítios… vai ser o primeiro concerto, mas quero muito fazer mais. Acho que o que vale mesmo é apresentar [o trabalho todo] frente a frente, ver e partilhar isso com as pessoas. Na minha carreira é continuar a fazer canções, evoluir sempre e conhecer novos lugares, pessoas, sonoridades…

Maze: “É isso que me alimenta: continuar a pôr-me em rimas”

Várias são as estradas que Maze já percorreu, trajetos com vista para rimas e ideias, longos caminhos onde a gravilha pisada sempre foi feita de letras. O novo projeto que junta o membro de Dealema ao produtor Spock pauta-se pelo registo de spoken word e vê a luz do dia após longo processo de maturação. “Simbiose” é uma longa viagem composta por 20 temas. Entre devaneios e confissões, o novo álbum foi apenas ponto de partida para uma conversa que teve a palavra ao centro.

Começamos o álbum com um aviso à tripulação, umas primeiras palavras que contextualizam o ouvinte. Pedia-te exatamente este mesmo jogo: para quem ainda não carregou no play, o que é que vai poder encontrar?

A primeira faixa começa como se estivesse a receber o ouvinte para essa viagem, como se o estivesse a receber no veículo que é este disco. É um disco com vinte faixas e muitos ambientes, com um percurso delineado para passar por vários pensamentos, sentimentos e induzir vários estados. Todas as faixas estão ligadas em pequenos pormenores que dão essa cola ao disco. Quer eu, quer o Spock, gostamos desses álbuns à antiga que contam histórias e têm um fio condutor. É dessa viagem que este disco se trata, obrigar o ouvinte a ir para esse sítio interno de estar a ouvir as minhas palavras – ver-me quase como um espelho – e ver-se a ele refletido.

Em “Missiva”, referes “o spok deu o mote, eu soltei palavras”. Como é que foi o processo criativo? Ainda para mais quando existe um longo tempo de produção foram três anos.

Essa rima é muito especial porque nasce tudo precisamente daí. Quando eu digo que o “spock deu o mote” refiro-me ao momento em que ele comunicou comigo e enviou-me alguns beats. O beat que deu origem a “O Negro Luto”  ressoou completamente em mim. Escrevi logo a música e  foi aí que começou a nossa ligação, há mais de três anos. A partir do momento em que a tivemos cá fora percebemos que tínhamos um longo caminho pela frente, porque os nossos estilos encaixavam perfeitamente e eu tinha muitas coisas para dizer nos ambientes que ele cria: revejo-me completamente no trabalho dele. Então essa faixa foi mesmo fundamental. Depois a nossa relação foi crescendo: começou com um contacto digital e de repente cresceu para uma relação de amizade, fomos acompanhando as transformações de vida um do outro, ao longo destes anos, à medida que íamos construindo este disco. É uma história bonita.

Trabalharam de forma presencial?

Completamente. Quase todas as faixas foram gravadas antes de entrarmos nessa reclusão forçada. Depois fomos ultimando e fazendo algumas coisas digitalmente nesse período e regravámos uma ou outra, já depois do confinamento. Este disco já está feito e a parte criativa está fechada há algum tempo.

E como é essa parte criativa? Escreves muito de “rajada” ou editas-te muito?

Depende. Por exemplo, o trabalho que fiz com o Azar Azar, “Sub-Urbe”, escrevi-o numa semana. Este disco foi uma coisa muito mais maturada em que ia recebendo os instrumentais, ia pegando nos que me diziam algo naquele momento ou em que estava no estado de espirito para escrever naquele dia. Foi um processo mais demorado e ainda bem. Tive tempo para o amadurecer e para o ver com mais distancia e para criar essa cola que faz a passagem das músicas e que as junta todas nessa simbiose. Algumas até reescrevi: fui aprimorando porque havia esse tempo de não pôr o disco cá fora.

“Não fabrico a partir da literatura dos outros” referes em “Densidade do Vocábulo”. Ainda assim, contas com várias referencias. “Sem Arrependimentos” começa com um poema de Mário Quintana. Qual é a tua relação com as palavras dos outros? Lês muito ou ouves muito fora do universo Hip-hop?

É uma boa pergunta, confronto-me com ela várias vezes internamente. Gosto muito de ler, prosa e poesia, porque escrevo e vou gostando de perceber o outro: o outro vai-me mostrando que eu também tenho coisas para criar que são minhas. Gosto de ver outras perspetivas. Mas sempre com essa distância que eu falo nessa música. Eu vou-me compondo de coisas que vou absorvendo, como uma esponja, mas quando crio, apesar de ter isso tudo cá dentro, sai tudo da minha essência e da minha voz própria. Faço uma reciclagem e uma separação sempre que estou a criar, faço quase a pergunta de “isto é meu?”, “de onde é que isto vem?”, porque para mim só faz sentido se for realmente meu. Mas, de facto, nós somos compostos por tudo o que vamos absorvendo na vida não só as nossas experiências, mas também o que vamos lendo, vendo. Uma professora minha citava muitas vezes um autor e dizia: “nada nasce do nada, o novo nasce do velho. Por isso é que é novo”. As coisas que nos compõem alquimicamente transformam-se para gerar alguma coisa nova. E eu tento fazer sempre isso. Não copiar fórmulas. Olha o exemplo do rap português: a minha relação com o rap português é de alguma distância. Não consumo muito, vou ouvindo algumas coisas que eu reconheço e admiro, mas não consumo diariamente. Ouço discos, mas não os repito, precisamente porque quero impedir essa contaminação que fica a um nível subliminar. Às vezes ficam aqui coisas que não sabemos bem porque é que ficam e depois já estamos a usar a voz do outro, um flow ou uma expressão. Eu tento minimizar isso.

Recuando ao tema do tempo, que refere Mário Quintana, em “Que horas são?” são bem vincadas as mensagens referentes à fome, refugiados e guerra. É urgente sermos ativos?

É muito urgente começarmos a crescer em empatia, já deveria ter sido um exercício que deveríamos ter feito há muitas décadas. Estes processos de evolução de consciência são muito lentos e, como eu digo nessa música, espero presenciar coisas que acredito que possam acontecer nesta encarnação. Acho que estamos num ponto de viragem em que tem de haver um despertar massivo, não só um despertar, mas uma chamada para a ação direta, para nas nossas vidas pormos em prática e sermos essa engrenagem que causa transformação a cada dia, em cada pensamento, em cada emoção.

“O Negro Luto” é a faixa mais pessoal e íntima de todo o álbum. A escrita serve como terapia? 

Comecei a escrever por causa disso: queria-me resolver. Comecei a fazer esse trabalho interno e percebi que a escrita tem esse efeito transformador. Tenho-o feito ao longo de toda a minha carreira, mas agora estou num ponto diferente. Não consigo que as minhas letras não tenham esse conteúdo autobiográfico que me resolve, mas mais do que isso estou numa fase da vida em que estou dedicado à pedagogia e quero é ensinar essas fórmulas e passa-las aos jovens. Acredito que a transformação resulta fundamentalmente de uma mudança a nível educativo.

Em “Viva” referes exatamente isso “tenho a alma em rimas”…

Vou espremendo a minha alma e vou-a transformando em versos que depois canto, que vão parar aos ouvidos das outras pessoas e que ficam a ressoar nelas. É um ciclo. Depois elas vêm ter comigo e dizem que se viram refletidas em mim e fecham o ciclo aí. E isso é que me alimenta: continuar-me a pôr-me em rimas.

Já vais em trinta anos de carreira…

Não faço muitas contas (risos). Tenho 43, devo ter começado a escrever aos 15, já deve ser por aí…

No final de tantos anos, o que é que te falta escrever?

Falta-me escrever muita coisa. Sinto que vou tendo uma produção constante quer em discos meus ou participações, mas até aqui foi um processo de escrita para rap, como rapper, pelo menos do que pus cá fora, e estou a chegar a uma fase da vida em que a minha relação com a palavra está a transformar-se. Não vou deixar de ser o rapper que sou e que sempre que fui porque gosto de escrever neste formato de rap, mas começo cada vez mais a pôr os meus poemas de outra forma e ir por esta estrada da spoken word…

Este álbum nasce exatamente daí…

Completamente e tenho gravado coisas que vão nessa direção. Mas o que me falta escrever é muita coisa em prosa e tenho a certeza que nos próximos anos está reservado para mim dedicar-me algum tempo a escrever em prosa, escrever livros. Acho que é o que me falta escrever.

E ir mesmo por esse caminho, não digo deixar a música de lado, mas…

Não, não. (Risos) Isto tudo em simultâneo. Nunca são coisas que anulam as outras. Eu não deixo de ser o rapper que sou só porque faço uns temas de spoken word, ou recito poesia acapella, ou porque estou a escrever livros ou a pintar telas, estas coisas convivem; a criatividade em mim vai-me guiando, vai-me pedindo para sair. É só uma questão de eu perceber qual é a melhor ferramenta de eu pôr cá fora o que eu preciso de extrair de mim.

“Simbiose” é “um ponto de luz” que pretende criar novas estradas. Por onde é que vais levar este projeto?

É mesmo isso: é uma viagem que te leva a um sítio, a um ponto de luz que atravessa e nasce uma nova realidade. E isso é uma continuidade. Eu e o Spock durante o processo todo percebemos que temos muitas músicas para fazer e que queremos dar continuidade a este disco. Já há músicas na calha, já há temas alinhados e esboçados para fazermos um novo trabalho ainda com este fresco cá fora. Este disco vai ter continuidade certamente para breve. O Spock continua nas estradas dele, tal como eu nas minhas, enquanto vamos fazendo este trabalho. Vou abraçando essas estradas novas que me surgem e que estão muito relacionadas com a palavra, mas noutro formato, mais nessa palavra dita.

Braga a bordo do Expresso do Submundo

Os anos passam, o brio permanece. Se por um lado se cimenta a maturidade de Dealema, por outro continuam bem vincadas a irreverência e ousadia que os acompanha desde 1996. O Expresso do Submundo atracou em Braga e o Lustre abriu portas a uma noite pautada por um ambiente familiar, onde foram várias as notas de humor que pintaram aquela que se tornou, por momentos, a nossa casa.

DJ Guze girava os primeiros discos e a porta de entrada não tinha descanso: era longa a fila de pessoas que esperava entrar já a pensar na abertura do concerto. Rato54 entra para aquecer e afinar as vozes da plateia, iniciando o bom ambiente da noite: foram excelentes minutos com o rapper portuense, que só souberam a pouco porque o tempo que lhe era destinado era curto.

Mundo Segundo põe o pé no palco e atrevidamente pica o público, “toda a gente já se tinha esquecido de Dealema?”. O último concerto pré-pandemia de Dealema tinha sido neste mesmo palco para onde agora subiam . “Bom dia”, emana alegria por todos os cantos do Lustre. Seguidamente, vamos até ao Fado Vadio e, posteriormente, Escola dos 90 traz-nos recordações de um tempo que metade do público viveu e a outra metade apenas agora experienciava.

A porta foi esquecidamente deixada aberta e tons encarnados começaram a entrar no recinto. Pedia-se que se levantassem as mãos, entoava-se a uma só voz “esta casa tem demónios”; mas não só, também amor. O tema de não violência e liberdade já iniciado por Rato54, tinha agora palco:a sala do Lustre transformava-se na “Sala 101“.

Mundo Segundo prepara o publico para o que advém dizendo sem merdas que é “um dos melhores temas de sempre”. DJ Guze engana-se no beat a lançar e o MC do Porto não perde a oportunidade para referir que muitas vezes “DJ Guze é mais DJ Gozo”. A sala ri-se, o engano é a prova viva que os temos ali.

Acertadas as agulhas, emana das colunas “Brilhantes Diamantes” de Maze. Seguidamente, a bússola gira para Mundo Segundo com “Bate Palmas”. Recua-se depois até 2003 para um álbum que vai a caminho das duas décadas, “Dealema”. Entre a viagem pelos melhores temas do grupo, Expeão distribui elogios pela escrita dos colegas e confessa que está farto do rap do “blim blim”, levando a casa a reagir euforicamente. O humor continua, a energia de Expeão é contagiante, e este está tão enérgico que até faz uma bola de espelho desprender-se do teto. Mundo atira que ele é “o último rockstar”. Algo que nunca caiu foi o concerto: de faixa a faixa, entre sorrisos e batidas, escrevia-se uma bela noite de Hip Hop.

Mas o tempo não para e antes de Verdadeiros Amigos encerrar a noite, Mundo refere que nunca se sabe o dia de amanhã. O melhor será aproveitar cada concerto do coletivo como se fosse o último, pois, como nos bem ensinaram e se entoava na penúltima música da noite, nada dura para sempre.

A música é para toda a vida, e este festival também!

Parece mentira mas é verdade, após 2 anos parados, os festivaleiros podem agora voltar a este que é o habitat natural da música: o Vodafone Paredes de Coura está de volta!

Localizado no sítio do costume, o Vodafone Paredes de Coura conta com mais de 25 anos de história! Nasceu pelas mãos de um grupo de amigos que apenas queriam passar “um bom bocado” e hoje é considerado um dos maiores festivais de Portugal sendo que já foi considerado como um dos cinco melhores festivais de verão da Europa. 

Além das boas paisagens e ambiente envolvente, a diversidade de artistas é sem dúvida o que torna este festival tão especial.

Entre Princess Nokia, Sam the Kid com Orquestra e Orelha Negra, Conjunto Corona e muito mais.. A verdade é que o Paredes de Coura não é o mesmo sem o melhor cabeça de cartaz: TU!

Não te esqueças de dar uma olhadela no cartaz, sabemos que não te vais arrepender! De dia 16 a 20 de Agosto temos encontro marcado na Praia Fluvial do Taboão. Nós vamos lá estar, e tu? Vais mesmo deixar escapar a oportunidade de viver este que é o habitat natural da música? 

Podes garantir o teu bilhete aqui.

Até já! 😉 

Sérgio Godinho recriado pela mão da cultura hip hop

Até 22 de abril vão ser revelados novos singles em que se cruzam alguns dos maiores nomes da cena Hip Hop com clássicos da obra de Sérgio Godinho.

SG Gigante é o nome do projeto que pretende “recriar” Sérgio Godinho através da cultura Hip Hop. Capicua foi a responsável pela coordenação e por dar asas a este projeto, e contamos já com duas faixas disponíveis.

Que Força É Essa” é o nome da música que estreou o projeto e junta Nerve, Keso e Russa.

Com participação de Papillon, Valas, Amaura, e produção de Charlie Beats, “O Primeiro Dia” levanta mais um pouco a ponta do véu que é um SG Gigante, e este segundo single já se encontra disponível em todas as plataformas digitais.