Hip Hop Rádio

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Fmm sines 2022: há tanto hip-hop por esse mundo fora

Passados dois anos estivemos de volta ao festival mais multicultural de Portugal. Para a HHR, o final de julho é sempre de descoberta porque vamos a Sines, onde tem lugar o Festival Músicas do Mundo. Vem connosco e descobre o Hip-Hop, em toda a sua extensão mundial. | Por Daniel Pereira

É um facto que neste ano não tivemos nenhum rapper português presente no cartaz do FMM no entanto o Hip-Hop e a cultura urbana estiveram bem presentes.

O dia 27 de julho trouxe-nos Flavia Coelho Soundsystem e a cantora brasileira prestou uma atuação bastante enérgica em que o fast flow foi imagem (ou som) de marca. Logo de seguida foi a palco Dubioza Kolektiv, grupo bósnio, cheio de pujança, que mistura o rock, o punk e o rap.

No dia seguinte tivemos o “dia do Hip-Hop” que contou logo às 18h com Bia Ferreira num concerto cheio de “barras” que nunca mais acabavam, no bom sentido. A partir das 22h atuou James BKS, que acompanhado por Gracy Hopkins e Anna Kova e tantos outros músicos, apresentou uma autêntica “Hip-Hop Party” em que não faltou o hit “New Breed”. Seguiu-se Ana Tijoux, rapper franco-chilena, que deu um concerto que tocou, e cativou, todo o público presente no palco do Castelo.

No último dia de FMM tivemos Pedro Mafama, artista emergente português, que entrevistámos, e que te conta abaixo, em primeira pessoa, como foi o seu concerto, e muito mais…

O cartaz fechou com a atuação de Batida B2B DJ Dolores que contaram com várias músicas de rap “mixadas” com tantas outras sonoridades.

Adoramos o FMM e a comunhão que só este festival sabe fazer entre estilos. Afinal de contas Hip-Hop é isso mesmo: é união, é mistura.

Fotografias por Daniel Pereira e Carlos Pfumo

REPORT + ENTREVISTAS HHR | NOS ALIVE C/ BEATRIZ FREITAS

1 emissão: 12 entrevistas!

Estivemos no NOS ALIVE e hoje contamos-te tudo
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Beatriz Freitas esteve à conversa com muitos dos artistas que fizeram parte do cartaz e que vão revelar como foi a sua passagem pela edição deste ano do festival. E sim, temos algumas surpresas para ti: curiosidades, exclusivos, novos lançamentos e muito mais!

Uma emissão especial que conta com as entrevistas de:

Eu.clides – (02:18)

Dino D’Santiago – (10:00)

Amaura – (16:54)

Jura – (23:46)

Pedro Mafama – (27:34)

DJ Danifox – (34:02)

Lord XIV – (39:43)

Yuri NR5 – (44:28)

Holly – (52:02)

Russa – (56:55)

Da Weasel – (1:08:31)

Cintia – (1:10:53)

Ouve abaixo!


Edição de áudio por Nuno Mina.

Na escola que é o Hard Club, os Grognation são os melhores professores

No sábado passado dia 14, tivemos encontro marcado no Hard Club com os Grognation para uma aula de anatomia.

Nada é por acaso, nem mesmo a escolha desta data que o grupo revelou ser especial. Neste que foi o primeiro concerto de apresentação do álbum “Anatomia De Grog “ não houve jogo sujo nem orelhas quentes, chapadas de luva branca.

O concerto foi uma viagem anatómica onde de música a música sentimos um upgrade na forma como estas eram cantadas. Assistimos a  um trabalho que mistura a sonoridade de Sam The Kid com as ideias do coletivo, mas também tivemos a oportunidade de viajar a sons mais antigos que o público ia pedindo. Estes professores da “nova” escola andam na via há mais de 10 anos e com eles não há o politicamente (in)correto: $em avisar, lá foram dando a sua aula, examinando o body desde a cara ao calcanhar.

No próximo sábado, dia 21, vamos ter a segunda vaga desta apresentação no Time Out Market. Deles podem esperar a máxima energia e máxima entrega porque nem faria sentido de outro modo.

Nós vamos lá estar, e tu? Vais mesmo perder a aula com os melhores professores de Portugal e arredores?

Jüra: “Quando estou muito cheia de emoções, descarrego na música e elas nascem”

Jüra é uma das novos nomes do panorama musical português, mas as artes já lhe correm nas veias há vários anos: a artista já esteve ligada ao circo e à dança. Numa altura em que se prepara para atuar em estreia absoluta, na Time Out (Lisboa), no próximo dia 19, a Hip Hop Rádio esteve à conversa com a artista para saber mais sobre o seu primeiro EP.

Foto: Keveni Stphvne

Para quem não te conhece, uma vez que começaste a lançar músicas só em 2020, como te caracterizas enquanto artista?

Obrigada pelo convite e por me receberem. Essa pergunta não é nada fácil para mim… não sei como é que me caracterizo, mas sei que tudo o que eu faço e a minha arte é uma consequência da pessoa que eu sou, da maneira como eu me sinto e acho que isso por si só vai caracterizar e mostrar logo, a partir da minha arte, aquilo que eu sou.

Este teu novo trabalho intitula-se “Jüradamor” e já são conhecidos alguns temas. Como é que tem sido o feedback do público até agora?

Tem sido muito bom. As pessoas têm ouvido, têm aderido e algumas têm-se surpreendido, o que é fixe, e a família está a crescer. Já conseguimos chegar a mais sítios, a mais pessoas, a mais corações e é fixe.

Como é que descreves todo o processo criativo ao longo deste EP?

As minhas canções nascem naturalmente, é uma expressão e uma consequência: é quando eu preciso e quando já estou muito chateada com a vida ou mesmo feliz. Quando estou muito cheia de emoções, descarrego na música e elas nascem, por isso é uma cena muito fácil. Não tenho um tempo ou um modo, é mais uma expressão.

O que significa para ti este EP, sobretudo sendo o primeiro trabalho mais sério?

É a minha apresentação, é a forma de as pessoas me conhecerem. Nenhuma destas canções nasceu com o intuito de lançar, mas sim de me expressar e então é tudo verdade e é tudo sobre o que é sentir e claro, consequentemente, isso vai chegar a outras pessoas, porque todos sentimos coisas e é um bocadinho uma apresentação do que é a minha arte.

Foto: Keveni Stphvne

Neste EP está muito presente a temática do amor. É um caminho que pretendes continuar a seguir na tua arte ou simplesmente era o tema que te fazia mais sentido abordar neste momento?

Pois, não sei bem… acho que a vida me vai dar o tema a escolher. Também me interesso muito sobre outras questões que são importantes hoje em dia, mas aí se calhar vou pensar mais sobre o que quero escrever. Como estas foram mais intuitivas, é tudo sobre o que eu sinto… eu sou uma pessoa muito emotiva e falei mais sobre isso. Também é uma coisa que gosto – a emoção, o que é o amor e a dor, mas decerto que vão surgir outros temas para abordar.

Em alguns temas teus é possível vermos várias palavras juntas numa só, como “Aluzétudo” ou mesmo “Jüradamor”. Qual é o teu objetivo ao fazer estas junções: apenas uma brincadeira com as palavras ou também de alguma forma uma “marca” da tua identidade artística?

Eu acho que sim, transformou-se nisso… comecei a escrever assim no secundário. Andei no Chapitô, que é uma escola de circo, e a certa altura comecei a escrever como falava, porque às vezes comemos palavras entre umas e outras, mas começou a surgir isso mesmo antes de pensar em tudo isto de uma carreira ou construir alguma coisa. Escrevo assim em mensagens com os meus amigos, com a minha família, com toda a gente… então é uma coisa super natural que acaba por também vir para a minha área artística e acho que se torna uma marca e algo que depois as pessoas vão ver logo que é meu.

Em termos de influências, tens algum artista que te tem servido de inspiração/referência, em especial neste EP, ou mesmo ao longo da tua carreira?

Eu acho que nós somos muito influenciáveis e é normal, estamos sempre a ouvir e a receber informação – ainda por cima agora com os telemóveis e o Youtube – e temos acesso a tudo, mas não tenho assim ninguém a quem recorra. Sei que de certeza tenho muitas influências de tudo o que ouço: gosto de ouvir um bocadinho de tudo, acho que tudo tem lugar e não tenho uma referência que possa dizer que é concreta, mas acho que tudo influencia. Tudo o que ouço influencia, tudo o que eu vivo… então não tenho assim nenhum nome que possa dar.

Foto: Keveni Stphvne

No próximo dia 19 apresentas este EP na Time Out (em Lisboa). Como te sentes ao estar prestes a apresentar pela primeira vez em palco uma obra tua?

Estou muito feliz! Já estive nos palcos noutras áreas – no circo e na dança -, mas agora é completamente diferente e é a primeira vez que me vou apresentar mesmo a cantar em público. É o meu primeiro concerto de sempre, mas estou super feliz por poder agora partilhar [o EP] mesmo ao vivo, ver as pessoas… estou muito feliz, a minha banda é incrível, os ensaios estão a ser espetaculares, e já estava na hora… estou muito ansiosa e já só quero isto!

De que forma é que achas que o facto de seres uma pessoa já com um background ligado à dança, por exemplo, pode ajudar-te em palco, desta vez enquanto artista de música? Ou seja, sentes que essa experiência em palco te vai ajudar ou é completamente novo e diferente, tendo em conta que agora vais cantar e não dançar?

Acho que me ajuda, sem dúvida… eu costumo dizer que a vida me preparou para onde estou agora, ou seja, passei por todos estes caminhos e agora vou fazer a minha cena… e todas essas áreas vão-se cruzar, porque são áreas que eu amo. A música é a minha vida, eu amo música, é a forma como me expresso e é o que traduz mesmo o que vai em mim, mas todas as outras áreas se cruzam… então eu cada vez mais quero que elas se interliguem e que possa fazer mais do que um concerto ou um espetáculo.

Para este concerto, o que irás buscar mais da dança e de todas as outras áreas em que já estiveste?

O à-vontade, a experiência… é uma cena incrível. Claro que vou estar super nervosa, mas sinto-me preparada… não há nenhum artista que entre em palco sem nervos [durante] a vida toda, mas sinto essa preparação. O rigor é também influencia muito e o estar em palco já não é uma novidade para mim, então acho que vai ser diferente, mas sei que todo esse background me dá um à-vontade maior e me vai dar liberdade para eu me expressar também através do corpo enquanto canto.

Tendo em conta que se trata de um concerto “especial”, o que se pode esperar desta noite?

Vai ser muito especial. É o primeiro de todos e quero muito que venham partilhar isto comigo. Estas canções vão ser apresentadas ao vivo pela primeira vez e vai ser uma experiência nova, porque é com banda e então é diferente. Vamos fazer um espetáculo corridinho e vamos ter canções novas… vai ser muito fixe. Quero muito que venham!

Como imaginas o público naquela noite? Já imaginaste algo na tua mente?

Já sei que os meus amigos e a minha família vão estar lá e vai estar tudo louco (risos), um amor imenso… mas quero muito ver caras novas e partilhar isto com toda gente.

Para finalizar, o que esperas agora alcançar a nível do EP e mesmo na tua carreira?

A nível do EP, quero rodá-lo, quero ir a mais sítios… vai ser o primeiro concerto, mas quero muito fazer mais. Acho que o que vale mesmo é apresentar [o trabalho todo] frente a frente, ver e partilhar isso com as pessoas. Na minha carreira é continuar a fazer canções, evoluir sempre e conhecer novos lugares, pessoas, sonoridades…

Maze: “É isso que me alimenta: continuar a pôr-me em rimas”

Várias são as estradas que Maze já percorreu, trajetos com vista para rimas e ideias, longos caminhos onde a gravilha pisada sempre foi feita de letras. O novo projeto que junta o membro de Dealema ao produtor Spock pauta-se pelo registo de spoken word e vê a luz do dia após longo processo de maturação. “Simbiose” é uma longa viagem composta por 20 temas. Entre devaneios e confissões, o novo álbum foi apenas ponto de partida para uma conversa que teve a palavra ao centro.

Começamos o álbum com um aviso à tripulação, umas primeiras palavras que contextualizam o ouvinte. Pedia-te exatamente este mesmo jogo: para quem ainda não carregou no play, o que é que vai poder encontrar?

A primeira faixa começa como se estivesse a receber o ouvinte para essa viagem, como se o estivesse a receber no veículo que é este disco. É um disco com vinte faixas e muitos ambientes, com um percurso delineado para passar por vários pensamentos, sentimentos e induzir vários estados. Todas as faixas estão ligadas em pequenos pormenores que dão essa cola ao disco. Quer eu, quer o Spock, gostamos desses álbuns à antiga que contam histórias e têm um fio condutor. É dessa viagem que este disco se trata, obrigar o ouvinte a ir para esse sítio interno de estar a ouvir as minhas palavras – ver-me quase como um espelho – e ver-se a ele refletido.

Em “Missiva”, referes “o spok deu o mote, eu soltei palavras”. Como é que foi o processo criativo? Ainda para mais quando existe um longo tempo de produção foram três anos.

Essa rima é muito especial porque nasce tudo precisamente daí. Quando eu digo que o “spock deu o mote” refiro-me ao momento em que ele comunicou comigo e enviou-me alguns beats. O beat que deu origem a “O Negro Luto”  ressoou completamente em mim. Escrevi logo a música e  foi aí que começou a nossa ligação, há mais de três anos. A partir do momento em que a tivemos cá fora percebemos que tínhamos um longo caminho pela frente, porque os nossos estilos encaixavam perfeitamente e eu tinha muitas coisas para dizer nos ambientes que ele cria: revejo-me completamente no trabalho dele. Então essa faixa foi mesmo fundamental. Depois a nossa relação foi crescendo: começou com um contacto digital e de repente cresceu para uma relação de amizade, fomos acompanhando as transformações de vida um do outro, ao longo destes anos, à medida que íamos construindo este disco. É uma história bonita.

Trabalharam de forma presencial?

Completamente. Quase todas as faixas foram gravadas antes de entrarmos nessa reclusão forçada. Depois fomos ultimando e fazendo algumas coisas digitalmente nesse período e regravámos uma ou outra, já depois do confinamento. Este disco já está feito e a parte criativa está fechada há algum tempo.

E como é essa parte criativa? Escreves muito de “rajada” ou editas-te muito?

Depende. Por exemplo, o trabalho que fiz com o Azar Azar, “Sub-Urbe”, escrevi-o numa semana. Este disco foi uma coisa muito mais maturada em que ia recebendo os instrumentais, ia pegando nos que me diziam algo naquele momento ou em que estava no estado de espirito para escrever naquele dia. Foi um processo mais demorado e ainda bem. Tive tempo para o amadurecer e para o ver com mais distancia e para criar essa cola que faz a passagem das músicas e que as junta todas nessa simbiose. Algumas até reescrevi: fui aprimorando porque havia esse tempo de não pôr o disco cá fora.

“Não fabrico a partir da literatura dos outros” referes em “Densidade do Vocábulo”. Ainda assim, contas com várias referencias. “Sem Arrependimentos” começa com um poema de Mário Quintana. Qual é a tua relação com as palavras dos outros? Lês muito ou ouves muito fora do universo Hip-hop?

É uma boa pergunta, confronto-me com ela várias vezes internamente. Gosto muito de ler, prosa e poesia, porque escrevo e vou gostando de perceber o outro: o outro vai-me mostrando que eu também tenho coisas para criar que são minhas. Gosto de ver outras perspetivas. Mas sempre com essa distância que eu falo nessa música. Eu vou-me compondo de coisas que vou absorvendo, como uma esponja, mas quando crio, apesar de ter isso tudo cá dentro, sai tudo da minha essência e da minha voz própria. Faço uma reciclagem e uma separação sempre que estou a criar, faço quase a pergunta de “isto é meu?”, “de onde é que isto vem?”, porque para mim só faz sentido se for realmente meu. Mas, de facto, nós somos compostos por tudo o que vamos absorvendo na vida não só as nossas experiências, mas também o que vamos lendo, vendo. Uma professora minha citava muitas vezes um autor e dizia: “nada nasce do nada, o novo nasce do velho. Por isso é que é novo”. As coisas que nos compõem alquimicamente transformam-se para gerar alguma coisa nova. E eu tento fazer sempre isso. Não copiar fórmulas. Olha o exemplo do rap português: a minha relação com o rap português é de alguma distância. Não consumo muito, vou ouvindo algumas coisas que eu reconheço e admiro, mas não consumo diariamente. Ouço discos, mas não os repito, precisamente porque quero impedir essa contaminação que fica a um nível subliminar. Às vezes ficam aqui coisas que não sabemos bem porque é que ficam e depois já estamos a usar a voz do outro, um flow ou uma expressão. Eu tento minimizar isso.

Recuando ao tema do tempo, que refere Mário Quintana, em “Que horas são?” são bem vincadas as mensagens referentes à fome, refugiados e guerra. É urgente sermos ativos?

É muito urgente começarmos a crescer em empatia, já deveria ter sido um exercício que deveríamos ter feito há muitas décadas. Estes processos de evolução de consciência são muito lentos e, como eu digo nessa música, espero presenciar coisas que acredito que possam acontecer nesta encarnação. Acho que estamos num ponto de viragem em que tem de haver um despertar massivo, não só um despertar, mas uma chamada para a ação direta, para nas nossas vidas pormos em prática e sermos essa engrenagem que causa transformação a cada dia, em cada pensamento, em cada emoção.

“O Negro Luto” é a faixa mais pessoal e íntima de todo o álbum. A escrita serve como terapia? 

Comecei a escrever por causa disso: queria-me resolver. Comecei a fazer esse trabalho interno e percebi que a escrita tem esse efeito transformador. Tenho-o feito ao longo de toda a minha carreira, mas agora estou num ponto diferente. Não consigo que as minhas letras não tenham esse conteúdo autobiográfico que me resolve, mas mais do que isso estou numa fase da vida em que estou dedicado à pedagogia e quero é ensinar essas fórmulas e passa-las aos jovens. Acredito que a transformação resulta fundamentalmente de uma mudança a nível educativo.

Em “Viva” referes exatamente isso “tenho a alma em rimas”…

Vou espremendo a minha alma e vou-a transformando em versos que depois canto, que vão parar aos ouvidos das outras pessoas e que ficam a ressoar nelas. É um ciclo. Depois elas vêm ter comigo e dizem que se viram refletidas em mim e fecham o ciclo aí. E isso é que me alimenta: continuar-me a pôr-me em rimas.

Já vais em trinta anos de carreira…

Não faço muitas contas (risos). Tenho 43, devo ter começado a escrever aos 15, já deve ser por aí…

No final de tantos anos, o que é que te falta escrever?

Falta-me escrever muita coisa. Sinto que vou tendo uma produção constante quer em discos meus ou participações, mas até aqui foi um processo de escrita para rap, como rapper, pelo menos do que pus cá fora, e estou a chegar a uma fase da vida em que a minha relação com a palavra está a transformar-se. Não vou deixar de ser o rapper que sou e que sempre que fui porque gosto de escrever neste formato de rap, mas começo cada vez mais a pôr os meus poemas de outra forma e ir por esta estrada da spoken word…

Este álbum nasce exatamente daí…

Completamente e tenho gravado coisas que vão nessa direção. Mas o que me falta escrever é muita coisa em prosa e tenho a certeza que nos próximos anos está reservado para mim dedicar-me algum tempo a escrever em prosa, escrever livros. Acho que é o que me falta escrever.

E ir mesmo por esse caminho, não digo deixar a música de lado, mas…

Não, não. (Risos) Isto tudo em simultâneo. Nunca são coisas que anulam as outras. Eu não deixo de ser o rapper que sou só porque faço uns temas de spoken word, ou recito poesia acapella, ou porque estou a escrever livros ou a pintar telas, estas coisas convivem; a criatividade em mim vai-me guiando, vai-me pedindo para sair. É só uma questão de eu perceber qual é a melhor ferramenta de eu pôr cá fora o que eu preciso de extrair de mim.

“Simbiose” é “um ponto de luz” que pretende criar novas estradas. Por onde é que vais levar este projeto?

É mesmo isso: é uma viagem que te leva a um sítio, a um ponto de luz que atravessa e nasce uma nova realidade. E isso é uma continuidade. Eu e o Spock durante o processo todo percebemos que temos muitas músicas para fazer e que queremos dar continuidade a este disco. Já há músicas na calha, já há temas alinhados e esboçados para fazermos um novo trabalho ainda com este fresco cá fora. Este disco vai ter continuidade certamente para breve. O Spock continua nas estradas dele, tal como eu nas minhas, enquanto vamos fazendo este trabalho. Vou abraçando essas estradas novas que me surgem e que estão muito relacionadas com a palavra, mas noutro formato, mais nessa palavra dita.

Braga a bordo do Expresso do Submundo

Os anos passam, o brio permanece. Se por um lado se cimenta a maturidade de Dealema, por outro continuam bem vincadas a irreverência e ousadia que os acompanha desde 1996. O Expresso do Submundo atracou em Braga e o Lustre abriu portas a uma noite pautada por um ambiente familiar, onde foram várias as notas de humor que pintaram aquela que se tornou, por momentos, a nossa casa.

DJ Guze girava os primeiros discos e a porta de entrada não tinha descanso: era longa a fila de pessoas que esperava entrar já a pensar na abertura do concerto. Rato54 entra para aquecer e afinar as vozes da plateia, iniciando o bom ambiente da noite: foram excelentes minutos com o rapper portuense, que só souberam a pouco porque o tempo que lhe era destinado era curto.

Mundo Segundo põe o pé no palco e atrevidamente pica o público, “toda a gente já se tinha esquecido de Dealema?”. O último concerto pré-pandemia de Dealema tinha sido neste mesmo palco para onde agora subiam . “Bom dia”, emana alegria por todos os cantos do Lustre. Seguidamente, vamos até ao Fado Vadio e, posteriormente, Escola dos 90 traz-nos recordações de um tempo que metade do público viveu e a outra metade apenas agora experienciava.

A porta foi esquecidamente deixada aberta e tons encarnados começaram a entrar no recinto. Pedia-se que se levantassem as mãos, entoava-se a uma só voz “esta casa tem demónios”; mas não só, também amor. O tema de não violência e liberdade já iniciado por Rato54, tinha agora palco:a sala do Lustre transformava-se na “Sala 101“.

Mundo Segundo prepara o publico para o que advém dizendo sem merdas que é “um dos melhores temas de sempre”. DJ Guze engana-se no beat a lançar e o MC do Porto não perde a oportunidade para referir que muitas vezes “DJ Guze é mais DJ Gozo”. A sala ri-se, o engano é a prova viva que os temos ali.

Acertadas as agulhas, emana das colunas “Brilhantes Diamantes” de Maze. Seguidamente, a bússola gira para Mundo Segundo com “Bate Palmas”. Recua-se depois até 2003 para um álbum que vai a caminho das duas décadas, “Dealema”. Entre a viagem pelos melhores temas do grupo, Expeão distribui elogios pela escrita dos colegas e confessa que está farto do rap do “blim blim”, levando a casa a reagir euforicamente. O humor continua, a energia de Expeão é contagiante, e este está tão enérgico que até faz uma bola de espelho desprender-se do teto. Mundo atira que ele é “o último rockstar”. Algo que nunca caiu foi o concerto: de faixa a faixa, entre sorrisos e batidas, escrevia-se uma bela noite de Hip Hop.

Mas o tempo não para e antes de Verdadeiros Amigos encerrar a noite, Mundo refere que nunca se sabe o dia de amanhã. O melhor será aproveitar cada concerto do coletivo como se fosse o último, pois, como nos bem ensinaram e se entoava na penúltima música da noite, nada dura para sempre.

Sérgio Godinho recriado pela mão da cultura hip hop

Até 22 de abril vão ser revelados novos singles em que se cruzam alguns dos maiores nomes da cena Hip Hop com clássicos da obra de Sérgio Godinho.

SG Gigante é o nome do projeto que pretende “recriar” Sérgio Godinho através da cultura Hip Hop. Capicua foi a responsável pela coordenação e por dar asas a este projeto, e contamos já com duas faixas disponíveis.

Que Força É Essa” é o nome da música que estreou o projeto e junta Nerve, Keso e Russa.

Com participação de Papillon, Valas, Amaura, e produção de Charlie Beats, “O Primeiro Dia” levanta mais um pouco a ponta do véu que é um SG Gigante, e este segundo single já se encontra disponível em todas as plataformas digitais.

Masego ao vivo no Coliseu dos Recreios: UM espetáculo de magia COM O MAgo DO SAXOFONE

Uma das coisas mais bonitas de se experienciar em termos de concertos ao vivo no Coliseu dos Recreios é olhar em redor da cúpula, mesmo que por apenas uns momentos, e ver como as luzes se projetam nas extremidades da sala, enchendo a atmosfera de cor, contrastando com os vultos de mãos no ar de um mar de gente, como se de uma pintura se tratasse. Após uma espera -que pareceu infindável- para voltar a ver um coliseu cheio e mais leve de restrições, na passada terça-feira foi-nos devolvida essa poética visão, pelo encantador de multidões, Masego, que pisou este mítico palco acompanhado pelo seu saxofone mágico, pronto para contribuir para a pintura daquele quadro, num concerto que foi, de facto, arte em movimento.

A primeira estrela a iluminar o palco foi Mereba, que surpreendeu (e foi surpreendida) ao ter toda uma plateia que, embora ansiasse por Masego, estava de olhos postos nela, enquanto acompanhava algumas das suas mais conhecidas músicas e obedecia, com entusiasmo, a tudo o que a cantora propunha. Com um conjunto vermelho deslumbrante de mangas de rosa em todo o seu esplendor, a condizer com o seu cabelo em ilustre coroa e acompanhada da sua banda, a sua voz melódica, mas versátil, ia enchendo a atmosfera de antecipação.

Após este concerto, seguiu-se um compasso de espera que foi preenchido com algumas das canções mais populares que se ouvem tipicamente em saídas noturnas, o que fez os presentes parar de gritar “Masego” -apenas por breves momentos- e cantar as letras das mesmas, a plenos pulmões. E eis que o tão aguardado momento aconteceu: enquanto a banda presente em palco começava a tocar, ouvia-se um medley de algumas das músicas mais conhecidas de Masego, acompanhadas por um jogo de luzes que se mesclava com um fumo quase místico, de onde sairia em breve a presença mais desejada.

Masego desbravou, finalmente, o nevoeiro num macacão vermelho e chapéu a condizer, pronto para encantar qualquer um, ao som de uma multidão em êxtase que nunca esmoreceu. O artista não perdeu tempo e, assim que pisou o palco, procedeu a cantar algumas das favoritas do público, começando com “Navajo“, passando para “Queen Tings” – perfeita para homenagear as mulheres, neste que era o dia delas- e continuando com “Old Age” e “Lady Lady” até chegar a “Mystery Lady“, uma das suas mais conhecidas e atuais, que partilha com Don Toliver. Num dos únicos intervalos feitos entre esta entrega de hits, o artista aproveitou para dizer o quão bonitas eram as mulheres em Portugal e como andava a comer pão e queijo sem parar há dias.

Seguiu-se um conjunto de provas -como o próprio enuncia na sua canção, não apresentada nessa noite, “I do Everything”- de que o seu talento para tocar instrumentos não se estende apenas ao saxofone. Embora tenha encantado o público logo de início com solos deste mesmo instrumento, de fazer a alma querer sair do corpo, o artista de origem jamaicana mostrou dar fortes cartas no órgão, em temas como “Good & Plenty” e “Yamz”, onde fez uma especial demostração ao tocar de joelhos e com os pés, arrancando os mais sentidos gritos de apoio pela parte da plateia.

Houve vários momentos caricatos durante o espetáculo, que atribuíram um toque especial há muito não sentido. Fazendo-se acompanhar de um elevado número de adereços, o artista deleitou os fãs com momentos de diversão, destinados precisamente a entreter a plateia -não estivessem já entretidos o suficiente. Assim, fomos presenteados com malabarismo de frutas, que antecedeu o tema “Veg Out”e falhou na última parte, despertando o bom humor de Masego, o lançamento de rosas -já esperado- para o mar de pessoas aquando do tema “Passport” e um desfile de bengala enquanto bebia chá. Não satisfeito, o artista colocou ainda uma coroa, muito apropriada para cantar o tema “King´s Rant” e apresentou-nos também uma performance, na qual mostrou os seus dotes para a dança, envergando um avental de cozinha, para dançar ao som do remix do próprio da música já cantada “Mystery Lady”, que começa exatamente com a frase “Fetch me my apron, I’m finna cook” ou seja, “Tragam-me o meu avental, que eu vou cozinhar”. Neste caso, não “cozinhando” batidas, cozinhou um momento que certamente ficará na memória de quem assistiu. O artista incentivou ainda todas as pessoas a acenarem e a cantarem com ele o tema “Bye Felicia”, um tema algo empoderador.

Foram momentos como este que mostraram realmente o amor que o artista tem por atuar, algo que adiciona muito à experiência, do ponto de vista do público.

Destacamos ainda as músicas que mais agitaram os presentes, tendo em comum as batidas dançáveis e ritmos mais quentes: “Yebo/Sema”, “Prone” e a conhecida “Silver Tongue Devil”. Houve ainda um encore onde foi tocada a tão esperada “Tadow”, a música que pode ser considerada como a que atribuiu a Masego este nível de popularidade; podia ver-se inclusive um cartaz de uma fã, presente na fila da frente, que tentava informar que possuía uma tatuagem dedicada a essa música, enaltecendo o impacto da mesma. Este tema celebrizou o saxofone de Masego e a sua habilidade para o tocar de tal maneira, que a qualquer ponto do concerto a euforia subia de imediato, só de ver o artista dirigir-se ao instrumento; e também não é para menos.

Somos da opinião de que os solos de saxofone foram talvez a melhor parte de todo o espetáculo, tendo realçado o extraordinário talento deste multifacetado artista. Os solos deste instrumento em temas como “Bliss Abroad” e “Sides of Me”, onde o divinal som do saxofonerematou a a sua harmoniosa voz – e ainda alguns dotes de MC-, assim como em tantas outras músicas -destacando, claro, a “Tadow”- foram realmente a estrela do show, fazendo com que saíssemos do concerto a acreditar que se o espetáculo fosse “apenas” isso, o sucesso do mesmo seria semelhante.

Este foi um concerto onde parecia ser obrigatório levar um sorriso estampado no rosto e uma enorme vontade de dançar, indicações seguidas à risca por todos os participantes. Para além de talentoso, este artista é extremamente carismático, o que permitiu uma enorme sintonia com o público no decorrer de todo o espetáculo.

Masego expressou o seu amor por Portugal e prometeu voltar, deixando o público na expectativa de um regresso, mas a julgar pelas palavras do artista não há mesmo duas sem três e já foi anunciada uma nova data para o retorno de Masego a Portugal.

Todas as fotos são da autoria de Ana Antunes.

Benji Price: uma estreia “ígnea” no Teatro Tivoli BBVA

Passavam poucos minutos das 21h quando Benji Price subiu ao palco do Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, na passada sexta-feira, para apresentar “Ígneo”, o seu novo álbum, acompanhado pela sua banda. À hora marcada, alguns lugares ainda se faziam preencher, mas o público ali presente – maioritariamente jovem – vinha com vontade de ver o artista e a prova disso foram a quantidade de vezes e a forma como se manifestaram durante o show.

Foto: Keveni Stphane

Para apresentar o seu álbum de estreia a solo – Benji Price já tinha colaborado em “SYSTEM”, disco partilhado com Profjam – o alinhamento escolhido para o espetáculo foi o mais “natural” possível, seguindo a ordem da obra lançada. As faixas de “Ígneo” não foram nomeadas ao acaso: o álbum conta com várias referências simbólicas ao mundo asiático, em particular o universo do anime, como é o caso de “Gundam” – nome de uma série televisiva japonesa de ficção sobre robôs gigantes -, ou ainda de “Kenshin”, que é o nome da personagem Himura Kenshin, da série Rurouni Kenshin.

Esta apresentação contou também com os convidados xtinto e Mike El Nite. O primeiro juntou-se a Benji Price para interpretar “Pó de Cosmos” e atuação de ambos resultou na fusão de dois grandes talentos que cada vez mais mostram que vieram para deixar a sua marca na indústria musical portuguesa. Um dos próprios versos já parece antever essa realidade: “O João vai vingar aqui memo, cimentar meu nome”. Logo a seguir, enquanto ainda se sentia alguma agitação da atuação anterior, juntou-se à festa Mike El Nite para cantar “Veni, Vidi, Vici” e a fasquia continuou elevada. Dois temas muito orelhudos que, sem surpresas, acabaram a ser dois momentos muito aplaudidos pelo público.

Foto: Keveni Stphane

Foto: Keveni Stphane

“Mármore” foi também um dos temas em que, pessoalmente, o artista surpreendeu vocalmente pela positiva. Logo a seguir foi o momento de “Final Fantasy Freestlye”, sem dúvida um dos temas mais interessantes desta obra, sobretudo a nível instrumental. O público parecia concordar, não fosse dos temas mais ovacionados da noite e que o mais fez vibrar.

9 Miller era um dos convidados esperados para este espetáculo, mas por “questões de saúde”, como anunciou Benji Price na altura, não se concretizou. Ainda assim, o rapper não se deixou ficar e, sozinho, deu bem conta do recado – já dizia ele “Dominar pa mim é bem fácil” – e levou o público à loucura pela forma como declamava/proferia cada verso. “Bora, Benji!” – ouvia-se, com entusiasmo, na plateia.  

Foto: Keveni Stphane

Das 11 faixas originais do rapper ribatejano, as sementes “ígneas” já tinham sido lançadas com “Girassóis”, o single de avanço deste trabalho, que desabrochou ainda em novembro do ano passado. A atuação foi impecável e resultou muito bem ao vivo, além de que mostrou bem não só o porquê da popularidade do tema, como também a confirmação de ter sido uma boa escolha enquanto primeiro single.  

No final do concerto, Benji Price e a sua banda receberam um enorme aplauso. Deste show ficou a sensação de que o tempo tinha passado depressa, revelando que o concerto em si conseguiu captar a atenção ao rapper em cada tema seu que interpretava, bem como a todo o trabalho notável que ia sendo feito também por parte da banda. O artista chegou a perguntar, após cantar o segundo tema, se o público o ouvia com autotune, devido a uns problemas técnicos que teve naquela tarde: “Estava com um bocadinho de medo de vir aqui fazer figuras”, brincava o ribatejano. Mas a verdade é que não passou apenas de um “falso alarme”: o espetáculo correu sem problemas, aliás, notava-se bem as capacidades e a dedicação de Benji no microfone.

Foto: Keveni Stphane

Super Bock Em Stock 2021: a Avenida voltou a encher-se com mais liberdade

O Super Bock Em Stock regressou na semana passada para mais uma edição. Dois dias (sexta e sábado) cheios de muita música tiveram lugar em várias salas míticas da Avenida da Liberdade. A Hip Hop Rádio esteve presente em alguns dos concertos, em que o ambiente vivido nas salas cada vez mais se aproxima à vida de “antigamente”.

Fotografia: Daniel Pereira

T-Rex subiu ao palco às 19h45 no Capitólio, numa altura em que o festival ainda estava a aquecer. “Somos poucos, mas somos bués. Façam o vosso barulho” dizia o rapper, ia revisitando o antigo álbum “Chá de Camomila” com o temas como “BigBoss Type$hit” e “R&bsr&b$”. T-Rex interpretou ainda “É Assim” ou o single “Sally” (2019), uma das suas melhores performances.

Sam The Kid & Mundo Segundo uniram-se no Coliseu dos Recreios e desta parceria resultou mais um bom espetáculo dos dois juntos. Ao longo do concerto assistiu-se a uma verdadeira noite de nostalgia onde se pôde ouvir alguns dos clássicos da dupla, como “Gaia Chelas”, mas também “Não Percebes”, do rapper de Chelas ou “Crise de Identidade”, do gaiense.

Voltando ao Capitólio, foi altura de se ouvir Jelani Blackman. O artista, que é um dos nomes britânicos emergentes, atuou para um público que estava lá mesmo porque queria vê-lo e cativou-o durante o seu espetáculo.

Fotografia: Daniel Pereira

Fotografia: Daniel Pereira

Às 22h surgiram no Palácio da Independência os Atalaia Airlines, reinando um ambiente agradável e descontraído naquele que era um dos espaços mais pequenos do festival. A boa música fazia-se soar mesmo para quem não conhecia o trabalho deste grupo. Na reta final apareceu em cena Mike El Nite, um dos convidados da noite, que colaborou no tema “Niteflix”.

O Capitólio fechou a noite com Lava La Rue, que entregou em palco uma energia incrível: além das suas atuações, a rapper britânica foi tentando sempre ser comunicativa com o seu público, que ia também respondendo com a mesma intensidade. Na sua estreia memorável em Portugal, houve também tempo para a artista agradecer ao público em português.

Fotografia: Daniel Pereira

Fotografia: Daniel Pereira

Domingues foi a surpresa desta edição do Super Bock Em Stock, não fosse o substituto de Lon3r Johnny no cartaz de sábado, depois de este último ficar infetado por covid-19. Talvez isso explicava o porquê de o Capitólio não estar propriamente cheio; ainda assim, o jovem artista gaiense fez bem a sua tarefa e apresentou-se no Capitólio num concerto acústico, onde cantou já “Vai Dar”, som que lançou na véspera do concerto. Destaque também para o momento especial em que Domingues chamou Carminho, filha de Kappa Jotta, ao palco para interpretarem ambos “Romance de Cinema”, um dos temas do gaiense.

Foi no Coliseu dos Recreios que se assistiu a uma das atuações mais enérgicas e contagiantes deste ano. Os Bateu Matou trouxeram consigo alguns convidados – Héber Marques, Blaya, Favela Lacroix, Irma e Scúru Fitchádu -, tendo interpretações potentes e superiores ao trabalho em estúdio, nomeadamente em “Lume” e “Velocidade”, fazendo pensar na sorte que há ao ser possível ouvir novamente algo ao vivo.

Depois de ter atuado Lava La Rue na noite de sexta-feira, foi vez de a artista regressar com o seu grupo Nine 8 Collective. O concerto da véspera não enganou e o sábado veio confirmar o talento daqueles artistas que, todos juntos, trouxeram bastante energia, fazendo o público sentir como se estivesse em Londres.

Fotografia: Daniel Pereira

Fotografia: Daniel Pereira

David & Miguel foram praticamente os últimos a atuar no Super Bock em Stock 2021, mas muito a tempo de darem show no Teatro Tivoli e de terem também um dos concertos mais cheios. A dupla mostrou-se à vontade e o público, em êxtase, cantava em coro os temas, nomeadamente “Sónia”. “Interveniente Acidental” e “Inatel” foram também alguns dos outros temas ali ouvidos e bem apreciados. Apesar de serem os rostos principais daquele concerto, houve também um solo agradável de Marquito, o guitarrista desta dupla carismática.

A terminar a noite, assistiu-se no Cinema São Jorge a uma grande atuação de Priya Ragu, artista que se fez acompanhar de uma banda com muita qualidade. Sentia-se uma atmosfera mágica e genuína neste concerto, que contou também com covers de rap, como “What They Do” dos The Roots.

Fotografia: Daniel Pereira
Fotografia: Daniel Pereira

Terminado o Super Bock em Stock 2021, pouco a pouco regressa também alguma “liberdade”: os concertos com público sentado a alguns metros de distância uns dos outros deram lugar a espetáculos onde se sentia mais o calor das salas, ainda que com as máscaras impostas pelas regras. O cartaz, recheado de talentos nacionais e internacionais, permitiu saborear estes concertos e matar saudades dos festivais que gradualmente vão voltando à normalidade.

Crítica | Bem-vindos à “Chyna Town” (Novo EP de Chyna)

Depois de “Made in Chyna”, primeiro EP de Chyna, lançado em 2017, em “Chyna Town” continuam vincadas algumas referências ao mundo asiático: o próprio nome da obra e a sua capa, mas também “Wasabi”, som que fecha este novo trabalho de Chyna.

Já está disponível “Chyna Town”, a mais recente obra de Chyna. O novo EP é composto por seis faixas: “Intro”, “Chyna Town”, “Depois da Tempestade”, “Fica”, “Amanhã”, “Blindado” e “Wasabi”. Nesta “viagem” à “Chyna Town”, que dura cerca de 20 minutos, o rapper mostra-nos a sua evolução enquanto artista, num trabalho sólido que conta com os nomes de Duque, D’ay, FreddyBoy, Orato e Syd-V na produção e Michael Ferreira aka Mic na mistura e masterização.

Fotografia: Direitos Reservados

A capa do EP espelha exatamente muitos dos temas que são retratados nesta obra: a figura masculina a caminhar sozinha na Chyna Town remete para um caminho pessoal que se percorre, mesmo apesar das adversidades que possam surgir. Em “Chyna Town”, Chyna inspira-se sobretudo na valorização do passado e dos ensinamentos que esse período de tempo trouxe, bem como na ambição e superação pessoal.

Para se “entrar” nesta “Chyna Town” é preciso passar primeiro pela “muralha” intitulada “Intro”, onde Chyna brinda os ouvintes com uma faixa de apresentação. O início deste EP abre logo com uma lírica de quem veio para marcar o seu lugar e sabe do seu valor.

Esta “Chyna Town” começou a ser construída pouco a pouco ao longo deste ano, aliás, já estavam lançados alguns dos temas que integram a obra. “Depois da Tempestade” é um desses sons, que se revelou uma escolha eficaz como primeiro som conhecido deste EP, devido às expetativas que deixou desde então: apesar de já ter saído em maio, pessoalmente não foi preciso muito tempo para entender a qualidade deste som nem para deixá-lo em repeat. Trata-se de uma faixa marcada por uma retrospetiva em que o artista recorda o seu passado, as feridas daí vindas e quem perdeu, mas também um período de calma e de esperança, ou não fosse o título “Depois da Tempestade”, remetendo para tempos menos bons que já lá vai no passado. “Eu só quero sentir o calor de novo lá fora/Quando essa chuva for embora isto melhora” mostra igualmente uma vontade por parte do artista em fazer com que os próximos tempos lhe façam “aquecer” mais a alma. O videoclip deste tema tem a peculiaridade de retratar muito bem a música em si de forma simbólica, surgindo Chyna que, apesar das feridas visíveis no rosto, continua de pé a caminhar.

“Chyna Town”, som que dá o nome à obra, é juntamente com “Depois da Tempestade”, um dos melhores desta obra e que curiosamente ficou ainda mais na cabeça após a primeira escuta, levando a outras tantas de seguida. O nome do single fala por si, sendo que vem acompanhado de um videoclip marcado também ele por fortes elementos da cultura asiática. O instrumental e a lírica complementam-se de uma forma bastante agradável, tornando-o um dos sons mais interessantes e fortes desta obra.

Fotografia: Direitos Reservados

O produto mais diferente deste trabalho intitula-se “Fica”, em que se nota a presença de um sujeito amoroso a quem Chyna se dirige. O desejo do artista é viver a relação sem que, aliás, se perca muito tempo: “Eu podia dizer para irmos com calma/Mas isso era estar a atrasar mais um passo”. O sentimento amoroso evidencia-se ainda mais numa visão do futuro com uma família alargada: “Eu já nos vejo em loops a passear os putos”

Chyna mostra a vontade de mudar e de se superar, sem deixar passar mais tempo em “Amanhã”. O rapper mostra as mudanças que tem feito, mesmo que tenha que ir aprendendo com os erros: “Por isso é que estou a remar como eu sei/Se amanhã falhar eu não perdi, pois tentei”. O artista volta a mostra sua força em “Blindado”: “na vida sou soldado/não me vais ver deitado”. É também outro som de superação pessoal sem nunca deixar de ambicionar e perseguir os seus sonhos: “diziam que um gajo nunca iria entrar nos eixos/agora dão-me aplausos com molas nos queixos”.

“Wasabi” (condimento usado na cozinha oriental) dá o nome ao som que fecha “Chyna Town”. É mais um tema potente, tal como “Chyna Town”, em que Chyna usa toda esta energia na lírica e no beat para fazer uma celebração musical de quem possui agora uma vida melhor. O nome “wasabi” encaixa-se precisamente na mensagem passada de que o rapper está on fire no caminho que está a fazer: “hot na batida tipo wasabi”.

Chyna continua, desta forma, a brindar-nos com sons de qualidade e que reclamam um maior reconhecimento, à semelhança dos seus videoclips visualmente apelativos que mostram também um aspeto interessante neste trabalho. Este é mais um passo de Chyna rumo à sua afirmação musical, com um projeto que veio elevar a fasquia. Resta apenas dizer: Bem-vindos à “Chyna Town”.

“Chyna Town” já se encontra disponível nas plataformas digitais.