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A improbabilidade e o Hard Club

“Na vida não há impossíveis”, já dizia Piruka… 2020 tem sido a prova disso.

Por Rita Carvalho | Fotografias de Beatriz Dias

Os Quatro Cantos do Hard Club continuam os mesmos, a realidade é que não. As mudanças foram notáveis: o convívio, que começa logo à sua porta, já não é uma possibilidade. Agora a fluidez acalma quando temos de tirar a temperatura antes de entrar no estabelecimento.

As 1000 almas que em tempos eram uma certeza estarem dentro da mítica sala 1 passaram a 200, a energia frenética de quem fica cansado de pé, passou a ter o seu lugar sentado… Sem tempo para Preliminares, porque o tempo estava contado, Piruka acomodou-se como se estivesse em família. E a minha pergunta é: não será mesmo onde muitos artistas se sentem em casa? Simples assim: um sofá e um candeeiro. Como se não houvesse mais nada entre nós.

Não vimos o Piruka que costumamos ver: ele bem queria, entusiasmado, demonstrando que precisava de descarregar energia. Mas não era possível. Entre temas atuais, do seu álbum antigo e do mais recente – Iluminado (que ainda está para sair) – lá foi entretendo os presentes que, por muito que fossem muito menos do que aquilo que se está a espera, em termos de sinergia foram inalcançáveis.

Parece que estamos no Sudoeste“, dizia Piruka. “O Norte é raça” dizia Jimmy P que também esteve presente e nos envolveu com dois sons dele, não deixando de mostrar a gratidão que tem por André (ou Piruka, como lhe quiserem chamar). As realidades são diferentes, mas a emoção foi tão ou mais intensa do que num “ambiente normal”.

O concerto durou pouco, ainda não eram 23h quando acabou: o tempo estava contado e nem sequer houve espaço para “só mais uma”…. Sair do Hard Club sem ser de madrugada, suada, cansada e com a voz a tremer nem pareceu realidade. Mas é assim: 2020 é mesmo o ano da improbabilidade, não é? Há de chegar o dia que voltamos à realidade que gostamos, mas até lá, vamos sendo felizes assim. Obrigada André, obrigada por permitires isso.

Vê todas as fotografias do concerto aqui

The World Battle: a dança urbana volta ao Porto

Arranca hoje mais uma edição de The World Battle. O evento de dança e arte urbana terá como palco a cidade do Porto até 5 de maio. Além das batalhas de dança, conta com workshops, espetáculos, exposições, festas e até um mercado urbano.

Dois meses depois da organização dos Jogos Olímpicos Paris-2024 convidar o breakdance a entrar na competição, The World Battle está de volta. Após 14 anos de edições dedicadas à Europa e 3 ao Mundo, ainda que com outro nome, o evento volta à Invicta e traz novidades. A promessa é juntar dançarinos, DJ’s, hosts e júris nacionais e internacionais de várias faixas etárias.

Os oitavos e quartos de final serão disputados no dia 4 de maio, no Muxima, e as finais no dia 5 de maio, no Hard Club. Os participantes vão ter a oportunidade de competir em diversos estilos de dança e formatos de batalha, passando do Bboying, Bgirling, Hip-hop, House, Popping e Locking ao Bonnie & Clyde, Footwork, Toprock, Powermoves, Open styles 3vs3, e até ao Cypher Locking, Cypher Popping, Cypher Hip-hop, Cypher House, Cypher Dancehall e Cypher Krump.

O festival de artes urbanas LOOP, ‘’que une criadores portugueses em palco’’ vai também marcar presença nesta edição, com o objetivo de promover a ‘’simbiose’’ entre coreógrafos experientes e amadores. Foi confirmado que Enano, Bboy venezuelano, não irá realizar a sua performance At Home devido à crise política do país.

You Got Served é também outra das novidades: a batalha, exclusiva em território nacional, estimula a competição de grupos a partir da união da coreografia e da estrutura da battle, um desafio acrescido que poucos têm aceitado.

The World Battle inicia-se hoje com a gravação de um vídeo dos dançarinos, às 12h, em locais característicos da cidade do Porto, e terá eventos em todos os restantes dias da semana.

Mais informações podem ser encontradas no site oficial do The World Battle.

RockitMusic celebra ‘’5 anos de trabalho, 5 anos de luta’’ no Hard Club

A RockitMusic festejou, na passada sexta-feira, o seu quinto aniversário. O Hard Club foi o palco eleito para um concerto de cinco horas em que participaram mais de dez artistas nacionais, desde a prata da casa, como Dogma e Smélio, aos newcomers, exemplos de X Master ou Versus, ao já consagrado Sacik Brow. Uma festa onde, infelizmente, o cabeça-de-cartaz, Holly Hood, não subiu ao palco. O resumo da noite por Ana Rita Félix.

 

A noite começou com o set do DJ Slice. Entre beats produzidos pelo próprio e hits do hip-hop português e internacional, o artista deu as boas-vindas ao público e ao host, Martinez 687

O primeiro rapper a pisar o palco foi X Master. O artista tocou dois singles do álbum que lançará ainda este ano com o apoio da discográfica de Vila Nova de Gaia. Um deles, ‘’Sayonara’’, é um dos temas já disponíveis; o outro será divulgado brevemente.

Quem o sucedeu foi precisamente Salama que, na companhia de Garcezincendiou o público com o grito ‘’Salama pega fogo’’. Contudo, foram as skills a rimar a’capella que efetivamente impressionaram os presentes. 

‘’Sempre sonhei estar aqui’’, foram as palavras usadas por Versus quando subiu ao palco, naquela que foi a sua primeira vez, a solo, no mítico espaço portuense. Acompanhado por Fresh, o portuense emocionou-se com a introdução de Martinez 687 que, segundo ele, o apresentou  ‘’como se fosse o Eminem’’. Versus dirigiu ainda algumas palavras calorosas ao público, nomeadamente a um jovem rapper presente, incentivando-o a continuar a trilhar o seu caminho no mundo do hip-hop

Verón apresentou, por sua vez, vários singles da sua mais recente mixtape Preto e Branco’. A faixa ‘’Make Money Not Friends’’, com a colaboração de Dote, foi a predileta do público. No entanto, a ‘’Anjo da Guarda’’ comoveu a plateia, que o acompanhou com luzes.

Depois, foi a vez do anfitrião demonstrar o seu talento no que toca ao rap. Martinez, ‘’o primeiro a plantar chocolate em Marte’’, lançou um álbum com esse mesmo nome no mês passado. Em sintonia com Anper, conseguiram que o Hard Club ecoasse 687.

 

Entretanto, as luzes apagaram-se e a expectativa aumentou. O artista da noite, e um dos mais esperados, foi Sacik Brow, acompanhado por Fragas. O algarvio brilhou e aqueceu a sala. Sentimento e entusiasmo foi o que não faltou, incluindo da parte dos artistas que atuaram anteriormente. Depois de vários temas, tal como ‘’Mataram o Artista’’ e ‘’Circo’’, e de muita interação com a plateia, a atuação deu-se por terminada, ouvindo-se ‘’Canta mais uma e deita a casa abaixo!’’, o que já não foi possível de concretizar. Sacik demonstrou, contudo, desejo de voltar a atuar no tão conceituado palco nortenho, insistindo que ‘’É sempre um orgulho estar aqui no porto, a receção é sempre calorosa. Obrigadão a todas as pessoas que marcaram a presença’’.

Finalmente, Dogma, Smélio, Duplo e Mazter tomaram conta da cena. Sendo todos membros da RockitMusic, ‘’5 vidas numa só direção’’, entraram com grande euforia. Entre diversos temas, tocaram o single mais recente, ‘’Rocker’’, produzido pelo icónico DJ Guze.

A esta performance, seguiu-se um momento de homenagem aos ‘’5 anos de trabalho, 5 anos de luta’’, em que os artistas presentes e a presidente da discográfica, Maria Beatriz Machado, foram chamados ao palco para cantarem os “parabéns” à instituição.

O último artista veio diretamente de Fafe. Ivo Almeida e Mark8 juntaram-se a Inztynto nos back vocals. ‘’Põe-te a salvo’’, novo single do artista, foi o auge da atuação. Lazy subiu também ao palco, depois de ter estado todo o concerto do lado da audiência.

O final do evento deu-se minutos depois, com o comunicado de Dogma e Martinez de que Holly Hood, o artista mais aguardado da noite, não poderia estar presente ‘’por razões de logística’’. O público, desiludido com a notícia, dirigiu-se quase imediatamente para a saída. Cerca de 15 pessoas, todavia, permaneceram no local, pelo que Versus, Martinez 687, Salama e Francisco Lopes entraram a’capella em improviso. A eles juntou-se Garcez no beatbox.

Versus partilhou mais tarde, na sua página de Instagram, um vídeo do sucedido, onde se podiae ler na descrição

‘’A festa só acaba quando acabar a voz’’.

Vê aqui a fotogaleria de Ana Rita Félix.

A Tribo chega à Invicta: Kappa Jotta e convidados no Hardclub

Na passada sexta-feira, o Hardclub teve a oportunidade de receber quatro grandes nomes no panorama do hip-hop nacional para uma noite calorenta e cheia de boa energia, algo que o Porto tem uma especial capacidade de transparecer.

Uzzy, Spliff, Kappa Jotta, e Dj Maskarilha foram os protagonistas desta noite que, segundo os mesmos, irá para sempre ficar nas suas memórias. A Tribo juntou-se para uma noite épica e a Invicta não desiludiu. 

Fiquem com a reportagem fotográfica completa por Ana Pereira aqui.

A Dica É Trocar Energias | Papillon @HardClub


Há gestos que demonstram o regresso, e Papillon, após ter pisado o Hard Club (com o Slow J), volta a pisar a mítica sala 1, mas desta vez por conta própria. Para todos aqueles que duvidaram da larva e do casulo, viram, no sábado anterior, a borboleta voar.

Reportagem por: Rita Carvalho

Vídeo por: Vítor Fonseca


O concerto iniciou-se com um set de Fumaxa em que a sua missão foi mais que cumprida ao manter o público energeticamente entretido.  11lights esteve presente também, convidado pelo DJ, com toda uma vibe relaxada e intensa ao mesmo tempo que combinava na perfeição.
Nasty e Harold não podiam faltar, e com eles seguimos em frente, assistimos ao chamamento de nomes e respetivo Voodoo. E como em qualquer festa, não pode faltar pelo menos um Barman não é? Ora bem, nesta houve três.

Papillon, Rui, Borboleta… Quanto a ti? Apenas obrigada. Tudo o que foi escrito com dor e sofrimento, tornou-se na realidade mais genuinamente pura partilhada por todos. Todas as Impressões que trocaste com o público, foram como um Íman que conecta dois pólos, neste caso não opostos, pois só os Imbecís é que não estiveram presentes. Só os imbecís é que não assistiram à bela obra de arte que nos proporcionaste.

O teu corpo fala tanto, emana tanta energia. Imagina quantas almas já tocaste, imagina quantas emoções já criaste, quanto impacto já tiveste. O teu people está Impec porque é assim que o deixas. Fizeste do momento algo memorável, e não esperemos a morte, isto é sem dúvida para sempre.

 

O dia em que se fez história

Os 22 anos de carreira do Inspetor Mórbido foram celebrados no mítico Hard Club este sábado, dia 2 de Dezembro.

Foi o regresso de um dos maiores artistas do hip hop tuga a uma das casas mais calorentas do país. E nós, fãs e artistas, estivemos lá como nos bons velhos tempos, juntos como um só, para ver a outra face. O concerto tão esperado pelo público hip-hopiano teve início por volta das 22:30h, e desde o primeiro minuto deu a entender que era um típico concerto de hip-hop: ambiente bombástico, boa relação palco- plateia, ótima demonstração do estilo peculiar com a dita “pinta” tanto dos artistas como do público abrangente, não esquecendo a variedade de sonoridade desde um estilo mais underground, até às batidas mais comerciais que ficam no ouvido.

Iniciou-se assim o concerto com a entrada de Majestic TK com uma atitude agressiva mas humilde. Seguiu-se Grandson, que convidou Inztynto para se juntar no palco e proporcionaram-nos um momento cheio de referências ao hip-hop nacional oldschool. UEEST presentearam-nos com um novo single chamado “Portugal”. Beat the System Crew, foram o grupo pioneiro da noite que nos apresentaram um dos momentos mais energéticos do concerto.

João Henrique foi o próximo e sucedeu-lhe Nexus que nos ofereceram um momento acústico, pouco esperado, acompanhado pelo guitarrista Rui Faria. Depois veio LóJico, um rapper gaiense que demonstrou grande mentalidade e abertura pela lírica dos seus sons, apresentando-nos, em palco, um novo single. Zona Norte marcaram a noite pelo seu acapella afirmando “Hip-hop é alma”, frase sincera que é sentida e partilhada por todos os amantes desta cultura. Salama, Cadi Pirataria, Base Off 547, Full Kalash foram os seguintes artistas a pisar o palco até que a primeira e única figura feminina, Ana Luísa, entra convidada por Equilíbrio e nos deixam relaxados devido à combinação de vozes de ambos. Fugitivo, Riça, Kass, Dj SirCyber, Sentido Único, Baddab, Org13, e Rockitmusic estiveram também presentes para mostrar que o hip-hop de hoje em dia não está morto.

Até que chega o momento mais esperado da noite, a entrada de Fusão. João Henrique, que outrora já tinha estado em palco, homenageou Fusão com a ajuda das luzes do público. Com a presença de DJ Flip, Fuse, o soldado com caneta de aço, preenche o palco com Verdade ou Consequência, e baseia a sua performance numa viagem ao tempo, relembrando temas de Sintoniza e Informação ao Núcleo.
A sua humildade inerente esteve lado a lado com as
vras sábias que abraçam intensamente qualquer um com o seu poder de hipnotizar apenas com o olhar. Proferiu: “este concerto não é só sobre mim” demonstrando assim a sua vontade simples e modesta de deixar um legado no hip-hop, dando oportunidade a não 12 magníficos mas a muitos mais para se exibir ao público Nortenho.

O tempo foi passando e com ele clássicos do artista foram apresentados desde “Prémio Nobel”, tema este associado à oferta de oportunidade do rapper para com os outros, até “bons velhos tempos” que fez jus à sua lírica: “É o regresso ao passado“ pois muitos temas foram buscados ao baú e “o presente é futuro” visto que o protagonista da noite disponibilizou aos artistas que outrora o admiravam um momento para se afirmarem e lançarem no mundo da música.

Como em qualquer aniversário, os parabéns têm de ser cantados, e neste não seria exceção!
O rapper foi interrompido e surpreendido pela mulher e em seguida pela fil
bolo de aniversário e em questão de segundos todo o ambiente agressivo do hip-hop tornou-se num momento amoroso, demonstrando que os 22 anos de carreira do artista também foram transbordados de carinho.

Mas Fuse não foi o único a ser surpreendido! Logo de seguida entra em palco um artista que não estava no cartaz, Relax, um rapaz nortenho, simples mas cheio de qualidades e talento. Seguiram-se dois rappers barcelenses, primeiro Mace e depois Delay, que apesar de não serem da cidade Invicta, demonstraram muita satisfação por poderem atuar na capital do Hip-Hop.

Posteriormente foi a vez de Omega Krew, Inztynto (novamente), Contrabando 88, Briga, Estúdio 101, Sujeito, entre outros, de ocuparem o palco, um de cada vez, com o tempo necessário para apresentarem parte do trabalho que têm vindo a construir.
Outro dos enigmas da noite foi mesmo o Enigma, que apesar de não esta
, abriu palco para a segunda atuação de Fuse. A sua entrada era muito esperada: gritavam aqueles que ainda tinham voz, via-se um sorriso rasgado e um brilho no olhar de todos os fãs que se perdurou até ao fim do concerto.
Já se passavam muitas horas de concerto: o público estava cansado, as pernas tremiam, a gar
nhava, mas nada valia mais a pena do que estar naquele momento lindo, inclassificável.

Como de costume, Fuse não desiludiu, e nesta última parte do concerto mostrou-nos a “Alvorada da Alma”, a sua “Caixa de Pandora” e alguns clássicos dealemáticos.

Fuse é um homem de palavra, e como já tinha prometido, presenciou dois sortudos da primeira fila com um casaco do seu grupo DLM e uma sweater do Ser Humano.
“Provavelmente a minha vida não rima com a tua.“ e provavelmente não rima com a de muitos,
m a de todos presentes naquela noite. Ainda rima. As pessoas simpatizam com este simples homem pelo facto de ser ele mesmo, por ser puro, por ser bondoso, por ser altruísta, por não perder a sua essência e por nos ter deixado a todos participar nos seus 22 anos de carreira.
É quando não se procura a felicidade que a se encontra. Ela é tão simples, é tão o dia 2 de dezembro de 2
oite será eternamente inesquecível. O Hip-Hop nacional precisa de mais iniciativas assim, que não se centram em si, mas no futuro desta cultura e na aposta dos novos talentos.

Esperemos que nos voltemos a encontrar todos, daqui a 22 anos, no mesmo sítio para demonstrar que esta paixão que fulmina permanece viva, fusível, e inquebrável.

Texto: Rita Carvalho

Vídeo: Vítor Fonseca

Phoenix RDC levou Vialonga ao Hard Club num American Express


Créditos: Ana Pereira | H2Tuga

 

Phoenix RDC apresentou o novo álbum American Express, no passado dia 09 de setembro, no Porto. O rapper “realizou o sonho” de levar o “hood para Hollywood”, ao encher a sala 2 do mítico Hard Club com Vialonga a acompanhá-lo em peso. A festa celebrou o mais recente disco de Phoenix, a sua carreira e ainda o facto da V-Block estar em foco no rap nacional.

A entrada de Phoenix RDC em cena, 10 minutos antes das 00:00 horas, foi ilustrativa de qual era um dos principais objetivos da noite. O vialonguense subiu ao palco seguido de uma dezena de pessoas, com o intuito de demonstrar que a caminhada para o sucesso foi sempre feita com quem o rodeava e que nesta ocasião tão especial não seria diferente.

Num momento de realização pessoal, o Renascido Das Cinzas recusou concentrar em si todas as atenções e preferiu dividir o protagonismo. Em conversa com a Hip Hop Rádio confessou nunca ter sido “apologista de pessoas que consigam singrar e que (entretanto) abandonem os seus.” Acrescentou ainda que “o mais importante é viver em harmonia. Não querer pisar os outros sabendo que esses têm o mesmo sonho que nós.” Para Phoenix, “isso (compartilhar o sucesso) vale mais do que dinheiro.”

Falemos então de Rap. Durante cerca de 50 minutos, Phoenix optou por alternar entre faixas do novo projeto e músicas de um passado recente. O artista entrou sem meias-medidas e abriu com “Papo-Recto”, numa entrega que colocou o público num elevado nível de entusiasmo, acompanhando a letra, “barra” por “barra”.

De American Express, disponibilizado durante a semana em que iria ocorrer a festa de apresentação, saíram os momentos de maior destaque. O single Papo-Recto 2” causou enorme efusividade nos presentes. O público gesticulava como se de um espelho de Phoenix se tratasse. As “barras” extremamente gráficas colocavam toda a gente a acompanhar física e liricamente o rapper. “Vidas” e “Moneycómio” sobressaíram em igual medida, com enfoque para as variações no flow do rapper, que foram perfeitamente seguidas pelos fãs. O público conhecia bem as letras de quase todas a faixas que Phoenix rappava. De ressalvar, aliás, como alguns elementos na plateia já dominavam os versos de faixas recentes, como é o caso de “Miséria”, das mais marcantes e emotivas de American Express, possivelmente o último álbum que Phoenix lançará.

Numa pequena entrevista à HHR perspetivou-nos isso mesmo. A maneira como o Rap é consumido atualmente, nesta era digital, e a forma como o rap de intervenção e de consciencialização tem vindo a perder-se nesse consumo, faz com que seja difícil, para o artista, prosperar. Ainda assim garantiu “continuar ativo” no que a faixas e participações diz respeito.

Phoenix, sempre fiel a si mesmo, trouxe para o palco a reconhecida crueza do seu street rap. “Street Tem Dono” “Crime”, ambas com participação de Kosmo, “Thug Life”, “Júnior Mafia”, todas elas faixas de Renegado, são paradigma do Rap empírico, frontal, duro e sem filtros de Phoenix.  A faixa homónima ao gang do qual faz parte, os Júnior Máfia, provocou um dos momentos da noite, com o refrão a ser entoado em uníssono, em clima de loucura, pelo público.

Créditos: Ana Pereira | H2Tuga

As dificuldades que Phoenix passou ao longo da vida sempre serviram de inspiração no momento de “pegar na caneta”. Falar do quão cru e verdadeiro é o Rap do MC e não falar de “Dureza” seria uma imprecisão. Apesar de ser um dos momentos mais aguardados da noite, “Dureza” surgiu mais cedo que o previsível. Carregada de emotividade no beat, na letra e até na forma como Phoenix se exprime na própria música, esta faixa representa fielmente a dimensão de um artista que vive o Rap como poucos, e que procura casá-lo com tudo o que a vida lhe proporcionou, de bom ou de mau.

Apesar de ter uma carreira que conta quase com duas décadas de existência, só nos últimos dois/três anos é que Phoenix RDC começou a obter um reconhecimento mais alargado. A Hip Hop Rádio quis saber se de alguma forma isto lhe provocava uma sensação agridoce e o MC argumentou: “Por um lado isto educou-me. Sempre acreditei que as coisas fáceis de obter também são fáceis de perder. Eu podia ter mudado a minha música para vender mais. Eu quero fazer música para (as pessoas) se consciencializarem, verem, aprenderem, crescerem, porque eu procuro educar.”

Para acabar o concerto, Phoenix escolheu “Renegado”, faixa homónima do projeto de 2016, deixando os fãs a pedir por mais, num concerto que se podia ter estendido. Pairou a sensação de incompletude por não tocar alguns singles do novo álbum, como “Luta”, “Lição de Vida” ou “12:00 pm”, que já prometem vir a ser clássicos do Rap nacional.

Pisar o palco do Hard Club, um dos ex-líbris do Hip Hop português, é sempre sinal de reconhecimento para qualquer MC, e o sucesso de Phoenix pareceu culminar nesta noite. O rapper disse ter conseguido” concretizar um sonho”, o de poder atuar no mesmo palco dos seus ídolos “Onyx”. “Quando não tinha tanta visibilidade, e assistia a espetáculos no Hard Club, sonhava estar do outro lado (no palco)”, finalizou.

 

Noite vialonguense … mas não só

Phoenix, sob o lema de carreira que o guia, levou o talentoso “hood” de Vialonga ao lendário palco do Hard Club, entenda-se então como “Hollywood”. Numa noite repleta de artistas, a V-Block mostrou toda a qualidade emergente na zona.

A festa iniciou-se por volta das 22.00 horas com DJ Nesley, que conduziu quase toda a noite vialonguense no Porto, a começar a animar a multidão que se ia formando. Pouco depois tivemos o primeiro concerto, por parte do jovem-talento Ali Badd. O promissor trapper começou a abanar com quem estava no recinto, mostrando uma energia contagiante aliada a alguns bangers de Trap. Ali fechou a performance eletrizante com o seu último single, “Motherfucka”.

De seguida, numa exceção ao domínio presencial de Vialonga, tivemos Mantorras, MC do Porto. O artista conseguiu, como habitual, causar algumas gargalhadas no público através dos seus improvisos. Para além disso, estreou uma nova faixa de nome “Cidades By Nights” e, claro, tocou ainda “3 Tangas”, o seu maior sucesso.

O Rap Crioulo de Vialonga não ficou de lado e Tchoras Mc foi chamado a representar esta vertente linguística do Rap nacional e de Vialonga. Durante cerca de 10 minutos de entrega e dedicação, o rapper mostrou a sua tendência para rimar sobre o meio onde cresceu, as condições inerentes e de tudo o que o rodeia no dia-a-dia. Tchoras quis também dar relevo ao papel interventivo do seu Rap.

 

Créditos: Ana Pereira | H2Tuga

Outro jovem a tentar afirmar-se no Trap, em Portugal, é Dero Vibez. Acompanhado de Real e de Flajó, os 3 perfazendo o conjunto Der Toten, deram um espetáculo curto, mas carregado de bangers. Um deles pareceu ser uma faixa nova de Dero, possivelmente denominada “Overdose”. A finalizar ouviu-se o seu último single “Codeine Boy”, que facilmente fica no ouvido.

 

Créditos: Ana Pereira | H2Tuga

Meia hora antes de Phoenix subir a palco, tivemos ainda o DJ com quem RDC costuma trabalhar, DJ Stikup. Com mais tempo que os anteriores convidados presentes, Stikup preparou o público com um set repleto de misturas, bangers do presente e do passado, tanto portugueses como internacionais. “50/50”, “All The Way Up”, “We Dem Boyz” e “Still Dre” são alguns exemplos.

 

Créditos: Ana Pereira | H2Tuga

Mesmo no final, como numa passagem de testemunho, Phoenix concedeu a um dos coletivos do momento a possibilidade de poder brilhar e fechar em grande a noite no Hard Club. Os Wet Bed Gang acabariam mesmo por fazê-lo com grande explosividade. A entrada ao som de “Não Tens Visto” provocou logo um momento apoteótico. Numa meia hora efervescente, o coletivo de Vialonga ainda tocou “Não Sinto”, um dos mais recentes singles do EP de estreia, Filhos do Rossi, com alguma remistura instrumental por parte do DJ de serviço. Os membros da WBG desfilaram qualidade no flow, nas vozes, na presença, e na interação, mostrando já uma experiência notável para quem anda nisto há pouco tempo. A faixa “Aleluia” colocou o espaço noutro nível de agitação, culminando mesmo numa invasão de palco por parte dos convidados. Esta noite, de apresentação do disco American Express, de Phoenix RDC, acabou por servir também como celebração da carreira de um artista que vê o sucesso chegar tardiamente. Sean Pd ainda foi a tempo de cantar, com Zara G, “Toque da Night”, encerrando a noite em festividade pura e em clima de dança.

Nota ainda para a ausência de Piruka, anunciado como convidado especial, e de Giovanni, que não cantou assim uma das músicas do momento no rap português, “50/50”, com Zara G.

No pós-concerto, Phoenix RDC tirou fotografias, falou com os fãs e viu os CD’s disponíveis “voarem” num ápice.

 

Escrito por: Emanuel Cirne