Hip Hop Rádio

graffiti

Unidigrazz: “Queremos mostrar às crianças que também podem fazer coisas noutros sítios sem ser na rua”

A Hip Hop Rádio marcou presença na inauguração do novo ciclo de exposições do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), que conta agora com “Prisma” da autoria de Vhils, “Naturezas Visuais – A Política e a Cultura do Ambientalismo nos Séculos XX e XXI” com curadoria do primeiro Coletivo Climático do MAAT e “Interferências – Culturas Urbanas Emergentes”, com a curadoria de António Guterres, Alexandre Farto (aka Vhils) e Carla Cardoso.

Não desfazendo todas as exposições que vimos e tendo já entrevistado Vhils sobre a sua nova instalação, disponível para ouvir aqui, fomos convidados agora a entrar num mundo das mais variadas “Interferências” para visitar, nas palavras de António Brito Guterres, “ a cidade, mas desenhada pelas vozes de quem lá mora”.

Esta exposição carateriza-se por afirmar diferentes expressões da cultura urbana, explorando itinerários narrativos da cidade através de um diálogo que privilegia o museu enquanto espaço crítico, lugar de encontro entre várias comunidades e sensibilidades – as instaladas que o frequentam e as subalternizadas que o desconhecem -, ponto de partida para novos começos.

Nas palavras de António Brito Guterres, que introduziu esta parte da exposição, esta é também “uma exposição que fala um pouco da construção da cidade desde 1974 até hoje, da revolução de Lisboa e Democracia, sendo fundamentalmente sobre a área metropolitana. Funciona de acordo com uma certa cronologia, mas também grupos temáticos, sendo possível encontrar um diálogo entre obras conhecidas que estão em coleções em contraste com novos artistas”.

Estes “grupos temáticos” têm os nomes de “Contra a Mudez das Paredes”, “Coerção, Resistência e Identidades”, “Desenho de Cidade Comum, Nós por Nós e Cidade Rede”, “Direito ao Imaginário” e “Padrão”, que contam, no seu todo, com obras de MaisMenos, Abdel Queta Tavares, Alfredo Cunha, Ana Aragão, Ana Hatherly, António Contador, António Cotrim, Blac Dwelle, Carlos Bunga, Ernesto de Sousa, Gonçalo Mabunda, Herlander, Isabel Brison , Julião Sarmento, Julinho KSD, Kiluanji Kia Henda, Luís Campos, Lukanu, Mantraste e moradores do PER11, Marta Pina, Marta Soares, Mónica de Miranda, Nuno Rodrigues de Sousa, Rodrigo Oliveira, Tony Cassanelli (Aurora Negra), Wasted Rita, Né Jah, Primero G, Rico Zua, Apollo G, G Fema, Tropas di Terrenu e The real gunz.

Para além de todos estes talentosos nomes, juntam-se ainda à exposição os artistas convidados: António Alves, Carlos Stock, Diogo “Gazella” Carvalho, Diogo VII , Fidel Évora, Filipa Bossuet, Herberto Smith, Obey SKTR, Petra Preta, OnunTrigueiros, Rappepa Bedju Tempu, ROD (Rodrigo Ribeiro Saturnino), Sepher AWK, Tristany, Unidigrazz e xullaji.

Orgulhando-se de ser uma exposição que procura dar visibilidade a outras dimensões da cidade,  “Interferências” “coloca em diálogo obras de artistas contemporâneos que usam as ruas como contexto de expressão e experimentação e obras de coleções institucionais e privadas” contribuindo para a exaltação de uma narrativa que permite ao público refletir sobre como culturas urbanas contribuíram para o desenho da cidade de Lisboa e desta nova metrópole, também na espectativa de vincular o -algo tardio- início da cimentação da cultura urbana em espaços institucionais.

Falando de novas vozes, já há muito em diálogo, chegamos a Unidigrazz, um coletivo oriundo de Mem-martins, Sintra constituído por Diogo “Gazella” AWK, OnunTrigueiros, Rappepa Bedju Tempu, Sepher AWK e Tristany.

Ao entrar nesta parte do museu somos de imediato recebidos pelas bandeiras de Tristany, que contam com a letra de “Hinu Digra” escrita nas mesmas, enquanto se ouve a música a ecoar na entrada, o mote que serviu de perfeita introdução ao que se avizinhava, com uma das mais imponentes peças de toda a exposição, a meu ver, logo ao virar da esquina, pela autoria de ROD (Rodrigo Ribeiro Saturnino): uma faixa cor-de-rosa choque pendurada, com a frase “Não foi descobrimento, foi matança” pintada com tinta preta.

Passando por obras de vários ilustres artistas como Filipa Bossuet, Herberto Smith, Obey SKTR e Petra Preta, chegamos ao apelidado “cubico” de Unidigrazz, uma reinvenção de uma sala de estar, recheada de arte estática ou em movimento, convidando qualquer um a entrar.

Depois das cordiais apresentações de cada membro do grupo, dando ênfase ao facto de faltar um membro do coletivo, Rappepa Bedju Tempu, procedemos a uma conversa para tentar aprender um pouco mais sobre este coletivo, a sua arte e quais os seus principais objetivos, assim como significado que trazem para esta exposição.

Falem-nos um pouco sobre como surgiu este coletivo.
[Tristany] Já nos conhecemos direta ou indiretamente desde o básico/secundário e da convivência da rua. Mas intencionalmente, antes da Unidigrazz, há muitos outros movimentos que antecedem como a Awake?, os Monte Real, houve uma tentativa também inicial onde por exemplo os Instinto26 faziam parte, o ari.you.ok , ou seja, haviam várias cenas que antecederam o coletivo Unidigrazz. E na construção, em casa do Diogo Carvalho, do início do trabalho visual para o Meia Riba Kalxa, o Diogo,  eu, o Nuno e o Rapepaz começámos com uma ideia bastante descontraída e relaxada de estarmos ali unidos a fazer uma coisa digra. E a defender essa estética. Pronto, isto é um bocadinho, todos nós temos conceções diferentes do que é a Unidigrazz e de como começou, em meados de 2018.

E surgiu então de uma necessidade de fazerem algo digra, como estavam a dizer, de passar essa mensagem.
[Diogo “Gazella” Carvalho] Surgiu mesmo da necessidade de criar. Da necessidade também de dar identidade a algo que já estava a ser construído a algum tempo, então saiu esse nome, de digras unidos, Unidigrazz, e conseguimos com esse nome dar também uma identidade forte ao nosso grupo e depois mais tarde o Sepher também entrou para o coletivo.

E reúnem as mais variadas formas de arte. Têm as artes plásticas, a música, o graffiti, o cinema também. É certamente uma mais-valia, serem um único coletivo que dispõe de talento em todas essas áreas.
[Diogo “Gazella” Carvalho] Sim, acho sempre que quando há mais escolha é sempre melhor e como nós temos este leque assim tão grande de artes também nos vamos entreajudando, um bom exemplo foi o projeto Meia Riba Kalxa. Vamo-nos entreajudando e também conseguindo bem representar e dar rosto (melhor), por termos assim tanto leque. Melhor a quem não tem ou a quem se calhar não consegue chegar a certos sítios, não por falta de capacidades, mas por falta de oportunidade.

E sentem que podem dar essa oportunidade, através da vossa própria curadoria, por também terem ligações mais próximas com outros artistas destes meios?
[Sepher AWK] É mostrar se calhar que é possível, mostrar às pessoas desse meio de onde nós viemos e vivemos e criamos e mostramos, mostrar que é possível alcançar estes objetivos assim, tás a perceber? E conseguir fazer as coisas acontecer mesmo de alguma maneira, vá de certa maneira, começar de um patamar diferente, mas mesmo assim conseguimos. Aquela consequência de todo o trabalho que já consumimos e nos influenciou, queremos poder conseguir ser essas mesmas pessoas e ajudar nessa evolução e desconstrução de bué assuntos da sociedade também e conseguirmos esse lugar.

Estavam a falar de influências, têm algumas influências para o coletivo e para os projetos que desenvolvem?
[Onun Trigueiros] A nossa influência acaba por ser todo o nosso meio que nos rodeia, todos os nossos amigos, a nossa família, os nossos passados em termos artísticos e coletivos e sim, acho que, de certa forma, a maior parte da inspiração que tiramos é daí. Depois também pegamos nessas pessoas e transformamos para os nossos trabalhos de forma mais subjetiva, não exatamente tão relatada como é, mas sim, damos o nosso toque e é isso.

Embora seja uma exposição muito extensa, é possível identificar que um dos pontos em comum parece ser explorar a ideia de que a poesia está nas ruas. Este é um statment com o qual concordam? Que é da rua que vêm talvez as formas mais autênticas de arte e dessa expressão cultural?
[Tristany] Imagina, eu acho que o nosso convite aqui foi muito até ir de encontro a esse mindset, porque facilmente se romantiza a rua ou o subúrbio ou a periferia como um lugar propício para as pessoas criarem ou começarem a ter narrativas boas para se criar. Aquilo que nós estamos a tentar fazer é através do cubico, de dentro, fazer surgir essa narrativa, porque nós não vivemos na rua, felizmente (risos), mas infelizmente o nosso único espaço, onde nós podemos estar, é a rua, e mesmo assim muitas vezes esse espaço é negado e oprimido. E também é importante dizer que a Unidigrazz quer-se digra, mas no sentido mais sensível, no sentido mais de afeto, de amor, porque inicialmente, ou se calhar o primeiro impacto, de tudo aquilo que é digra, é sempre visto como  muscular ou reivindicativo, marginal, ao mesmo tempo exótico, né? Distante. Então o que nós queremos é, acho que uma das nossas maiores narrativas é que digra seja um…
[Sepher AWK] Que não tenha medo de sentir.

Que não tenha medo de mostrar afeto.
[Tristany] Exato, uma pessoa mais sensível.

Essa pode ser vista como uma abordagem bastante fresca para trazerem para esta exposição, embora já se encontre bastante presente na tua (Tristany) música e nas tuas letras, por exemplo. Sempre foi algo que tentaste expor na tua arte, que é okay sentir e é importante ter esse lado mais soft, digamos assim.
[Tristany] Exato, eu não diria fresca, porque acho que sempre existiu. Sempre foi sentido, acho que é por aí.
[Diogo “Gazella” Carvalho] Como dizes, até se ouve nas letras, sempre existiu, acho é que estava mais oprimida, se calhar.

Sentem que agora há a possibilidade de lhe dar uma visibilidade maior?
[Tristany] Sim, mas não é agora que ela existe, e não é certamente por causa de nós ou disto, porque toda a gente sente amor e é algo que se deve mostrar.
[Diogo “Gazella” Carvalho] Tu vês pelas letras de rap lá de tempos mais atrás, em várias periferias, que já há essa necessidade também de deixar sentir, deixar que o digra voe.
[Tristany] Exato. E que não tenha medo disso tudo.

E qual é a mensagem que esperam que fique desta exposição?
[Onun Trigueiros] A mensagem que acho que nós todos pretendemos é… queremos fazer isto chegar ao máximo de pessoas possível e dar a conhecer um pouco a nossa história, quem somos e pronto, basicamente é isso, mostrar às pessoas e acho que às crianças também, principalmente às crianças, que também podem fazer coisas noutros sítios sem ser na rua. Se calhar nós crescemos e não tínhamos assim tantos artistas nos quais nos podíamos inspirar, mas hoje em dia nós queremos sair cada vez mais e dar esse…fazer sentir às crianças, passar a essas pessoas que é possível e que também podem sonhar com isso, que é possível. O objetivo é esse.

Por onde é que passa ainda, na vossa opinião, o diálogo de ser necessária mais representatividade neste ramo artístico? O que ajudaria a trazer mais iniciativas como estas, mais exposições como esta, a sítios com mais visibilidade?
[Tristany] Termos acesso. E isso deixa de ser uma questão.
[Diogo“Gazella” Carvalho] Reivindicar, como tinha dito na apresentação, um lugar que já é nosso, ‘tás a ver, mas que muitas vezes não é dado e revindicá-lo. Nós temos que ter acesso, temos que ter espaço também para conseguir mostrar, para conseguir criar e ter, se calhar, também uma maneira de viver diferente do que normalmente é mostrado, ou que deixam mostrar só, que a linha de Sintra e todas as periferias não seja só um sítio para ir dormir, mas também um sítio para criar, para fazer acontecer, não só arte, mas todo o movimento, que deixem as pessoas também de lá sonharem e terem outra maneira de vida.
[Sepher AWK] Seja o sonho que for. Mostrar às pessoas que é possível sonhar.
[Tristany] E que não precisamos de ir para Lisboa para consumir cultura.
[Sepher AWK] Existe bué cultura na linha de Sintra. Na periferia. Bué. Bué lugares que ninguém conhece, então acho que é mostrar esse lado.

Pode ser que agora passem a conhecer também, e a mostrar um maior interesse.
[Sepher AWK] Sim, sim. Exatamente.

Por fim, gostava de perguntar a cada um de vocês se têm alguma peça preferida das que trouxeram para aqui individualmente.
[Sepher AWK] [risos] Olha, o filme do Diogo é o melhor filme de 2022, pá, lamento Scorsese, toda a gente aí…

Fica a dica.
[Sepher AWK] Chama-se Nha fidju.

E há algum sítio para ver esse filme, sem ser aqui?
[Sepher AWK] Venham à nossa exposição, fica aqui [no MAAT] até setembro, mas vai estar disponível no Vimeo, o Diogo há-de tratar disso.
[Diogo“Gazella” Carvalho] E estamos aí a tratar de umas coisas se calhar… Nha fidju. Fiquem atentos .
[Onun Trigueiros] A minha peça preferida do Sepher é a das camadas.
[Tristany] Eu gosto bué da 1995 do Nuno Trigueiros.
[Diogo“Gazella” Carvalho] E eu gosto muito das bandeiras do Tristany, que estão lá na entrada.
[Onun Trigueiros] Mas o Rappepa também é muito forte…

Uma das minhas peças preferidas é este vitral pintado no teto, que foi o Rappepa que pintou, certo?
[Onun Trigueiros] Exato, é isso.

Braga a bordo do Expresso do Submundo

Os anos passam, o brio permanece. Se por um lado se cimenta a maturidade de Dealema, por outro continuam bem vincadas a irreverência e ousadia que os acompanha desde 1996. O Expresso do Submundo atracou em Braga e o Lustre abriu portas a uma noite pautada por um ambiente familiar, onde foram várias as notas de humor que pintaram aquela que se tornou, por momentos, a nossa casa.

DJ Guze girava os primeiros discos e a porta de entrada não tinha descanso: era longa a fila de pessoas que esperava entrar já a pensar na abertura do concerto. Rato54 entra para aquecer e afinar as vozes da plateia, iniciando o bom ambiente da noite: foram excelentes minutos com o rapper portuense, que só souberam a pouco porque o tempo que lhe era destinado era curto.

Mundo Segundo põe o pé no palco e atrevidamente pica o público, “toda a gente já se tinha esquecido de Dealema?”. O último concerto pré-pandemia de Dealema tinha sido neste mesmo palco para onde agora subiam . “Bom dia”, emana alegria por todos os cantos do Lustre. Seguidamente, vamos até ao Fado Vadio e, posteriormente, Escola dos 90 traz-nos recordações de um tempo que metade do público viveu e a outra metade apenas agora experienciava.

A porta foi esquecidamente deixada aberta e tons encarnados começaram a entrar no recinto. Pedia-se que se levantassem as mãos, entoava-se a uma só voz “esta casa tem demónios”; mas não só, também amor. O tema de não violência e liberdade já iniciado por Rato54, tinha agora palco:a sala do Lustre transformava-se na “Sala 101“.

Mundo Segundo prepara o publico para o que advém dizendo sem merdas que é “um dos melhores temas de sempre”. DJ Guze engana-se no beat a lançar e o MC do Porto não perde a oportunidade para referir que muitas vezes “DJ Guze é mais DJ Gozo”. A sala ri-se, o engano é a prova viva que os temos ali.

Acertadas as agulhas, emana das colunas “Brilhantes Diamantes” de Maze. Seguidamente, a bússola gira para Mundo Segundo com “Bate Palmas”. Recua-se depois até 2003 para um álbum que vai a caminho das duas décadas, “Dealema”. Entre a viagem pelos melhores temas do grupo, Expeão distribui elogios pela escrita dos colegas e confessa que está farto do rap do “blim blim”, levando a casa a reagir euforicamente. O humor continua, a energia de Expeão é contagiante, e este está tão enérgico que até faz uma bola de espelho desprender-se do teto. Mundo atira que ele é “o último rockstar”. Algo que nunca caiu foi o concerto: de faixa a faixa, entre sorrisos e batidas, escrevia-se uma bela noite de Hip Hop.

Mas o tempo não para e antes de Verdadeiros Amigos encerrar a noite, Mundo refere que nunca se sabe o dia de amanhã. O melhor será aproveitar cada concerto do coletivo como se fosse o último, pois, como nos bem ensinaram e se entoava na penúltima música da noite, nada dura para sempre.

ZooGang Crew: 16 anos de Hip Hop

Os ZooGang Crew celebram este sábado 16 anos de existência. O SkatePark da Maia é o palco escolhido para várias battles, concertos e graffiti.

Quem se atrever a visitar o Vol. II de Gizeh rises de ZooGang, vai poder estar em contacto com as várias vertentes do Hip Hop durante um dia.

O evento, de inscrição gratuita, conta com uma batalha principal de 1vs1 open styles. Os guest são 8: Douglas, Rato, Cee Cee, Mucha, Roberto e Mirre e o júri é composto por AIAM, Xikano e Mix. O grande vencedor terá presença garantida no Rockaforte 2019 e no First Steps 2020.

Para além do breaking, também o graffiti vai ter lugar marcado. Oker, Arde e Crude & Peste são alguns dos writers convidados. O mcing, por sua vez, é representado por Ser e West.

As habilidades de skate dos inscritos vão também ser postas à prova em concurso.

Composta por Sak, Lil Devil, Found Kid, Jurema, Lil Fun, Fumaça, Addict, Zini & Eletrik, ZooGang Crew nasceu em 2003. Desde aí, a presença em encontros de cultura urbana tem sido constante e alvo de vários prémios.

Mais informações aqui.

First Steps 2019: o Hip Hop no coração da Invicta

O First Steps voltou ao Museu Soares dos Reis, num dia de celebração do Hip-Hop. Este ano, a sétima edição contou com competições de dança e graffiti, workshops de Beatbox, DJing e Mcing e exposições de fotografia urbana. Por João Norte.

Durante a tarde, batalhas First Steps deram a oportunidade aos dançarinos mais jovens de mostrar o que valem. Com quatro competições diferentes, a irreverência dos mais novos entreteve o público e preparou-o para o que viria ser um resto de dia marcado pela dança urbana.

No entanto, nem todos os olhos do público estavam centrados no recinto de dança, porque o concurso de graffiti acontecia em simultâneo. Quatro writers ocuparam-se de desenhar murais, cada um deles uma ilustração de amor ao hip-hop. Já com a tinta seca, a pintura de Tiago de Carvalho foi considerada a melhor pelo júri.

O dia deu lugar à noite e os jovens dançarinos deram lugar aos mais experientes. As pré-eliminatórias das batalhas Pro Steps começaram de uma forma diferente: os concorrentes formaram uma roda gigante na qual estavam também escondidos os jurados.

No fim, foi revelado o júri que selecionou os 4 breakers e 4 dançarinos de top style que mais surpreenderam na cypher. De seguida, os confrontos das meias finais foram sorteados e, depois das finais, Bboy Rato e Dylex saíram do Museu Soares dos Reis como vencedores do Pro Steps 2019, nas categorias de Breaking e Top Style, respetivamente.

Continuando a tradição das outras edições, o First Steps 2019 apoiou causas solidárias através da recolha de bens e fundos e da venda de bilhetes. Este ano, os ganhos reverteram para o Centro Comunitário PRADO e para o Movimento com Abrigo.

Incorporando as quatro vertentes do Hip-Hop, o First Steps assume o seu lugar como um evento que, já na sua sétima edição, continua a ser um proporcionador da cultura urbana, especialmente para os mais novos.

Fotogaleria completa por Ana Rita Félix e João Norte disponível aqui.

BEAT FEST: Um festival de batidas, rimas e tintas

 

O hip-hop volta a estar em destaque no panorama dos festivais de verão. No Beat Fest “só” não há breakdance, mas, em contrapartida, apresenta uma programação de luxo a nível de MC’s e DJ’s nacionais. A praia fluvial da Ribeira da Venda, em Comenda, Gavião, recebe, de 2 a 5 de Agosto, o certame que tem como objetivo colocar o Alto Alentejo no mapa do movimento e, “quem sabe, trazer de volta aquele sabor e toque das old school hip-hop parties”. | Por Bruno Fidalgo de Sousa

Não só de MC’s se faz a festa em Comenda. A programação, que conta com Piruka, Slow J ou Mundo Segundo e Sam The Kid como cabeças de cartaz e  Nel’Assassin, Dj Kwan e Stereossauro nos pratos, “seja em clubbing ou turntablism”, só fica completa com Youth One, writer português que irá estar a pintar durante a tarde nos três dias de festival, explica Ivo Novais, um dos organizadores do evento, que acrescenta ainda “principalmente porque o consideramos um artista com alma hip-hop e, sendo a nossa primeira edição, queremos começar com uma vibe distinta”.

Embora o plano inicial contasse com a presença do breakdance e com dois artistas internacionais, o cartaz está fechado. Ivo explica que “infelizmente não conseguimos trazer artistas de breakdance, foi uma dificuldade que não conseguimos ultrapassar, estamos na primeira edição, esperemos que para o ano consigamos ter as quatro vertentes em pleno.”

Para além dos concertos já mencionados, também Mishlawi, GROGNation, Phoenix RDC, Cálculo, Kappa Jotta, TNT, Dillaz, Eva RapDiva e Holly Hood têm presença marcada nos três dias de festival. A completar o certame, a receção ao campista recebe ainda Kroniko, Sacik Brow e Alcool Club, para além de DJ Gijoe. “Esperemos conseguir criar um evento cujo o estado de espírito do público esteja interligado com o dos artistas, e quem sabe trazer de volta aquele sabor e toque das old school hip hop parties”, conclui Ivo.

O festival tem o apoio da autarquia e os bilhetes de entrada diária ficam a 10€, com o passe geral a rondar entre 22€ e 26€.

Fotografia de Arquivo

 

Mais que uma audição, uma troca de experiências

No passado dia 25 de novembro estivemos em Marvila para assistir a uma audição de talentos hip-hop promovida pela Associação Sons da Lusofonia.

Ao chegarmos à Biblioteca Municipal De Marvila pudemos de imediato constatar que não iríamos assistir a uma audição de talentos “normal” digamos assim. O ambiente era totalmente descontraído, não existiam participantes isolados no seu canto à espera da sua vez, estavam praticamente todos inseridos num só grupo a conversar. Havia a sensação de que já valia a pena estar presente neste evento apenas devido a esta troca de experiências, no entanto a realidade é que o objetivo era auditar talentos e, após algum atraso comparativamente às horas que estavam previstas, os participantes foram chamados a entrar no auditório.

Ninguém iria ser “avaliado” singularmente, todos os participantes poderiam ver todas as audições. Tínhamos cada vez mais a sensação que Rui Miguel Abreu, Carlão, Chico Rebelo e Cap estavam presentes não como júris mas sim como personalidades do hip-hop que apenas queriam ver o que de novo se andava a fazer. 3 das 4 vertentes do hip-hop foram auditadas: participaram concorrentes do Rap , B-boying e Graffiti , apenas ficou de fora o Djing.

A tarde de audições começou com Wesa, grupo de dança do Centro Artes e Formação da J.F. Lumiar, que deixou todos a vibrar com os movimentos destes jovens dançarinos. De seguida tivemos a primeira atuação de rap, a MC de Alverca, Máry M. abriu as hostes com o single “R.A.P” do seu EP já lançado “Momento Certo”. Foi notória a estupefação de todos perante uma performance que foi exemplar. As atuações de rap continuaram com Kaikai, rapper proveniente de Agualva Cacém, Primo, rapper da Baixa da Banheira que nos presenteou com uma atuação cheia de sentimento, Cadi que levou consigo os restantes membros do coletivo de de que fazem parte, Pirataria 2630 (vieram de Rio De Mouro até Marvila apenas para esta audição) e SXR, trio de São Brás, Amadora, composto por Spock (DJ), Errek e Buda XL (MC’s) que fizeram uma das performances mais enérgicas da tarde, um autêntico mini-concerto. Houve ainda espaço para mais duas participações. Ofelia (Ornella Castelhana), artista italiana, residente em São Vicente, fez uma apresentação dos seus trabalhos de desenho e Savy Bastards, MC residente em Arroios que apesar da barreira linguística conseguiu meter todos a cantar com ele.

A última atuação da tarde (em jeito de surpresa) ficou a cargo de DMK, duo constituído por Vera Di Moura e Kastiço, participantes em edições anteriores da OPA – Oficina Portátil de Artes, um projecto pedagógico desenvolvido pela Associação Sons da Lusofonia, desde 2006. No final de cada atuação, não houve apreciação por parte do júri, os vencedores do “prémio” (participação num espetáculo organizado pela Associação Sons da Lusofonia) irão ser
informados mais tarde e de forma individual.

Foi uma tarde muito bem passada na Biblioteca Municipal de Marvila. No final todos tiveram ainda direito a um lanche de convívio pois reiteramos mais uma vez, os objetivos deste evento foram sempre proporcionar o encontro de pessoas com gosto pela mesma cultura e a possibilidade de troca de conhecimentos e experiências, porque afinal o hip-hop é mesmo isso,
união. Estejam atentos às próximas iniciativas da Associação Sons da Lusofonia.

Texto: Daniel Pereira

Fotografias: Carolina Costa