Hip Hop Rádio

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Chelas é o Sítio, Chelas é o berço

Os fãs reconhecem de imediato o nome do coletivo: “Chelas é o Sítio“, canta, desde 2001, Sam The Kid. A partir de hoje, Chelas é também o berço de uma nova associação sem fins lucrativos que pretende contribuir e dinamizar o bairro lisboeta. A cultura, a música ou o desporto, com ideais de sustentabilidade e inclusividade, são algumas das bandeiras de Chelas é o Sítio.

A associação foi apresentada esta quinta-feira com a inauguração de um mural de Alexandre Farto (Vhils). À cabeça do projeto estão os nomes de Sam the Kid, Nuno Varela (Hip Hop Sou Eu), Adriano Finuras (Associação Torre Laranja), Ricardo Gomes (Masterfoot) ou Zé Silva (Chelas Cuts), mas Chelas é Sítio conta não só com quem ali habita, como quem visita o bairro. “A nossa energia está direcionada para contribuir e dinamizar o nosso sítio geográfico e a nossa identidade que é Chelas”, explicou Sam the Kid à Agência Lusa. É com bairrismo e vontade que o coletivo se disponibiliza a encontrar novas soluções, com destaque para a intervenção no espaço público, com mais espaços verdes, mais equipamento urbano, desporto incluso, mais educação e ciência nas escolas e através da organização de workshops.

“Hoje assentamos a primeira pedra”, anunciou Vhils ao completar o mural localizado à entrada da “Capital de Lisboa“. Já Sam the Kid pretende “(…) dar uma imagem justa a Chelas”, relembrando as mudanças que o tempo se encarregou de levar ao bairro de Marvila (nomeadamente a substituição do nome dos bairros I, J, N ou M – e até mesmo os movimentos a favor da mudança de nome do bairro em 2020, conflito ao qual o rapper, cuja atividade cívica é uma constante, veementemente se opôs).

Chelas é o Sítio conta com o apoio autárquico da Câmara Municipal de Lisboa e da Junta de Freguesia de Marvila, assim como outras instituições associadas à cultura, à música e ao setor social e comercial do bairro.

Em plena Noite dos Horários, Mundo Segundo fez esquecer as horas

A última vez que a Noite dos Horários apontou para o Hip Hop foi em 2017. A casa era outra, mas já na altura o convidado mostrava a força desta cultura: diretamente da Madorna, Dillaz encheu a noite e estourou a gravidade do sítio. Agora, os ponteiros alteraram-se – apontando para Norte – e Gaia veio até Coimbra pela mão de Mundo Segundo. Em plena Noite dos Horários, o mc do 2º piso abanou a cidade dos estudantes e… bem, ninguém deu pelo tempo passar.

Estando a noite perto das 4 da manhã, DJ Guze assumiu o palco e os “pratos” e preparou o público com “Gaia/Chelas”. Lá fora, à porta do Look Coimbra, os fãs faziam fila e sentiam o beat abafado.

Momentos antes de Mundo entrar em cena, o beat de Poetas de Karaoke mesclou-se com o de Sala 101: quem estava no exterior apressava o passo, enquanto quem se aproximava da primeira fila sentia toda a energia do mc de Gaia ainda este só tinha um pé em palco. O dealemático entra em cena, acompanhado de Macaia, e inaugura a noite com “Mais uma Sessão”. A verdade é que se subisse a palco sozinho o resultado seria o mesmo: palco cheio, olhar no público e uma energia bem caraterística.


Entre sonoridades antigas e novos êxitos, Mundo Segundo conduziu bem a noite e as sonoridades deliciaram os fãs. Contudo, se “Sou do Tempo” e “Escola dos 90” arrepiou a plateia mais velha, “Bom Dia” e “Bate Palmas” animou os mais jovens.

Ninguém dava pelo tempo passar e “Brasa” colocou a fasquia e a temperatura do concerto tão elevada que os ponteiros começaram a derreter. Com os pés bem assentes na terra, Mundo Segundo fez descolar os de toda a gente do chão. Depois da euforia, as luzes apagaram-se, os isqueiros subiram e todos os grupos de amigos ali presentes sentiram-se atingidos com “Era uma vez”.


O concerto estava a terminar, mas ainda havia espaço para uma última prenda vinda de Gaia. “Tu Não Sabes” encerrou uma noite que comprovou que o Hip Hop é uma aposta ganha. Uma noite em que Mundo Segundo saiu de palco ovacionado e a plateia rumou às ruas coimbrãs de coração cheio. Quem esteve a olhar para as horas, não sabe o que perdeu.

Foto-galeria por Diana Reis para ver aqui.

Nova música vinda de “Gaia/Chelas”: Mundo Segundo & Sam the Kid estão de volta

Depois de “Brasa”, Mundo Segundo e Sam the Kid reúnem-se novamente para dar vida a “Gaia/Chelas”.

Música com mistura e masterização por Gustavo Carvalho e videoclip por Cheezy Ramalho.

“Na origem de originais sempre originei mais, dos mais reais de facto baseado em factos reais!
O amor que sinto por isto? Segunda “Paixão de Cristo” prefiro aparecer menos nisto e fazer muito mais!”

Um ano de “Rap Consciente”, anestesia lírica e um baralho de cartas


Foi há precisamente um ano que “Rap Consciente” e “Poder” fizeram retornar um Valete do “abismo sem retorno”. Neste baralho de cartas mutável e inconstante que é o rap, onde o melhor MC está sempre à mercê da justiça poética de cada um e as rimas são ora moda, ora abalos progressivos na estrutura dita “normal”, o MC da Damaia – que já foi rei – estagnou e, agora, nem rei, nem valete, nem dama. Nem joker. | Por Bruno Fidalgo de Sousa

O “dono” de Educação Visual Serviço Público – trabalhos dos quais me lembrarei sempre com muito carinho – teve pouco mais que algumas participações e um projeto de super-grupo: editou o ano passado Língua Franca, com Capicua, Emicida e Rael. E agora, Valete? Onze anos, doze anos? Onde pousa o prometido Homo Libero? Pronto para sair do nevoeiro em força, ou sob anestesia lírica?

Reforço esta ideia: “anestesia lírica”. Se me permitem, vou cunhar este conceito e será, então, um amenizar da influência da mensagem (e não da lírica em si) ou do termo apropriado: contexto, perspectiva, reflexão. Uma pausa na relevância do que é dito (ou como é dito, lembrando-me agora de alguns MC’s nacionais cuja fórmula é repetida até à exaustão, uma fórmula já gasta). Será que é mais importante criticar o trap – que é disso mesmo que se trata – ou a nova vaga de rappers que em tanto diferem da velha escola do que, de facto, criar?

As duas faixas a celebrar o primeiro adversário nada acrescentaram ao portefólio de Valete. “Poder” é apenas uma lista de referências, em nada intelectuais, como seria suposto. “Rap Consciente” é um desbravamento infantil pelas novas tendências do rap, um olhar algo imaturo sob o futuro. Não foi um regresso, foi fogo de primeira-vista, porque o Valete de 2006 dizia, efectivamente, algo de único e diferente. Neste momento, a curiosidade em perceber qual o patamar de Valete e o que mudou com a sua ausência é maior do que a curiosidade em ouvir o futuro “melhor álbum” do hip-hop nacional.

Se existir um rei neste baralho, mora em Chelas. A posição de valete e dama é constantemente desafiada. O joker é demasiado lento para contar neste baralho de hip-hop (felizmente). E esta é a minha justiça poética. Homo Libero nas ruas ainda em 2018? Seria uma resposta, no mínimo, digna de aplauso.