Hip Hop Rádio

bezegol

Fotogaleria: Bezegol apresenta 7mm

O Hard Club fechou o mês de março com a apresentação de ‘’SETE Milímetros’’. Bezegol & Rude Bwoy Banda foram acompanhados em uníssono por uma plateia vibrante e multigeracional.

O concerto, que contou com faixas novas e sons mais antigos, celebrou a carreira do artista. O rapper DEAU, como seria de esperar, marcou também presença.

Galeria por Ana Rita Félix aqui.

44 anos de liberdade: entre samples e hinos de revolução

“Às vinte e duas horas e cinquenta e cinco minutos (22H55) do dia 24 Abr 74 será transmitida pelos “Emissores Associados de Lisboa” uma frase indicando que faltam cinco minutos para as vinte e três horas (23H00) e anunciado o disco de Paulo de Carvalho, “E Depois do Adeus””.

“Entre as zero horas (00H00) e a uma hora (01H00) do dia 25 Abr 74, através do programa da Rádio Renascença, será transmitida a seguinte sequência: Leitura da estrofe do poema “Grândola Vila Morena” (…) Transmissão da canção do mesmo nome interpretada por José Afonso”.

Há 44 anos, iniciou-se assim um dos passos mais importantes na história do nosso país. Duas músicas ditaram o destino de um povo que saiu à rua e brandiu cravos nas espingardas, que exigiu a sua independência e a sua negada liberdade. Duas músicas apenas colocaram em marcha uma nação e fizeram ocupar as ruas de resistentes, como fio condutor de uma inusitada forma de progresso.

É verdade que a música e o povo caminham de mãos dadas. Podemos também dizer que a revolução e o povo acabam sempre por se encontrar. Se a música e a revolução estão tão próximas das gentes, são quase companheiras dos ouvidos atentos e das discussões de café, não podemos também dizer que música é intervenção? A resposta é: não só, mas também.

Rap não é, de facto, só mensagem. É intervenção e orgulho, respeito, memória. A celebrar os 44 anos da Revolução dos Cravos, a Hip-Hop Rádio não passa “Grândola Morena” ou “E Depois do Adeus”. Mas inicia aqui um caminho, tão menos penoso que o caminho inevitável de dia 25 de abril de 1974. Caminhamos por nove faixas nacionais que, de alguma forma, estão intimamente ligadas à à revolução, à crítica social e ao progresso, que, num registo interventivo, se dediquem à luta pela justiça e liberdade. Com essa liberdade, vem também a liberdade de expressão que nos permite continuar a defender um jornalismo isento e de referência. Uma data a celebrar ininterruptamente.

 

[“Portugal Surreal (Fado, Fátima e Futebol)”, Dealema, 2008]

Foi em 2008 que os Dealema, através da Banzé, editaram V Império. “Portugal Surreal”, décima faixa do álbum, é uma crítica feroz ao fraco apoio do estado à cultura (que ainda hoje é tema de debate), à política, à corrupção, ao sistema de justiça. É um apelo, traduzido pelo mote “Fado, Fátima e Futebol”, que tanto se ouviu pelas ruas portuenses, à ruptura na ilusão de “um povo constantemente explorado”.
“Portugal Surreal” não tem qualquer referência à revolução dos cravos. Tem, contudo, uma mensagem que trespassa décadas e séculos e ressurge sempre: o urgir pela inquietude e pelo pensamento crítico. A tentativa, que músicos outrora ousaram compor, de abrir a mente do povo.

“Mas não há problema enquanto houver a vinhaça
Não há stress enquanto houver uma passa
E haverá dinheiro sujo enquanto houver uma brasa”

 

[“Fora da Lei”, Bezegol, 2011]

Se Bezegol prestou a sua homenagem a Zeca Afonso com o cover de “A Morte Saiu À Rua”, encarou – novamente – o papel de mau da fita em “Fora da Lei”. A faixa do Monstro EP (2011) é mais uma história das ruas, um retrato do proletariado empobrecido e uma crítica adaptada à voz áspera do MC portuense. A chamada do povo às ruas, a exaltação: “Será que nos vamos aguentar/ Ou virar uns fora da lei?”. A rudeza de Bezegol será sempre um indicativo do que algo está errado.

“Ó pai tramado o que nos está a acontecer?
Tanta glória passada e tanto lixo a aparecer
Como vamos explicar à próxima geração
Os espinhos que vivem nos cravos da revolução?

 

https://youtu.be/2D40-NSS-FU

[“Eles Comem Tudo”, Chullage, 2012]

Os “vampiros”, aqui, são os “glutões, gananciosos, sanguinários, assassinos, ladrões, expropriadores de indígenas, violadores de túmulos de povos anciãos, traficantes de necessidades induzidas e de remédios para males por eles criados”, diz Chullage. Em “Eles Comem Tudo” (Rapressão, 2012), onde sampla “Os Vampiros” de Zeca Afonso, a crítica social tem uma componente intransigente (aliás, como em todo o trabalho dele) e o flow rápido e o beat alucinante traduzem a mensagem contra a opressão do MC da velha guarda em versos habilmente dedilhados.

 

[“Portugal aos Portugueses”, Chullage, 2012]

Na verdade, Chullage é duplamente representado nesta lista. “Portugal aos Portugueses”(produção de P!), do álbum Repressão – Rap, Ruas e Resistência, representa o português, independentemente de credo ou raça, imigrante ou emigrante, filho de Portugal. O refrão, que dá título à faixa, é uma chamada antagónica de um dos maiores intervencionistas do hip-hop nacional. Um “abre-olhos” face à discriminação, uma comparação entre “um Portugal homossexual e outro chamado normal e hetero”.

“Cidadãos do mundo,
Há vários Portugais,
Mas podia haver só um,
O outro Portugal é possível se a luta for comum.”

 

[“Portugal”, Dillaz, 2014]

Não só da revolução se faz a democracia. Mas, com a democracia, consegue-se ter, no mínimo, um conceito de livre-arbítrio, uma esperança de liberdade. “Portugal”, faixa do EP Dillaz & Spliff, é quase uma reportagem do Chapz: as consequências e conclusões da agenda política, da emigração, da degradação da cidade (“todos os ricos sorriam, todos os pobres choravam“). O rapper da Madorna diz ainda que “eu perguntei pela miséria/ E todos os dedos me apontaram a Portugal”. Uma luta constante.

“País à beira mar plantado e enfeitiçado pelo que eu sei
Quero viver como quis, porque eu pertenço ao país
País não pertence a ninguém”

 

[“Voz de Abril”, CharlieBeats x MarcosBest, 2015]

Em 2015, CharlieBeats samplou “Era de Noite e Levaram”, de Zeca Afonso, no tema “Voz de Abril”, um projeto da MalAmados. Tinha – e tem – o objetivo de homenagear o cantautor e ativista português, uma das vozes da revolução. “Eu tenho mais  de vinte e tal/ e um desejo bem normal/ter uma casa e uma família/ tornar o meu sonho real/ eles levaram os meus sonhos/ a minha visão do futuro/ deixaram uma vela apagada para ver no escuro” canta MarcosBest. E, pelos versos finais (laminados por X-Ato), “são músicas, são canções” e são, de facto, músicas e canções que, de certa forma, fazem rodar o mundo.

 

[“Terra Prometida”, CharlieBeats x Papillon, 2016]

No ano seguinte, em “Terra Prometida”, com Papillon, sampla “O Pastor de Bensafrim”. O MC dos Grognation narra a história de um emigrante recém-licenciado. Narra, enfim, uma história comum a muitas realidades, inclusive a sua, uma história paradoxal onde a “Terra Prometida” não é ir embora. “É pensar em infinitas possibilidades/
Viver baseado nos “ses” da vida só te deixa condicionado” canta o autor de Deepak Looper, em homenagem não só a Zeca, como a muitos como ele. É uma comum história de vida, marcada com um rápido e atroz final. Nota ainda para a referência a Pedro Passos Coelho (“Até vi o Primeiro-Ministro na televisão a falar para a população/ Incentivando a emigração”).

 

https://www.youtube.com/watch?v=J_2SKk5FV-o

[“Bravos”, CharlieBeats x HipnoD, 2017]

“Eu só quero ser feliz/ A viver nesta terra do mal/ és tão pequeno mas tão grande portugal” fecha o refrão de “Bravos” que sampla uma canção homónima de, novamente, Zeca Afonso. HipnoD e CharlieBeats, juntos para publicar esta faixa no 25 de abril do ano passado. Novamente numa exaltação à liberdade e à terra natal, uma manifestação de vontade e memória (“Ordenadas pelas ordens/ Esquecem os nossos avós/ Vozes por ti ficam nós).

“A vida chama liberdade/
Pois liberdade chama-se vida”

 

https://www.youtube.com/watch?v=5OwKw2uG8-Y

[“Cobradores de Impostos”, Allen Halloween, 2017]

Allen é Allen. Um resistente, um storytelller, um velho sábio das ruas. Em “Cobradores de Impostos”, Halloween critica, com as suas palavras que tão bem se fazem visualizar, o governo (“Eles vêm como aqueles pássaros que vêm e passam e tudo o que vêem comem/ Eles comem do bom pedaço e bebem bagaço e o suor dum homem”). Num tributo a Zeca Afonso, quem mais, ele que dá capa ao tema no YouTube, Allen faz referência à passagem bíblica “Dai a Cesar o que é de Cesar, dêem a Deus o que é de Deus” numa metáfora à injustiça judicial e aos impostos, e a mãe receberá apenas “o seu corpo”.

 

https://www.youtube.com/watch?v=r-wdGyr5J3o

 

“É importante que não deixemos murchar o Cravo que abril floriu.”

 

Por Bruno Fidalgo de Sousa

 


Como é belo o fado de Coimbra

“São nossas as mãos que constroem a utopia”,

estava escrito na faixa de entrada do recinto da Festa das Latas e Imposição de Insígnias, certame de receção aos novos alunos de Coimbra – que este ano sofreu algumas alterações quando comparado com os anos anteriores. O que mais se destaca é o cartaz recheado unicamente de nomes nacionais. Se o hip-hop se faz ouvir em todo o país, também faz sentido a sua presença na cidade da sabedoria e do fado.

Desta vez, Coimbra abriu a portas a novos e velhos alunos. De quinta a sábado,  Slow J, Valete, Bezegol. Daqui, partimos para o que esta geração de hip-hop nacional vai construindo: o direito de ser único, de criar arte, de se expressar. O direito de construir a utopia, como escrevem os estudantes. O direito de ter “uma vida boa”.

Lento demais para toda a gente, Slow J

Slow J abriu as hostilidades no que toca ao hip-hop em Coimbra. Sem Nerve, Gson ou Papillon no bakcup, trouxe consigo a humildade que lhe é característica.

“Arte” abriu o concerto, que rapidamente foi espelhando o The Art of Slowing Down, com os habituais Francis Dale e Fred reinventando melodias. “Comida” e “Serenata” foram algumas das músicas mais aplaudidas, mas é um facto que a forma como o recinto vibrou com “Cristalina” prova a intemporalidade do The Free Food Tape, primeiro EP do músico português.

E foi-se, assim, iniciando a construção da utopia. Porque também Slow J apresenta “o seu fado”, em “Casa”, como os estudantes o fazem em Coimbra.

Em “Fome”, música que foi muito bem-recebida pelo público, Slow J reafirmou, mais uma vez, o seu estatuto no rap. E, para fechar, Slow J reafirmou o seu estatuto na música com a sua cover bem conhecida de “Não me mintas”, de Rui Veloso, antes de sair de palco e dar um abraço coletivo aos fãs que o viam junto às grades.

Hora de ligar o Canal 115.

Valete foi trunfo nas Festas das Latas em Coimbra.

Duas e trinta da manhã. As luzes começam a chamar pelo público, a batida de Poder começa a fazer-se ouvir e a multidão a juntar-se. O general entra em campo, vestido a rigor e pronto a marchar por mais uma noite de rap consciente.

Por várias vezes, Valete profere a frase “um só caminho”. Antes de ser um rapper, Valete é hiphoper e este quer “que o movimento siga a formação original – é para afetar as pessoas, para as levar para um novo caminho, para dar a volta”, revela-nos o artista na conferência de imprensa que deu no final do concerto.

Este continua e clássicos como “Roleta Russa” ou “Não pára” agitam o público. São vários os momentos em que Keidje nem precisa de cantar, pois a assistência sabe as letras de cor. Em uníssono, gritam-se versos desde “Os Melhores Anos” até “Fim da Ditadura”.

O tempo passa rapidamente e é com grande entusiasmo que a plateia recebe a última música. “Rap Consciente” começa a entranhar-se, as mãos erguem-se ao ritmo da batida e a mensagem que o general quer fazer passar é cumprida.

“O Hip Hop tem mesmo de crescer e de se misturar. O de 2005 não pode ser o de 2016.” Contudo, não deve perder a matriz com que foi criado. O Hip Hop incomoda. E neste momento não está para incomodar”, afirmou o rapper.

Valete não teve medo de se erguer, nem de dar o peito às balas. O concerto espelhou muito bem tanto os melhores anos da sua carreira como os períodos mais difíceis em que Johnny Walker eram o seu refúgio. Contudo, passados tantos anos, continua a ser um anti-herói e esta passagem pela cidade dos estudantes vai deixar saudade.

Bezegol, o fora-da-lei

Ao quarto dia de Latada, terceiro dia de hip-hop em palco, foi a vez de assistir ao concerto elétrico de Bezegol. O MC português juntou a sua voz tão característica às vozes de um público bem constituído que acompanhou bastante bem todo o concerto, já enamorado pela guitarra de Rui Veloso – que atuou e que levou Bezegol ao palco para embalar os estudantes com “Maria”.

Entre músicas como “Tempo” e “Era Tão Bom”, constrói também ele a sua própria identidade, muito singular. Seja em “Monstro”, seja em “Fora da Lei”, o MC evoca sempre a crítica social e política e abstrai-se de ser como os outros (“Esforço-me por descobrir a forma de fugir à norma/ de ser o monstro que a vida nos torna”, canta). Em Coimbra, não foi exceção, dando brilho a um espetáculo muito bem acompanhado.

Entre “Beijos”, Bezegol meteu o hip-hop da Festa das Latas e levou-o para casa.
Afinal, é belo o fado de Coimbra. E “as mãos que constroem a utopia”.

Escrito por: Bruno Sousa e Nuno Mina