Hip Hop Rádio

bairro da ponte

GuiaHHR: Dez discos para ouvir em 2019

Em 2018, o Guia Hip-Hop Rádio teve o intuito de analisar e contextualizar os “doze projetos que mais se destacaram no movimento – e porquê”, um pequeno ensaio fruto de infindáveis horas de audição. Neste caso, isso será (quase) impossível, já que o Guia HHR de janeiro se vai debruçar sobre a música que ainda não saiu, à excepção dos singles reproduzidos. Para este ensaio, entrei em contacto com os MC’s e produtores com projetos anunciados, recém-publicados e ainda por desvendar em 2019, com uma só questão. Ficam as respostas. Por Bruno Fidalgo de Sousa.

Como descreves o álbum que te preparas para lançar?

Stereossauro - Bairro da Ponte

“Estou muito ansioso por lançar este trabalho, o Bairro da Ponte é o trabalho mais importante que fiz até agora e o que gostei mais de fazer também, este disco inspira-se na nossa música tradicional, o fado, com vários samples dos “cofres” da Valentim de Carvalho, e tem gente talentosa de todas as idades e estilos musicais a participar, todos os vocalistas e musicos que participam foram incríveis e fizeram este disco possivel.”

Bairro da Ponte chega amanhã às lojas. “Flor de Maracujá” é o primeiro single:

Reflect

Amanhã lanço o meu “Castelo de Cartas”, que continua a contar uma história no ponto em que o “Barco de Papel” a deixou e que começou na “Eu fico bem”.) Tal como aconteceu com o meu primeiro álbum “Último acto”, voltei a criar música desprendido de tudo o que não seja a minha inspiração.Decidi dedicar mais tempo a cada tema e ir contando esta nova história por capítulos. No final, transformar-se-ão no meu terceiro álbum, quando a minha inspiração me permitir dizer tudo até à data em que decida lançá-lo.Até lá e para quem segue o meu trabalho, resta-vos desfrutar da viagem porque o final ainda só eu conheço. E obrigado.”

Reflect, MC e fundador da Kimahera, label algarvia, prepar-se para lançar o seu terceiro álbum. “Barco de Papel”, publicada em fevereiro de 2018, é o primeiro single:

xtinto - Latência

O conceito do Latência começa no retardamento propositado do seu lançamento. Depois da Odisseia, Latência é o jet lag consequente dessa viagem, desta vez mais sozinho e introspetivo.”

Odisseia, com Dez, foi a primeira amostra do trabalho de xinto. O rapper de Ourém prepara Latência, EP em colaboração com benji price. “Quentin Miller”, o último tema do MC, tem produção de rkeat, também da Think Music.

Grilocks - Nimbus

O Nimbus é um álbum introspectivo onde dizimo o meu ego para ouvir o meu eco, transformando problemas em soluções, onde assumo uma forma diferente de estar na vida, menos ingénua e mais confiante. Com vários ambientes, uns mais agitados outros mais românticos, com várias cores e sensações, viaja a vários desassossegos do nosso âmago, que penso serem abrangentes a todos nós, de formas e perspectivas distintas. É inteiramente produzido e dirigido pelo Khapo, sem uma linhagem muito concreta ou definida, há sempre um tema que está ligado a outro, é um álbum dinâmico e com uma intenção profunda.”

Depois de CARISMA, em 2016, Grilocks prepara-se para editar Nimbus, com a Mano a Mano. Por agora, “Labirintos” é o primeiro single, com participação de Bibi Ross. Segue-se “Mais Do Que Pele”, com Napoleão Mira, agendado para dia sete de fevereiro.

Macaia

“É um álbum de ensino para quem crê que pode aprender sempre mais. Um lembrete de que podemos ser mais e melhores, ainda que tudo à nossa volta não esteja em favor do nosso futuro. E é, sem dúvida, um agradecimento a todos os amigos, familiares e desconhecidos que me dão força para subir esta montanha que é a vida. Subimos Todos.”

O álbum de estreia de Macaia, que já demonstrou o seu talento ao lado de Mundo Segundo, Kappa Jotta ou Cálculo, era há muito esperado. O artista de Abrantes tem já dois singles na rua deste projeto ainda sem nome. “Casa de Oportunidades” foi o primeiro tema a ser divulgado:

Tom - MAD

“É complicado descrever uma dica cujo título é Mente a Divagar em simplesmente duas ou três frases… já tinha pensado em fazer uma cena mais consensual e específica mas a meio do trajeto decido abordar mais os aspetos técnicos do meu rap e tentei caminhar por vibes diferentes! Novos flows, métricas, etc… mas tudo dentro das “legalidades”. É uma espécie de egotrip consciente… Onde um gajo se preocupa com o que vai dizer, mas também anda ali à procura duma forma diferente de o poder fazer.”

Mente a Divagar, segundo álbum de originais de Tom (sucessor de Guarda-Factos, de 2016) ainda não tem data. Contudo, já podemos ouvir o tema “O que é que a vida traz”, com instrumental de Razat, primeiro single do disco:

TNT

Este ano vou lançar um novo trabalho, um EP de sete temas, todo produzido pelo DJ Player. Tem algumas participações de pessoal ligado à Mano a Mano, como Amaura e Jay Fella, e outras por revelar. Em breve irei lançar novo vídeo e avançar mais detalhes.”

O rapper de Almada tem já um vasto portefólio. O último trabalho tinha sido Menino de Ouro. “Flow” é o primeiro single, com participação de Amaura.

Praso - L.E.V.

“O nome do álbum diz tudo. É um álbum livre, que me sai por espontânea vontade.”

LEV (Livre e Espontânea Vontade) tem data marcada: 25 de abril. Já estão disponíveis seis temas, um deles, “Até virar pó”, com Sara D. Francisco:

Russa - Mixtape L.S.D:

“Esta mixtape é muito diferente do álbum Catarse, lançado em março. São beats mais clássicos (todos do Madkutz) e o maior foco é em storytelling e não em punchlines, como é hábito. Foi tudo escrito e gravado em apenas um mês, num ambiente descontraído e mais numa de let’s have fun!”

 

Do “Bules Para o Mercado” e “Yoyoyo” foram os primeiros temas desta mixtape de Russa, com produção de Madkutz. Os restantes temas vão ser revelados ao longo das próximas quatro semanas.

Phoenix RDC - O Melhor Álbum de Hip-Hop Português

“Já faço castelos com a merda que esses putos metem na boca”

 

Ainda em janeiro, Phoenix RDC divulgou uma mão cheia de singles e O Melhor Álbum de Hip-Hop Português. O disco tem o selo de sete produtores. “Chiripiti” tem (mais um) instrumental de Lazuli:

Com O Melhor Álbum de Hip-Hop Português já nas ruas e Reflect e Sterossauro com novidades para amanhã, resta aguardar pelo próximo MC a deixar a sua marca em 2019.

Guia HHR: outubro quente traz o diabo no ventre

Outubro quente traz o diabo no ventre. Podia também escrever “outubro quente traz hip-hop no ventre”, que faria igualmente sentido quando nos deparamos com o que este mês deu aos hip-hop heads de Portugal: álbuns, singles, videoclips de renome, bangers, temas ainda por desvendar. Do regresso a solo de Sam The Kid – coroando o ano com Mechelas – à estreia no formato longa-duração de Subtil, a mais um (grande) disco underground dos Colónia Calúnia, aos singles aclamados de Deau, Allen Halloween, Virtus e Holly Hood, entre tantos outros. Não obstante os lançamentos internacionais, o Guia HHR deste mês é dedicado ao hip-hop nacional.

Foi Holly-Hood quem estreou o mês com mais um single da segunda parte de Sangue Ruim, após “Cala a Boca”, lançada há cerca de um ano.”Miúda”, produzida, misturada e masterizada por Here’s Johnny (quem mais?), apresenta-se com um vídeo realizado pelo próprio MC, que já arrecadou mais de dois milhões de visualizações no YouTube e até contou com uma “resposta”, por Annia. O artista da Superbad. ainda não revelou qualquer data para Sangue Ruim. 

Regressou com um “Aviso”, este ano deu o “Ponto de Partida” e no final de setembro disse ser”O Mesmo”, e a verdade é que o mesmo Deau conquistou mais uma vez o público com “Traça a Linha” e “Simples“, ambos os singles produzidos por Charlie Beats nesta que é muito provavelmente a amostra de um novo álbum, depois do  rapper portuense editar Retissências (2012) e Livro Aberto (2015).

“Parceiro tu não te baralhes
Se estiveres a dar cartas na área
Guarda os trunfos que tiveres na manga
Para na altura certa recolheres a bazada
Porque se eles quiserem o ouro
Dão-te com paus até te virares do avesso
Ficares encurralado entre a espada e a parede
Fechado em copas até te encontrares seco”

Deau em “Simples”

Fonseca e Senhor Timóteo foram dois dos artistas que iniciaram o mês com o pé direito: “Deixa Que A M*rda Passe” é o single de apresentação da dupla para um EP em conjunto de quatro temas, no momento em que Fonseca se prepara também para lançar Domínio Do Delírio, com Cripta, que assina a realização deste videoclip, assim como a mistura, a masterização e as vozes adicionais da faixa.

O início do mês trouxe também à tona Subtil, outrora conhecido por 100Nome, que chegou “sem nada a temer”. Áquem-mar é o seu álbum de estreia, “um disco produzido e gravado por Praso no Artesanacto”, que sucede ao EP Venho Pelo Meu Nome e conta com 12 temas, incluindo o single “Cada Um”. É de notar o carinho da label Artesanacto pelo newcomer algarvio (…), apadrinhando o projecto com as suas produções (Montana e RichardBeats assinam um instrumental cada, Praso compôs os restantes onze, incluíndo a “Intro”) e com participações de Mass, Tom, RealPunch, Dani, JV e Odeo.

“não sou velha nem nova eu sempre fui expulso da school”

https://www.youtube.com/playlist?list=PLF374FfAS_kioVqSaFu0SxT8zn1cJ2y0R

Mas foi a 13 de outubro que Samuel Mira abalou a estrutura com Mechelas, o álbum de regresso, sucessor de Pratica(mente). Note-se que é maioritariamente um álbum em que STK atua como maestro, o inevitável produtor de toda a obra, alicerando nela nomes como GROGNation, Phoenix RDC, Ferry, Blasph ou Sir Scratch, sendo que todas as faixas já foram publicadas na plataforma TV Chelas. “Sendo Assim” foi a cereja no topo do bolo: Samuel a solo, desde sempre “na life de mil e cem romanos” a rimar num tema que já encontrou lugar no coração dos hip-hop heads. 

Sam The Kid prepara agora Classe Crua com Beware Jack. A edição física do Mechelas pode ser adquirida na loja online da TV Chelas por dez euros.

Confirma-se o mês entusiasmante. E ainda não está perto de terminar:

A 12 de outubro, Amon e Nero e Dj Sims brilharam num instrumental de Groove Synthdrome numa faixa intitulada “Sem Tirantes”, editada pela Pipa de Vinho Rec.

Allen Halloween e Maradox Primeiro, que são um e o mesmo, tentaram diminuir a ansiedade dos fãs do MC “Na Porta do Bar”.

Mais música por Apollo G, “Bem di Baixo”, desta vez com Bispo e Landim e produção de RDG. O tema pertence à mixtape Sucess after Struggle.

Com produção de Andrezo e participação de Murta, Domi estreou “Rosas”, tema que é acompanhado pelo vídeo de Tomás Zimmermann.

A recente Andamento Records publicou “Way”, tema que une Lil Ameal e VIC3 num produção de mendez.

Depois de “Ainda Não Tem Nome”, Virtus aliou-se a SP Deville para o tema “Trapézio”, prenúncio para um novo álbum depois de UniVersos, e conta com uma animação e ilustração de excelência, por Paco Pacato:

“não é questão de lógica é a relação morfológica
não recito ou declamo, repito o que reclamo
na verdade que nos afronta sem frente
que me desmonta e desmente
esta é a segunda a vez que eu fico assim para sempre”

rap das Caldas da Rainha também teve uma palavra a dizer este mês: “Flor de Maracujá é o novo single de Stereossauro, o sucessor de “Nunca Pares”, e conta com letra de Capicua, voz de Camané e uma sample de Amália Rodrigues. A realização é de Bruno Ferreira. O tema fará parte de Bairro da Ponte, que é esperado sair em breve e será editado pela Valentim de Carvalho. O comunicado refere-se ao álbum como “a nova voz de uma velha cidade que pede para ser ouvida”.

Ainda na “cidade das rotundas”, Scorp publicou “Cara Lavada” e já tem nome para o novo projeto: Visão Noturna. Também T-Rec publicou “2T”, faixa com scratch de Stereossauro e instrumental de DONTLIKE.

Com mais um lançamento em 2018, A Vida Continua é o novo álvum de estúdio de Boss AC, sucedendo ao EP Patrão. do qual se reeditaram os temas “As Coisas São Como São”, “O Verdadeiro” e “A Vida (Ela Continua)”. “Por Favor (Diz-me)” é o primeiro single do álbum de 12 faixas e conta com a voz de Matay e vídeo da WILSOLDIERS.

Também Spliff, produtor e agora MC da Madorna, estreou o seu primeiro álbum na arte das rimas este mês. “Miráculo” fora o mais recente aviso e Risco o culminar. São, ao todo, 14 temas, com participações de Zeca, Vulto, Nog e KidSimz. Quase todos os instrumentais foram produzidos pelo habitual companheiro de Dillaz, este que não entra em nenhuma faixa.

E a corda já tá no pescoço
Tu não faças o que eu digo
É mais fácil ires a Marte
Do que seres aquilo que eu vivo

Spliff em “Confundido”

A fechar o mês, destaque ainda para Chá de Camomila, EP de Toy Toy T-Rex, rapper da Linha de Sintra associado à BANDOMUSIC, que conta com 11 faixas e participações de Mafia73, Yuri da Cunha, DCOKY e Nimsay.

Single novo de Jotta R, MC de Évora: “Tão Good“.

holympo também tem novo música: “Palavras”, uma ” versão da balance do lord d”. Manthinks colaborou com DUQUEGOTBEATZ em “GAME MODE“.

TNT foi outro dos rappers com singles publicados. “Flow” é a primeira amostra do próximo EP do MC de Almada, que se alia a DJ Player e AMAURA (Maura Magarinhos), num videoclip assinado por Manuel Casanova. A Mano a Mano disponibilizou também “Missão a Cumprir” no seu YouTube oficial, o primeiro álbum dos M.A.C.

Para o final, reservamos o álbum de outubro (talvez do ano). Os Cólunia Calúnia já tinham avisado com “Caixão” [em baixo], mas só no final do mês é que [caixa] chegou ao público. O coletivo edita mais um trabalho este ano, desta vez com rimas de Secta e instrumentais de Metamorfiko. L-Ali, Nerve e Tilt são os convidados deste álbum que sucede a MONRÓVIA, CONSÓRCIO, LISTA DE REPRODUÇÃO, YARIKATA, RETARDED TEMAKI, EYELASHES GONE a@, todos eles publicados este ano no BandCamp do coletivo.

Se a expressão “quantidade não é qualidade” costuma vestir o hábito da verdade, com os Colónia Calúnia essa métrica não se aplica. Rui Miguel Abreu, na sua crítica ao álbum, afirma mesmo:

[caixa] exige atenção. Cospe na cara, chuta nos tomates, grita nos ouvidos. Não admite distracções. Não dá para ouvir a fazer o jantar ou enquanto se está de olhar perdido na janela que desenrola o caminho que falta para chegar a casa, ao sofá. Escutar no escuro, sem estímulos externos, é a melhor maneira de entrar neste labirinto de sons, de sílabas, de ideias, de nós de sentido, de pequenas torturas ao pensamento. Dói, mas é bom. Custa, mas é de borla”

e acrescenta ainda:

“Este é o melhor disco do ano que quase ninguém vai ouvir.”

Afinal, “qual é a cor do céu da boca de um Estrumfe?”

Um outubro quente, um novembro para ficar em casa a ouvir todos os singles, mixtapes, EP’s e álbuns que o Guia HHR aqui lista, analisa e destaca. Um mês para recordar. 

Ensaio de Bruno Fidalgo de Sousa