Hip Hop Rádio

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Já se pode ouvir o novo EP de RealPunch e John Miller

Depois de “Ginga” nos mostrar algumas luzes do novo projeto de RealPunch com John Miller, o artista disponibiliza na totalidade o seu novo EP, “Do Minho Ao Algarve (vol 1)“. Constituído por seis temas, o projeto com selo da Kimahera conta com a participação de GiJoe, Uput e Cálculo.

Como descrito pelos próprios, este EP foi completamente produzido à distância, durante o primeiro confinamento (março 2020), e apresenta a junção perfeita “entre temas maduros, escrita concisa e instrumentais de encher a alma”.

“Do Minho Ao Algarve” está disponível em todas as plataformas digitais e passível de ser comprado em formato físico.

Há novo single “Do Minho Ao Algarve”

“Ginga” faz parte do projeto assinado por RealPunch e John Miller.

“Do Minho ao Algarve vol.1” é o nome do novo projeto de RealPunch, de Faro, e John Miller, de Vila Nova de Famalicão. Produzido à distância, durante o primeiro confinamento (março 2020), este EP apresenta a junção perfeita “entre temas maduros, escrita concisa e instrumentais de encher a alma”.

Para além dos dois principais intervenientes, participam neste projeto Gijoe, Uput e Cálculo que verá a luz do dia no dia 7 de maio.

The Gate Of Madness: Sai mais uma fornada de festas hip-hop para o Alentejo

Nem a noite de tempestado parou a Hip Hop Rádio. Estivemos em Santiago do Cacém para a “The Gate of Madness” – e nem o furacão Leslie roubou o protagonismo dos DJ’s Mizzy Milles e Overule e o liricismo de Sacik Brow nas já famosas festas do litoral alentejano, desta vez com a organização da agência de viagens Gate1 do seu segmento PartyHard Alentejo | Ensaio e fotografia de Daniel Pereira

O cartaz era de luxo. Os hip-hop heads podiam contar as atuações de Mizzy Milles, Sacik Brow e Overule. No que toca ao resto do alinhamento, este era completado por Deejay Poco Louco, Dual Gravity e DVA. Seis artistas e seis espetáculos todos diferentes entre si, o que se revelou uma boa aposta por parte da organização que aliou qualidade com quantidade de forma a agradar às diferentes sonoridades que o público pedia.

As portas abriram às 22h00 e Mizzy Milles foi o primeiro a entrar em palco, com uma atuação sólida a começar por volta das 22h30 e que pecou apenas pelo horário a que foi sujeito. A tarefa de abrir a festa é sempre um pouco ingrata. Sentimos que Mizzy Milles “merecia” ter recebido outra hora para atuar – fruto do seu set excelência. No entanto, o DJ lisboeta não se fez rogado e animou todos os que já tinham entrado no Pavilhão da Feira de Santiago do Cacém. Hits  de rap tuga e internacional não faltaram e foram escolhidos de forma cirúrgica numa atuação que teve o seu ponto alto com o famoso “Devia Ir” de Wet Bed Gang, que meteu o público a cantar em uníssono pela primeira vez nesta noite. Caso para dizer que o ponto positivo de Mizzy Milles ter atuado tão cedo é que não havia melhor maneira de a abrir a festa.

Sacik Brow começou a sua atuação por volta da 1h30 da manhã. Acompanhado como já é habitual por Fragas, este concerto foi uma autêntica lição de rap tuga. Com um flow inigualável, o MC da Quarteira mostrou ao público como se faz storytelling com qualidade. Showcase que contou com alguns dos seus maiores hits como “Salsa”,  que meteu todos a cantar o refrão, “O Rap Morreu”, numa execução bastante enérgica, “O Que Querem Que Eu Rap?”, que conta com a participação de Fragas e “A Morte Do Artista”, tema que, acreditamos, abriu muitas das mentes presentes na sala. Sacik Brow é atualmente um dos rappers nacionais com maior agenda e, apesar de “já cá andar” há algum tempo, está a chegar a um público cada vez maior. Sabemos que muito do público presente no pavilhão não conhecia o trabalho de Sacik Brow e, apesar de ter sido um concerto com cerca de 40 min, tornou-se uma amostra do trabalho do artista algarvio e suscitou algum burburinho nas viagens para casa.

Já o destaque Overule entrou em palco por volta das 2h15 e a sua atuação foi o apogeu da noite. O DJ de Paranhos era o inevitável cabeça-de-cartaz (o seu “currículo” fala por si) e meteu todos desde a front até à back a dançar. Acompanhado de Philly Gonzalez, que vestiu o papel de hypeman e com um set mais eletrónico do que é habitual, deu um concerto de pouco mais de uma hora e passou por vários hits, seja de rap tuga, rap internacional, EDM e até rock. “Serias Tu”, faixa de Força Surprema, “Pensamento Leve” de Domi ou “Mo Boy” de Dillaz foram alguns dos temas mais entoados pelo público, mostrando que cada vez mais há uma preferência dos ouvintes portugueses pelo rap nacional.

Parece que a música falou mais alto no passado dia 13. Nem o furacão Leslie impediu a enchente no Pavilhão da Feira de Santiago do Cacém. Foi apenas a primeira de uma série de festas que culminará na viagem de finalistas de Salou da Gate1, cujo cartaz, em construção, apresenta uma variada programação de artistas do hip-hop nacional. É sempre de salientar o esforço e dedicação de realizar festas numa zona periférica do país, não só pela dificuldade de “seduzir” os artistas mas também de puxar público. No que toca a este caso específico, as festas localizadas no Alentejo, esse esforço e dedicação nunca tem sido em vão. Todas estas festas nas quais estivemos presentes são comparáveis, pelo menos em termos organizacionais, a qualquer uma “grande” de Lisboa. Passatempos para passes VIP, convites, sistemas de luz de qualidade e flame throwers são apenas alguns exemplos de pormenores que revelam um cuidado especial no que toca à organização da festa para além do básico ou seja, bar e artistas. 

A Hip-Hop estará presente na próxima festa da PartyHard Alentejo. Até lá, fica com a fotogaleria de Daniel Pereira em mais uma grande festa de hip-hop. Foto-galeria aqui.

 

Entrevista | Reflect.

 

Como começou o teu gosto pelo Hip Hop e qual foi o teu primeiro contacto com esta cultura?

 

“Quem não se lembra do arrepio, daquele primeiro som?
Falsos Amigos, Sem Cerimónias, És Como Um Don
Foi o início desta história, de certo parecida à tua
Usei estrelas para escrevê-la e pedi segredo à lua”
Assim conto n’O Arrepio, tema que divido com o Dezman no meu segundo álbum, o homónimo “Reflect“. Mas recuando um pouco no tempo…
Em criança, os meus pais meteram-me na música e, apesar de na altura aquilo ser uma seca para mim (porque queria era “jogar à bola”), algo ficou.
Das bases de piano cheguei mais tarde à bateria e durante o ensino básico integrei várias bandas de rock.
O baixista de uma dessas bandas, um dia empresta-me o “Sem Cerimónias” dos Mind da Gap e identifiquei-me tanto que até hoje a cultura Hip-Hop continua a fazer parte dos meus dias, agora como Reflect na Kimahera.

 

Porquê esse nome, Reflect?

 

Curiosamente, “Reflect” vem dos meus tempos de mIRC, quando ainda nem rimava. Em 2000 e pouco, comecei a escrever as minhas primeiras letras de Rap e esse nickname transitou naturalmente para aquele que viria a ser o meu alter ego na música.
Vem de reflexo. Vem de reflexão. Porque aquilo que escrevo e canto resulta das reflexões que faço, e porque o Reflect é o reflexo de mim onde deposito as emoções que não me cabem.

 

Lembro-me de ver o teu trabalho no Palco Principal (em meados de 2010 possivelmente)
Consideras que actualmente o Facebook é o Palco Principal de antigamente?

 

No auge do Palco Principal, fui um dos artistas em destaque e isso trouxe-me alguma visibilidade na altura. Se esse portal era uma janela para vários artistas do panorama nacional, hoje esse papel é repartido entre as redes sociais da moda, entre as quais, o Facebook. Mas…
Estou cá há tempo suficiente para saber que o mais importante é a música e não as plataformas. Por exemplo, o Spotify, não existiria sem música para alimentá-lo. Mas a música apareceu antes e vai continuar a existir para lá dele. Cabe-me a mim, como músico, estar atento à evolução das plataformas para saber onde posicionar a minha música, mas o reconhecimento e o respeito são responsabilidade da arte. Já o sucesso, da forma como o medem nos dias de hoje, infelizmente depende de muitas outras coisas que nada têm a ver com a música.

 

Se pudesses, de alguma forma, mudar algo na cultura de hoje em dia, o que seria?

 

Eu sei que a vida é feita de ciclos, mas este em que nos encontramos deixa-me apreensivo.
Eu cresci a ouvir uma geração de artistas que, através dos ideais que plantaram na sua música, me ajudaram a ser a pessoa que hoje sou. Essa geração que me inspirou “falava sobre dar”.
Muitos destes novos pseudo-artistas com um buzz social incrível só “falam sobre receber”.
Há espaço para tudo e todos na cultura e o Hip-Hop é liberdade, mas se pudesse mudaria aquilo que “as pessoas” têm feito com a sua liberdade. Porque nós que temos o microfone na mão também carregamos alguma responsabilidade.
Tu que és ouvinte, quando um dia tiveres a responsabilidade de educar alguém, vais ter orgulho em dar a conhecer o que ouvias?
E tu que fazes música, sentirás orgulho quando, um dia, a mostrares aos teus filhos?
Uma coisa é ter buzz, outra coisa é ter respeito.
Há coisas que se compram. Há coisas que se conquistam.
Uma coisa é ter um lugar ao sol, outra coisa é ter um lugar na história.

 

Qual foi o tema tocado ao vivo que mais te marcou, e porquê?

 

Assim que li a pergunta vieram-me duas noites à cabeça:
Actuar no Hard Club já seria motivo de muito orgulho para mim, mas ser em noite de Ser Humano ainda mais especial foi. Quem me conhece sabe que foi uma causa que abracei desde o primeiro momento porque o Fuse faz parte daquele tal lote de artistas que cresci a admirar e depois de tudo o que recebi, finalmente tive oportunidade de dar. E ao dar, recebi também a oportunidade de pisar aquele palco, com casa cheia.
O cenário perfeito… Mas cheguei àquele dia de Abril de 2014 completamente desfeito.
Ter subido àquele palco, naquela noite, foi das coisas mais difíceis que fiz na vida, mas acreditei sempre que seria capaz de fazê-lo; pela causa, por mim e também para deixar uma mensagem muito importante a todos, em jeito de homenagem.
O que aconteceu quando cantei a “Espera por mim” ficou registado em vídeo, mas só quem lá esteve comigo naquele momento sabe o quão forte foi a energia que se gerou entre aquelas paredes. A minha gratidão é eterna e o Porto ganhou um canto especial no meu coração.
Obrigado por me terem proporcionado um dos melhores momentos de sempre que pude viver num palco como Reflect e espero poder voltar um dia.
Depois de uma pausa como Reflect para primeiro conseguir voltar a ser o Pedro, no Verão de 2016 fiz um grande espectáculo em Armação de Pêra, com Orquestra.
Não foi uma noite fácil em termos de público porque tinha 2000 pessoas à minha frente, mas menos do que gostaria a conhecer o meu trabalho. Até que chega o momento de cantar o clássico “Infinitamente”.
Já canto essa música desde 2008, mas nunca a tinha cantado como naquele momento. Essa catarse que aconteceu em palco chegou ao coração das pessoas porque no final da música tinha a plateia em pé, a aplaudir-me. Conquistei-os.
E foi conquistados que me emocionaram quando na “Vida real.”, nesse mesmo concerto, começaram a aplaudir a performance de dança da Laura Abel quando a música ainda nem sequer tinha chegado ao fim.

 

Aquilo pelo que passaste no início de 2014 alterou, de alguma forma, o teu percurso artístico?

 

Sem dúvida que sim. Não me consigo sequer imaginar a ter de lidar com algo mais duro do que, de um momento para o outro, perder a pessoa com quem dividia a vida.
Foi o percurso mais difícil, mas se hoje estou aqui a responder-te é porque consegui fazê-lo.
E se assim é, existem formas de dar a volta, mesmo quando estamos a falar do pior do mundo.
Lidar com esse vazio deixou-me na sombra, é verdade, mas esse escuro também me permitiu ver a luz sem distracções. Conheci o fim do meu fundo, tive de escolher viver ou não, mas aos poucos esses pedaços de luz foram entrando em mim.
Das coisas que mais me emocionou foi sentir o carinho que recebi, muito dele para o Reflect.
Graças à viagem com o “De mim para mim”, conheci pessoas que ouvem a minha música por todo o país e se não fossem assim, talvez nunca tivesse assinado aquele “Último acto” de cartão gasto no final daquela apresentação em Guimarães, por exemplo.
Tudo o que fiz com aquilo que “me” aconteceu, me ensinou que impossíveis não existem e que há momentos na nossa vida em que se para nós faz sentido, siga. E acreditem que às vezes estamos mesmo sozinhos… Mas quem dorme com a minha consciência sou eu e felizmente durmo descansado porque foi sempre o meu coração a guiar-me, até aqui. Até hoje.
Até me ter apaixonado por uma mulher linda que me faz feliz e não foi preciso acontecer o que aconteceu para eu saber o valor que tem o amor de quem nos ama.
Agora só quero aproveitar a minha segunda oportunidade e ser feliz, com tudo o que mora em mim e com tudo o que aprendi.
Eu fico bem.

 

Para terminar, imaginas-te a fazer Hip Hop daqui a 20 anos?

 

Quando me enviaste a entrevista pensei numa resposta para esta pergunta, mas hoje na viagem entre Lisboa e Armação vim a ouvir o álbum do Fuse e quando cheguei a casa tinha o álbum do Ace à minha espera. Depois de ouvir o álbum do Ace, sim, imagino. Porque ele é a prova viva de que é possível renovar essa tal relevância a cada projecto e eu ainda tenho muita música para fazer, se o apoio de quem me ouve continuar a renovar a minha vontade de meter ar nos pulmões e ser o Reflect.

Entrevista | Domi: o jovem promessa!

Domi é um MC que com apenas 18 anos já se afirma a pés juntos no Hip Hop Nacional. Reside no Algarve e já tem milhões de visualizações no Youtube, centenas de fãs e é já considerado por muitos uma das grandes promessas da nova escola.

Hip Hop Rádio teve uma pequena conversa com o artista:

 

Tens apenas 18 anos e já tens milhões de visualizações no Youtube, modéstia à parte, a que achas que se deve uma afluência tão grande?

Essa é realmente uma pergunta que me é muito solicitada e até eu próprio por vezes me questiono o porquê de ter tido uma grande afluência em tão curto espaço de tempo. Num dia era apenas “eu” por assim dizer e no outro tornava-me quase que como uma “promessa”.  Ainda é com alguma incerteza que respondo a essa pergunta, mas quero acreditar que tudo isto se deve ao facto de as pessoas terem visto em mim algo diferente, algo invulgar, algo genuíno pois eu nunca tentei ser, nem sou o típico estereotipo de “rapper” a que as pessoas estão habituadas.
Sempre fui simplesmente eu e transmiti uma mensagem que era genuinamente minha, acho que isso é o que faz não só seres 100% real mas também faz com que as pessoas se interessem por ti.

Consideras que o facto de viveres no Algarve te dá menos oportunidades de expansão comparativamente com, por exemplo, Lisboa ou Porto?

Se me perguntasses isso há uns anos atrás diria sem pensar duas vezes que sim.
Hoje em dia felizmente as coisas têm vindo a melhorar nesse aspecto. Cada vez mais a sociedade
está virada para o mundo virtual e com isso facilmente posso chegar de uma ponta à outra do país em milésimos de segundos sem sequer saber como.
Agora, falando particularmente do Algarve, acho que sempre fomos um pouco postos de parte por assim dizer e apesar de existirem rappers algarvios com nomes de peso no movimento, penso que ainda está por vir o “profeta algarvio”, se é que me entendem. Na minha opinião, para o resto do país o Algarve é aquele “apartamento” que alugas no verão com os teus amigos, convidas mais pessoal do que é suposto, fazes uma festa de arromba, partes aquilo tudo e no dia seguinte vais-te embora e dizes “para o ano há mais” sem sequer teres a decência de pensar que alguém vai ter de limpar os teus estragos no dia seguinte, mas pronto. Sem apostas para além do turismo, é certo que não vamos longe.

Um álbum, está nos teus próximos planos?

Sem dúvida que é um dos projectos que mais ambiciono, contudo, penso que para tal é necessário um pouco mais de maturidade em termos musicais e não só. Quero que o meu álbum seja pensado do início ao fim, que tenha um propósito e uma mensagem maior do que meras faixas construídas aleatoriamente sem sequer se interligarem entre si. Por enquanto o que posso adiantar é que podem esperar mais facilmente um EP.

Qual é o palco que sonhas pisar um dia? E porquê?

Existem realmente alguns que faço questão de pisar se realmente surgir essa oportunidade, mas qualquer um dos nossos palcos de maior nome a nível nacional será um privilégio para mim pois, na minha opinião, não há nada melhor do que tocar para o público Português e sentires que estás “em casa”.

Com quem sonhas um dia dividir uma música?

Tenho muitos artistas com quem seria a maior honra para mim poder dividir uma música, até porque gosto muito de partilhar toda a parte criativa com outro músico e acaba sempre por sair algo muito mais enriquecedor, não só para mim mas como para quem vai consumir a música.
A minha escolha talvez seja demasiado óbvia e corresponda à resposta de todos os rappers que respondem a esta pergunta, mas, para mim, Sam The Kid é e sempre será um verdadeiro génio desta nossa arte e com quem teria o maior privilégio de partilhar uma faixa.

Qual foi, para ti, o álbum de 2016?

Sem qualquer contestação – “Reflexo”, do Dillaz – é sem dúvida, para mim, o álbum de 2016. Vemos um Dillaz com maior maturidade, maior introspecção e com uma maior reflexão. Não só temos que reconhecer mais um grande trabalho lírico a que nos tem vindo a habituar, mas também de temos de admirar todo o trabalho relativo à produção que é da sua autoria.

 

Alguns dos trabalhos de Domi, no Youtube: