Hip Hop Rádio

2017

Em plena Noite dos Horários, Mundo Segundo fez esquecer as horas

A última vez que a Noite dos Horários apontou para o Hip Hop foi em 2017. A casa era outra, mas já na altura o convidado mostrava a força desta cultura: diretamente da Madorna, Dillaz encheu a noite e estourou a gravidade do sítio. Agora, os ponteiros alteraram-se – apontando para Norte – e Gaia veio até Coimbra pela mão de Mundo Segundo. Em plena Noite dos Horários, o mc do 2º piso abanou a cidade dos estudantes e… bem, ninguém deu pelo tempo passar.

Estando a noite perto das 4 da manhã, DJ Guze assumiu o palco e os “pratos” e preparou o público com “Gaia/Chelas”. Lá fora, à porta do Look Coimbra, os fãs faziam fila e sentiam o beat abafado.

Momentos antes de Mundo entrar em cena, o beat de Poetas de Karaoke mesclou-se com o de Sala 101: quem estava no exterior apressava o passo, enquanto quem se aproximava da primeira fila sentia toda a energia do mc de Gaia ainda este só tinha um pé em palco. O dealemático entra em cena, acompanhado de Macaia, e inaugura a noite com “Mais uma Sessão”. A verdade é que se subisse a palco sozinho o resultado seria o mesmo: palco cheio, olhar no público e uma energia bem caraterística.


Entre sonoridades antigas e novos êxitos, Mundo Segundo conduziu bem a noite e as sonoridades deliciaram os fãs. Contudo, se “Sou do Tempo” e “Escola dos 90” arrepiou a plateia mais velha, “Bom Dia” e “Bate Palmas” animou os mais jovens.

Ninguém dava pelo tempo passar e “Brasa” colocou a fasquia e a temperatura do concerto tão elevada que os ponteiros começaram a derreter. Com os pés bem assentes na terra, Mundo Segundo fez descolar os de toda a gente do chão. Depois da euforia, as luzes apagaram-se, os isqueiros subiram e todos os grupos de amigos ali presentes sentiram-se atingidos com “Era uma vez”.


O concerto estava a terminar, mas ainda havia espaço para uma última prenda vinda de Gaia. “Tu Não Sabes” encerrou uma noite que comprovou que o Hip Hop é uma aposta ganha. Uma noite em que Mundo Segundo saiu de palco ovacionado e a plateia rumou às ruas coimbrãs de coração cheio. Quem esteve a olhar para as horas, não sabe o que perdeu.

Foto-galeria por Diana Reis para ver aqui.

Sendo assim, obrigado

Sendo assim, só resta uma forma de concluir esta crónica.

Escrevo, enquanto oiço pela oitava vez seguida a nova música de Sam The Kid. E foi precisamente no dia 8 que “Pratica(mente)” foi lançado. Mas porquê falar desse tempo?

“Tá tudo inverso e o mundo diverte-se, é um dissabor
Como nunca houvesse quem visse o verso e ouvisse a cor”

“Sendo Assim” tem uma sonoridade familiar. A primeira vez que se ouve não parece ser a primeira. É tal e qual aquela sensação que temos quando vemos uma cara conhecida na rua, mas não fazemos ideia nenhuma quem essa pessoa é. Andamos depois horas e horas a pensar nisso, sem chegar a nenhuma conclusão.

(Assim sendo, o melhor é ativar o repeat).

Esta música parece ser de outro tempo – apesar de, paradoxalmente, cimentar que Sam the Kid é de todos os tempos. “Sendo Assim” podia muito bem estar em “Pratica(mente)”. Tal como qualquer das músicas desse álbum poderia ser lançada neste momento que não estaria fora do seu tempo. “Sendo Assim” comprova o génio e consolida o nome de Sam The Kid como o de melhor MC português de sempre. Simplesmente, por uma razão: ser intemporal.

Este som é uma chapada de luva branca. É um redirecionar do Hip Hop – ou devia ser. É um acalmar da correria em que a cultura andava e um redirecionar da visão que temos do futuro da mesma. No meio de tanta guerra, tanto “beef”, de tanto cardume aos berros, surge uma voz de calma. Um raio de luz que nos indica o caminho. A pressão da aceitação, da aderência, a pressão de tornar tudo “trap” “porque é o que bate” é aqui desmistificada. Sam the Kid deixa uma mensagem bem simples, mas que parece por muitos esquecida.

“Faço algo que eu adoro e ignoro o prazer ruim
Eu não quero ser o melhor eu melhoro a fazer de mim”

Que este Sam que só quer ser o melhor dele, inspire a que outros façam o mesmo. Que voltem a escrever para eles e não para o público. Que voltem a sentar-se no seu bairro a fazer desenhos no pó e a escrever, enquanto a única coisa que levanta são eles e não o seu copo de balão. Que os bandidos velhos permaneçam nos seus quintais e nos mostrem o quão belos são os jardins do mundo. Que, a partir deles, continuem a querer furar a atmosfera e elevar o rap tuga. Que se escrevam mais serenatas e se promova mu(n)dança.
Nós estaremos cá para os ouvir.

“Com a Sony Digital ganhei a noção da lente
Para um dia ser imortal como a nação valente”

(Já conseguiste, Samuel. És tu quem lidera os mil e noventa e nove soldados que marcham todos os dias).

Sendo assim, obrigado.

Douro Rock | Um palco destinado ao Rock, conquistado pelo Hip-Hop

A 10 e 11 de agosto, o Peso da Régua recebeu a terceira edição do festival Douro Rock e foi logo na primeira atuação que Kappa Jotta, acompanhado pelo DJ Maskarilha, andou “pela cidade” e fez do Hip-Hop uma nação num palco que tinha o Rock como principal atração !

“Estamos num festival de Rock a trazer um pouco de Hip-Hop”

Diz-nos o MC sem saber ainda que numa noite que iria contar com nomes como Frankie Chavez e Samuel Úria pelo meio e The Gift como atração principal, seria o seu “Hustle” a deixar o público em “Chama “! Num concerto memorável, “mais feeling” levou a um dos momentos mais marcantes da noite. Diretamente da Linha C, mostrou que o Hip-Hop está em força com a “overdose” de energia que se fez sentir de todos os presentes!

“Está um ambiente óptimo, um ambiente de famílias! Aqui à beira do rio a tirar fotos com pais e filhos”  confessa-nos, em conversa, no final da noite.

Foi assim que finalizou a sua passagem pelo Douro depois de conquistar miúdos e graúdos!

A festa continuou noite fora, mas foi no segundo dia de festival que o Rock voltou a dar lugar ao Hip-Hop num intenso concerto de cerca de 25 minutos em que Mishlawi deu toda a sua alma. Na noite em que o concerto mais aguardado era o de Xutos e Pontapés, foi o considerado “Talento Transatlântico” quem incendiou o palco e toda a plateia por volta das 22 horas. Sem “concerto planeado”, fez o delírio de todos os seus fãs com a sua espontaneidade e energia! Foi assim a passagem de uma das caras mais conhecidas dos festivais portugueses por Trás-os-Montes e Alto Douro numa noite que prometeu deixar memória!

Reportagem por Cláudia Pinto

“A História do Hip Hop Tuga” vai ter novo capítulo


Segunda edição vai ter lugar em Lisboa, na Altice Arena, dia 8 de março de 2019. Bilhetes já à venda a partir de 20€.

“A História do Hip Hop Tuga” marcou o Sumol Summer Fest e o verão de 2017. Face ao sucesso do espetáculo, tanto dentro como fora de palco, o público poderá ver um novo capítulo já no próximo ano.

O conceito do evento é simples: percorrer a história do Hip Hop português – que conta com mais de 25 anos –  trazendo a palco nomes representativos desta cultura. Sam The Kid, General D, Black Company, NBC, Mind Da Gap, Dealema, Capicua, Allen Halloween, Dillaz ou GROGNation foram alguns dos nomes que subiram a palco no ano passado. A nova edição  contará com mais nomes, tanto rappers old school como emergentes, mas não só: também dj’s, writersb-boys completarão a festa.

O elenco será apresentado a partir de setembro. Entretanto, os bilhetes estão à venda na Blueticket e nos locais habituais.

First Steps Porto 2018: um pequeno passo para a criança, um grande salto para o Hip Hop

Nos dias 14 e 15 de julho, o Museu Nacional de Soares dos Reis recebe a sexta edição do First Steps Porto e promete um fim-de-semana repleto de dança, música e arte urbana.
Surgido, inicialmente, com o objetivo de incentivar alunos de danças urbanas a participarem em batalhas de freestyle (apresentações de dança improvisada no momento, com música escolhida pelo Dj), a presente edição contará também com batalhas para bailarinos com experiência e workshops em todas as áreas da cultura Hip Hop.

O formato deste projeto é único em território nacional, uma vez que une num evento anual 5 áreas artísticas diferentes, proporcionando formações de qualidade, abertas ao público e gratuitas.
Aliado ao objetivo de criar um palco para os novos talentos, a First Steps Porto também se carateriza pelo seu cariz social, tendo angariado cerca de 1200€, em 5 edições, para instituições e projetos sociais. Este projeto tem sido realizado por uma equipa de voluntários, que conta com apoio de patrocinadores esporádicos para assegurar a continuidade do mesmo. A recetividade tem sido positiva, tendo recebido durante os 5 anos, mais de 2 mil participantes, provenientes de vários países, entre os quais: Espanha, França, Bélgica, Finlândia, China, Venezuela e Brasil.

A aventura começou em 2011, com um evento com poucos recursos na cidade de Famalicão. Após um feedback surpreendentemente positivo decidiu avançar, em 2013, com um projeto mais estruturado, na cidade do Porto. Esta edição contou com workshops de professores reconhecidos e todos os fundos angariados reverteram para o Lar Nossa Senhora do Livramento. Com o apoio  deste, a edição de 2014 foi realizada na Sala 2 da Casa da Música, tendo sido um fator importante para a visibilidade e consequente incremento no número de  participantes espectadores.

A 4a edição da First Steps teve uma nova e acolhedora casa: o Museu Nacional de Soares dos Reis, no coração da cidade do Porto. O formato, neste ano, foi expandido, tendo sido criada outra competição destinada aos bailarinos mais experientes. Mas não ficou por aí. Em 2016 e 2017, o projeto apostou também em formações nas áreas do graffity, djing e beatbox.

Os fundos angariados reverteram sempre para causas sociais que foram, em 2016, a associação ASAS de Ramalde e, em 2017, o Marco – um jovem que sofreu um acidente que o deixou totalmente paralisado. Encontra-se há 3 anos num processo de recuperação lento da fala, movimentos motores e raciocínio e todos os fundos angariados da presente edição reverterão novamente para ele.

A cultura Hip Hop mostra assim a força que pode ter.
Cada pequeno passo de dança, cada pequeno contributo monetário que se fizer, nos dias 14 e 15 de julho, é um salto gigante para o Hip Hop e, consequentemente, para a causa social a que se propõe.

Durante os dois dias de evento, desenvolver-se-ão atividades nas áreas urbanas da dança, graffiti, beatbox, mcing e djing, que estão descriminadas na imagem abaixo.


Escrito por Nuno Mina

Hip to da Hop: “Uma aventura de quatro sentidos com uma única direção”


Durante dois anos, António Freitas e Fábio Silva agarraram em duas câmeras e percorreram Portugal de Norte a Sul, com a missão de transmitir, para o seu filme, “as quatro vertentes” do Hip Hop. No passado dia 28 de abril, esgotaram o emblemático Cinema São Jorge. Por Bruno Fidalgo de Sousa e Nuno Mina

O culminar da jornada

Durante o filme, é TK que relata o que foi este caminho: uma aventura de quatro sentidos, por quatro vertentes, com uma única direção. A arte do rap, a arte do djing, a arte do breakdance e a arte do graffiti (um assunto bastante discutido – e um tema para mais tarde) em união, no documentário que António e Fábio montaram. O primeiro era writter, o segundo escrevia para a H2tuga. Agora, compõem, juntamente com a produtora Sofia Rivas, a CreativeStudio.

Esta não foi uma mera viagem pelas origens e história do hip-hop. António e Fábio pintaram uma moldura humana que vai muito além de Miratejo, Chelas ou Gaia. É um retrato social daquilo que foram as fundações do movimento, pincelado pela mão de uma cultura que se fez sentir em massa na sala Manoel de Oliveira, a maior do Cinema São Jorge. TK enfeita a história, à falta de narrador e voz-off, numa tentativa da dupla de realização de fugir ao género documental. Frame frame e faixa a faixa, a banda sonora de Hip to da Hop esteve ao encargo de António Lopes Gonçalves, Lost Soul e Sleep Patterns.

A linha narrativa é traçada pelos convidados. Sensei D, Slow J, Mundo Segundo e Sam The Kid, Odeith, NBC ou Beatbombers são alguns nomes, entre mais de 30 entrevistados. Músicos, DJ’s, writers, b-boys e outros nomes da cena musical portuguesa (casos de Paulo Pinto e Rui Miguel Abreu) deram rosto e voz a Hip to da Hop. De pioneiros do movimento e new-comers, a palavra foi dada. A reflexão, contudo, viria a chegar no final, para alguns. Fábio Silva afirma mesmo que “há ali um momento onde se coloca a questão sobre o que é o hip-hop”, no discurso que deu com o colega de trabalho no final da sessão e onde também NBC subiu a palco.

A ruptura do graffiti com o movimento, a solidificação do trap e dos restantes subgéneros na cultura musical das massas ou a perda da essência do hip-hop foram alguns dos temas em debate.

“Nós nunca pensamos em fazer “rap” a brincar”

“Eu achei sempre que um dia haveria de estar no São Jorge a falar para todos vós. E isso está a acontecer” – foram as palavras de NBC, um dos pioneiros do rap nacional (fundou, com o irmão, o grupo Filhos D1 Deus Menor, nos primórdios da cultura em Portugal) e “um mentor” para os dois realizadores. Sublinhou ainda que as “histórias que podemos ver no filme são a materialização efetiva e verdadeira que foi preciso muito mais do que só vontade de fazer. Demos e damos a nossa vida por esta causa”.

Numa plateia mista de ouvintes e artistas, Capicua foi uma das que se pronunciou no final, inquirindo sobre a falta de representatividade feminina no documentário, pergunta à qual António e Fábio se justificaram com a multiplicidade de pessoas que compõem o movimento. António Freitas afirma que “é difícil contar uma história de um movimento como este, mas se conseguires chegar às pessoas certas, poderás contar uma boa história, independentemente de uns pintarem, cantarem ou fazerem scratch.”

“Falando de mim e “gajos” como o Samuel [Sam The Kid], nós nunca pensamos em fazer “rap” a brincar”, reflete NBC. O hip-hop, como movimento e cultura, foi recebido de braços abertos pelos 800 espectadores presentes.

Dar voz ao movimento

Até à data, tinha sido o segundo filme a esgotar no festival de cinema IndieLisboa International Film Festival. Na semana seguinte, Não Consegues Criar o Mundo Duas Vezes, documentário sobre o rap do Porto com realização de Francisco Noronha e Catarina David, voltou a ser uma das atrações do evento.

Hip to da hop tem data de estreia na cidade do Porto marcada para 30 de maio, no Cinema Passos Manuel, pelas 22h. Até lá, fica o momento para, primeiro para quem já assistiu, refletir sobre a evolução do hip-hop nacional. 2018 chegou com dois documentários sobre esta arte e a popularização do género nota-se, agora, em tantas outras vertentes culturais. Segundo, para quem tem a oportunidade de assistir, é importante recordar que Hip to da Hop é um processo, muito mais que um produto. E que é sempre importante dar voz ao movimento.

 

Uzzy: “Quem desiste do seu sonho é porque não merece estar aqui”

Uzzy é de Portimão, começou em 2010 e, 8 anos depois, já é um ‘faz tudo’ do Hip Hop nacional. Começou a trabalhar numa pizzaria com 15 anos para conseguir comprar material de gravação. Por necessidade de fazer música 100% à maneira dele começou a fazer instrumentais e a produzir vídeoclipes. 2018 reserva-lhe um ep de um projeto chamado ‘Gangarve’ e quem sabe outro ep como artista a solo. Do início do ano até agora já pudemos ver o trabalho dele como produtor de vídeo em músicas como “Voar” do Gson e vamos poder ouvir instrumentais dele em singles de outros artistas. Uzzy está com força no Hip Hop Tuga e promete não ficar por aqui.

Fala-nos um pouco do teu começo no mundo do Hip Hop.

Eu comecei a gravar em 2010. Não fiz como a maioria dos rappers, no primeiro dia em que escrevi uma letra gravei logo, claro que foi bué amador com a webcam, no Movie Maker que nem sequer dava para gravar sons…
Depois no Verão de 2011, com 15 quase a fazer 16 anos, fui trabalhar para uma pizzaria para ter dinheiro para comprar o meu primeiro microfone de estúdio, o tripé, as colunas e assim.


Foi só nessa altura que o Hip Hop entrou na tua vida?

Eu oiço hip hop praticamente desde que nasci. Quando tinha mais ou menos 12 anos a minha mãe mostrou-me um ‘cd pirata’ e disse que quando era bebé eu só me acalmava a ouvir aquilo. O cd tinha para aí 20 músicas e 90% era só hip hop old school.


Consegues escolher o teu melhor projeto? Ou o que mais prazer te deu fazer…

Não te sei dizer qual foi o meu melhor projeto, ou aquele que mais gostei de fazer. Eu gosto sempre de inovar. A minha cena básica é aquela cena ‘street’, mas também tenho a cena ‘love’ mais de decepção, depois tenho o “Segura” que tem um beat mais reggateon, tenho também o “Pega” que foi com o G-Amado, que é um artista de Kizomba, em que eu tenho um toque na produção do beat que torna a cena mais “Gansgter” e eu tou a rimar não tou a cantar Kizomba. E recentemente lancei um trap pela primeira vez. Eu gosto de inovar, não consigo escolher o projeto que mais gostei de fazer, gosto de fazer tudo.


És do Algarve. De que forma é que achas que isso é um obstáculo no teu percurso como rapper?

Toda a gente diz que é mais dificil, mas eu tenho a minha ideologia, que tentei passar no som “Por Aqui” com o Baqui. Dizem que temos de trabalhar 3 vezes mais, mas sinceramente não vejo isso como uma coisa negativa, isso só me faz querer evoluir mais e no dia em que eu chegar aos ouvidos de toda a gente já vai ser uma versão muito mais evoluída de mim. Eu acho que na vida temos sempre de ver o lado positivo porque se só nos ficarmos a queixar não vamos andar para a frente. Ser do Algarve filtra mais porque há pessoas que desistem no meio. A mim não me faz desistir, a mim faz-me ter mais gana, faz-me querer evoluir mais. Para mim quem desiste do seu sonho é porque também não merece estar aqui. Para além disso, hoje em dia isso já está menos acentuado, a internet é para todos, não há uma internet para Lisboa e uma para o Algarve. A maior dificuldade é o facto de os promotores terem de te pagar mais em deslocação e por vezes vão preferir um artista mais barato, mas se tu fores mesmo bom eles vão te querer lá na mesma.


E os teus contactos com o resto da malta do meio, como é que surgiram?

Simplesmente surgiu. Por exemplo, o Bispo conheci-o numa noite de Hip Hop em Faro. Com o Kappa Jotta surgiu pelo facto de eu produzir vídeos, ele contactou-me e já que estávamos a falar ao telefone eu disse-lhe “Por acaso tenho aqui uma faixa em que tu encaixavas mesmo fixe”, eu tava a fazer o meu ep “Realidades” na altura, ele disse-me que estava cheio de trabalho com o “Vírus” mas que se sentisse fazia. Mandei-lhe e passado duas horas ele pediu-me o mail e disse que me ia enviar a parte dele gravada.


És produtor não só de vídeo, mas também de instrumentais. Como é que essa faceta surgiu?

Eu misturo, masterizo, produzo instrumentais e produzo vídeos. Mas tudo isso surgiu pelo facto de eu ser perfecionista. O que é que é estar perfeito? Estar perfeito é estar ao teu gosto. E nunca irei encontrar alguém que faça as coisas tão à minha maneira como eu, por isso decidi começar a fazer isso tudo muito cedo. Vídeo nos finais de 2012 e beats no início de 2013, foi muito próximo. A mistura e a masterização sempre fui eu que tratei disso nas minhas músicas.


Sabemos que estás a cozinhar um projeto com mais malta do Algarve, o que é que podes adiantar?

A única coisa que posso adiantar sobre “Gangarve” é que vai sair um ep com rappers de Portimão, Albufeira e Quarteira.


Para além do projecto coletivo, estás a preparar algo a solo?

Estou a trabalhar no Gangarve e em singles meus. Eu sou apologista de que nunca devemos deixar-nos para trás, temos de estar em primeiro lugar. Por isso estou sempre a trabalhar nas minhas cenas a solo e pode surgir aí um ep meu que não tem data, mas pouco a pouco se vai construindo.


Tens aparecido cada vez mais como produtor de vídeo. Isso é uma vertente que queres explorar mais?

Embora sejam cenas diferentes, para mim é tudo a mesma coisa. Tudo implica a criação de um single musical por isso para mim está incluído o vídeo. Há pessoas que dizem que não podemos ser muito bons em tudo o que fazemos, eu não sou a favor disso. Acho que basta empenho e dedicação. Eu gosto de levar tudo ao mesmo tempo, quero fazer a minha evolução na escrita, nos beats, na mistura, na masterização e no vídeo de modo a que fique tudo ao mesmo nível.


Os instrumentais que produzes são maioritariamente para ti ou pretendes também produzir para outros artistas?

Em 2018 já vão sair instrumentais meus em músicas de outros artistas. Mas até agora não tenho muito isso porque este povo não dá muito valor ao trabalho dos outros. Para estar a vender um beat exclusivo por 30€ ou 40€ prefiro guardar o beat e mais tarde sou capaz de o usar noutro som e ganhar mais com isso.


O teu último som foi trap. Vais continuar a seguir essa vibe?

Eu vario, o próximo som tanto pode ser com um beat de Kizomba como de Club, etc.. Eu não me limito mas sim, vão sair mais cenas Trap.


Quais são as tuas maiores referências em relação à música?

Não tenho uma referência física, ouço hip hop desde sempre e acho que fui buscar influências a todo o lado e acho que é por isso que me dizem que eu tenho um estilo único, que é um elogio que fico contente por receber.


Consegues destacar um dos teus versos para acabar esta entrevista?

Há vários versos que eu senti bué, por exemplo: “”Faz um fininho” nunca faças/ P’ra isso pego no dinheiro vou até a um mendigo e ofereço uma carcaça/ Ele precisa de mais na barriga do que eu de droga no pulmão/ Precisa disso em vez de álcool p’ra aquecer o coração”  (Uzzy – Tudo o que faço)

Texto por: André Batista

O Dread que matou Golias arrasa o NB Club

Desta vez, o palco para mais uma noite de hip hop em Coimbra foi o NB Club e quem lhe pisou o palco foi, como Portugal o conhece, o Dred que matou o Golias acompanhado com o Here’s Johnny e a sua crew da Superbad. O NB encheu pela segunda vez para ver Holly Hood a dar um concerto arrebatador, com chuva de confetis e uma multidão com as letras do artista na ponta da lingua. Foi bem FÁCIL para o artista conquistar toda a gente que se encontrava na discoteca logo no momento em que pisou o palco. Posso dizer que a única desilusão do concerto foi que o artista escolheu pôr de lado a faixa RIP Holly Hood mas o público tratou de cantá-la até ao fim, afinal quando se trata de hip hop “qualquer boda para mim é fim de ano”. Por Diana Reis.

O melhor do ano em 12 álbuns

Quase findado o ano e, inevitavelmente, à espera de Sangue Ruim, Ouro Sobre Azul e a continuidade de Unpluguetto, debruçamo-nos sobre mais um ano de história no hip-hop nacional. Um ano onde os séniores do movimento (Damaia, Gaia e Chelas) adiam novamente os seus lançamentos, dando espaço aos recém-chegados e menos mediáticos que, contudo, fazem deste ensaio um bonito portefólio de hip-hop nacional.

2017 começou em Tilt e terminou em Kappa – pelo menos nos 12 melhores trabalhos selecionados pela redação da Hip-Hop Rádio. Entre mixtapes, EP’s e álbuns, o ensaio que se segue é um sumário de boa música e uma celebração de ano novo sobre o que melhor se fez em Portugal este ano. Por Bruno Fidalgo de Sousa.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=g6FPG_7DC3k]

Tilt – “Karrossel, Karma” (29 de janeiro de 2017)

Depois de ter editado Alimentar Crianças Com Cancro Da Mama, em 2013, Tilt, rapper de Almada que tem cuspido regularmente em projetos como ORTEUM ou Colónia Calúnia, abre o ano de 2017 com Karrossel, Karma, EP de 7 faixas que o próprio caracteriza como “um breve ensaio sobre consciência e transformação”. A verdade é que Tilt é ainda underground no sentido lato da palavra: sem grandes promessas e sem grandes chamadas de atenção, o rapper construiu um EP consistente cujo público viu nascer com bons olhos e que, embora se note a necessidade de o polir, nota-se também um ambiente musical disruptivo que envolve os ouvintes.

Karrossel, Karma é um diamante em lapidação e abre as cortinas para o que aí poderá vir em 2018, seja a solo ou acompanhado.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=rzPGBIPWuHE]

Slow J – “The Art of Slowing Down” (17 de março de 2017)

Foi em março que a redação da Hip-Hop Rádio se dirigiu ao Mercado da Ribeira para assistir à confirmação de Slow J. Se “Vida Boa” e “Comida já tinham granjeado o respeito do público pela boa vibe de “J, o encarnado”, o rapper, crooner, produtor e, acima de tudo, músico, lançou The Art of Slowing Down em 2017 e deixou “a tuga” em alvoroço com a harmonia musical e diversidade na produção do seu primeiro álbum, que também contou com participações de Intakto, Fumaxa, Papillon, Gson e Nerve. Com um variado ecletismo musical, com instrumentais enraizados da música africana, do jazz ou do rock alternativo, com faixas acarinhadas como “Casa”, “Biza” ou “Arte”, TAOSD reconheceu Slow J não como uma promessa do hip-hop nacional, mas como uma confirmação da música portuguesa.

The Art of Slowing Down é, assim, o melhor álbum do ano para a Redação da Hip Hop Rádio.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=iNhgmg5CyWA]

Grognation – “Nada É Por Acaso” (30 de abril de 2017)

O primeiro álbum de originais do coletivo de Mem Martins não é, de facto, por acaso. Com uma mensagem e contexto vincados ao longo de todo o trabalho (desde o pormenor do artwork da capa à voz de Cláudia Cadima entre faixas), os cinco rappers juntaram-se a Sam The Kid, Dj Ride, Lhast ou Cálculo na continuação do estilo musical de Na Via e de Sem Censura. Sem grande alarido e sem algo que o torne “especial”, Nada É Por Acaso é um registo “grog” de excelência: os temas soltos, com enfoque no dia-a-dia, nas desilusões amorosas e na jornada do grupo e a habilidade de Harold, Prizko, Factor, Papillon e Neck em dissecar rimas sobre variados instrumentais sem nunca perder um fio condutor.

Os Grog são os Grog e nada mais. A sua singularidade torna este álbum num must-see de 2017.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=sZeMfPcz1fg]

Língua Franca – “Língua Franca” (26 de maio de 2017)

Quando duas ou mais línguas coexistiam, surge a língua franca. Mundialmente já foi o latim, o francês, o inglês. Entre nós, a Língua Franca é o hip-hop. Para Valete, Capicua, Emicida e Rael, o Atlântico não precisa de se separar e isso é uma boa notícia. Maio terminou com o lançamento do projeto luso-brasileiro Língua Franca – uma mistura dos quatro rappers supracitados com a produção de Fred Ferreira, Nave Beatz, Kassin e o selo da Sony. Os dez temas que compõem este trabalho por parte de um “supergrupo” são de tácita compreensão: fala-se, entre melodias autênticas como é “Génios Invisíveis” e “Ela”, da condição social, do paralelismo entre o rap luso e o rap brasileiro e da liberdade humana, não fossem Valete, Emicida e Rael pesos-pesados do rap. Capicua também brilha – e com ela a voz feminina no mundo do hip-hop.

Língua Franca é um trabalho de culto. Um álbum com força internacional e que não deixa indiferente quem o ouve. E embora o hip-hop seja minoria, entre nós já só falamos uma língua.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=Oxn83YrAgvk]

Scorp x Stereossauro – “UMPORUM” (30 de maio de 2017)

O MC caldense juntou-se a Stereossauro e deu seguimento ao seu primeiro projeto, Apontamentos, com uma mixtape editada esta primavera pela Crate Records. Com muito boombap, scratch e instrumentais originais, UMPORUM é um regresso às origens: hip-hop em estado bruto. Se em “Não há remédio” ou “Tudo mesma laia” tanto Scorp como Stereo se fazem valer da sua condição natural de conterrâneos e amigos para iluminar o ouvinte com hip-hop “à velha escola”, é nas outras faixas menos mediáticas que o rapper se faz ouvir: “Ponho a alma numa letra/ Nunca escondi a receita/ Sempre a mudar qualquer cena /É foda ter a tape feita” afirma em “Só Quero”. O rap de Scorp é imprevisível e liricamente expressivo e o MC soube bem passar da teoria à prática.

UMPORUM é de audição obrigatória para quem sente falta da velha escola. Duas opções agora: scroll down “ou então mete este som se quiseres abanar os cornos”.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=MDiVm0ynobI]

Wet Bed Gang – “Filhos do Rossi” (31 de maio de 2017)

Os filhos do Rossi foram talvez a maior surpresa do rap nacional em 2017. Com apenas três faixas “cá fora” – “Não Tens Visto”, “Todos Olham” e “Essa Life é Good” – os quatro MCs de Vialonga editaram Filhos do Rossi, EP independente e que nos mostra Gson, Zara G, Zizzy e Kroa como filhos do hip-hop – quem já os viu em palco percebe bem a energia e carisma do grupo. Mas quem é Rossi? O mentor e a pessoa que uniu o coletivo da V-Block e o principal impulsionador do seu rap. De facto, os Wet Bed Gang fazem deste seu primeiro trabalho uma homenagem ao seu “pai”, cruzando letras poderosas e bangers com a voz e melodia de Gson e com uma única participação de Jimmy P, neste que é um álbum delicioso de se assistir em concerto.

Espera-se um bom 2018 para os WBG. E é com este EP que o coletivo ganha o prémio Revelação por parte da redação da Hip-Hop Rádio.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=HER4jFfCkmI]

Bispo x Fumaxa – “Fora D’Horas” (1 de junho de 2017)

Bispo iniciou junho “sem parlapie”. Depois de “Bispoterapia” e “Desde a Origem”, o rapper de Mem Martins veio com a parceria do produtor Fumaxa apresentar “Fora D’Horas”. Com muito boombap e uma musicalidade já consolidada por Bispo em cada faixa que toca, este EP é um trabalho de referência – principalmente no que toca à produção. Fumaxa destaca-se este ano por vários trabalhos, mas é em “Fora D’Horas” (assim como no seu trabalho com Chyna) que a sua sonoridade se combina com a voz de Gson e a melodia de Dino D’Santiago e Bispo.

O alarme inicia este EP que volta a mostrar Bispo como ele próprio: com uma vibe e mensagem muito própria, el cantante de rap. E traz à tona Fumaxa – que magistralmente conecta o melhor de todos os intervenientes com os seus beats.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=nVV7oQS2HdU]

Beatbombers – “Beatmbombers LP” (17 de junho de 2017)

“O que é um Dj?” – perguntam os Beatbombers na última faixa do seu LP homónimo. Dj Ride e Stereossauro, juntos, nunca deixam de surpreender. Este verão a prenda foi um álbum recheado de grandes nomes nacionais, como Slow J, Fuse, Maze ou Phoenix RDC, sem nunca perder a sua principal característica: o scratch e o turntablism, a música eletrónica aqui fundida ao drum’n’bass, dubstep ou trap. A acompanhar a produção, D-Styles, Dj Kentauro, Razat, Holly ou a guitarra de Ricardo Gordo.

Beatbombers LP é um trabalho singular da dupla caldense e ganhou o seu direito a figurar nesta lista – quer pela produção e masterização imaculadas como pela lufada de ar fresco que as batidas de Ride e Stereo fizeram sentir.

 

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Phoenix RDC – “American Express” (7 de setembro de 2017)

Phoenix RDC não é um novato. Renegado, Caos e Drama deram o mote e American Express surge em 2017 como um álbum de 16 faixas, maturo e compacto. Os instrumentais são originais de Charlie Beats e Moreno e a produção ficou a cargo de Shooh, mas foi Phoenix que tornou este trabalho um verdadeiro “expresso americano”, musicalmente sólido, com o registo que o rapper tem habituado os fãs, musicalmente “das ruas”. Vialonga vai subindo a fasquia dos seus MC’s. Em aparente descontrolo face à disruptora descrição do que vê, de onde mora e do que afeta a sua gente, este comboio mantém-se sob carris, cada vez mais destemido.

Phoenix RDC lança American Express – um dos álbuns do ano por ser, mais uma vez, um registo sólido e consciente do rapper.

 

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Fínix MG – “Níveis” (12 de novembro de 2017)

O novo recruta da Think Music estreou-se bem: Níveis é um EP de cinco faixas de (ex- Phoenixx MG) Fínix MG, com a produção de Osémio Boémio, Rkeat e Benji Price. Os meninos de ouro da label de Profjam encarregaram-se de chegar ao fim do ano para lançar o projeto sem aviso prévio, apenas com o single “Think Music” disponível até à data. Contudo, este trabalho do MC não desiludiu os fãs que caracterizam Níveis como um trabalho repleto de boa vibe, flow e dicção imaculadas e lírica já tradicional nesta família que se foi criando ao longo de 2017. Fínix MG entra deste modo no game e esperemos que não se fique pelo primeiro nível.

“ProfJam, conseguimos” – afirma em “Think Music”. O CEO deve estar satisfeito.

 

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Blashp – “Stracciatella & Braggadocio” (17 de novembro de 2017)

Nerve, Keso, dB, Here’s Johnny, John Miller, Syniko e Skunk foram os produtores convidados por Blashp a embelezar Stracciatella & Braggadocio, o mais recente EP do MC da Mano a Mano. Frankie Dilúvio rima com confiança e flow e rima… muito bem. Entre faixas como “€uros Ramazotti” e “Apanha Game?”, o baller, como o próprio Blashp se autodenomina, vai dissecando rimas sobre poderosos instrumentais – não fossem os nomes supracitados uma equipa de peso.

Com muito hustle, flow e rimas diretas e refrescantes, o rapper da Margem Sul apresenta talvez o seu melhor trabalho: mais consistente, mais complexo, mais polido. Sem nunca esquecer o belo trabalho que foi “Frankie Diluvio Vol.1.”

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Kappa Jotta – “Ligação” (1 de dezembro de 2017)

Foi com muito “Hustle” que Kappa Jotta se foi afirmando “Pela Cidade”. O rapper da Linha de Cascais começou o mês de dezembro a lançar “Ligação”, segundo álbum de uma dinastia a formar. A voz e flow do MC conjugam-se com rimas ásperas e sem rodeios, retrata histórias e retrata-se a si mesmo: “Kappa no compasso é bruxaria/ Continuo o mesmo Kappa da guerrilha”. Em “Ligação” há Lhast, Slow J, Charlie Beats, Khapo, o velho conhecido DJ Big. Há muita rua pela cidade, há um Kappa Jotta em forma e pronto para ir, aos poucos e poucos, cimentando a sua conquista das rádios portuguesas.

“Ligação” é, porventura, um trabalho de reconhecimento na cena do hip-hop nacional. Falta-lhe ainda tempo para se estabelecer.

 

Como é belo o fado de Coimbra

“São nossas as mãos que constroem a utopia”,

estava escrito na faixa de entrada do recinto da Festa das Latas e Imposição de Insígnias, certame de receção aos novos alunos de Coimbra – que este ano sofreu algumas alterações quando comparado com os anos anteriores. O que mais se destaca é o cartaz recheado unicamente de nomes nacionais. Se o hip-hop se faz ouvir em todo o país, também faz sentido a sua presença na cidade da sabedoria e do fado.

Desta vez, Coimbra abriu a portas a novos e velhos alunos. De quinta a sábado,  Slow J, Valete, Bezegol. Daqui, partimos para o que esta geração de hip-hop nacional vai construindo: o direito de ser único, de criar arte, de se expressar. O direito de construir a utopia, como escrevem os estudantes. O direito de ter “uma vida boa”.

Lento demais para toda a gente, Slow J

Slow J abriu as hostilidades no que toca ao hip-hop em Coimbra. Sem Nerve, Gson ou Papillon no bakcup, trouxe consigo a humildade que lhe é característica.

“Arte” abriu o concerto, que rapidamente foi espelhando o The Art of Slowing Down, com os habituais Francis Dale e Fred reinventando melodias. “Comida” e “Serenata” foram algumas das músicas mais aplaudidas, mas é um facto que a forma como o recinto vibrou com “Cristalina” prova a intemporalidade do The Free Food Tape, primeiro EP do músico português.

E foi-se, assim, iniciando a construção da utopia. Porque também Slow J apresenta “o seu fado”, em “Casa”, como os estudantes o fazem em Coimbra.

Em “Fome”, música que foi muito bem-recebida pelo público, Slow J reafirmou, mais uma vez, o seu estatuto no rap. E, para fechar, Slow J reafirmou o seu estatuto na música com a sua cover bem conhecida de “Não me mintas”, de Rui Veloso, antes de sair de palco e dar um abraço coletivo aos fãs que o viam junto às grades.

Hora de ligar o Canal 115.

Valete foi trunfo nas Festas das Latas em Coimbra.

Duas e trinta da manhã. As luzes começam a chamar pelo público, a batida de Poder começa a fazer-se ouvir e a multidão a juntar-se. O general entra em campo, vestido a rigor e pronto a marchar por mais uma noite de rap consciente.

Por várias vezes, Valete profere a frase “um só caminho”. Antes de ser um rapper, Valete é hiphoper e este quer “que o movimento siga a formação original – é para afetar as pessoas, para as levar para um novo caminho, para dar a volta”, revela-nos o artista na conferência de imprensa que deu no final do concerto.

Este continua e clássicos como “Roleta Russa” ou “Não pára” agitam o público. São vários os momentos em que Keidje nem precisa de cantar, pois a assistência sabe as letras de cor. Em uníssono, gritam-se versos desde “Os Melhores Anos” até “Fim da Ditadura”.

O tempo passa rapidamente e é com grande entusiasmo que a plateia recebe a última música. “Rap Consciente” começa a entranhar-se, as mãos erguem-se ao ritmo da batida e a mensagem que o general quer fazer passar é cumprida.

“O Hip Hop tem mesmo de crescer e de se misturar. O de 2005 não pode ser o de 2016.” Contudo, não deve perder a matriz com que foi criado. O Hip Hop incomoda. E neste momento não está para incomodar”, afirmou o rapper.

Valete não teve medo de se erguer, nem de dar o peito às balas. O concerto espelhou muito bem tanto os melhores anos da sua carreira como os períodos mais difíceis em que Johnny Walker eram o seu refúgio. Contudo, passados tantos anos, continua a ser um anti-herói e esta passagem pela cidade dos estudantes vai deixar saudade.

Bezegol, o fora-da-lei

Ao quarto dia de Latada, terceiro dia de hip-hop em palco, foi a vez de assistir ao concerto elétrico de Bezegol. O MC português juntou a sua voz tão característica às vozes de um público bem constituído que acompanhou bastante bem todo o concerto, já enamorado pela guitarra de Rui Veloso – que atuou e que levou Bezegol ao palco para embalar os estudantes com “Maria”.

Entre músicas como “Tempo” e “Era Tão Bom”, constrói também ele a sua própria identidade, muito singular. Seja em “Monstro”, seja em “Fora da Lei”, o MC evoca sempre a crítica social e política e abstrai-se de ser como os outros (“Esforço-me por descobrir a forma de fugir à norma/ de ser o monstro que a vida nos torna”, canta). Em Coimbra, não foi exceção, dando brilho a um espetáculo muito bem acompanhado.

Entre “Beijos”, Bezegol meteu o hip-hop da Festa das Latas e levou-o para casa.
Afinal, é belo o fado de Coimbra. E “as mãos que constroem a utopia”.

Escrito por: Bruno Sousa e Nuno Mina

Entra na batida, mesmo que a agulha te salte

“Abram alas, equipa de salvamento, 100% pelo hip-hop eu represento”, diziam os Sindicato Sonoro no final da primeira década do século XXI. Se vocês, como eu, leram esta linha a cantar, podem imaginar do que vos vou falar. Afinal, o hip-hop nacional está vivo e bem representado, o público está cada vez mais ativo, mais consciente, mais verdadeiro. A cultura cresce, o graffiti é cada vez mais aceite (fruto do bom trabalho que tem crescido em várias cidades do país), o “apadrinhamento” de Slow J ao b-boy Speedy ou o reconhecimento internacional dos Momentum Crew abriu também a visão dos fãs ao breakdance, um dos pilares do hip-hop que nunca se afirmou, de verdade, entre o público nacional. O DJing não é exceção: Lhast, Oseias, Fumaxa, Here’s Johnny, Holly, Spliff – produtores que vão, a pouco e pouco, alcançando o topo. Fazemos do hip-hop o ar que respiramos, todos os dias, quando metemos os fones na viagem de autocarro ou quando bombamos as colunas com “malhas” que saem todos os dias, para nosso gáudio.

E, como todos os movimentos, evolui. Move-se. Cresce. O hip-hop e a sua vertente social também muda, avança, altera-se. Assim como o contexto em que é produzido. O rap de intervenção, “sujo”, como disse Valete, sempre foi uma constante e uma mais-valia, expondo os problemas de uma sociedade minoritária que lutava todos os dias para sobreviver, trazendo à tona as questões do racismo, da desigualdade, da xenofobia, do que é marginal, posto à parte. Porque era isso que quem cantava, na altura, vivia, e quem canta o que vive canta muito melhor. Alguns espelhavam a sua ideologia política ou as suas ideias de “abstenção”. Outros criticavam o “suor do trabalho escravo”. Outros falavam de crime, da propensão violenta das ruelas da cidade, das “drogas e bottles”. O gangsta rap falava da rua e era na rua que se fazia, fruto da rebeldia dos que bebiam as palavras dos seus ídolos. Sem censura – é assim a maneira mais rápida para descrever o hip-hop. É o que é, sem medos, sem receios, diz o que interessa dizer. Um pouco como serviço público, embora a maioria do público não o compreendesse. E, novamente, foram-se aflorando novas tendências: os sons de amor, como se diz por aí, o storytelling inteligente que contava romances, aventuras, experiências de vida. É inegável que todo o género musical é propenso a mudar. E o conteúdo e mensagem desenvolveu-se muito, ao longo dos anos. O que não implica que a forma não possa mudar também.

Já não é só o boombap que nos vem à cabeça quando se fala de rap. A batida trap, acompanhada do “blink blink” e da fama, do sucesso, da ideia que um rapper é o novo rockstar, com o seu jeito deslocado e coloquial, já é uma constante em Portugal e no rap tuga – com tendência a evoluir cada vez mais. Profjam, por exemplo, assim como a sua label – Think Music – ou a dinâmica musical e o aparato lírico da Superbad. são os pioneiros da nova escola no que toca à vertente mais superficial (sem qualquer conotação negativa). As duas labels não podem ser comparadas, é claro, falo somente desta nova dinâmica musical. Holly Hood, por exemplo, seguiu as pisadas do padrinho Don Gula com o seu rap atrevido e explosivo, o toque de bad bitches e Money. Prof ou L-Ali trouxeram algo diferente nesta nova escola, também. A batida mais trap que o habitual a encantar as faixas é um exemplo disso, assim como L-Ali se desdobra em participações com VULTO, Pesca ou Secta com as suas fonéticas temíveis e beats underground.

Infelizmente, é isso que vem trazendo a discórdia aos fãs. Contextualizando tudo até aqui: estas recentes mudanças têm irritado profundamente o público. E foi Valete que lançou a controvérsia, com “Rap Consciente”. Os que antigamente talvez até adorassem o MC, agora apontam-lhe o dedo à falta de moral (dez anos sem álbum a provocar a ira dos mais ansiosos) e ainda ao facto de tentar voltar com o mesmo rap com que “saiu”: o “rap de combate”, a criticar e a julgar os restantes MC’s da tuga, que se apoiaram em Prodígio na sua nova música – “manos em 2017 ainda vendem revolução?” – com a ideia que o rap de revolta contra o sistema já está obsoleto. É essa a maior crítica que se aponta a Keidje Lima: os tempos que se vivem já não pedem tanta revolução como antigamente, e a mensagem que ele passa pode ser demasiado forçada. Do outro lado, vivem os fãs incondicionais do boombap, que criticam por seu lado o trap e a sua associação ao hip-hop. De fora, observam os “restantes”.

Esta discussão provoca, cada vez mais, alterações ao conceito de “bom rap”. Vou generalizar. Colocando Valete na prateleira de cima, juntamente com quem partilha da sua opinião de rap sujo e revoltoso, e colocando Profjam, a sua label e quem prefere o rap trap na prateleira de baixo (claro que não falo só de Valete e Prof, mas uso-me de ambos como exemplo neste argumento), temos uma estante recheada de talento. Em ambas as prateleiras se pode ver talento e amor ao game. Em ambas as prateleiras existe cultura, knowledge, respeito. Há quem diga o contrário, mas eu gosto de falar de factos e, embora este seja um artigo exclusivo da minha opinião, factos devem ser expostos e discutidos. E o único facto que está presente é a qualidade dos dois MC’s e respetivas “etiquetas”, respetivas prateleiras. Valete vai lançar “Homo Libero” e Profjam vai lançar um novo projeto. Valete diz “está de volta ao rap de combate” e “à arte de iluminar”, Profjam traz batidas trap com mortalhas de conhecimento e “está no topo do seu game”. Ambos (e relembro, mais uma vez, que estou a generalizar para melhor entendimento – não falo especificamente de nenhum dos dois, mas sim do que simbolizam) trazem coisas novas (e menos novas, talvez, mas com um novo ressurgimento, sem dúvida) e atitude.

O rap evolui, e ainda bem. Afinal, como eu comecei por explicar, cada um canta aquilo que vive, e é assim que se canta melhor. Os “restantes”, que acompanharam a passagem dos tempos, apreciam, cada um à sua maneira, a beleza que nasce nas variações e hip-hop e no florescimento de novas experiências, novas misturas, novos contextos. Porque é o contexto que mais importa: “para onde vou, com que estive, com quem estou, de quem fui, de quem sou”, como já os Dealema diziam. No hip-hop, e na música em geral, nada é intocável. Tudo se pode misturar e cruzar, passar a novidade, tocar pessoas diferentes. As batidas vêm e vão. O orgulho de pertencer ao movimento é uma constante. E daí, há mau rap e bom rap? Revolução versus Fama, Luta versus Status. Boombap versus Trap, Velha Escola versus Nova Escola. Será que estas discussões beneficiam alguém? É importante não confundir o conceito de conteúdo e forma. É importante apreciar o hip-hop no seu estado mais natural, seja sobre uma beat trap ou boombap. E é importante apreciar a mensagem de revolução que nos é transmitida, mas ainda mais importante manter o apreço que se tem pela mensagem de rebeldia face aos problemas da sociedade e do sistema. E é importante saber também que o rap espampanante, “javardo” (como já ouvi dizer) e virado para a ascensão à fama e vida de excessos é também rap, e está já vincado no movimento – sempre seguindo o exemplo dos states, afinal, em Portugal tudo chega com atraso.

O hip-hop tuga está vivo. Metam os braços no ar, levantem-se do sofá, vão para a rua partilhar melodias em forma de rap, mostrem aos vossos pais, irmãos, amigos. Façam parte deste movimento que nunca deixa ninguém de fora, independentemente do que preferirem ouvir. Critiquem o que têm a criticar. Formem a vossa opinião. E ouçam com o coração.

ARTIGO ESCRITO POR: BRUNO SOUSA