Hip Hop Rádio

Fotografia de Alicia Gomes.

Super Bock Em Stock 2019: concertos particulares para ouvidos atentos

Dez foram os nomes Hip-Hop que constavam no cartaz do Super Bock Em Stock. Um no Coliseu dos Recreios, os outros nove no Capitólio. Todos de luxo e dirigidos para um público particular: quem viu, queria ver.
Por Daniel Pereira | Fotografias por Alicia Gomes

O aparecimento do Super Bock Em Stock permitiu que deixasse de parecer estranho um festival em pleno novembro. Tanto na edição do ano passado como na recente edição, a chuva fez parte da festa. Mas nem isso fez com que os festivaleiros se afastassem da avenida da Liberdade. O público moveu-se de sala em sala, uns através dos shuttles disponibilizados pelo festival, muitos a pé. E faziam-no com gosto. A sede de descobrir música nova era muita.

O primeiro dia começou com João Tamura. Com uma esperada atuação intimista, o músico apresentou-se com banda e não deixou ninguém indiferente. O Primeiro Ato de “Singapura” acabou de estrear e começar o Superbock em Stock com ele foi como uma bênção.

Passando de fora para dentro do Capitólio, Amaura foi a senhora que se seguiu. Dona de uma voz de ouro e tão característica do soul mostrou a todos o que é ser Hip-Hop sem fazer rap. Muitas são as colaborações de Amaura em discos de Rap, mas agora, finalmente, temos o prazer de ver um trabalho a solo. “Em contraste” é disco intimista, mas também dançável e tudo isso foi espelhado no concerto. No final “Blues Do Tinto” aqueceu e causou a boa disposição tanto a músicos como ao público e a última faixa “dança” tirou TNT dos pratos e trouxe-o até às rimas. Daqueles concertos que arrancaram aplausos de pé e que, mesmo se houvessem lugares sentados (como um concerto de soul por vezes pede), fariam-no tal e qual.

Bambino atuou por volta das 21h50 num concerto, no mínimo, peculiar. Acompanhado de Sanryse nas backs e Camboja Selecta nos pratos uma coisa era notória: a qualidade de Bambino estava lá, mas não apareceu – pelos mais diversos motivos – pelo menos no que toca nas rimas em que tudo foi bastante atabalhoado. Já na MPC, esteve irrepreensível tal como Camboja Selecta que “dropou” instrumentais fenomenais. Sanryse mostrou também que está de volta, ele que tem uma voz incontornável na cena do Hip-Hop nacional e que neste concerto nos brindou com um pouco de Freestyle. As coisas são como são e certamente queremos estar presentes no próximo concerto de Bambino até porque o projeto IN3GAH irá trazer um dos álbuns que mais irá dar que falar.

Mais tarde, o palco do Capitólio foi todo para Cálculo e para os seus músicos. Hugo vem de Barcelos, mas podia muito bem ser de Lisboa pois, acreditamos, sentiu-se completamente em casa. “Estrelas” abriu um concerto que ao início não estava a captar muito o público talvez por desconhecimento do artista. A questão é que quem visse apenas o início do concerto e depois visse apenas o seu final pensaria que era dois concertos diferentes. Não por “culpa” de Cálculo, mas sim devido ao público. O rapper conquistou gradualmente a plateia até chegar a um ponto em que todos cantavam os seus refrões. Acompanhado de Mace e banda, temas como “Hugo”, “Iguais” que trouxe Harold a palco ou “Não paro” fizeram a festa. O concerto de cálculo foi das maiores conquistas de público que vimos nos últimos tempos e é disto que os grandes artistas são feitos. Todos os que ouviram, quiseram ouvir, mesmo que ao início não o soubessem.

O segundo dia começou ao final da tarde em “modo lounge” com Tiago Castro & Ricardo Mariano DJ set. Passámos depois para fora do capitólio onde atuou Keso e todos os integrantes da editora Paga-lhe o quarto. O rapper que têm vindo regularmente atuar em Lisboa desta vez cantou apenas a primeira e última música, deixando o resto da editora brilhar num concerto que deu para descobrir novos talentos. Seguiram-se Orteum já dentro do capitólio que mostraram como profissionalizar o underground. É de louvar como um dos coletivos mais reais do hip-hop nacional chega a um grande festival . O concerto terminou com “anda” que é uma autêntica crítica ao panorama atual do hip-hop português e com muitos dos associados da editora RAIA em cima de palco.

Seguiu-se Perigo Público e Sickonce que apresentaram o seu mais recente projeto e que vai dar muito que falar “Porcelana“. Mesmo com a voz afetado, Perigo Público foi firme nas suas rimas e abriu a mente de todos os presentes. No Algarve faz-se bom Hip-Hop, dois nomes a ter em conta.

No Coliseu Dos Recreios esperava-nos um dos melhores concertos de todo o festival. Slow J revelou que o seu avô morreu no ano passado e disse também que tinha sido pai nesse mesmo ano. A sua música já fala por si mas estes dois fatores, contados no início do concerto, tornaram-no ainda mais emocionante. FAM trouxe Papillon a palco e o percurso musical fez-se entre “You Are Forgiven”, “The Art Of Slowing Down” e até “Free Food Tape”. Muitas músicas ficaram por ouvir, pois é simplesmente impossível fazer mais num concerto de uma hora e pouco, mas todas as que foram ouvidas foram também contadas por todos. O público de Slow J é o país inteiro, ora não estivéssemos na presença de um dos melhores artistas nacionais desta nova geração.

O último concerto Hip-Hopiano levou-nos de volta ao Capitólio desta vez para ver Col3trane. O britânico não desiludiu, antes pelo contrário e fosse numa vibe mais dançável ou intimista convidou todos a entrar no seu concerto. Penélope, última música do alinhamento, é êxito musical conhecido por todos mas é importante conhecer mais deste jovem artista. Um dos nomes a ter em cona na cena internacional da música urbana.

O Super Bock Em Stock foi mais uma vez um prato cheio para os amantes de Hip-Hop. Mais importante que isso: cada vez mais se revela um festival de ouvintes instruídos. Em nenhum concerto houve alguém que não soubesse o que estava a ouvir e nos tempos atuais em que a música pode-se tornar tão impessoal é de destacar um evento que torne a música, de novo, pessoal.

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