Hip Hop Rádio

Rafxlp: “A minha música transparece muito aquilo que sinto”

Rafxlp, Rafael Pereira, acaba de lançar o primeiro single do seu álbum de estreia que conta com a participação de João Tamura e Maze. O produtor, atualmente residindo em Hamburgo, aceitou partilhar um pouco da sua história e trabalho com a Hip Hop Rádio.

Sentes que a tua ida para Hamburgo, com apenas 17 anos, foi essencial para despertar esta curiosidade pela produção?

Depois da minha vinda para cá andei muito em baixo e sem motivação para nada, foi aí que a música tomou o seu lugar na minha vida. Comecei por ouvir beat tapes do J Dilla, Kanye West e de outros produtores menos conhecidos que encontrava no SoundCloud. Fiz download do FL Studio, comecei por produzir algumas coisas e depressa isto se tornou na minha vida e no que quero fazer para o resto dela.

Consideras que essa fase mais melancólica da tua vida também transparecia um pouco no teu trabalho quando começaste?

Sim, muito. O meu primeiro EP chama-se “Homesick” e tem mesmo essa vibe melancólica. Foi apenas apartir do “Pink Everything pt. I” que comecei a ver a vida com outros olhos e a viver melhor comigo mesmo. A minha música transparece muito aquilo que sinto, mesmo não tendo voz (minha).

Porque é que decidiste ir para o hip-hop? O que ouvias na altura influenciou o teu estilo de sonoridade?

O hip-hop sempre me acompanhou. Lembro-me de ser pequeno e de passar sons dos Dealema e do Boss AC por infra-vermelhos para os telemóveis dos meus amigos. Foi sempre o que ouvi por isso não fazia sequer sentido que eu fosse para outro género. As minha maiores influências são o J Dilla, Kanye West, 9th Wonder, Sángo, Sam the Kid, Knxwledge e Madlib. Não tenho tanto a certeza quanto ao facto de se assemelharem àquilo que faço mas é certo que são as minhas inspirações.

Relativamente ao single “Viver Assim” que acabas de lançar, sabemos que já tinhas colaborado com o João Tamura. Como surgiu esta colaboração com ele e ainda com o Maze?

O Tamura e eu já eramos amigos desde que ele entrou no meu projeto “Pink Everything pt. I”. Desde aí temos trabalhado em mais projetos em conjunto e já era mais que óbvio para nós que ele iria estar presente no meu álbum de estreia. A junção do Maze ao single surgiu depois de ele se mostrar muito interessado no meu trabalho e no trabalho da minha label, passando muitas vezes música nossa na Ginga Beat e chegar a convidar-nos para uma entrevista em direto na rádio. Foi só uma questão de lhe perguntar e ele aceitou logo.

Esta colaboração do Maze surgiu porque sentiste que faltava algo ou já era ideia inicial ele entrar mesmo antes de a música começar a ser feita?

No início era só para ser com o Tamura, depois achei que seria boa ideia juntar um veterano no rap com alguém mais new school que o ouvia enquanto pequeno. É sempre engraçado chegar a uma altura nas nossas vidas em que os nossos ídolos de infância se tornam em amigos e “colegas de trabalho”.

És co-fundador do projeto Slow Habits. Como surgiu esta ideia?

A Slow Habits na verdade foi uma junção de duas labels/coletivos: a Slowhush e a Habitus Collective. Fundei a Slowhush em setembro de 2016 juntamente com o Sien e o Golden Cat enquanto que a Habitus já andava por aí, fundada pelo Sleepinpatterns (aka Taser). Em dezembro a Slowhush lançou uma beat tape de natal onde o Sleepinpatterns foi convidado a participar e desde aí que mantivemos contacto e fomos fazendo amizade. Não demorou muito até que a ideia de juntarmos as duas labels surgisse. Marcámos a junção com o release da nossa primeira compilação e desde aí tem corrido tudo muito bem.

Qual é o maior objetivo dessa junção? Já têm alguns projetos futuros em mente?

O maior objetivo é mostrar ao mundo os trabalhos dos nossos artistas, crescer como coletivo e marcar a diferença. Somos uma label acima de tudo mas também temos uma rádio 24h com seleções nossas, podcasts e mixes. A nossa maior audiência é nos Estados Unidos e na Alemanha e focamo-nos mais em instrumentais e não só em hip-hop. Além de projetos nossos tem também trabalhos de artistas que gostamos ou que encontramos no SoundCloud. Projetos futuros temos algums EP’s de artistas nossos que ainda não posso revelar nomes e o meu álbum. Em relação a compilações talvez tenhamos algo interessante no próximo ano em parceria com outra label mas também não posso revelar muito.

Em relação ao álbum que vais lançar, sentes que vai ser um culminar dos teus trabalhos já divulgados ou, por outro lado, um novo início que difere muito destes?

Acho que vai ser o culminar de tudo o que aprendi e das experiências que vivi este ano. Claro que vai ter um pouco da sonoridade de outras coisas que já lancei, mas por outro lado também vai mostrar um lado novo da minha produção. Tenho muitos convidados neste álbum e vou fazer com que seja algo memorável.

Até agora o teu trabalho tem sido apenas ao nível da produção. Imaginas-te a escrever um dia, ou excluis por completo essa hipótese?

Sou um desastre na escrita (risos). Para dizer a verdade, já escrevi coisas e cheguei a gravar, mas foram cenas mais experimentais e alternativas, não me orgulho muito delas ao ponto de as publicar. Estou a pensar incluir um skit de um desses projetos no álbum mas não prometo nada.

O nome rafxlp “parece complexo mas na verdade é muito simples, era o meu nome do twitter na altura, não tem significado nenhum“. Por vezes o que parece complexo na nossa cabeça acaba por não ter importância, depende de como o encaramos. Rafxlp transformou uma frustação, a sua ida para longe de todos os seus conhecidos, em motivação para fazer algo de novo e onde realmente pudesse aplicar toda a sua paixão pelo hip-hop, é isto que irá sempre transparecer na sua música.

Entrevista: Carolina Costa

 

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