Hip Hop Rádio

Phoenix RDC levou Vialonga ao Hard Club num American Express


Créditos: Ana Pereira | H2Tuga

 

Phoenix RDC apresentou o novo álbum American Express, no passado dia 09 de setembro, no Porto. O rapper “realizou o sonho” de levar o “hood para Hollywood”, ao encher a sala 2 do mítico Hard Club com Vialonga a acompanhá-lo em peso. A festa celebrou o mais recente disco de Phoenix, a sua carreira e ainda o facto da V-Block estar em foco no rap nacional.

A entrada de Phoenix RDC em cena, 10 minutos antes das 00:00 horas, foi ilustrativa de qual era um dos principais objetivos da noite. O vialonguense subiu ao palco seguido de uma dezena de pessoas, com o intuito de demonstrar que a caminhada para o sucesso foi sempre feita com quem o rodeava e que nesta ocasião tão especial não seria diferente.

Num momento de realização pessoal, o Renascido Das Cinzas recusou concentrar em si todas as atenções e preferiu dividir o protagonismo. Em conversa com a Hip Hop Rádio confessou nunca ter sido “apologista de pessoas que consigam singrar e que (entretanto) abandonem os seus.” Acrescentou ainda que “o mais importante é viver em harmonia. Não querer pisar os outros sabendo que esses têm o mesmo sonho que nós.” Para Phoenix, “isso (compartilhar o sucesso) vale mais do que dinheiro.”

Falemos então de Rap. Durante cerca de 50 minutos, Phoenix optou por alternar entre faixas do novo projeto e músicas de um passado recente. O artista entrou sem meias-medidas e abriu com “Papo-Recto”, numa entrega que colocou o público num elevado nível de entusiasmo, acompanhando a letra, “barra” por “barra”.

De American Express, disponibilizado durante a semana em que iria ocorrer a festa de apresentação, saíram os momentos de maior destaque. O single Papo-Recto 2” causou enorme efusividade nos presentes. O público gesticulava como se de um espelho de Phoenix se tratasse. As “barras” extremamente gráficas colocavam toda a gente a acompanhar física e liricamente o rapper. “Vidas” e “Moneycómio” sobressaíram em igual medida, com enfoque para as variações no flow do rapper, que foram perfeitamente seguidas pelos fãs. O público conhecia bem as letras de quase todas a faixas que Phoenix rappava. De ressalvar, aliás, como alguns elementos na plateia já dominavam os versos de faixas recentes, como é o caso de “Miséria”, das mais marcantes e emotivas de American Express, possivelmente o último álbum que Phoenix lançará.

Numa pequena entrevista à HHR perspetivou-nos isso mesmo. A maneira como o Rap é consumido atualmente, nesta era digital, e a forma como o rap de intervenção e de consciencialização tem vindo a perder-se nesse consumo, faz com que seja difícil, para o artista, prosperar. Ainda assim garantiu “continuar ativo” no que a faixas e participações diz respeito.

Phoenix, sempre fiel a si mesmo, trouxe para o palco a reconhecida crueza do seu street rap. “Street Tem Dono” “Crime”, ambas com participação de Kosmo, “Thug Life”, “Júnior Mafia”, todas elas faixas de Renegado, são paradigma do Rap empírico, frontal, duro e sem filtros de Phoenix.  A faixa homónima ao gang do qual faz parte, os Júnior Máfia, provocou um dos momentos da noite, com o refrão a ser entoado em uníssono, em clima de loucura, pelo público.

Créditos: Ana Pereira | H2Tuga

As dificuldades que Phoenix passou ao longo da vida sempre serviram de inspiração no momento de “pegar na caneta”. Falar do quão cru e verdadeiro é o Rap do MC e não falar de “Dureza” seria uma imprecisão. Apesar de ser um dos momentos mais aguardados da noite, “Dureza” surgiu mais cedo que o previsível. Carregada de emotividade no beat, na letra e até na forma como Phoenix se exprime na própria música, esta faixa representa fielmente a dimensão de um artista que vive o Rap como poucos, e que procura casá-lo com tudo o que a vida lhe proporcionou, de bom ou de mau.

Apesar de ter uma carreira que conta quase com duas décadas de existência, só nos últimos dois/três anos é que Phoenix RDC começou a obter um reconhecimento mais alargado. A Hip Hop Rádio quis saber se de alguma forma isto lhe provocava uma sensação agridoce e o MC argumentou: “Por um lado isto educou-me. Sempre acreditei que as coisas fáceis de obter também são fáceis de perder. Eu podia ter mudado a minha música para vender mais. Eu quero fazer música para (as pessoas) se consciencializarem, verem, aprenderem, crescerem, porque eu procuro educar.”

Para acabar o concerto, Phoenix escolheu “Renegado”, faixa homónima do projeto de 2016, deixando os fãs a pedir por mais, num concerto que se podia ter estendido. Pairou a sensação de incompletude por não tocar alguns singles do novo álbum, como “Luta”, “Lição de Vida” ou “12:00 pm”, que já prometem vir a ser clássicos do Rap nacional.

Pisar o palco do Hard Club, um dos ex-líbris do Hip Hop português, é sempre sinal de reconhecimento para qualquer MC, e o sucesso de Phoenix pareceu culminar nesta noite. O rapper disse ter conseguido” concretizar um sonho”, o de poder atuar no mesmo palco dos seus ídolos “Onyx”. “Quando não tinha tanta visibilidade, e assistia a espetáculos no Hard Club, sonhava estar do outro lado (no palco)”, finalizou.

 

Noite vialonguense … mas não só

Phoenix, sob o lema de carreira que o guia, levou o talentoso “hood” de Vialonga ao lendário palco do Hard Club, entenda-se então como “Hollywood”. Numa noite repleta de artistas, a V-Block mostrou toda a qualidade emergente na zona.

A festa iniciou-se por volta das 22.00 horas com DJ Nesley, que conduziu quase toda a noite vialonguense no Porto, a começar a animar a multidão que se ia formando. Pouco depois tivemos o primeiro concerto, por parte do jovem-talento Ali Badd. O promissor trapper começou a abanar com quem estava no recinto, mostrando uma energia contagiante aliada a alguns bangers de Trap. Ali fechou a performance eletrizante com o seu último single, “Motherfucka”.

De seguida, numa exceção ao domínio presencial de Vialonga, tivemos Mantorras, MC do Porto. O artista conseguiu, como habitual, causar algumas gargalhadas no público através dos seus improvisos. Para além disso, estreou uma nova faixa de nome “Cidades By Nights” e, claro, tocou ainda “3 Tangas”, o seu maior sucesso.

O Rap Crioulo de Vialonga não ficou de lado e Tchoras Mc foi chamado a representar esta vertente linguística do Rap nacional e de Vialonga. Durante cerca de 10 minutos de entrega e dedicação, o rapper mostrou a sua tendência para rimar sobre o meio onde cresceu, as condições inerentes e de tudo o que o rodeia no dia-a-dia. Tchoras quis também dar relevo ao papel interventivo do seu Rap.

 

Créditos: Ana Pereira | H2Tuga

Outro jovem a tentar afirmar-se no Trap, em Portugal, é Dero Vibez. Acompanhado de Real e de Flajó, os 3 perfazendo o conjunto Der Toten, deram um espetáculo curto, mas carregado de bangers. Um deles pareceu ser uma faixa nova de Dero, possivelmente denominada “Overdose”. A finalizar ouviu-se o seu último single “Codeine Boy”, que facilmente fica no ouvido.

 

Créditos: Ana Pereira | H2Tuga

Meia hora antes de Phoenix subir a palco, tivemos ainda o DJ com quem RDC costuma trabalhar, DJ Stikup. Com mais tempo que os anteriores convidados presentes, Stikup preparou o público com um set repleto de misturas, bangers do presente e do passado, tanto portugueses como internacionais. “50/50”, “All The Way Up”, “We Dem Boyz” e “Still Dre” são alguns exemplos.

 

Créditos: Ana Pereira | H2Tuga

Mesmo no final, como numa passagem de testemunho, Phoenix concedeu a um dos coletivos do momento a possibilidade de poder brilhar e fechar em grande a noite no Hard Club. Os Wet Bed Gang acabariam mesmo por fazê-lo com grande explosividade. A entrada ao som de “Não Tens Visto” provocou logo um momento apoteótico. Numa meia hora efervescente, o coletivo de Vialonga ainda tocou “Não Sinto”, um dos mais recentes singles do EP de estreia, Filhos do Rossi, com alguma remistura instrumental por parte do DJ de serviço. Os membros da WBG desfilaram qualidade no flow, nas vozes, na presença, e na interação, mostrando já uma experiência notável para quem anda nisto há pouco tempo. A faixa “Aleluia” colocou o espaço noutro nível de agitação, culminando mesmo numa invasão de palco por parte dos convidados. Esta noite, de apresentação do disco American Express, de Phoenix RDC, acabou por servir também como celebração da carreira de um artista que vê o sucesso chegar tardiamente. Sean Pd ainda foi a tempo de cantar, com Zara G, “Toque da Night”, encerrando a noite em festividade pura e em clima de dança.

Nota ainda para a ausência de Piruka, anunciado como convidado especial, e de Giovanni, que não cantou assim uma das músicas do momento no rap português, “50/50”, com Zara G.

No pós-concerto, Phoenix RDC tirou fotografias, falou com os fãs e viu os CD’s disponíveis “voarem” num ápice.

 

Escrito por: Emanuel Cirne

 

 

 

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