Hip Hop Rádio

O silêncio que fazia falta ouvir

Há muito que fazia falta ouvir a voz de Slow J. Mas, curiosamente, não é a sua que abre o seu novo álbum: Sara Tavares dispara o gatilho, “arranha as costas” de quem ouve e abre jogo para João Batista Coelho também sonhar. As duas vozes conjugam-se depois na última estrofe da música, acabando por ser o início perfeito para “You Are Forgiven“.

Papillon é o próximo a ser chamado para a mesa. “FAM” traz o melhor dos dois artistas, contando com um ritmo africano que entusiasma qualquer um. Afinal de contas, foram várias as mãos responsáveis pela sua elaboração: produção de Chromonicci, Holly e Slow J, com “pós” de Fumaxa e Lhast, voz adicional de Gson e guitarra por Francis Dale – uma criação complexa, em vários tons, que percorre todos os temas.

Onde é que estás?” e “Lágrimas” trazem a melancolia ao projeto. Transportam o fado, carregado de amargor, e evocam os espinhos ainda cravados na sua pele que são expostos, seguidamente, em “Teu Eternamente“. Esta foi a única carta revelada, antes do lançamento do álbum, que fecha este fragmento mais escuro para depois ressurgir e voltar a rir. Afinal de contas, Slow J “Só Queria Sorrir“.

A sexta música do disco é um grito que motiva qualquer um a ser o que quer ser. Uma chapada que nos faz levantar da cama – “esta é prós dias de chuva” em que não nos lembramos de querer mudar o mundo – e nos passa o microfone para as mãos: responsáveis por deixar cravada no mundo a nossa impressão digital.

A que figura na capa, precisamente, não é a do músico: é a de cada um que ouve o álbum, cada um de nós que está perdido no seu próprio labirinto e tenta encontrar o seu caminho. O de João Batista Coelho é coberto de culpa, como o próprio confessa, mas também de sonhos, lágrimas e sorrisos.

Mea culpa” é a ressurreição de Slow para depois saltar “Muros“: 2 minutos de música que nos abanam por todo o lado. J tem a capacidade de cozinhar autênticos shots de motivação que põem qualquer puto lento a correr, qualquer pragmático a virar sonhador.

You Are Forgiven” é uma sádica história escrita com o sangue jorrado pelos espinhos que tem cravados em si – e que nos leva a encontrar os nossos – onde Slow J faz da confissão o seu laboratório. Para mim, já está, seguramente, mais longe que os seus ancestrais. Esperemos que não abrande e que continue, sempre, com fé nessa merda: cá estaremos para ouvir o seu silêncio.

Leave a Comment