Hip Hop Rádio

O melhor do ano em 12 álbuns

Quase findado o ano e, inevitavelmente, à espera de Sangue Ruim, Ouro Sobre Azul e a continuidade de Unpluguetto, debruçamo-nos sobre mais um ano de história no hip-hop nacional. Um ano onde os séniores do movimento (Damaia, Gaia e Chelas) adiam novamente os seus lançamentos, dando espaço aos recém-chegados e menos mediáticos que, contudo, fazem deste ensaio um bonito portefólio de hip-hop nacional.

2017 começou em Tilt e terminou em Kappa – pelo menos nos 12 melhores trabalhos selecionados pela redação da Hip-Hop Rádio. Entre mixtapes, EP’s e álbuns, o ensaio que se segue é um sumário de boa música e uma celebração de ano novo sobre o que melhor se fez em Portugal este ano. Por Bruno Fidalgo de Sousa.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=g6FPG_7DC3k]

Tilt – “Karrossel, Karma” (29 de janeiro de 2017)

Depois de ter editado Alimentar Crianças Com Cancro Da Mama, em 2013, Tilt, rapper de Almada que tem cuspido regularmente em projetos como ORTEUM ou Colónia Calúnia, abre o ano de 2017 com Karrossel, Karma, EP de 7 faixas que o próprio caracteriza como “um breve ensaio sobre consciência e transformação”. A verdade é que Tilt é ainda underground no sentido lato da palavra: sem grandes promessas e sem grandes chamadas de atenção, o rapper construiu um EP consistente cujo público viu nascer com bons olhos e que, embora se note a necessidade de o polir, nota-se também um ambiente musical disruptivo que envolve os ouvintes.

Karrossel, Karma é um diamante em lapidação e abre as cortinas para o que aí poderá vir em 2018, seja a solo ou acompanhado.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=rzPGBIPWuHE]

Slow J – “The Art of Slowing Down” (17 de março de 2017)

Foi em março que a redação da Hip-Hop Rádio se dirigiu ao Mercado da Ribeira para assistir à confirmação de Slow J. Se “Vida Boa” e “Comida já tinham granjeado o respeito do público pela boa vibe de “J, o encarnado”, o rapper, crooner, produtor e, acima de tudo, músico, lançou The Art of Slowing Down em 2017 e deixou “a tuga” em alvoroço com a harmonia musical e diversidade na produção do seu primeiro álbum, que também contou com participações de Intakto, Fumaxa, Papillon, Gson e Nerve. Com um variado ecletismo musical, com instrumentais enraizados da música africana, do jazz ou do rock alternativo, com faixas acarinhadas como “Casa”, “Biza” ou “Arte”, TAOSD reconheceu Slow J não como uma promessa do hip-hop nacional, mas como uma confirmação da música portuguesa.

The Art of Slowing Down é, assim, o melhor álbum do ano para a Redação da Hip Hop Rádio.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=iNhgmg5CyWA]

Grognation – “Nada É Por Acaso” (30 de abril de 2017)

O primeiro álbum de originais do coletivo de Mem Martins não é, de facto, por acaso. Com uma mensagem e contexto vincados ao longo de todo o trabalho (desde o pormenor do artwork da capa à voz de Cláudia Cadima entre faixas), os cinco rappers juntaram-se a Sam The Kid, Dj Ride, Lhast ou Cálculo na continuação do estilo musical de Na Via e de Sem Censura. Sem grande alarido e sem algo que o torne “especial”, Nada É Por Acaso é um registo “grog” de excelência: os temas soltos, com enfoque no dia-a-dia, nas desilusões amorosas e na jornada do grupo e a habilidade de Harold, Prizko, Factor, Papillon e Neck em dissecar rimas sobre variados instrumentais sem nunca perder um fio condutor.

Os Grog são os Grog e nada mais. A sua singularidade torna este álbum num must-see de 2017.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=sZeMfPcz1fg]

Língua Franca – “Língua Franca” (26 de maio de 2017)

Quando duas ou mais línguas coexistiam, surge a língua franca. Mundialmente já foi o latim, o francês, o inglês. Entre nós, a Língua Franca é o hip-hop. Para Valete, Capicua, Emicida e Rael, o Atlântico não precisa de se separar e isso é uma boa notícia. Maio terminou com o lançamento do projeto luso-brasileiro Língua Franca – uma mistura dos quatro rappers supracitados com a produção de Fred Ferreira, Nave Beatz, Kassin e o selo da Sony. Os dez temas que compõem este trabalho por parte de um “supergrupo” são de tácita compreensão: fala-se, entre melodias autênticas como é “Génios Invisíveis” e “Ela”, da condição social, do paralelismo entre o rap luso e o rap brasileiro e da liberdade humana, não fossem Valete, Emicida e Rael pesos-pesados do rap. Capicua também brilha – e com ela a voz feminina no mundo do hip-hop.

Língua Franca é um trabalho de culto. Um álbum com força internacional e que não deixa indiferente quem o ouve. E embora o hip-hop seja minoria, entre nós já só falamos uma língua.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=Oxn83YrAgvk]

Scorp x Stereossauro – “UMPORUM” (30 de maio de 2017)

O MC caldense juntou-se a Stereossauro e deu seguimento ao seu primeiro projeto, Apontamentos, com uma mixtape editada esta primavera pela Crate Records. Com muito boombap, scratch e instrumentais originais, UMPORUM é um regresso às origens: hip-hop em estado bruto. Se em “Não há remédio” ou “Tudo mesma laia” tanto Scorp como Stereo se fazem valer da sua condição natural de conterrâneos e amigos para iluminar o ouvinte com hip-hop “à velha escola”, é nas outras faixas menos mediáticas que o rapper se faz ouvir: “Ponho a alma numa letra/ Nunca escondi a receita/ Sempre a mudar qualquer cena /É foda ter a tape feita” afirma em “Só Quero”. O rap de Scorp é imprevisível e liricamente expressivo e o MC soube bem passar da teoria à prática.

UMPORUM é de audição obrigatória para quem sente falta da velha escola. Duas opções agora: scroll down “ou então mete este som se quiseres abanar os cornos”.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=MDiVm0ynobI]

Wet Bed Gang – “Filhos do Rossi” (31 de maio de 2017)

Os filhos do Rossi foram talvez a maior surpresa do rap nacional em 2017. Com apenas três faixas “cá fora” – “Não Tens Visto”, “Todos Olham” e “Essa Life é Good” – os quatro MCs de Vialonga editaram Filhos do Rossi, EP independente e que nos mostra Gson, Zara G, Zizzy e Kroa como filhos do hip-hop – quem já os viu em palco percebe bem a energia e carisma do grupo. Mas quem é Rossi? O mentor e a pessoa que uniu o coletivo da V-Block e o principal impulsionador do seu rap. De facto, os Wet Bed Gang fazem deste seu primeiro trabalho uma homenagem ao seu “pai”, cruzando letras poderosas e bangers com a voz e melodia de Gson e com uma única participação de Jimmy P, neste que é um álbum delicioso de se assistir em concerto.

Espera-se um bom 2018 para os WBG. E é com este EP que o coletivo ganha o prémio Revelação por parte da redação da Hip-Hop Rádio.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=HER4jFfCkmI]

Bispo x Fumaxa – “Fora D’Horas” (1 de junho de 2017)

Bispo iniciou junho “sem parlapie”. Depois de “Bispoterapia” e “Desde a Origem”, o rapper de Mem Martins veio com a parceria do produtor Fumaxa apresentar “Fora D’Horas”. Com muito boombap e uma musicalidade já consolidada por Bispo em cada faixa que toca, este EP é um trabalho de referência – principalmente no que toca à produção. Fumaxa destaca-se este ano por vários trabalhos, mas é em “Fora D’Horas” (assim como no seu trabalho com Chyna) que a sua sonoridade se combina com a voz de Gson e a melodia de Dino D’Santiago e Bispo.

O alarme inicia este EP que volta a mostrar Bispo como ele próprio: com uma vibe e mensagem muito própria, el cantante de rap. E traz à tona Fumaxa – que magistralmente conecta o melhor de todos os intervenientes com os seus beats.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=nVV7oQS2HdU]

Beatbombers – “Beatmbombers LP” (17 de junho de 2017)

“O que é um Dj?” – perguntam os Beatbombers na última faixa do seu LP homónimo. Dj Ride e Stereossauro, juntos, nunca deixam de surpreender. Este verão a prenda foi um álbum recheado de grandes nomes nacionais, como Slow J, Fuse, Maze ou Phoenix RDC, sem nunca perder a sua principal característica: o scratch e o turntablism, a música eletrónica aqui fundida ao drum’n’bass, dubstep ou trap. A acompanhar a produção, D-Styles, Dj Kentauro, Razat, Holly ou a guitarra de Ricardo Gordo.

Beatbombers LP é um trabalho singular da dupla caldense e ganhou o seu direito a figurar nesta lista – quer pela produção e masterização imaculadas como pela lufada de ar fresco que as batidas de Ride e Stereo fizeram sentir.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=6SwBBlsOEM0]

Phoenix RDC – “American Express” (7 de setembro de 2017)

Phoenix RDC não é um novato. Renegado, Caos e Drama deram o mote e American Express surge em 2017 como um álbum de 16 faixas, maturo e compacto. Os instrumentais são originais de Charlie Beats e Moreno e a produção ficou a cargo de Shooh, mas foi Phoenix que tornou este trabalho um verdadeiro “expresso americano”, musicalmente sólido, com o registo que o rapper tem habituado os fãs, musicalmente “das ruas”. Vialonga vai subindo a fasquia dos seus MC’s. Em aparente descontrolo face à disruptora descrição do que vê, de onde mora e do que afeta a sua gente, este comboio mantém-se sob carris, cada vez mais destemido.

Phoenix RDC lança American Express – um dos álbuns do ano por ser, mais uma vez, um registo sólido e consciente do rapper.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=TkACAXPWDx4]

Fínix MG – “Níveis” (12 de novembro de 2017)

O novo recruta da Think Music estreou-se bem: Níveis é um EP de cinco faixas de (ex- Phoenixx MG) Fínix MG, com a produção de Osémio Boémio, Rkeat e Benji Price. Os meninos de ouro da label de Profjam encarregaram-se de chegar ao fim do ano para lançar o projeto sem aviso prévio, apenas com o single “Think Music” disponível até à data. Contudo, este trabalho do MC não desiludiu os fãs que caracterizam Níveis como um trabalho repleto de boa vibe, flow e dicção imaculadas e lírica já tradicional nesta família que se foi criando ao longo de 2017. Fínix MG entra deste modo no game e esperemos que não se fique pelo primeiro nível.

“ProfJam, conseguimos” – afirma em “Think Music”. O CEO deve estar satisfeito.

 

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=tnH26C7m4V0]

Blashp – “Stracciatella & Braggadocio” (17 de novembro de 2017)

Nerve, Keso, dB, Here’s Johnny, John Miller, Syniko e Skunk foram os produtores convidados por Blashp a embelezar Stracciatella & Braggadocio, o mais recente EP do MC da Mano a Mano. Frankie Dilúvio rima com confiança e flow e rima… muito bem. Entre faixas como “€uros Ramazotti” e “Apanha Game?”, o baller, como o próprio Blashp se autodenomina, vai dissecando rimas sobre poderosos instrumentais – não fossem os nomes supracitados uma equipa de peso.

Com muito hustle, flow e rimas diretas e refrescantes, o rapper da Margem Sul apresenta talvez o seu melhor trabalho: mais consistente, mais complexo, mais polido. Sem nunca esquecer o belo trabalho que foi “Frankie Diluvio Vol.1.”

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=cf6ssBzYFE0]

Kappa Jotta – “Ligação” (1 de dezembro de 2017)

Foi com muito “Hustle” que Kappa Jotta se foi afirmando “Pela Cidade”. O rapper da Linha de Cascais começou o mês de dezembro a lançar “Ligação”, segundo álbum de uma dinastia a formar. A voz e flow do MC conjugam-se com rimas ásperas e sem rodeios, retrata histórias e retrata-se a si mesmo: “Kappa no compasso é bruxaria/ Continuo o mesmo Kappa da guerrilha”. Em “Ligação” há Lhast, Slow J, Charlie Beats, Khapo, o velho conhecido DJ Big. Há muita rua pela cidade, há um Kappa Jotta em forma e pronto para ir, aos poucos e poucos, cimentando a sua conquista das rádios portuguesas.

“Ligação” é, porventura, um trabalho de reconhecimento na cena do hip-hop nacional. Falta-lhe ainda tempo para se estabelecer.

 

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