Hip Hop Rádio

O Hip-Hop ainda é clandestino e isso não é necessariamente mau

Texto: Daniel Pereira
Fotografia: Sebas Ferreira e Bernvs_


No passado sábado parecia que estava de volta a 2012. Menciono esta data porque foi por volta dessa altura que comecei a ir a festas de Hip-Hop na minha terra, Sines. Os meus primeiros headshakes foram mesmo ao som de Alcool Club em festas organizadas pelas comissões de finalistas. Apesar de estas festas serem legais, pareciam sempre algo clandestinas, pelo menos para a generalidade da população. Eu não vivi os 90’s mas acredito que nessa altura a sensação de clandestinidade fosse ainda maior. Em 2012 era algo que ainda perdurava. Mas e em 2019? Será que se extinguiu? De maneira nenhuma: e isso não tem de ser mau.

Coincidentemente ou não, os cabeças de cartaz do LX Rap Clandestino Vol II eram também os Alcool Club. Quando cheguei à FLUL o sentimento de nostalgia surgiu num ápice. Graffitis nas imediações (proporcionados pela própria organização), porta de entrada minúscula, sala escura, quadrada e pequena, ausência de zona VIP e muito Boom-bap no ar. Depois de no dia anterior ter visto o já mítico concerto de Sam The Kid no Coliseu Dos Recreios e ser praticamente impossível algum evento superar esse, senti no entanto que ali era onde devia estar, era ali que devia continuar a festa que tinha começado no dia anterior. E é isso que faz esta nossa cultura ser algo tão grande e complexo: ali estava eu num evento com dimensões muito menores, mas igual em termos “Hip-Hopianos”. Infelizmente não consegui ver as rodas de Break Dance mas cheguei a tempo de ver os momentos finais de Uno que deu o mote para um concerto de um tipo que já há muito não via de Alcool Club. O ambiente era propício, afinal estávamos a falar de de “Rap Clandestino” e este tipo de rap não é exatamente para todos os que estavam presentes. Letras sabidas de cor, nem um único telemóvel levantado a gravar e microfones que chegaram a muitos dos espetadores da frontline (Subtil a determinada altura encarregou-se dessa tarefa). Por lá também passou Uno, Mass, TOM e Sara D Francisco numa noite em que os artistas se confundiram com o público ora não fosse a noite terminada com DJ Set e Open Mic ao leme de DJ Pilha.

A festa acabou, mas continuou lá fora com um convívio brutal entre todos os que simplesmente não queriam ir embora. Mil e uma conversas sobre rap em que cada um podia ser interveniente e que duraram até muito depois de as portas fecharem. Algo tão clandestino mas que ao mesmo tempo, de clandestino, não tem nada.

Quando os Alcool Club dizem que não querem ser mais do que aquilo que eles são, não falam só por si, falam por todos os que sentem o “Rap clandestino”. Claro que há outras formas legítimas de sentir a cultura, mas isso, para eles, está fora de questão.

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