Hip Hop Rádio

Nunca foram precisas regras para fazer mossa

Tinha, como título original desta crónica, “Hip-Hop sem leis”, numa tentativa frustrada de comparar o atual panorama do rap português a um western de Sergio Leone – ainda que a banda sonora não seja de Ennio Morricone, mas sim de tantos outros MC’s e produtores nacionais. Os tiros de som ambiente estão, contudo, presentes em ambos os cenários.

“Hip-Hop sem leis” não resultou. Quando se tenta comparar tudo isto a tudo aquilo, verificamos que o género western foi ultrapassado, gasto, deixado no deserto entre cowboys e índios, caçadores de recompensas e palha seca a cruzar o plano. Por outro lado, estou cada vez mais certo que é com Tarantino que se deve teorizar, um pouco mais, este nosso hip-hop. “A vida não presta e ninguém merece a tua confiança” – imaginem qualquer filme do realizador norte-americano e coloquem este conhecido verso no meio: encaixa que nem uma luva. O toque bizarro de Quentin evolui ao longo dos seus dez filmes.

Espero que conheçam o filme “Inglourious Basterds”. Podem precisar desse conhecimento prévio para entender esta crónica. Ou de imaginação.

Imaginem então, se forem audazes para tal, que o general Ed Fenech não é nada mais que Profjam, comandando a tropa de elite sem escrúpulos. De um lado, Oseias, Benji Price, Osémio Boémio, Fínix MG, Rkeat, Ice Burz, L-Ali. Do outro, Donny Donowitz, Hugo Stiglitz, Wilhelm Wicki, Smithson Utivich, Archie Hicox, Aldo Raine.

Profjam tem como missão “matar o game”. Os bastardos inglórios tinham como missão, simplesmente, “matar nazis”. O game não é certamente a mesma coisa que “nazis”, mas o enfoque está na beleza da jornada.

E, não deixando totalmente de fora a ideia (genial, pensava eu) do “Hip-Hop sem leis”, conseguimos perceber isso tanto no ecrã de cinema como no ecrã de qualquer jovem ingénuo que grava um concerto do It’s A Trap em vez de aproveitar o moshpit. Nem os bastardos nem os pensadores se guiam por quaisquer regras pré-definidas e politicamente corretas.

Gson afirma em “Voar” que, permitam-me parafrasear, não é a nova escola e sim a nova escala. Esse tema ficará para a próxima. O que interessa retirar deste texto é que a nova escola não é mais que a mudança do jogo em si, a difusão do hip-hop como movimento maior na cena musical portuguesa, a sua deliberada inovação e frescura. E isso, como todos podemos observar, revê-se nas batidas trap que esta Think Music se serve para renovar o game. Se, como os bastardos fizeram, precisar de o matar, parece-me que irá fazê-lo. Podem não colocar o seu jogo numa nova escola, como o MC dos Wet Bed Gang. Mas fazem esse jogo à sua maneira, avançando a passo rápido na “conquista” nacional como um todo, uma label.

Donny Donowitz brandava tacos de basebol nas cabeças adversárias, Hugo Stiglitz assassinava chefes militares alemães à socapa, Aldo Raine marcava os oponentes com suásticas na testa. Mais uma vez, nunca foram precisas regras para fazer mossa.

Mas quem será o coronel Hans Landa desta história? Não sei se interessa assim tanto. No fim, todos morrem.

Por Bruno Fidalgo de Sousa
Fotografia de Arquivo

 

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