“Tu não consegues falar de crescimento só uma vez. Enquanto continuas a crescer, continuas a falar de crescimento”
Diretamente de Sacavém, Gonçalo Santos apresenta-se na indústria musical como Santos, Só. Aos 23 anos, já soma alguns anos de experiência: foi aos 19 que lançou a sua primeira música, ainda sob o nome de Santos, e aos 11 anos de idade que começou a escrever. Hoje, com o nome artístico Santos, Só – um nome que carrega a ideia de simplicidade, pois é apenas o Santos – conta já com três faixas lançadas ao público e continua a trabalhar no seu primeiro projeto a solo. Para conhecer melhor o artista e mergulhar nas temáticas que explora nas suas músicas, a Hip-Hop Rádio esteve à conversa com o rapper para esta entrevista.
Quando lançaste a tua primeira malha PONTO DE INTERROGAÇÃO, ainda assinada só por Santos, tinhas 18/19 anos. Que fase da vida é esta, onde estás a entrar para a faculdade e decides mandar um som cá para fora?
Por essa altura estava a acabar o secundário, lancei-o em 2020 já com 19 anos, mas gravei-o com 18 anos. Eu já escrevia há muito tempo – desde os meus 11 anos – e sentia que o entrave, até então, de não lançar uma música era um conflito interno de ego e consciência. Ele é um som que fala sobre a teoria da psicanálise do Freud, a tua consciência, as tuas vontades próprias. O facto de na altura curtir bué de psicologia e teres esses conflitos levou-me a escolher esses temas para o meu primeiro som. Shoutout ao meu primo David que me levou ao estúdio com o RawCutz, foi a primeira vez que tive uma sessão assim profissional num estúdio.
Entre essa e a OsciLAR, já como Santos, Só, ainda mandas cá para fora os sons Não Dormi e Figuras. Estavas na faculdade nessa altura, como é que funcionava? Tinhas a licenciatura em primeiro plano ou sentias que ela ocupava o teu tempo para a música?
Sinceramente estava um bocado in between. Eu sabia que o que eu queria mesmo era fazer música, mas ao mesmo tempo sabia que tinha de me licenciar. Eu tinha a faculdade em primeiro plano vá, mas quando eu não estava na faculdade estava a escrever. Andava muito por aí. Também tinha na cabeça que quando acabasse a licenciatura, me iria focar a 100% música, fazer o rebrand e começar a desenhar uma estética mais própria.

Fonte: Santos, Só
Quandos dizes na osciLAR: “Acho que eu ’tou sempre a ir dum lado e ‘pó outro porque eu ’tou à procura só de algo que me apegue”, é já uma manifestação dessa vontade de focar na música no meio dos estudos?
Porra [risos]. Como jovem, andava bué numa de: “tenho de fazer alguma coisa”. Estava sempre a trocar de ideias, a pensar em várias coisas, mudanças comportamentais…a vida tas a ver? Estás a fazer a faculdade e estás a pensar se no futuro vais fazer isto ou aquilo. Essa barra é a forma mais crua de eu explicar que estou sempre a pensar em bué cenas. A coisa que mais me apega é a música ya, mas por acaso na altura não estava a pensar nisso [risos]. A osciLAR é muito sobre essa indecisão e crânios que uma pessoa vai passando.
Depois vem a Árvore Pt.1. É um som com um olhar muito mais compadecido de ti para ti mesmo, a cabeça deixa de oscilar tanto e começa a definir uma posição para com ela própria e o mundo à volta.
100%, esse som é o momento na minha carreira onde eu tou a ter a minha versão mais consciente e racional. O próprio conceito do som é sobre crescimento e as coisas que vais enfrentando. O Árvore Pt.1, quero que se torne uma série com várias partes, porque tu não consegues falar de crescimento só uma vez. Enquanto continuas a crescer, continuas a falar de crescimento. Com isso, vem essa versão mais racional. Quando escrevi esse som estava à beira dos 23 anos, e andava a pensar que as coisas estavam a ficar sérias, que tinha de bulir, que eventualmente iria sair de casa dos meus pais. Aí ainda é o mesmo tropa do osciLAR que ainda bate bué crânio [risos] é só uma demonstração mais completa dele.
Por acaso tinha olhado para a cena das partes de uma maneira diferente. Há árvores que duram centenas de anos, então tinha interpretado que uma possível parte dois seria já algo póstumo a ti. Numa de deixares cá a tua música para que possa “libertar oxigénio” para os próximos que começarem a fazer música.
Isso é uma excelente forma de observar a cena. Eu não pensei nisso. Para mim o Árvore Pt.1 é um som que aproveito para deixar como um depoimento da minha jornada [risos]. É uma cena mesmo introspetiva do Gonçalo, sem pensar nas consequências que isso possa ter em outras gerações. Não tinha pensado nisso, mas espero que tenha esse efeito [risos] faço música com esse propósito também.
Na tua entrevista à Rimas e Batidas contaste que o refrão da Nada a Apontar foi escrito depois de te teres despedido do trabalho. Enquanto levavas a vida com uma “mão na cabeça, que não solda o soldado”, era fácil tirares tempo, ou sequer teres vontade, para escrever?
Olha, posso dizer que foi a altura mais pró-ativa da minha vida. Foi uma beca delicada em termos de gerir tempo – estava num full-time e a fazer música – mas ao longo desse período consegui escrever imenso, apesar também de não ter andado a dormir nada [risos]. O refrão vem de uma conversa com um amigo meu, o Henrique, então já andava com aquele tópico na cabeça mesmo antes de me despedir. No dia em que o fiz, o L-ALI tinha acabado de me mandar um beat, então se calhar estava com um fator mais libertador em mim, mas o som veio mais da conversa com esse meu amigo do que do trabalho.

Fonte: Santos, Só
Então a mão na cabeça não vem dessa temática laboral e do cansaço?
Por acaso não, mas faz muito sentido até porque conjuga bué bem com o que tinha acontecido. O som é muito sobre guerra, metaforicamente, então tem bué referências militares, especialmente no refrão: o “alvo mais ao lado”, o “tar em guerra de matar a saudade”, o “isso não é papel para eu estar alistado”. No final do som também acabo com outra dica dessas. Ele gira muito em torno desse campo temático.
Como é que se dá a ligação com o L-ALI?
Veio um bocado de arrasto por ter trabalhado com malta da MunnHouse – a ligação com eles veio até do xtinto, já falava com ele. Na altura tinha a Árvore Pt.1 gravada e mandei-lhe mensagem a perguntar se faziam mistura e masterização na MunnHouse, porque queria dropar o som daí a umas semanas. Depois conheci o João Maia Ferreira e trabalhei com ele na mistura, masterização e pós-produção do som. Foi engraçado porque ele trata o estúdio como um 9 to 5, e eu na altura estava a trabalhar com o mesmo horário, então para ter aquela sessão com ele tive de fazer ganda expediente [risos]. Quando saiu o som, conectei-me com o L-ALI pelo Insta acho eu. Eu já era ganda fã do trabalho dele e ya, começamos a falar e há um dia em que ele me manda um beat.
Estiveste presente no Festival da Política, no S.Jorge. Como foi?
Foi bué fixe. Curti imenso do ambiente e foi um festival onde me alinhei logo com os valores deles – o princípio do festival era alertar sobre a taxa abstenção e tentar interessar as pessoas pela política. Adorei a cena, mas foi a primeira vez que atuei para pessoas sentadas, então foi um bocado desafiante em termos de crowd control.
Com a cabeça totalmente focada na música, tens planos para o futuro?
Estou a fechar o meu projeto pessoal, que já levou imensas voltas, estou a trabalhar também noutro projeto on the side, e com a cabeça 100% na música.