Hip Hop Rádio

NOVA ESCOLA HHR: Ícaro

“O meu público é bem feliz. Não são pessoas que estão a tentar gostar de mim. São pessoas que estão a tentar gostar delas.”

Diretamente de Aveiro, Gonçalo Ícaro surge para trazer uma nova faceta à música urbana popular portuguesa.

Licenciado em Teatro pela Escola Superior de Artes e Design, o artista divide-se hoje entre as vertentes de cantor, ghostwriter e poeta. Com uma personalidade muito viva, Ícaro traz uma poesia que joga constantemente entre a leveza e a descomplicação de temas mais pesados e introspetivos, assumindo a beleza da língua portuguesa.

É na música que os seus poemas ganham uma nova camada, fundindo-se com as melodias do cantor e com instrumentais versáteis que viajam livremente entre o pop e a bachata.

Em março de 2025, estreou-se com o projeto DESCULPA QUALQUER COISA, um EP composto por cinco faixas que se destaca pela sua estética rara e intimista, carregando consigo a identidade e o símbolo da cidade de Aveiro. 

No início deste mês de maio, o artista editou o single “NÃO DISSESTE NADA” e prepara-se agora para subir ao palco da Casa Capitão, já no próximo dia 5 de junho. Com o lançamento da faixa e o concerto a avizinhar-se, a Hip-Hop Rádio teve a oportunidade de falar com o artista.

 

Começar, se calhar, pelo teu início, tu fazes parte do coletivo HALFWOODJEANS. Para quem não conhece, o que é que é o coletivo e como é que entra na tua vida?

A HALFWOODJEANS começa com uma vontade enorme de várias pessoas nas Caldas da Rainha de fazerem arte. Eu era um artista, já fazia música, e queria arranjar forma de pôr música cá fora, quase como num aspeto laboratorial – sabia que não ia começar a fazer carreira por pôr aquelas músicas cá fora, mas se tivesse uma boa estrutura, mesmo que fosse pequenina, ia conseguir começar a fazer as coisas. Ao todo são três designers gráficos e malta de audiovisual, que se juntam com o Francisco Verdasca, que também estudou som e imagem e é um técnico de som fortíssimo, e eu. A acho que um ótimo ponto de partida para qualquer artista é de se reunir com pessoas que, tal como ele, querem fazer arte. Não existe aquela vontade de fama, não existe aquela vontade de reconhecimento. Para já, nós só queremos fazer arte, nós queremos ter um catálogo artístico na rua.

E como é que surges depois, ou antes – não sei bem quando é que situa aqui – a Crvvo Records?

Eu fiz uma música com L-ALI chamada “MARIPOSA”, em que conheci a estrutura da Crvvo. E foi também nessa altura quando conheci o Henrique, que hoje em dia é o meu braço direito dos videoclipes. Pronto, e eu gostei tanto de trabalhar com eles que construí uma relação tão boa com o Paulo, que atualmente é o meu agente. Depois na minha vida, a Crvvo surge numa necessidade de eu ter um booker, de eu ter uma agência. E foi algo muito óbvio. A minha crença foi: quem é que são as pessoas por quem eu sinto empatia e amor? A minha música é sobre amor e toda a minha estrutura é sobre amor. Não há ninguém na minha estrutura que eu não amo e que não me ama de volta – e eu digo amo porque é uma coisa que as pessoas se têm de a habituar a usar e a verbalizar o verbo, porque o amor não pode ser tabu. Então todas as minhas escolhas, desde arte até à estrutura, é sobre amor. As pessoas que me acompanham são pessoas que sabem o meu nome todo, conhecem a minha família, conhecem os meus amigos. Inclusive já me deram casa quando foi preciso. É isso que a Crvvo, a HALFWOODJEANS e toda a minha estrutura são. São pessoas que demonstraram que o amor e a empatia existem no mercado onde cada um faz por si, porque o mercado não existe, como tu já deves ter percebido. Então é isso.

Quando estavas a falar da HALFWOODJEANS, tu tinhas dito que aquilo surgiu depois de teres começado a fazer música. Tu vens da escola das artes cênicas. Quando é que surge a música no teu percurso?

A minha música surge quando eu nasço, porque a minha família do lado materno é uma família muito portuguesa. Eles tinham uma banda de covers caseiros, era algo para a família, para as festas, para os casamentos, para os batizados. Então eu nasci no meio do piano, dos acordeões, das guitarras portuguesas. Portanto, a música começa aí. O meu fascínio pela música começa quando eu escrevo poesia – eu escrevo poesia desde os 12 anos. Cheguei aos 15 e percebi que, da minha geração, se calhar eu era dos poucos que lia livros e comprava livros e gostava mesmo de poesia. Eu começo a fazer música quando penso: se eu fosse um livro, tu não me conhecias. Se calhar era menos homem ou menos artista e no fundo não me lias, porque tu amas arte, mas não aparecias e agora aprecias-me.

Este é o mote da minha música. Eu fiz música porque a minha poesia não ia chegar às pessoas a partir da literatura, e eu que não quero acreditar que a poesia é uma arte morta, então trouxe-a de volta para a música. Eu quero que as pessoas me vejam como artista, quero que as pessoas até me possam ver como músico, mas se as pessoas me virem como poeta, está fechado. Era isso que eu queria.

Como é que tu fazes, ou consegues fazer, a divisão entre o que é um texto poético e depois o que queres levar para a música? 

Ok. Eu só fiz duas músicas na minha vida de improviso, a “MARIPOSA” e um som do próximo projeto chamado “Acender-te um Cigarro”. De resto, são tudo poemas. Eu escrevo todos os dias: é a minha fuga, é o meu FIFA, é o amor da minha vida. É a mensagem. É o quão consigo trabalhar a minha arte para o outro. Então as minhas músicas começam sempre em poesia e  depois vou procurando qual é que é o género onde aquela música se encaixa melhor. Na “QUEQ SABES D’LOVE”, a bachata acontece porque há ali um verso ou outro em espanhol e eu quero que se crie uma linha comum, então misturei o trap com a bachata para dar aquela energia ibérica, digamos assim. Mas é isso, começa sempre pela poesia. O depois é o depois. Eu quero escrever, eu quero ir à minha varanda fumar o meu cigarro, escrever um poema que vai fazer com que eu me deite a saber que ontem eu escrevi a frase. Ontem eu escrevi aquela frase.

Não vou dizer tentar forçar, mas tu acordas e pensas que todos os dias tem de sair dali algo novo, ou é tudo natural?

Nunca, nunca. Nunca forço. Isso acontecia às vezes para escrever para outros porque sou ghostwriter, e às vezes é tipo «ah, eu preciso entregar esta letra», mas acaba por ser muito mais fácil também. Quando eu tenho a informação do outro artista é só criar um poema à volta da pessoa, quase uma homenagem à pessoa. No meu caso, eu não penso que vou escrever. Eu sei que vou escrever, e que pode não ser incrível, mas sei que vou escrever.

É um laboratório. Nem todos os dias um cientista vai para o laboratório e vai sacar a cura do cancro. Eu nem todos os dias vou para a varanda e vou arranjar a cura para a paz, ou a cura para a guerra, mas eu sei que se me sentar ali todos os dias durante uma semana, vai haver um dia em que eu vou fazer uma frase milionária. E é ter fé nisso. 

Eu não partilho muito a minha vida pessoal nas redes sociais como as pessoas fazem, porque eu gosto mesmo muito da minha vida. Eu gosto muito da minha vida privada. E vivo a tanto que eu sei que quando escrevo eu vou ter alguma coisa para escrever. Então não sinto essa pressão da vida. Já senti esse sítio, mas cada vez mais sinto que não é preciso por essa pressão na vida, que tudo é mais importante do que o que eu escrevo porque tudo o que eu escrevo é um bolo de tudo aquilo que eu vivo. Então é muito mais importante a vida do que o trabalho. É muito mais importante a vida do que o nine to five. É muito mais importante a vida do que o hustle de um gajo que investe em ações e tudo mais. Nós trabalhamos para a vida e, portanto, o trabalho não é a principal coisa. A poesia, para mim, é um laboratório emocional onde eu me avalio, onde eu tento encontrar a minha melhor versão. Há uma passagem bíblica que fala em amar o próximo. Eu acredito que amar o próximo não é só amar o Henrique que me está a entrevista. É também conseguir tirar o melhor do Henrique nesta entrevista, por exemplo, as melhores perguntas do Henrique. Só assim vou trabalhar para a minha melhor versão. Então amar o próximo não é só amar o que está à minha frente, mas é amar o meu “eu” que está à frente, o meu “eu” de amanhã. Isso é amar o próximo. Eu gosto que a minha música reflita este sítio de uma pessoa que tem constante mutação e construção para o bom.

Mencionaste que és ghostwriter e gostava de abordar isso. Quando escreves para alguém dás uma parte de ti, do Gonçalo Ícaro, ou tentas jogar de outra forma?

Jogo de outra forma. É um coletivo. Quando eu estou a escrever para alguém é um coletivo. Eu não sou jogador, sou mais um treinador-adjunto quando estou a escrever. Não sou eu que dirijo a sessão, não sou eu que dirijo a música. Sou eu que digo «atenção que essa palavra na métrica não te vai ajudar, mas se tu usas esta palavra se calhar, pode ser mais fácil», é este o meu trabalho. É quase como se eu fosse um dicionário humano que vai ajudando a pessoa a entregar melhor a sua mensagem. Quando um artista vai dar um concerto eu estou lá. A letra é minha. Eu recebo uma percentagem por aquilo que está a acontecer, mas nunca sou mencionado. Mesma coisa, não faço conferências de imprensa, isso é para o treinador.

Há bocado quando mencionaste a “QUEQ SABES D’LOVE” também tinhas mencionado aquele verso que tens em espanhol. Isso já acontece em várias músicas tuas, de onde é que vem esse teu toque de querer trazer essa parte?

Eu não quero tornar isto polémico, mas isto não pode ser polémico, estamos em 2026. Eu não acredito nos artistas portugueses que criam barreiras. Eu não quero dar nomes, mas há muitos artistas que ficaram grandes por quererem tornar o português uma coisa grande. E as pessoas não percebem que se nós não dermos a mão às outras línguas nós não vamos conseguir ser um povo que é ouvido pelos outros povos. Tenho uma família muito variada, desde italianos a brasileiros, portanto, se eu não falasse outras línguas eu não estaria a representar a minha família. De certa forma é isso. Sempre que as pessoas me veem a falar outra língua é a minha vontade de tornar global, porque no futuro eu gostava de fazer colaborações com hispânico-americanos, com os latinos, que não é a mesma coisa, não é? E isso só pode surgir se existir uma predisposição por parte do artista português em mostrar ao mundo que há esta facilidade. Porque toda a Europa sabe que os portugueses falam tudo e que nós nos “desenmerdamos”. Então no fim do dia, como é que nós “desenmerdamos” a cultura portuguesa para uma coisa maior? Pedindo ajuda. E o povo português é um povo demasiado orgulhoso para pedir ajuda. É assim que se pede ajuda. É pondo um verso em espanhol aqui, um verso em italiano ali, um verso em francês ali. E não precisamos de ir por mim, posso dar o exemplo do Chico da Tina, que deve ser dos artistas mais internacionais em Portugal, que já cantou em alemão, já cantou em francês e já cantou em italiano. Nós vemos as colaborações dele pela Europa fora e ninguém se lembra que são estas atitudes que fazem com que Portugal seja mais daqui a dois, três anos. Podem não gostar do Sippinpurpp, mas ele recentemente colaborou com o espanhol, e os dois estão a derrubar essa fronteira. Se nós somos assim tão bons, bora falar as outras línguas. Vamos pôr a portugalidade num sítio de potência e não num sítio ranhoso, que a nossa cultura é muito. 

O fado é elitista e o hip-hop é purista. Os rappers nunca me viam como um rapper porque cantava e os fadistas nunca me viram como um fadista porque a minha letra era demasiado urbana. E de repente, o que eu estou a fazer é mandar um ganda f*ck aos dois departamentos, juntando-os. Se estes dois mundos não quiserem, não se dão, mas eu sou singular nisto tudo que eu estou a fazer e vou juntá-los. Eu estou a rotular a minha arte como música urbana popular portuguesa, porque não vão ser os académicos a dizerem aquilo que eu sou, quando eu próprio sou um académico. Não vai ser um académico a dizer que a minha música é pop ou que é hip-hop alternativo. Desde 2016 que não se criava um departamento novo em Portugal – criou-se o trap e foi uma importação. «Ah, Gonçalo, mas isso já existia», mas não existe o rótulo, é isso que nós precisamos. Nós precisamos que o rótulo chegue à SPA, precisamos que o rótulo chegue a Audiogest, precisamos que o rótulo chegue a Portugal e que as pessoas percebam que isto é novo, é nosso e é para todos. E não sou só eu, a Iolanda está metida nisto, o xtinto está metido nisto, o Rodrigo 13 está metido nisto. Todas as pessoas que nós ouvimos a tocar uma guitarra portuguesa e a meter uma métrica urbana, tem um nome. Eu só criei o nome, mas eu não sou a única pessoa que está a fazer isto. 

Pensas e imaginas em colaborar com malta lá de fora?

Claro. Mas atenção, eu nunca penso muito em colaborações. Quando faço música, faço música do início ao fim. E a maioria das colaborações que vocês vão ver daqui para a frente são músicas em que eu escrevi o refrão e o primeiro verso e depois disse «não quero escrever mais, vou arranjar alguém para fazer o segundo verso». Eu sou sempre convidado, mas eu nunca convido, porque quando estou a criar, não penso «ah, vou chamar alguém». Mas posso aqui dizer que nos últimos tempos escrevi músicas em que a temática já me leva a pensar em alguém. Não quero dizer a temática, não quero dizer quando é que vai sair, isto é, para mim é tudo muito sensível. Mas há músicas em que eu olho e penso que se não for aquela pessoa especifica, não quero ninguém na faixa

Por falar também em colaborações, quero mencionar, obviamente, a tua passagem pelas bacave sessions. Como é que surgiu o convite e como é que foi a experiência? A cena de chegares lá e saíres de lá com um som feito. Um som, que atenção, está a ir muito bem!

Eu fico muito contente. Fico contente por mim e fico muito contente pelo bap [bapcat] porque ele é genial. Ele merece tudo o que lhe está a acontecer agora – ele e a Andamento, a malta dele. Eu recebi o convite depois de lançar a “QUEQ SABES D’LOVE” porque o Vespa [VSP AST] ficou com a música na cabeça e aquilo gerou ali um… foram falando e na altura que precisavam de um convidado e chamaram-me. Quando me convidaram achei estranho, porque eu não sou ninguém na fila do pão. Na altura não era, não acho que seja ninguém na fila do pão e tenho a certeza que da forma como eu levo a minha vida, eu nunca me vou achar mais do que alguém da fila do pão. Quer dizer… A menos que faça o meu pão e seja o meu próprio padeiro, aí é diferente. De resto, não sou ninguém na fila do pão. Quando ele me chamou fiquei muito contente. Depois, nós sacámos a música em três horas. Eu tenho já muito treino de chegar a estúdio e fechar a música para o outro, então nunca existiu essa pressão. No entanto, posso dizer que a nível da ansiedade foi diferente porque nunca tinha estado num desafio daqueles. Parecia meio um American Ninja Warrior, mas na música – estafetas, obstáculos, pensar no que é que eu quero dizer, no que é que eu não quero dizer. O que queria mesmo era falar dos meus valores e falar de amor – porque não há como eu falar na música sem falar de amor, é tudo o que existe. 

Nesse dia cheguei a casa e não sabia que música eu tinha feito. Eu lido muito bem com a pressão, mas acabámos o som, fomos a um convívio, estávamos a falar e eu estava num sítio que parecia uma tela em branco, eu não sabia o que tinha feito. Passado uma semana recebo o export, olho e digo assim: o que é que eu sinto, o que é que eu fiz? Tipo ainda não sei ainda não sei bem o que é que fiz, mas sei que entreguei um dos melhores poemas da minha vida aqui sem querer. O “só quer vida da bandida quem não nasceu nela” vem da vontade gigante de querer falar da minha zona, de querer por Aveiro em cima da mesa. Eu estava numa altura da minha vida em que eu precisava de algo que me desse visibilidade, e depois tocar a música ao vivo no Maus Hábitos, foi a primeira vez que eu senti que tudo aquilo que eu tinha dado nos últimos 10 anos, e que achava que tinha ido para o lixo, de repente estava-me a dar a oportunidade de me segregar. Eu sou uma pessoa que vive muito para o outro, porque vivo muito em mim e vivo muito em volta dos meus. Naquele momento, eu precisava que o público me dissesse que estava tudo bem. Eu sei o que é dar concerto para duas pessoas, pagar para dar um concerto, e mesmo assim ter sempre um sorriso na cara. Eu não me lembro de chorar tanto de felicidade por ter um público que sabe o meu som. Para mim, gritar o som ou dançar o som é uma coisa, mas eu como poeta ver pessoas a cantar uma música do início ao fim, uma letra que se fosse para o livro, tu não lias e não ias saber aquele poema do início ao fim, pá… Eu posso dizer que houve alguns dias na semana a seguir em que quando me levantei e tive perceção da realidade e do que se estava a passar, chorava de felicidade.

Eu tenho uma letra para a minha musa em que digo: tu que choras com poemas em vez de problemas. Eu sou essa pessoa agora, eu choro muito mais com um poema, eu emociono-me com poema na rua, eu emociono-me com o gesto da minha namorada, eu emociono-me com gestos pequenos atualmente. Hoje, os problemas já não são problemas, porque eu já conheci o meu público. Eu podia morrer amanhã e o meu público sabe quem é que morreu, é isto.

Essa noite foi a chave de ouro?

A par da relação que eu tenho, foi o início mais bonito da minha vida. Eu lembro-me de chegar, começar a cantar e existir uma energia enorme que me absorve, que é maior do que eu. Depois quando saio do palco, tenho uma quebra de tensão enorme porque o mundo fez-me assim [estalar de dedos] sabes? Passado 10 anos e de tentar tudo, do nada o público serviu-me amor, e ele nunca me tinha servido amor até aquele dia. O dia 1 de outubro de 2025, que foi o dia em que eu fiz a sessão do bap, eu ia começar a trabalhar numa loja. Eu pedi à loja que me desse mais 3 dias para eu poder fazer aquilo, porque era importante para o meu futuro, e eles disseram que não havia hipótese. Eu caguei e senti mesmo que alguma coisa me estava a dizer que se eu largasse aquilo, e se eu fosse a sessão, a minha vida ia mudar. E bro, tenho datas fechadas, tenho um público, tenho pessoas que admiram a minha arte e pá, é isso, sou um gajo grato. Não sei quem é que anda aí, não sei que tipo de artistas é que andam aí, mas eu a partir de agora só quero trabalhar com pessoas que estão resolvidas e que estão gratas pela vida, porque eu não aceito outro tipo de energia. 

Queria falar sobre o DESCULPA QUALQUER COISA. Na “CÉU DA BOCA” tu mencionas o Dalí, a Frida Kahlo, o Van Gogh, depois o Saramago; na “MOLICEIRO” mencionas ainda o Duchamp. De que forma é que este leque de artistas influencia o teu trabalho ou o teu percurso?

O Duchamp é fixe porque leva-nos ao Dadaísmo e leva-nos à linguagem Dada. Por exemplo, quando cantei o “LINDA” em Setúbal, eu não sabia que as pessoas sabiam a letra de cor. E quando eu me apercebo disso, mando um berro e continuo. Eu não quero dar o berro, mas o êxtase fez com que aquela linguagem se desse. Isso é do Dadaísmo. Quando eu estou ao meio do concerto e faço [barulho com boca] isto é a minha linguagem, este tipo de coisas ajudam o público a perceber qual é que é a minha energia, porque um gajo que faz isto é um gajo que não se leva a sério – e ainda bem. A minha arte é para levar a sério, mas não me levem a mim tão a sério. Se eu não me levo a sério, imagina tu agora o fazeres. O Van Gogh é mais uma referência que depois encaixa bem ali; o Saramago e a Pilar entram porque são o meu exemplo de relação amorosa. Para mim o Saramago foi o homem que teve a capacidade de meter a Pilar como uma musa, como uma santa, e viver aquele amor sem nunca rotular o amor. E é isto, é o ponto, pronto. Eu faço muitas referências porque quero te ajudar a ti, público, a criar uma linha de pensamento que já exista. Eu não tenho de esconder as minhas raízes, não tenho de esconder quem sou só para isto funcionar. Eu referencio sempre quase como apoio do que quero dizer, ou seja, se acho que há um artista muito forte na mensagem paisagística, então eu vou mencioná-lo para a malta perceber onde é que eu quero ir com aquela mensagem, quase como um duplo sentido. Se tu conheces a obra deste artista, vais perceber o que eu quero dizer. Se tu não percebes o que eu quero dizer, eu quero que o meu público tenha a ousadia e a disciplina de ir procurar – e eu sei que isto está a acontecer. E se calhar, do nada, uma pessoa que não tem o quarto ano, que nunca ouviu ou que nunca cedeu à leitura de certa coisa, de repente está a procurar aquilo que eu quero dizer. Uma pessoa que nunca deu Nietzsche na escola; ou que Frei Luís de Sousa lhe passou de lado; ou que Van Gogh nunca lhe interessou, de repente há um artista que te obriga a teres o trabalho que tu nunca pensaste ter. É um jogo, é um desafio, é uma peça de teatro. E todos nós estamos aqui a trabalhar.

Um ano e pouco depois como é que olhas para o EP?  

Em termos de pessoa, o EP já não transparece aquilo que sou. Já não sou aquela pessoa tão triste, tão acutilante, que está sempre num sítio de superação e de amor próprio. O projeto é uma passagem super importante na minha vida, é o meu primeiro projeto, é o meu primeiro filho e está a envelhecer muito bem. As pessoas estão a gostar dele. O “LINDA”, que foi uma música que passou um bocadinho ao lado, está a gerar o boom que eu queria. Fiz essa letra a pensar em algo que todas as mulheres gostassem de ouvir, e em algo que todos os homens tivessem coragem de dizer. Eu queria fazer uma letra que fosse forte o suficiente para poder falar com a minha musa. Há coisas no EP que lhe queria dizer, mas que não tinha coragem. Eu queria fugir e tinha medo que ela fugisse por eu ter pânico de sentimentos, então deixei uma obra. O EP ajudou-me a desculpar também de algumas atitudes que eu tive para comigo, porque sou filho de Deus e eu quero ser uma pessoa boa, que trabalha em comunidade. 

Eu sou privilegiado, era o único branco da minha zona e era muito difícil – e isto pode parecer estúpido – mas sou privilegiado, porque isso queria dizer que quando a polícia corria atrás de nós, não atirava em mim. Todo o trabalho que estou a fazer agora a falar de amor é acima de tudo para a minha comunidade falar disso. Sempre que vires colaborações minhas com a malta de 234, vai ser sempre com músicas de amor. Estou a tentar que a malta da minha zona fale de amor e deixem de falar de crime e drogas. Os artistas de rua andam a ser multados, as casas de espetáculo em Aveiro andam a fechar, não há locais de criação para artistas nem novas oportunidades, portanto agora, mais do que nunca, estando nesta posição, tenho de falar disto. O meu gesto poético vai ser um ato político, porque tem de o ser. No fim do dia, tudo o que faço é por amor à minha comunidade.

A tua malta de 234 é a que aparece agora no videoclipe da “NÃO DISSESTE NADA”?

Não é só o meu grupo de amigos. Eu chamei algumas pessoas que não me conheciam, só conheciam o meu trabalho, e que eu estou a par do trabalho deles na comunidade, seja a nível do lazer; do desporto; do ambiente; da medicina; da ciência; do entretenimento; ou da comunicação. Eu disse-lhes que queria fazer isto pela comunidade, que queria gravar em Pardilhó – que é uma zona que ninguém conhece de Aveiro e que é estúpido, porque é lá que também se fazem os moliceiros e onde se cria o gado que leva os moliceiros para a água – portanto, é isto, somos nós que estamos a levar o moliceiro para a água, então vamos gravar em Pardilhó. E segundo, são tudo personagens, são pessoas que estão a elevar Aveiro. Era o que eu queria. São as pessoas da 234, que não é uma facção, não é crime organizado, não somos bandidos. Os bandidos existem, e também se dão connosco? Se calhar. Mas também me dou com pessoas da política, que são bandidos diferentes. É o que é, só depende da forma como vemos as coisas. Mas sim, as pessoas que estão ali são a 234, que é um movimento de comunidade e de elevar Aveiro. E isto não é só artístico. Em todas as lacunas que existir alguém que gosta de Aveiro, que tem essa paixão pela cidade e quer que a Aveiro seja maior, automaticamente está a lidar comigo e automaticamente eu estou a lidar com a pessoa, não a preciso de conhecer. Eu conheci o Dinis Mota, por exemplo, que foi ao Festival da Canção, por esta associação, por esta vontade de fazer as coisas. A amizade vem por estarmos na mesma jogada cultural, de estarmos a pôr a Aveiro num sítio diferente.

Esta parte visual da música é trabalhada por ti e pelo Henrique Rocha, que já tinhas mencionado no início. Imaginar estas narrativas que acompanham a música é algo que dá pica também depois para trabalhar?

Pá, bue. Imagina, quando nós chegámos ao cerne do que é que eu queria dizer na música, abriu logo espaço para o videoclipe. Quando pensámos no «tu não vás de cavalo para burro, nem faças de mim burro» a cabeça ia para a cena de: eu ainda sou cavalo, mas por tu não dizeres nada e por eu não ter coragem de te dizer o que vai na minha alma, eu sinto-me um burro, isolado num prato, num silêncio. E eu só sou cavalo com os meus, eu só sou manada com os meus. Então é um bocado isso. Os momentos de festa são com a malta, em que eu não penso sequer, e é onde tu vês o sorriso. Eu nunca mostrei o meu sorriso em nenhum videoclipe até agora, mesmo de rir, de estar a ter prazer, e de repente vem a solidão do burro. E aquela imagem que nós vemos quase da morte, a trazermos o burro pela carroça, é essa decisão de eu querer vencer a morte. Se eu não pudesse ficar com esta pessoa, eu não me importava de carregar o peso para que esta mula de carga, que carrega o que sinto, fosse livre. Ou seja, eu não queria ser um problema para essa pessoa, eu não a queria distrair nem incomodar. E uma coisa que eu já lhe disse e que posso deixar aqui. Das coisas mais bonitas que eu já disse à minha musa foi: se eu amanhã acordar e tu não fores minha, eu quero-te feliz na mesma. É este o ponto. E tudo anda à volta deste sítio. Que é, eu sei que os meus me fazem maior e que gostar de ti às vezes me deixa burro de amor. Mas burro sou eu porque não te digo. Burro sou eu porque não vou à procura e estou à espera das tuas perguntas. E estou quase, estou neste processo de desmame porque eu não tenho coragem.

O lançamento da música está a correr muito bem.

Fico muito contente, não sei bem o que é que anda a acontece… quer dizer, a “NÃO DISSESTE NADA” é Santos Populares, e se calhar as pessoas querem um hino de Santos Populares. De repente este pode ser o hino. Dia 5 de junho vamos fazer o assalto aos Santos na Casa Capitão.

“A minha arte não vai mudar o mundo, mas se salvar o meu dia, pode mudar o dia de outro.” Já te aconteceu veres ou leres alguma coisa que tenha mudado e tenha salvo o teu dia?

Já. Vou dizer a última, o último poema que me salvou a vida. No Dia da Mãe eu não tive a oportunidade de passar o dia com a minha mãe, é o que é. A vida nem sempre é fácil. E fui comprar umas flores para ter em casa, porque eu sabia que se ela chegasse a casa ia perceber o poema. Eu fui à florista e estavam dois miúdos a comprar flores. E o miúdo mais velho disse «ah, devíamos levar rosas brancas para a mãe» e o mais novo disse «não, eu quero aquela» que era uma orquídea roxa. Eu fiquei tipo, olha tão giro, orquídeas. E o mais velho disse, «mas porque é que não levamos rosas brancas para a mãe?» e o miúdo mais novo – o miúdo não tinha mais de sete anos – diz, «mas a campa da mãe só tem rosas brancas». O miúdo de sete anos tem a maturidade de dizer ao mais velho que quer dar cor à vida da mãe que não tem vida, é isto. A poesia está nestes momentos. Eu cheguei a casa e escrevi durante três horas e chorei durante essas três horas. Porque estou grato. Porque sou feliz. Entendes? E aquele miúdo vai ser um miúdo maduro. Vai ser enorme aquele miúdo. Já teve maturidade de dizer isto ao irmão e à florista e me pôr uma vontade sua porque quer cor na vida da mãe.  É nisto que a poesia salva a minha vida. E eu quero conseguir poemas tão grandes quanto a atitude deste miúdo. E sei que houve pessoas que por ouvirem as minhas letras, já repensaram melhor na sua vida. Eu nunca pensei que as pessoas tatuassem as minhas frases no corpo. Isso já existiu. Frases que também me ajudaram a ultrapassar e, de repente, eu estou a ver na pele das outras pessoas. A poesia está a salvar a vida porque eu quis que fosse a poesia salvar a vida do outro. O meu público é bem feliz, o meu público quer festa, o meu público quer este culto. Não são pessoas que estão a tentar gostar de mim. São pessoas que estão a tentar gostar delas. Isto é muito maior.

Eu acho que o teu público é mesmo um grande reflexo da pessoa que és e que transmites ser. Se calhar essas pessoas, que já estiveram nesse outro ponto da vida e depois quando te foram ouvir, viram-se conectadas. E os teus concertos são mesmo uma celebração.

Também se calhar por causa disso. É isso, é uma celebração. É porque as pessoas, quando estão a berrar, estão a berrar as minhas letras, a minha poesia. Não é só a música. Eu não subo a palco não é para estar a curtir o 808 – também curto, mas eu subo a palco para ouvir a minha poesia. Enquanto o público berra as minhas letras, eu estou a ler o meu livro. 

Para o futuro, o que é que podemos esperar mais do Ícaro? 

Podes esperar mais do Ícaro. O futuro. Essa é a resposta. Porque o Ícaro nunca quis tanto estar na vida. O Ícaro, pela primeira vez, está a construir a ideia de saudade. Pensar que daqui a três meses, olho para trás, e eu vou ter saudade disto. Eu nunca tive saudades. Mais uma vez, eu nunca tive saudades. Eu cheguei aos meus 27 anos de idade sem ter saudades de nada. A achar-me menos português, menos artista, menos poeta. Porque eu não tinha saudades de nada. Porque lá está, quando passas uma vida de me**a, mesmo quando perdes as pessoas, tu gostavas que as pessoas estivessem na tua vida. Mas tu sabes que para as pessoas estarem na tua vida, tu tinhas de estar naquela altura. E eu não quero voltar à pobreza. Eu não quero voltar a almoçar a mesma coisa todos os dias. Eu não quero voltar a eventualmente não ter sofá e ter de escolher um banco de jardim para pernoitar à noite. Eu estou no mundo, dou-me com vários produtores, dou-me com várias pessoas e eu nunca me quis vitimizar. Mas eu tenho noção que a vitória vive das derrotas. Então, eu não posso deixar de dizer o que é. Nunca amei nenhuma fase da minha vida como estou a amar agora. Faria tudo igual para poder estar a viver todos os dias o que estou a viver hoje. Faria tudo igual para poder estar a entregar esta mensagem a ti e saber que tudo que vai sair desta entrevista é verdade e que é com coração e que é isso. Eu sou suspeito porque vivo em mim, mas eu acho que estes próximos dois anos vão ser anos incríveis, não só para mim, como também para quem gosta da minha arte e me acompanha. Estou a espalhar a mensagem e eu quero acabar com os demónios da malta. Porque para que é que estás a entregar uma mensagem alta se as pessoas ainda não trataram das suas raízes? Como é que a árvore vai tocar no céu se tu não entras na escuridão das tuas raízes e não as trabalhas?

Mas posso dizer também que podem esperar um feat próximo com o VSP AST. Esta posso vos dar de graça porque nós já apresentámos o som. Estamos a dar leak de vez em quando eu subo a palco nos concertos dele. A malta fica lixada porque o som não saiu, mas a campanha é essa. A campanha é eu e ele nos divertirmos a dar o show, a dar aquele som. E quando o som sair é de todos. E é muito giro porque as pessoas não sabem o som, mas vibram connosco na mesma e estão lá connosco na mesma e é muito divertido. O Nando [VSP AST] e a malta de Coimbra têm feito um trabalho excelente na descentralização, e eu inspiro-me bastante. Aliás, eu inspiro-me bastante na descentralização do Vespa, da pikika com Portalegre, do xtinto com Ourém, da Iolanda com Leiria. Mesmo por parte da malta da SMORRA, do Espama Trincana… tudo o que é descentralização e que está a levar sítios que nunca foram muito falados a outro ponto eu inspiro-me. 

Um dos meus grandes objetivos é que daqui a um ano eu não seja comparável a ninguém. Não é porque sou melhor que ninguém, é porque a singularidade é tão imposta e está tão em cima da mesa que tu não tens capacidade para o fazer. Quero que o Ícaro seja um artista para tu desfrutares. Quero que seja um artista que acabe o concerto e que seja capaz de beber um fino com tu e fumar um cigarro contigo. Tenho muita ansiedade social, mas a minha arte está-me a ajudar a limpar esse sítio. 

 

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