Hip Hop Rádio

NOVA ESCOLA HHR: holympo

“Estou sempre única e exclusivamente a competir comigo, porque chegas à conclusão de que há fatores exteriores que não consegues controlar”

Aqui na nossa rubrica da NOVA ESCOLA, na Hip-Hop Rádio, costumamos dar voz à malta que tem surgido nos últimos anos a dar novos ares ao hip-hop nacional, e a todos os seus subgéneros. No entanto, hoje o convidado é o Diogo Dias, conhecido no meio como holympo – um nome que já anda nesta caminhada há uma década.

Diretamente de Cantanhede, holympo lançou-se no SoundCloud, plataforma que serve como casa aos artistas emergentes, onde conquistou milhares de ouvintes. Em 2019, deu o salto ao chegar à final da iniciativa da WTF: O Game; e lançou o seu EP de estreia, Arritmia. A partir daí não parou, e deixou cá fora os EP Natividade, em 2020, e Havarya, em 2022. Em 2024, assinou uma colaboração de peso no EP IMPERFEITO V2 do Agir – onde trabalhou como produtor – e, no final desse mesmo ano, editou o seu primeiro álbum de estúdio, 88. Este verão, voltou aos lançamentos com o seu quarto Extended Play, LUV.

Para ficarmos a saber mais sobre este último projeto, bem como todo o processo criativo por trás das faixas e saber o que podemos esperar do futuro do artista, a Hip-Hop Rádio esteve à conversa com ele por videochamada.

Como é que nasce agora o teu último EP, o LUV? 

O LUV nasce em finais de 2024, inícios de 2025. Quando eu comecei a explorar a nova identidade, queria ir para além do que já tinha feito. Ainda não tinha nome, ainda não tinha propriamente conceito, só tinha uma identidade sonora, artística, que eu estava à procura, que nasceu com o primeiro som de todos, que foi a “HORAS”. E foi aí que eu percebi que estava a enveredar numa cena muito mais digital, que fazia mais sentido numa próxima fase, e não num sentido tão orgânico. No 88 aproveitei para ir a uma cena uma beca mais digital, mas mesmo assim ainda tinha um toque orgânico. E eu queria fazer mesmo um um projeto full digital. Então, comecei pela parte do que é que eu queria que soasse. Relativamente a conceito, nasceu como desenrola a vida e como desenrolam as coisas. E achei que LUV fazia sentido, tendo em conta a fase da vida que eu estava a passar, em que eu precisava de alinhar melhor a minha forma de ver e olhar para a vida. Escolhi precisamente o tópico do amor – tipo, tudo o que é amor na minha vida, que eu precisava de valorizar, de ver com outra lente, com uma lente mais focada na parte boa da vida.

Quando tu lançaste o 88, numa entrevista ao Rimas e Batidas tinhas dito que já estavas a pensar na estética do próximo álbum. Essa estética que imaginaste era este EP, neste caso?

Ya, ya. A “HORAS” ficou estrategicamente fora do 88, porque eu a queria no próximo projeto… Por isso é que eu te estava a dizer, foi mais final de 2024. A “HORAS” saiu em setembro ou em agosto, portanto até foi antes da Baby que foi o último som que eu fiz para o 88. Foi aí que eu percebi, também por aquilo que eu estava a ouvir – estava a ouvir muito untiljapan, estava numa vibe muito mais… não posso dizer rage, mas é tipo mais hit, uma cena mais digital, mais BNYX. Eram essas produções que me estavam a apaixonar. Então, decidi estrategicamente guardar para este próximo processo.

E agora com o EP cá fora, primeiro pergunto-te: como tem sido o feedback, como te tens sentido com o EP cá fora?

Adoro quando tenho um objetivo com um projeto e o objetivo se cumpre. O meu objetivo aqui era que a malta ouvisse e dissesse “isto é efetivamente fresco, isto é efetivamente novo”. 

Eu até tive dificuldade em tentar descrevê-lo. A palavra que usaste há bocado, “digital”, é boa, mas não consigo descrevê-lo bem.

O objetivo era encontrar uma cena própria o suficiente para ser diferente, trabalhada, que não soe a algo que já se ouviu antes. Acaba por ser sempre o meu objetivo, mas fiquei mesmo feliz porque acho que consegui criar uma cena agradável de ouvir, com propósito, mensagem e uma sonoridade muito específica. Tem sido esse o feedback: a malta está a curtir a parte visual e a parte musical, muita gente já me disse que é o projeto que mais gostou meu. É precisamente isso que posso pedir.

A direção criativa nos visuais parte de ti ou dás liberdade total à Saint, ao Pyte e ao Sebastian?

A parte visual parte sempre de uma equipa. Enquanto equipa, sinto que em todos os aspetos temos trabalhado eu, a Saint, o Pyte e o Jack. Mesmo o Jack, até na parte visual, ajuda bastante. Tem sido tudo desenvolvido em equipa. Obviamente que tanto o Pyte como a Saint são extremamente proativos, e às vezes há momentos visuais em que eu só digo “ya é mesmo isso, obrigado por terem chegado com a ideia pronta, era exatamente isso” [risos]. Mas sim, a ideia acaba por ser sempre em equipa. Não tenho qualquer vontade de idealizar as coisas sozinho na parte visual, porque tenho a sorte de ter pessoas extremamente talentosas e com bom gosto visual à minha volta. Aliás, se fosse eu a fazer a parte visual sozinho, não ia ficar a metade do quão bom está neste momento.

Do 88 para cá, sentes que mudou alguma coisa no processo criativo?

Eu diria que o processo criativo está a ser completamente diferente, sim. Eu, antigamente, fazia muitas ideias, guardava-as e acabava-as depois. E neste novo processo, estou, neste momento, não só a escrever enquanto faço o som, e não a guardar e a deixar que o projeto se arraste durante algum tempo só com melodias ou só com um beat e uma ideia de refrão. Agora estou a finalizar os sons muito mais rápido. Acabei por perceber que estar a fazer o som e a letra ao mesmo tempo que estou a fazer a melodia e o instrumental e tudo mais, está a fazer-me ter novas ideias líricas, novas melodias, desbloquear as coisas de outra forma, o que está a ajudar imenso a criar uma nova fase artística no processo.

Já falavas em querer lançar um álbum desde 2019. Demorou, entretanto, 5 anos. Tu também és uma pessoa que tende muito a adiar, és um bocado perfecionista naquilo que crias. Como é que sentes que estás nessa parte, visto que editaste o álbum em 2024 e já estás agora com o novo EP? Achas que “melhoraste” nesse aspeto?

100%. Eu, na verdade, estava num nível de perfecionismo tão grande que o coping mechanism que eu encontrei para ultrapassar isso foi meter datas e dizer que, esteja como estiver, é assim que ele vai sair, porque vai sempre haver o próximo projeto, a próxima música, o próximo feeling. E se ele está feito, está numa versão que eu gosto, vai sair. Claro que tenho sempre aquela coisa de ouvir músicas que já saíram e pensar “aquilo podia estar mais bacano”, e eu sabia que podia estar mais bacano até na altura. Mas tomar a decisão consciente, para mim, fez com que eu pudesse meter muito mais música cá para fora, preparar as coisas e fazer música com muito mais leveza, deixar a cena um bocadinho mais child’s play e trazer alguma leveza para o processo de finalizar faixas. 

Entre o EP e o álbum, tu deixaste cá fora umas live versions do 88. Porque é que quiseste registar estes sons do álbum com os formatos ao vivo?

Na verdade, eram sons que eu sempre quis fazer uma versão ao vivo, e eu sentia que a versão de concerto, mesmo com público à frente, ainda não estava uma versão preparada que eu quisesse meter cá fora – ou pelo formato, ou pelo sítio onde deveria ser. Eu sou uma pessoa que liga mesmo muito à pegada que deixa, aos passos que dá. Tento ter atenção para que, quando faço uma cena, fazer tudo sentido dentro da visão; não quero baixar a qualidade daquilo que estou a meter cá para fora por uma questão de preço ou por uma questão de whatever. Então decidi preparar com a Marta Bao, que é uma realizadora de cinema – nem é de música, foi o primeiro projeto de música que ela fez –, e com a Mafalda Peres como produtora, preparar uma cena num ambiente controlado para sair uma versão que, na minha opinião, não é mais bonita, mas é uma versão diferente, mais orgânica, mais crua.

Para além do mais, fui buscar o Rodrigo para fazer estas versões de guitarra, porque é o melhor guitarrista que eu conheço em termos de arranjos e de criação musical. Ele é absolutamente incrível, por algum motivo tem um dedo em Portugal inteiro. E depois, na verdade, último motivo: todos os meus artistas favoritos fazem isso. Se eu adoro esse tipo de conteúdo dos meus artistas favoritos, eu tenho de fazer isto, era obrigatório. Ainda hoje, o Mac Miller em Londres é uma cena que eu ouço regularmente, ou o Tory Lanez a mesma coisa. Foi por aí o conceito.

Andar um bocado mais afastado dos palcos acaba por ser uma opção tua ou mesmo uma dificuldade exterior?

Eu diria que é um bocado 50/50. Lá está, como já deixei os palcos há tanto tempo, queria que o meu regresso fosse uma coisa mesmo muito especial, e criar uma coisa especial exige uma logística relativamente grande. Aproveito para anunciar contigo – e também para qualquer pessoa que veja a entrevista, vou deixar ainda um tempo até anunciar publicamente, mas fica aqui para quem vir – que já estou a preparar o meu primeiro concerto em nome próprio em Lisboa, para apresentar o projeto.

Boa, boa! Quando nós recebemos aqui a Bella Saint na HHR [Hip-Hop Rádio] e falámos sobre a ligação com o Agir e a vossa intervenção no EP dele. A nível pessoal e profissional, queria saber o que é que trabalhar com ele te trouxe.

Digo-te já que a ideia do facilitismo de libertar e lançar a música foi o Agir que me deu, foi mesmo o insight final que eu precisava para começar a libertar. Éramos três cabeças a pensar: tanto eu como a Saint somos bastante perfecionistas, e o Agir é mais facilitista no sentido de “vamos fazer a cena, se depois não estivermos a curtir o produto final fazemos outro”, estás a ver? Ele tinha muito esta mentalidade, e admito que foi essa convivência com ele que me trouxe essa mentalidade. A partir de agora será assim, eu vou libertar, se não ficar como eu quero, faço outro som e faço bem.

Queria viajar um pouco até ao início da tua carreira, como é que surgiu o bichinho da música?

Surgiu na guitarra, quando tinha 12 anos. Tinha os meus amigos todos em bandas, e eu olhava para o guitarrista e era o mano que para mim se destacava no palco. Então decidi chatear os meus pais durante dois anos até eventualmente me comprarem a guitarra e me meterem em aulas. Quando passei para a escrita, acho que foi uma beca como todos os escritores, através do precisar de deitar cenas cá para fora. Depois, foi o Cósmico que me convenceu ao rap, mostrando as cenas que ele fazia. Fiquei tipo “isto é o formato que eu gostava de desabafar também, em que gostava de falar”. E foi assim, depois comecei a escrever e a produzir.

Eu presumo que, pelo menos a nível teórico, as aulas de guitarra tenham ajudado imenso.

100%. Hoje em dia sinto um facilitismo na composição e sei que é 100% por causa da guitarra. Já na altura, como a tocar qualquer instrumento, aprendes sempre a fazer covers, só que eu era a pessoa que chegava às aulas com composições feitas por mim. Eu tocava há um mês, ainda mal sabia tocar o Dunas, mas já estava a mostrar dedilhados que inventei. Sempre foi a minha cena criar musicalmente, portanto, 100%.

Entretanto passaram-se 10 anos desde que tu lançaste a “wu tang”. Como é que olhas para esta década?

[Risos] isso é bué bom, é real [risos]. Eu estou… imagina, o SoundCloud não conta bem como oficial, mas não oficialmente estou a fazer 10 anos de carreira. As cenas que me deram em termos de gostar do processo… vou ser-te sincero, sinto-me diariamente grato pelo amor que sinto por isto e por fazer música nunca ter desaparecido. Sempre que faço música, sinto-me como se fosse o puto de 16 anos que estava a fazer música. Sempre que crio uma melodia nova, estou sempre entusiasmado para vir para o estúdio, é aqui que me sinto bem, é aqui que passo a maior parte do meu tempo. Por isso diria que, nesse aspeto, nada mudou. De resto foi só evoluir, foi treino, foi fazer a parte da criação mais automática, facilitar a forma como exprimo por palavras o que quero dizer e explorar. É isso.

É fácil para um artista que também está a crescer cada vez mais no meio, ao passar deste tempo todo, conseguir sempre pensar de forma positiva e olhar para a frente, mesmo quando um lançamento corre um bocado mal ou vê que é difícil conjugar isto com o trabalho, por exemplo?

Se atualmente me perguntares, digo-te que para mim já se tornou relativamente fácil lidar, porque eu meio que ganhei a mentalidade de que o meu único objetivo nisto da música é fazer o meu próximo projeto ser melhor do que o anterior. Ou seja, estou sempre única e exclusivamente a competir comigo, porque chegas à conclusão de que há fatores exteriores que não consegues controlar. Então, neste momento, prezo muito mais olhar para o meu catálogo e estar mega orgulhoso de saber que o processo foi prazeroso, que tive a minha equipa e passei excelentes momentos no estúdio. Se os resultados depois não chegarem lá, é algo que acabou por não estar tanto ao meu alcance. Claro que podia haver uma parte de marketing que chega a um ponto em que já não estou disposto a fazer. Para mim a música nunca foi marketing, e também não quero entrar no tópico de “ser artista em 2026 é isto e aquilo”, mas, para mim, efetivamente não sinto que fui feito para ser um artista em 2026: fui feito para fazer música que soa a 2026, estás a ver? Sou sincero, acredito genuinamente que tenho música boa que ativa as pessoas para ouvirem, e se o resultado forem 10 pessoas a ouvir a minha música, mas que genuinamente gostem, fico tão feliz como com um milhão. Claro que vai ser sempre muito mais bacano quando tiver um milhão do que 10 a sentir isso, mas está tudo bem no meu coração, estou em paz com isso. 

Também queria mencionar a tua recentemente participação no álbum do MX, na “PERFEITO DEFEITO”. Como é que surgiu a ligação?

Basicamente, eu e o Mx já tínhamos seguido um ao outro, e eu andava a acompanhar as cenas dele. Quando vejo um artista novo de que curto mesmo a sério e acho genuinamente diferente, vou seguir para poder acompanhar de perto. Um dia o Mx manda-me mensagem a convidar-me para a listening party do álbum que ia lançar com o Norty, o Ecos do Vazio. Decidimos entre todos ir, não os conhecíamos, nunca tínhamos falado em condições, mas fomos. Acontece que nesse dia eles dão o concerto, curtimos grave do álbum e no final ficámos a falar. Ficámos duas horas na festa deles em que eles tiraram do tempo deles para estarmos ali a falar e a conectar. A partir daí as cenas foram mega naturais. Eu e ele damo-nos super bem em estúdio. A “PERFEITO DEFEITO” saiu num dia com o Noon [Lil Noon]. Num fim de semana em que fomos gravar, o Noon apareceu num dos dias e a música saiu logo, de forma mega natural, já com letra. A única coisa que mudámos a seguir foi eu meter o meu solo de guitarra, o Vasco Faim ir gravar as baterias – que são baterias reais – e a pós-produção.

E agora, com o EP cá fora, para onde olhas?

Até te dou um segundo anúncio: o LUV, no fundo, acaba por ser a primeira parte do álbum MORE LUV. Eu quis começar para que o LUV fosse única e exclusivamente sobre o amor de relação, o amor amoroso. Intencionalmente fiz com que na última parte do álbum se falasse de uma parte mais pessoal, de “eu agora vou fazer a minha vida e quero é que tu venhas comigo”. E para apresentar na segunda parte, que é o MORE LUV – um bocado tipo o Rodeo – quero apresentar todos os tipos de amor que tenho na minha vida: o amor à música, o amor ao guito… não vou dar mais spoilers [risos].

E porque é que decidiste lançar isto dividido em EPs e não num projeto solidificado?

Queria primeiro que houvesse uma apresentação da sonoridade. Sinto que, se aparecesse com a sonoridade completa do álbum, ele poderia não ser tão bem recebido por não ter havido uma apresentação prévia. Sinto que o LUV serve um bocado de apresentação à estética que estou a tentar apresentar. Já tive duas perspetivas sobre o projeto: uma de que está demasiado digital, demasiado experimental, e outra de que está fresh. Há ali um equilíbrio entre o experimental e o fresh que não é fácil nem óbvio de encontrar. Sinto que o LUV é um bom equilíbrio para apresentar uma parte mais experimental que vai vir no MORE LUV. Não só, obviamente, vou ter a parte mais acessível – quero ir a todos os géneros, como fiz no 88 e mesmo no LUV –, mas serve de apresentação a esta sonoridade diferente. Estamos a trabalhar todos juntos porque, mais uma vez, tal e qual como tenho o Pyte na equipa visual, na parte musical tanto o Jack como a Saint me percebem super bem e me ajudam a desenvolver esta estética sonora que estou a procurar há dois anos.

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