“Sinto-me capaz de fazer qualquer coisa. Consigo adaptar-me ao que vier”

O nome HACHI tem conquistado cada vez mais espaço no panorama do trap nacional. Seja por se alinhar como membro do coletivo criativo EMBAIXADA, seja pela frescura e descomplicação que traz para o movimento, é hoje uma das figuras com maior crescimento no underground.
Foi durante a quarentena, em plena pandemia, que começou a dar os primeiros passos na música – numa altura em que o SoundCloud serviu de rampa de lançamento para centenas de artistas emergentes – e hoje, conta já com mais de uma mão-cheia de singles editados. Recentemente, e após uma pausa de dois anos sem lançamentos, regressou com os temas “ANTARTIDA” e “QUEM ME DERA”, que o ajudaram a chegar a um público ainda mais alargado.
A Hip-Hop Rádio esteve à conversa com o rapper para fazer uma viagem por toda a sua carreira e mergulhar um pouco no seu processo criativo.
Lembro de ouvir falar pela primeira vez do teu nome ali entre 2020, 2021. Como é que começou a essa vontade de criar música? Achas que foi um bocado consequência da quarentena?
Foi definitivamente por causa da quarentena, foi o Covid que nos ajudou a juntar-nos todos no Discord. Foi aí onde me dei mais com o Valdir, onde me dei mais com o Yuri… dar-me conta da gente foi bué fixe. E foi quando eu conheci a maior parte da malta, eu já conhecia o Yuuta antes, mas foi nessa altura quando nós começámos a falar mais diariamente. Acho que foi quando essa ligação aconteceu, mas foi à toa mesmo. O Yuuta já fazia som há bue tempo e inspirava-me bue nele, era uma referência que tinha, então falar com ele todos os dias foi bué bacano. É incrível falar sempre com artistas e estar sempre a trocar ideias. Ele manda-me sons, eu mando-lhe sons, e junta-te aí, junta-te aí, e foi assim que aconteceu.
And I just really have fun, eu ouço um beat e tenho necessidade de dizer qualquer cena, não sei bem explicar bem o que é que é. Abrir o FL e só imaginar o que é que outro rapper teria a dizer aqui é bue fixe.
Com o Yutta em 2021 lançaste a “PERDIDO”.
Ya, na “PERDIDO” estou a ser eu, a falar de um estado meu na altura, e o João [Yuuta] só entrou porque ele estava nessa fase da minha vida, e fazia tudo sentido.
Como é que sentes que era o sentido de comunidade nessa altura, comparativamente a agora? Achas que a cena do Covid ajudou para estarem todos ali ligados?
Ah, eu acho que sim. Foi maravilhoso ver comunidades de Discord a serem criadas e a serem construídas, foi ganda momento cultura. Pelo menos na altura foi bué fixe, mas sinto que depois disso… Naquela altura, para nós, artistas, parecia uma utopia. Eu falava com um produtor e ia trabalhar com esse produtor, nós já estávamos numa comunidade de Discord onde falávamos, e era bué fácil coligarmo-nos. Mas depois da quarentena, quando as coisas começaram a voltar ao normal, cada um foi para o seu canto. E faz sentido, porque todos nós temos de ser uma beca egocêntricos, a dada altura – nunca perdendo a humildade, pelo menos a meu ver. Mas graças a Deus já estamos a voltar, sinto que estamos a juntarmos uma beca a mais agora, infelizmente fora do Discord, é mais em sítios, em spots, em festas mais underground.
Até posso mencionar, porque estás aí de NEXUS STUDIOS e sei que tens ligação com a marca, ultimamente vê-se bué cenas a surgir nesta ligação da moda com a música
Eu acho que é a melhor junção possível. Eu sinto que é influenciado pelos EUA, óbvio, mas ainda bem que estamos a chegar a isso. Eu curto bué.
Nessa altura o querer lançar música surge como? Só querias mandar cá para fora o que estavas a fazer ou sentias que havia mesmo algo ali que gostavas que fosse ouvido?
Depois da “PERDIDO” senti um love diferente. Mais artistas começaram a vir falar comigo, mais pessoas que ouvia vinha falar comigo… senti que mostrei algo uma beca diferente. E na altura, era algo mais real a mim. Até porque a “PERDIDO” é um som que mostra muito mais o meu “eu” comparativamente aos que tinham lançado no SoundCloud. Então no fundo foi esse som que me fez pensar «eu tenho mesmo talento para isto, eu acho que consigo fazer isto», e a partir daí comecei a ver as coisas de uma forma diferente. Não a nível daquilo passar a ser mais sério, mas ao ponto de perceber que mais pessoas vão ouvir o que eu lançar, e que se calhar aquilo até podia vir a dar frutos.
O “ANTARTIDA” saiu no final de 2025, e antes disso já não lançavas desde 2023, se não estou em erro. Como é que olhas para este intervalo? Continuaste a criar ou sentiste que era preciso fazer uma pausa?
Eu parei na altura em que criámos a Embaixada. Foi uma fase de mudança. Achei que tinha de parar para focar em mim, em fazer novos sons e perceber para onde é que queria ir. Acho que aí é que esteve a grande diferença entre o que fazia antes, como a “brilhante”, e uma “ANTARTIDA”. Estes dois aninhos foram só para trabalhar, mano. Só trabalhar, trabalhar. Fizemos a “ANTARTIDA” e ela só foi lançada uns sete ou oito meses depois de estar feita. Esse tempo foi super importante para mim. Eu achava que nem sequer estava pronto para mostrar os sons. Muita gente me perguntava porque é que eu não lançava nada, porque é que tinha parado. Mas na verdade nunca foi paragem, foi tempo a focar-me em crescer e evoluir.

Achas que há uma dualidade positiva e negativa em demorar sete meses para lançar um som? No sentido de poderes achar que o som já não faz sentido, ou pelo contrário, de teres a certeza de que era aquilo?
Nós fizemos isto de propósito. Quando digo que há bué sons guardados, há, mas há uma seleção de faixas que duraram até agora. Foram feitas há tempo e continuam atuais. Isso é muito importante para nós filtrarmos os melhores singles, e é um processo que demora tempo, claro, mas é importante para percebermos o que estamos a fazer. É muito positivo, tem sido bué fixe.
Tu mais recentemente lançaste dois singles o “QUEM ME DERA” e o “ANTARTIDA”, no final do ano passado. Eles têm ambos um carácter bué fresh, bué descomprometido. O que é que te faz querer abordar a música desta forma comparativamente aos teus outros trios?
Eu sou bué 8 ou 80, mesmo bué. Eu num dia estou bué zen, no outro dia estou bué apático, no outro dia quero todo o amor possível. Depois também acho que vou muito por aquilo que ouvi a minha vida toda. O afro sempre esteve presente na minha vida, o rap sempre esteve presente, o trap, a eletrónica, o rock… A maior parte da música sempre esteve presente na minha vida. Vou só com aquilo que ouço e que sempre ouvi, sinto-me capaz de fazer qualquer coisa. Consigo adaptar-me ao que vier. E acho que a maior parte das pessoas que já ouviram o que tenho para sair – que é mesmo muita coisa – concordariam com isso.
Neste momento, para onde é que vai mais a tua cabeça? Ou é isso mesmo, todos os dias é uma coisa diferente?
Ya, é basicamente isso. Todos os dias há uma relação diferente com a música. Claro que há dias em que volto ao mesmo ponto, mas todos os dias há uma máquina diferente, uma vibe diferente, uma onda diferente. É basicamente isso.
Tu, com estes dois singles, tens falado sobre a comunidade e o coletivo da Embaixada. Para quem não conhece, o que é que é a EMBAIXADA?
Essa é uma boa pergunta. Nós descrevemo-nos como um coletivo criativo. Somos um conjunto de criativos a trabalhar juntos, acho que é o que melhor define.
E quem é que faz parte?
Várias pessoas criativas, na realidade. Mas eu, o Valdir e a Tixa somos os três pilares da EMBAIXADA.

Tenho de mencionar, obviamente, os videoclipes da “ANTARTIDA” e da “QUEM ME DERA”, um foi realizado pelo Valdir e o outro pelo Wazp. Há aqui uma estética muito própria, todo um universo criativo muito semelhante e até bem estruturado. Sinto que eles complementam bué bem os sons. Como é que funciona o processo desde a ideia até à realização dos vídeos?
Olha, foi tudo bué natural. O “ANTARTIDA” foi pensado todo na cabeça do Valdir, foi mesmo tudo dele, e gravado no estúdio pelo Yuuta. Foi um trabalho incrível de ambos, mas a visão veio da cabeça do Valdir. Ele fica a pensar sobre o assunto e tenta arranjar a teoria dele. Depois apresenta-me uma série de ideias. Eu confio completamente na visão do Valdir, ele tem acompanhado isto desde o início. O gajo é um génio. E eu também adoro trabalhar nesta parte. Dou sempre o meu input ao Valdir, digo-lhe sempre o que acho. Mas, em termos de vídeo, curto dar-lhe toda a liberdade possível, gosto de o fazer sentir livre para criar. Com o Wazp foi bué fixe também, ele entregou-se bué ao projeto. Trabalhou imenso e a ideia também partiu toda dele. Sinto que isto acontece porque eu curto dar-lhes essa liberdade criativa, tanto a ele como ao Valdir.
Ou seja, tu podes dar ideias, mas eles é que as desenvolvem?
Sim, eu posso ter ideias e partilho-as sempre com eles, mas maioritariamente não tenho muitas ideias visuais, para ser honesto. Não me sinto muito à vontade nessa parte. Tenho ideias, mas prefiro deixá-las com quem sabe fazer as coisas. Em termos de música, a decisão final é sempre minha, mas a visão do vídeo é de quem realiza.
No Instagram lançaste também recentemente um bocado de um som chamado “KAPPA”. Esta estratégia de lançares snippets e seres mais comedido no que toca aos lançamentos funciona bem e é essencial para ti?
Acho que dá que falar, é mais por aí. Esse som ia ser mandado para o lixo. Eu não queria lançá-lo, mas ao mesmo tempo pensava «Isto é fixe, tem uma vibe bacana». O vídeo foi super engraçado de fazer, divertimo-nos para caraças, foi bué fixe. Então quis mostrar essa felicidade às pessoas, e também acho bué fixe mostrar este trabalho em conjunto com a Embaixada.
Quando decides que o som já não é para dropar, foi antes ou depois de fazeres o vídeo?
Foi depois de fazer o vídeo. Foi uma situação em que fiquei bué assustado, porque todos os rapazes deram o seu melhor no vídeo e eu de repente desassociei-me do som. Isso acontece-me muito frequentemente.
É um bloqueio?
Não é bem um bloqueio, é mesmo uma desassociação. Desassocio-me do som. Acho que é porque sinto que estou a crescer e quero ser um bocadinho mais sério comigo mesmo, há cenas que me fazem duvidar daquilo que quero mostrar e assinar como algo meu. Gosto de fazer o right move e apontar exatamente para onde quero ir.
Esses compassos de espera e as prévias que lanças no TikTok ou nos Stories, disseste que dão que falar. Achas que isso também te ajuda a maturar os sons e a perceber se é mesmo por ali, ou funciona mais para o público ir entrando na cena?
Eu a estes sons mais curtos chamo-lhes spam. Para mim é uma forma de dizer «Olha o que eu consigo fazer mais». E este, o “KAPPA”, não vai ser o único, vou mostrar muitos mais. Vai ser bom para mostrar à malta que não sou só mais um rapper. Eu sei que rimo, mas se repararem bem naquilo, não é bem um rap convencional, é uma cena diferente. O Valdir chama-lhe a breath of fresh air, um respirar de ar fresco, uma cena nova. Nota-se que é novo, e vão vir mais sons destes. É importante mostrar isto nesta fase.
De tudo o que tens lançado, parece fazer tudo parte do mesmo universo, inclusive o que tens lançado nas redes. Olhando para este apanhado de músicas que vais mostrando e lançando, sentes que pode estar aqui um projeto?
Eu olho para isto como um universo. Neste preciso momento estou numa era, eventualmente vou evoluir e crescer, mas agora estamos nesta era. É a minha primeira era, é assim que lhe temos chamado. Só estou a tentar perceber qual é a vibe das pessoas, o que é que estão a curtir mais, e vou mandando mais um, mais um, para ver o que é que elas sentem. Claro que vai haver uma altura em que vou ter de dropar tudo de uma vez, vai ter de acontecer.
A música é o teu plano A ou olhas para isto mais como um refúgio criativo para descomplicar o dia a dia?
É sem dúvida os dois. Eu adorava fazer disto vida e quero fazer disto vida, mas também olho para a música como um refúgio criativo e uma maneira de descomprimir e relaxar. Há dias em que saio do estúdio todo cansado, mas é aquele cansaço bom de quando sais do ginásio, sabe bem. Alivia-me a ansiedade. Sabes quando sais do psicólogo?
Sair de lá feliz?
Não digo feliz porque às vezes sais de consultas de psicologia de outra maneira, mas nunca saí de lá triste ou com uma experiência negativa. Quando digo “feliz”, é mais no sentido de pensar «F*da-se, ainda bem que fui». Saio de lá com uma sensação tão fixe que me apetece criar logo algo. É esse sentimento que a música me traz. Ainda bem que fui.
No processo de criação tu escreves, interpretas ou também dás uns toques na produção?
Eu comecei por produzir. A música entrou em mim através da produção. Comecei por fazer beats, por aprender o que era um sintetizador… Nunca aprendi a tocar piano nem nenhum instrumento, mas os meus primeiros sons fui eu que os produzi. A “IG”, por exemplo, foi produzida por mim. Ela é bué básica, se calhar quem percebe nota que é bué simples, mas tem aquela vibe.
E a nível de captação e mistura? És tu que ficas encarregue dessa parte?
Sempre estive encarregue dessa parte. Na verdade, é porque nunca confio muito nas outras pessoas para isso. Confio muito naquilo que oiço e na forma como oiço. Às vezes as pessoas dizem-me «O som está fixe, mas a voz não está lá muito presente», e isso enerva-me bué porque para mim soa perfeito. Mas continuo a guiar-me pelo meu ouvido, gosto de saber como é que os outros estão a ouvir.
Nessa parte curtias de trabalhar com outras pessoas no futuro ou preferes fazer só para ti?
Eu curtia bué de trabalhar com produtores, até porque agora deixei um bocado de produzir e costumo só sacar beats da net. Adorava trabalhar de perto com produtores e também com mixing engineers para misturar e masterizar os meus sons, experimentar coisas novas.
E trabalhares para outras pessoas, na parte de engenharia de som?
Sim, claro! Sem dúvida. Eu misturo e masterizo para outras pessoas tranquilamente. Produzir para outros é que não, porque não me sinto tão à vontade, mas misturar e masterizar faço na boa.
Que planos é que o Hachi tem para o futuro?
Incerto, bem incerto. Estamos no freestyling, vamos só ir com o fluxo. Mas estão sempre a surgir ideias novas, e há pouco tempo mostraram-me uma ideia e foi bué fixe. Vai ser uma grande surpresa para o pessoal, vai ser bem fixe. Para o resto, não sei, vamos ver.
E em termos de palcos? Sentes que pode ser uma oportunidade ou ainda não estás totalmente confortável com isso? Como é que é a tua abordagem?
Antes de entrar em palco fico bué nervoso, ao ponto de pensar «eu quero sair daqui». Mas assim que entro, sinto-me completamente em casa. Recentemente fui cantar de surpresa no Spectra, naquela festa com o HeyRicoo e os rapazes da Junkie Money. Foi incrível, vibe incrível, mostrei um som que ainda não saiu e foi bué fixe. Adoro estar no palco.