“quando tu realmente consegues meter tudo o que estás a sentir na música, vêm sentimentos muito especiais”
BELLA SAINT é uma artista e produtora emergente de Aveiro. A sua jornada musical começou durante a quarentena, quando começou a explorar o FL Studio e a deixar-se levar pela criação musical. Depois de trabalhar como produtora para vários artistas, estreou-se com a música Crime em 2023, e desde então conta com 5 músicas a nome próprio e uma colaboração com o Holympo – artista e produtor que a tem acompanhado desde o começo. No ano de 2024, esteve por detrás do EP IMPERFEITO V2, de Agir, preparando-se agora para se estrear ao vivo com um concerto em Braga. De modo a marcar mais uma edição da NOVA ESCOLA aqui na Hip-Hop Rádio, tivemos a oportunidade de conversar com a artista sobre o seu percurso na indústria.
Estreaste-te em nome próprio a meio de 2023, com a CRIME. Lançares-te para cima de um beat é algo que surge pouco antes disto ou já tinhas coisas guardadas no disco?
Eu comecei na música a produzir em 2020 e fiz bué beats para treinar. Sempre que os fazia acabava por saltar para cima deles, e foi mesmo essa a razão pela qual me interessei pela parte da produção – para depois poder ter liberdade criativa e conseguir desenvolver as minhas ideias no processo. Tenho imensas faixas que nunca vão ver a luz do dia, muitas delas em português. Quando fiz a CRIME, já tinha cerca de 100 músicas feitas.
Por acaso queria tocar nisso. A busca do inglês como forma de partilhares as tuas letras surge com que objetivo? Tens mais facilidade em te exprimires assim, ou é como uma tentativa de abranger de início um público maior?
Os meus pais sempre foram bastante cultos na música e, desde que me lembro, o meu pai sentava-me e punha-me os fones para ouvir. Sempre que o fazia, colocava-me também a letra à frente para eu perceber as músicas, de tanto ele gostar daquilo. Eles nunca consumiram muita música portuguesa, então fui apresentada a Pearl Jam, Guns N’ Roses, Lauryn Hill, George Michael… esses clássicos. Tenho uma irmã mais velha e, como toda a gente sabe, acabamos sempre por ser influenciados pelos irmãos mais velhos – ela ouvia muito Kanye, 50 Cent, por aí – então a música portuguesa em minha casa nunca foi muito presente, e comecei muito cedo a exprimir-me através do inglês. Por acaso, quando chegou a altura de pegar no microfone, comecei por escrever em português, porque estava a trabalhar com o Holympo e achei que fosse melhor para facilitar. Gosto das minhas faixas em português, mas sinto que iam um bocado contra a minha identidade quando comecei a cantar em inglês.
Sentes que há uma diferença de quem és tu e de quem é a BELLA SAINT?
Sem dúvida. Os artistas costumam dizer que têm um alter-ego e eu sinto bué isso. Quando estás a criar música acabas por te expressar naturalmente, não é algo que tu possas forçar – ok, até podes criar esse tal alter-ego que pode ter certos aspetos –mas ainda assim acaba por ser bastante fluido e natural.
Quando te lançaste para cima dos beats, vinha também com uma vontade de libertares o que sentias?
Sim, as faixas que fiz em português no início são muito pessoais, por isso é que também nunca vão ver a luz do dia. Foi a pandemia, estávamos todos a passar um mau bocado e eu estava a descobrir um mundo em que me podia expressar. Toda a gente sabe que a música é um desabafo, mas quando tu realmente consegues meter tudo o que estás a sentir lá e mais tarde vais ouvir, vêm sentimentos muito especiais.
Disseste que começaste a produzir em 2020, por esta altura trabalhavas com que artistas?
Eu comecei a produzir com a ajuda do Holympo – eu queria começar a produzir, mas os meus beats pareciam uma brincadeira [risos]. Ele começou a ajudar-me e acabei por fazer o beat da Puro, dele. Mais tarde produzi para o HeartLess, a Oh!Maria, e agora produzi para o Agir e também para a pikika. Mas tudo começa com uma história engraçada, acho eu: há uns tempos estive a ver umas cassetes digitalizadas, e eram horas e horas de filmagens minhas com um cabo de vassoura a cantar [risos]. Acho que sempre quis fazer música, mas não sabia bem como. Quando conheci o Holympo já tinha o FL Studio instalado e tudo – só me faltava ganhar coragem para pegar naquilo – mas as minhas primeiras brincadeiras até foram no VirtualDJ, a juntar faixas e fazer remixes, tirar elementos dos beats.

Fonte: Pyte
Falaste do teu trabalho nos projetos do Agir e da pikika. Estás na produção do IMPERFEITO V2 e na inocência da pikika. Como é que se dá a ligação com ambos?
Eu e o Holympo conhecemos o Agir e houve um dia em que ele nos mostrou o projeto que tinha para sair. Nós gostámos da cena,mas achámos engraçado desafiá-lo e incentivá-lo a ir para um registo mais de trap. Então metemos um beat e nessa mesma noite saiu a primeira faixa do EP, a AH. Ele ficou bué entusiasmado com o som e o resto surgiu tudo bué naturalmente.
Com a pikika foi através do Agir, depois do EP dele estar fechado. Fomos uma semana para uma casa em Lisboa, onde vários artistas apareceram para ouvir o projeto. Há um dia em que a pikika vai lá – eu já era mega fã dela há imenso tempo e, quando soube que ela ia, pensei logo em preparar algo para lhe. Também lá estava o Rodrigo Correia e, antes dela chegar, começámos a sacar umas melodias com a guitarra dele, e ele toca uma melodia incrível – a melodia da inocência. Eu e o Holympo adorámos aquilo, então peguei no microfone para fazer a melodia do refrão. Ela chegou, adorou, e foi tudo mega fluido. Ela é super acessível de trabalhar, mega talentosa e criativa, foi dos melhores processos musicais que já tive.
Na conversa que tiveste para a FILTR com o Agir e com o Holympo, o Holympo disse que sempre que entravas em estúdio, ele nunca fazia ideia do que é que podia sair dali. E a verdade é que se olharmos para a tua discografia, sentimos um bocado isso também. Onde é que costumas ir beber para viajares em tantos estilos?
Como disse no início, o meu historial musical é muito transversal – ouvia mesmo muita coisa, e isso manteve-se até hoje. Depois fui desenvolvendo o meu gosto pessoal, obviamente, mas nunca parei de ouvir vários estilos… tenho fases também, e isso é bom, porque senão chegava ao estúdio e nunca saberia aquilo que quero [risos], o que acabaria por complicar. Mas acabo por ouvir muito The Neighbourhood, Arctic Monkeys, Pearl Jam, ou então Drake, Rosalía, por aí. Por isso é que às vezes me veem a divergir tanto. Sei que há artistas que conseguem bué facilmente ir a vários estilos e eu curtia ser igual, sem me meter numa “caixa”.
Ainda nessa conversa disseste que ias lançar um EP até ao fim do ano. Entretanto saiu a Folow e a COME THRU. Eram faixas que faziam parte do EP mas que decidiste alterar a forma de lançamento?
Eu acabo por bater bastante crânio sobre a minha arte e ponho muito peso num projeto – quando apresentar algo de maior relevo quero que seja de forma sólida. Tenho várias faixas que estou a usar para construir um projeto, que ainda não sei se será EP ou álbum, mas esse em específico acabei por achar que não estava maduro o suficiente. Estou a trabalhar para ser uma cena da qual me orgulhe no final e que sinta que está de acordo com aquilo que é a BELLA SAINT.

Sim. Por acaso ela não é assim tão antiga, tenho feito o esforço para tentar lançar mais música. Sinto que, depois de estarmos com tantas faixas na gaveta, acabamos por ficar fartos de algo que para nós não é novo, mas que para o público é. A Folow já era uma faixa que, nessa altura, já tinha mais de um ano.
Achas que esta dificuldade em fechar um projeto também surge por divergires tanto em estilos?
Nesta fase da minha carreira pode ser um bocado complicado para mim e para quem me segue perceber o que vou lançar – o público, porque me está a descobrir e ainda não sabe bem o que esperar, e eu, por achar difícil escolher a forma como me vou apresentar. É daqueles processos de que não tenho medo nem me sinto mal, porque acho que no final vai tudo fazer sentido. É necessário para me construir e para perceber quem sou.
A CRIME foi parar à soundtrack dos Morangos com Açúcar. Como é que isto acontece e que sensação sentiste, ainda mais sendo tu uma artista em ascensão, ao veres a tua música numa série com grande audiência?
É uma daquelas coisas de que estou mega grata e que acho que para sempre ficarei. Deu-me um impulso enorme no início da carreira, foi algo mesmo muito impactante para mim. Não sei bem como é que a minha música chegou até à produção – talvez por contactos de contactos – mas quando me contactaram fiquei muito feliz.
O ano está a acabar, já andas planeado para fechar 2025?
Sim, no dia 29 de novembro vou dar o meu primeiro concerto em Braga –vai ser giro para me apresentar ao vivo e para a malta perceber como é a BELLA SAINT ao vivo.