“Isto é um trabalho diário de autoconfiança e de reconhecimento do trabalho feito”
A NOVA ESCOLA está de volta na Hip-Hop Rádio, com novos convidados. Hoje, foi a vez de ficarmos a conhecer o artista gondomarense, about jlm.
José Luís Monteiro estreou-se no panorama musical em 2020 e conta já com dois álbuns na sua discografia. Lançou, em 2023, Éter, o seu primeiro longa-duração, e no ano passado A\WAY, que recebeu uma versão alargada. A Extended Edition, lançada na passada sexta-feira, 24 de abril, surge como o reabrir do álbum, que agora se encerra definitivamente. Este novo lançamento traz à luz histórias e reflexões que ficaram por contar no seu período na Estónia, explorando os seus sentimentos mais azuis e introspetivos.
Para ficarmos a conhecer melhor a mente criativa do artista e um pouco do trabalho por de trás dos seus projetos, a Hip-Hop Rádio teve a oportunidade de falar com o rapper.
De engenheiro eletrotécnico para artista musical ainda vai um saltinho. Quando é que descobriste que fazer música era mesmo o teu plano A?
Pá, começou a ser um plano, sem qualquer tipo de letra a seguir. Foi em 2019 que eu comecei a escrever as primeiras dicas e a curtir de musicar alguns poemas que eu tinha. E pá, quando é que se tornou um plano mais a sério, um plano A, foi… basicamente quando eu comecei a trabalhar como engenheiro. Ou seja, eu terminei o meu curso e sempre foi do tipo: eu sempre fiz música, sempre gostei de fazer, mas às vezes senti que não era assim tão a sério a coisa. Ou seja, ia fazendo, tinha sempre como uma ideia na cabeça, mas eu não estava a esforçar-me assim tanto. E depois surgiu a altura em que eu terminei o curso, as minhas rotinas mudaram imenso e comecei a perceber que música era o que eu curtia mais.
Nos primeiros anos a fazer música era muito catártico, eu tinha mesmo de dizer coisas e depois meti-me a fazer um álbum, feito de maluco [risos]. Tive uma ideia de fazer uma jornada imaterial pelo ser – que é assim que eu descrevo sempre, que é mesmo para ser complexo – porque na altura decidi fazer uma cena super poética, super abstrata, e andei a bater a cabeça com aquilo dois anos, basicamente.
Isto acontece até ao meio de 2023, depois eu fui para a Estónia e foi isso foi o que mudou a minha vida completamente. Foi quando eu escrevi o meu segundo álbum, o A\WAY, que comecei a levar a coisa mais a sério. Comecei a querer cantar mais, a querer ser mais solto, a abordar um tom mais descomprometido.
Como é que vês o conjugar da música com o trabalho?
Para mim é bem fixe porque eu sinto mesmo que sou tipo Batman, tipo vida dupla [risos]. Eu curto este conceito de vida dupla porque eu tenho uma vida completamente diferente ali, onde depois até posso ir beber lá para pôr nas minhas cenas. Estar a trabalhar também me veio trazer uma rotina e melhorar a vida nesse aspeto: comecei a treinar, a ler consistentemente, a cantar. Os meus hábitos mudaram muito. O meu próximo álbum é um bocado por aí. Vou abordar este conceito da vida dupla, que a maior parte dos artistas emergentes em Portugal têm de ter. A cena é que eu acho que é fixe dar embrace a isso em certa medida, pelo menos quando tu curtes o trabalho que tens sem ser o da música. Eu estou a dar o meu melhor, estás a ver? E acho isso muito fixe.
Tu, como muita malta que explora também o rap, começaste com sons mais densos, como o caso do Tocha e do Azáleas. Se formos ouvir a tua discografia, vemos que tens trabalhos muito diferentes desde esse teu início. Quando é que surgiu essa vontade mais melódica e porquê?
Olha, boa pergunta. Sim, eu comecei muito no rap mais métrico e ácido, em certa medida. A primeira vez que eu peguei em autotune foi no estúdio dos 5DM, que são uma banda lá do Porto. Basicamente eu tinha-os convidado para tocarem num evento que fiz na faculdade, fiquei amigo da malta e depois fomos a estúdio. Eles convidaram-me para fazer um som e eu estava a escrever o meu verso e deram-me um microfone com autotune. Ao início estranhei, mas comecei a curtir. Na altura fiz uma melodia pequena, mas uns amigos adoravam e então a partir daí comecei a tentar explorar um bocado essa parte mais cantada. No entanto, quando fui de Erasmus comecei semanalmente a ir ao karaoke, era uma cena que eu adorava. E qual é que é a cena? É que eu não ia todo cego [risos], eu ia para lá como se fosse um ensaio. Eu não tinha dinheiro para ir aos estúdios na Estónia e também não tinha grandes contactos, então o karaoke eram os meus ensaios.
Qual é o teu go to no karaoke? [Risos]
É começar com This Love dos Maroon 5, depois ir para uma How You Remind Me dos Nickelback, ou uma Creep dos Radiohead, e depois para terminar a noite com a Careless Whisper do George Michael. Para mim foi realmente diferenciador [risos]. Depois voltei a estúdio e o Manu virou-se para mim e disse que até estava a cantar melhor [risos]. Agora por acaso uma cena que vou investir é em aulas de canto, quero aumentar o meu range ainda mais.
Algo como a CARELESS, que tem aquela vibe 80’s, deixou-te um bichinho para explorar mais estilos?
Por acaso este exemplo, da CARELESS, é muito específico. Eu queria fazer uma dica que tivesse a sample da Careless Whisper e queria que fosse um beat a puxar o Alone at Prom, do Tory Lanez. Eu adoro esse álbum e também ouvia bué nessa altura da Estónia, fazia-me bué sentido fazer um som assim. Eu curto bué desses beats, mas o que tenho feito daqui para a frente não tem nada nesse sentido, os próximos projetos que estou a fazer misturam muito o rock e a eletrónica, sonoridades digitais.
Estou a trabalhar com o Marinho, lá em Vizela, onde andamos a misturar muito sintetizadores, guitarras elétricas, distorções, cenas nesta onda. Depois também temos a parte eletrónica como um house, tipo Honestly Nevermind do Drake, por exemplo – está a ser um projeto em que andamos a ir buscar algumas cenas desse álbum, muitas vezes por causa das batidas. É uma onda que nós curtimos e está a ir por aí, mas é um álbum de rap à mesma. Eu curto bué de fazer cenas diferentes, já nem me lembro de rimar em cima de alguma cena da net.
Tu lançaste agora a Extended Edition do A\WAY. Isto eram sons que já estavam feitos na altura em que lançaste o projeto ou foram sons que te saíram depois?
Eles já existiam, mas não tinham sido gravados.
Sentiste então que faziam sentido incorporar e materializar nesta fase do A\WAY?
Sim, sem dúvida. Eu chamei a Extended mesmo por essa razão – não é um deluxe, é a extensão, uma continuação. A CARELESS e a VAMPIRA, que são dois sons que não são remakes de outros, até já estavam escritos na altura em que estava na Estónia, só que meio separados – um verso da CARELESS estava num som qualquer que depois não saiu, ou que eu não cheguei a gravar porque o som em si não estava fixe; outra parte da VAMPIRA tem dicas que eu já tinha escrito antes, estás a ver? E depois foi um bocado completar a cena com uma nova roupagem. Depois, a CLOSER (Acoustic Version) já tinha sido feita no início de 2025, a ALRIGHT, PT.2 foi o DJ Welk que me disse que curtia e pegar nela – na altura até já pensava no deluxe e também queria ter uma versão da diferente desse som, então acabou por sair – e a PORSCHE é o único som que já estava feito na altura, que é uma demo da NO WAY.
Tu falaste da CLOSER, que leva agora uma nova roupagem. Como é que essa ideia surge, de pegares num beat de rap, para lançares numa versão que até puxa um bocadinho do reggae?
Pois puxa, puxa um bocado um reggae, não sei explicar porquê. Eu disse ao pessoal que queria fazer uma cena dessa música só com instrumentos, com banda a puxar um bocado do rock, uma cena bonita, mais lenta. E foi aí que a cena surgiu, fomos para o estúdio com os instrumentistas todos, começámos a fazer o arranjo e a pensar por onde é que podíamos ir. Já era um som que eu gostava muito e que eu sabia que as pessoas também gostavam muito na altura em que o lancei e pronto, decidimos pegar nele porque é isso, era um som que as pessoas já gostavam e que nós também adorávamos. Foi bué fixe fazê-lo juntos e saiu uma cena bué diferente.
Estavas a falar há bocado da Estónia, o Extended Edition marca também essa tua fase de quando lá estavas?
Sim, as letras tanto da CARELESS como da VAMPIRA são letras de lá que depois eu adaptei. Eu tinha algumas barras e dicas desta fase que eu tinha por dizer e que queria pôr para fechar este ciclo e partir para o próximo.
Por isso é que o LDN REMIX acaba por ficar de fora?
Yaya, esse para mim mais depressa ia para outro projeto eventual, chamado Viajante Imóvel, que não sei ainda como vou fazer, mas há de surgir.

Por falar nessa música, queria falar das tuas referências. Sei que tens aquele episódio com o Profjam que já contaste no Instagram, que mais pessoas é que te inspiram, dentro e fora da área da música?
Vou dizer as minhas inspirações recentes: Mia Couto, porque li um livro dele que me deu bué barras, tipo esquece, surreal [risos]. Eu estava a ler o livro e estava a anotar cenas como, por exemplo, “Envergonho-me em mim mesmo” que me dá um sentimento de ir para dentro; e “Toda a roupa tem a alma de quem a usa”, que é do género, eu e tu podemos estar a usar as mesmas t-shirts, mas vamos estar a usá-las de formas diferentes, porque é a nossa pausa.
Fernando Pessoa leio imenso e sempre me inspirou bué, estou a ler agora a poesia completa de Alberto Caeiro; e na música são os Linkin Park. São a minha banda favorita, e mesmo agora nesta onda mais rock que estou a fazer são uma grande influência; Three Days Grace também é uma banda de rock que eu adoro e que me vai influenciado, especialmente agora que faço mais vibratos; e depois incontornável o Prof [Profjam]. Foi a pessoa que mais me influenciou a fazer música inicialmente. Eu sou um gajo que gosta muito de escrever, gosto muito da “palavra”, estou diariamente a anotar palavras.
Estavas a falar do Mia Couto e do Pessoa, eu sei tu também escreves – na contra-capa do A\WAY tens um poema – quando não estás a criar música ou a ouvir música, é na leitura que te refugias?
Sem dúvida. É engraçado porque atualmente já separo a música e a escrita um bocado. Quando estou a precisar de desabafar, nunca vou escrever um som – só se for uma cena específica – ou seja, tendencialmente já não vou fazer música que seja triste ou que seja muito catártica. Quando estou a precisar de desabafar ou estou a precisar de purgar-me um bocado, é para a poesia que eu vou, e a leitura surge mais numa cena de lazer que fuja ao digital, é mais por aí.
Ainda bem que estás a falar do digital. Numa altura que é totalmente dominada pelo digital e pelo streaming, tu ainda assim, decidiste lançar um formato físico – ainda mais sendo tu um artista ainda em crescimento. Sentes falta de ver as prateleiras cheias de música?
Eu por acaso gosto muito de música em formato físico. Sempre fiz CDs, tanto no meu primeiro álbum como agora no segundo e acho que é fixe e que é importante. Por exemplo, os meus pais passaram-me testemunhos, sem saberem. Eu fui ouvir os CDs deles tipo, U2, Nirvana, mesmo o George Michael e, outro exemplo muito interessante, é que os meus pais, têm dois amigos que são músicos – que hoje em dia já não estão tão ativos – e que nada do que eles faziam estava na net, ou se está, estava meio escondido. Eu conheço a música deles e sei de trás para a frente aqueles álbuns porque tenho os CDs em casa. Se não houvesse CDs eu não ia ouvir.
O formato físico tem também aquela força de «ok, eu vou-me sentar a ouvir».
Sim, eu forço-me um bocado a isso. Eu tenho uma pilha de CDs, por ordem dos que eu vou ouvir a seguir, para quando tiver esses momentos.
Há bocado mencionaste o Manu, trabalhas com ele na parte de produção. Tu próprio dás toques na parte de produção ou qualquer parte da engenharia de som, ou só composição e depois interpretação?
Imagina, eu costumo dizer que os meus bitaites estão cada vez melhores [risos]. Ou seja, antigamente eu mandava bitaites que eram completamente, ridículos ou ignorantes, e hoje em dia já sei identificar melhor as coisas. Eu não sou um nerd do FL, mas sinto que consigo sacar algumas ideias fixes. Outras cenas, como melodias de piano, já fui ajudando, mas é muito mais direção criativa do que mão na massa, porque eu não tenho o skill do FL e é uma cena que eu estou lacking, por exemplo.
Sendo tu um artista que está a crescer, quais é que são as tuas maiores dificuldades?
Diria concertos e exposição digital orgânica. Vês às vezes artistas grandes a criar uma névoa falsa sobre algo que na realidade não é bem daquela forma. É uma nevoa marada, mesmo a nível de ego. Tu só olhas para a cena e é tipo «fogo, como é que esta pessoa está assim?» e «como é que é possível?». Para mim, pelo menos, às vezes dá-me uma ansiedade.
Preocupa-te essa cena de teres de pensar a nível extra musical para depois poderes comunicar os teus sons?
Claro que sim, eu por mim desinstalava o Instagram. Imagina, eu gosto muito de gravar vídeos, de falar para a câmara… sou uma pessoa que tem esse à-vontade. Gosto de fazer videoclipes, gosto de aparecer em câmara, gosto de fazer vídeos a falar, mas eu não queria ter de ser eu a publicá-los. Claro que não vamos aqui ficar à sombra da árvore à espera de que a maçã caia. Não pode ser assim também. Mas às vezes realmente dá-me alguma ansiedade de estar nas redes sociais, é uma cena que eu gostava de… pá, tem de haver aqui algum doseamento da cena.
Achas mais difícil chegar às pessoas?
Felizmente, há muitas pessoas a fazer música e há muitas pessoas a fazer música boa. Mas às vezes tu já não tens de ser só bom, estás a ver? Ser bom já não chega e isso é um bocado hard to swallow em certa medida, mas por o outro lado também é desafiante. Isto é um trabalho diário de autoconfiança e de reconhecimento do trabalho feito e da obra. No que toca a comunicar, todos nós temos telemóveis e acho que sendo criativo as cenas conseguem acontecer.
Por outro lado, as redes sociais estão tão rápidas que às vezes tu não perdes dois segundos a ver uma cena, e às vezes até passa um vídeo fixe e tu nem prestas atenção e não apanhas mais aquilo. Mas lá está, há muita gente a fazer as coisas e vejo que tenho de arranjar formas de me destacar sem sair da minha identidade.
Tu nas redes sociais disseste que tinhas curtido muito de gravar o videoclip da CARELESS. Essa parte visual é algo que te motiva e de certa forma te dá pica quando estás a fazer um som? Gostas de pensar na parte de como é que vais conseguir complementar visualmente a música?
Olha, todos os vídeos que eu fiz até agora foi porque de facto tinha algo a acrescentar porque o som sozinho provavelmente não chegava. Claro que depois também há aquela cena de lançar um projeto e tentar perceber que sons é que merecem ter um vídeo. Por exemplo, na ALRIGHT, eu tinha uma visão para o vídeo em que uma pessoa está à procura de uma mulher na noite e chega ao fim da noite e afinal a pessoa que encontra não era a pessoa que estava à espera. Essa era a ideia que tinha na cabeça, mas só com a música essa visão nunca passaria sozinha. No caso da CARELESS, para mim era na neve. Era na neve e era aquele cenário, tipo, Twilight em certa medida. Aquele som para mim também é na Estónia, então claro que tinha de ser na neve.
Para terminar, que planos é que tens para o futuro?
Tenho um EP em colaboração com um artista do Porto, produzido pelo Marinho, e depois um álbum colaborativo também com o Marinho. Esse álbum parte da ideia daquela vida dupla, da criação das pontes entre as minhas duas vidas e misturar também um bocado com os conceitos da eletrotécnica e da eletricidade – tenho feito referências fixes que não são muito óbvias, mas que também não são muito difíceis de apanhar. Vou ter também um concerto agora, dia 23 de maio, na ACGITAR em Gondomar. É um espaço pelo qual tenho muito carinho, sou sócio da associação, e neste dia vai ser a estreia da primeira edição de um evento chamado “MARGEM”, que estou a organizar. Vai ser uma atuação com partes com banda, e depois para encerrar o evento convidei os ben&G, uma banda aqui do Porto.
