Hip Hop Rádio

Nerve: “Não me faz sentido dizer “hey, não estás a respeitar a cultura” a quem deixa claro que se está bem a cagar para isso”

Lançou-se com um EP em 2006 nomeado de “Promoção Barata”. Com 18 anos, lançou o seu primeiro álbum titulado de “Eu não das palavras troca a ordem” e após se ter lançado no Youtube e em formato físico o cantor e produtor não se deixou ficar por aí: acabámos todos por ficar vidrados neste contratado da Editora Matarroa. À volta de Tiago Gonçalves, desde os seus dezassete anos, gerou-se uma caricatura que ganhou mais vida consoante cada música que iria, desde 2006, captar a atenção de vários portugueses. Nerve vive atormentado, com a pouca sorte de não morrer enquanto vive angustiado, sozinho e paranóico como uma leve esquizofrenia mal controlada num paciente que acaba por ser consumido pela cidade e pelas mulheres que tanto atrai e afasta como impulso de sobrevivência. Nerve capta todo o sentimento moribundo que se apodera tanto de um rapaz avantajado na carteira como de um mendigo avantajado no vinho. É graças ao mistério e talento que Nerve emana que a população portuguesa vai esperando e colhendo migalhas que o artista vai semeando pelas redes sociais para alimentar a vontade de mais.

A Hip Hop Rádio teve o enorme prazer de poder fazer uma entrevista a tal artista que se vai destacando pelas sombras, de si, para si.

Pedimos a Nerve para, primeiramente, falar um pouco sobre a Hip Hop Rádio e o seu conceito.

Nerve: É uma iniciativa importante levada a cabo por malta que claramente valoriza o rap feito por esse país fora e que, além de valorizar a história, mantém-se atenta às novidades. Outro aspecto importante é o facto de não se resumir a uma plataforma online, tendo também espaço na rádio.

HHR: Agora fala-nos sobre o “Monstro Social” que és para além da tua persona o “Nerve”. Quem acabas por ser para além das tuas faixas e concertos?

Nerve: Eu, como a esmagadora maioria dos rappers na praça (“reais” ou não), filtro a imagem que projecto nas minhas faixas. Não me venham com tangas, nesse aspecto. Andamos todos ao mesmo. Ninguém é mais real por usar mais expressões americanas, por publicitar o seu código postal como se isso importasse ou validasse alguma coisa, por meter postura de mau quando a câmara está ligada ou por visitar a malta no bairro só quando precisa de gravar clips.

Acho sempre piada quando me falam da questão de eu supostamente projectar uma persona, como se eu não fosse (também) o que escrevo. Leva-me sempre a outra questão, que é: Quando é que eu me utilizo uma máscara? Quando estou a socializar com pessoas com que só estou de tempos a tempos e não fazem parte do meu pequeno círculo de amigos, quando vou às compras ou às finanças, ou quando estou no palco sem filtros e com um boost de confiança gigante para ser eu à vontade sem receio que alguém possa julgar-me por não corresponder a um modelo de perfeição qualquer?

Posto isto, acho que no fim do dia sou um tipo às direitas, com as minhas nóias, claro, com os meus valores e convicções, com os meus momentos de social awkwardness, os meus vícios, falhas e qualidades, com muito ódio apontado a esta indústria, com algum ódio apontado não à cultura hip-hop mas à forma como é representada neste país, por aí fora. Não tenho nenhum atestado de maluco, não ando em medicação, nem nunca tive (ou os meus papás) disponibilidade financeira para isso, tenha ou não precisado em algumas fases da minha vida.

HHR: Consideras que todos os rappers acabam por se basear em alguém (singular/plural) em cada som?

Nerve: Cada um sabe de si. Eu tenho as minhas referências e toda a gente terá as suas. Como disse, acho que toda a gente projecta uma persona, não só na música mas na vida no geral. Todos usamos máscaras diferentes considerando o contexto. E isso é ok.

HHR: O que achas que os feats que tens feito, nomeadamente com o Slow J, Mike El Nite, João Tamura, entre outros, têm feito à tua carreira e que impacto tem vindo a proporcionar à tua pessoa artística?

Nerve: Eu colaboro muito raramente e com poucos artistas. Regra geral o objetivo é a música por si e não a escalada em dir ção a um tipo de sucesso qualquer que não me parece que alguma vez vá alcançar. Acho que os degraus que tenho ou não subido se prendem mais com o meu trabalho a solo (que é a maioria do meu catálogo), sem qualquer desrespeito pelos artistas com quem já colaborei ou posso vir a colaborar.

Quanto à minha “pessoa artística”, não me parece que se tenha alterado muito. Gostei das poucas colaborações que levei a cabo nos últimos anos, mas continuo a preferir fazer tudo sozinho.

HHR: Acabaste por elevar a fasquia com o álbum “A vida não presta & ninguém merece a tua confiança”, atualmente os teus fãs estão à espera de um novo álbum, um hit, algo que quase que vá aniquilar os teus trabalhos passados. O que nos tens a dizer sobre isso?

Nerve: Não sei o que é que a malta espera. Acho que só os fãs mais burros estarão à espera de um “hit”.

Contra qualquer objetivo mais ambicioso que pudesse ter tido ao longo da minha vida, estou há dois anos a sobreviver (atenção ao prefixo) da música à pala de um álbum que achei que ia bater na rocha. Não sei muito sobre essa coisa de expectativas alheias e quem me segue sabe onde começa e acaba o meu compromisso para com o público. Faço música para ou por mim, e depois partilho-a. Simples.

Quem estiver à espera de um álbum, é melhor puxar de uma cadeira, porque nos próximos tempos só tenciono apresentar um EP (chamado “Auto-Sabotagem”, totalmente produzido por mim). O meu objetivo é somente superar-me a nível de escrita a cada projeto e estou confiante nesse aspeto.

HHR: A “Nós e Laços” foi a faixa que mais obteve atenção por parte do público. Porque achas que isso aconteceu? Desvenda-nos o que significa a música para ti, revela-nos o seu significado.

Nerve: É uma música sobre desamor, como outras que já fiz. Tenho vindo a aprender que é isso que o público geral mais valoriza, se calhar pela fácil identificação de cada um. Já toda a gente passou ou vai passar por algo semelhante, quando se fala sobre temas do coração.

À exceção de uma única faixa do meu catálogo, todas as faixas que escrevi sobre mulheres não são sobre uma relação em particular. É só um desfilar de frases sobre o assunto. É conhecimento de sentimentos e situações que vivi ao longo dos anos. O objetivo é pegar nessa matéria prima e escrever um bom texto.

À parte disto, acho que boa parte do impacto que a “Nós e Laços” teve deveu-se ao instrumental incrível que o Notwan produziu.

HHR: Voltando até 2009, consideras que já atingiste a tua “Era Dourada” nos dias de hoje ou achas que parte de ti continua a ser um pouco do Nerve que lançou, em 2006, o EP “Promoção Barata”?

Nerve: Já alcancei mais do que alguma vez tinha esperado. Eu estava pronto para manter o meu full time e ter na música somente um escape, embora obsessivo.

De resto, consigo encontrar pontos em comum entre cada um dos meus trabalhos. Não passei a ser outra pessoa. Sou só mais velho. Em 2006, no “Promoção Barata”, com 17 anos, já tinha faixas cujo objetivo era essencialmente causar desconforto ao ouvinte. A principal diferença entre essa fase de 2006 até ao material que comecei a lançar a partir de 2014, além de ter amadurecido e definido as minhas prioridades, é a ausência de necessidade de provar o que seja ou pertencer a algum movimento para conseguir alguma espécie de validação. Tenho-me em muito boa consideração no que toca aos meus objetivos e ao meu papel na música e sei que tenho o meu espaço neste circuito.

HHR: O que estás a achar do considerado “Hip Hop da Nova Escola” que se anda a apoderar do YouTube e das restantes redes sociais?

Nerve: A malta mais nova descodificou muito rápido como a música funciona e é consumida hoje em dia e adaptou-se. Alguma malta mais velha tenta fazer o mesmo mas regra geral nota-se que é forçado e cheira-me um bocado a plástico.

Existe variedade, independentemente de também haver muita malta com semelhanças no estilo de som, mas isso sempre houve. Antes imitavam todos dois ou três, agora imitam mais uns tantos. A informação propaga-se mais facilmente e, embora exista sem dúvida uma “moda”, muita gente quer ter o seu próprio espaço e criar o seu próprio rótulo. Acho que uma das maiores modas até é essa, agora. É muito fácil tropeçar em putos que dizem que não fazem rap nem fazem trap, mas sim um género musical qualquer que se lembraram de supostamente inventar, seja por originalidade legítima seja por mera ignorância da história. Toda a gente quer ser alternativa e ao mesmo tempo apontar o dedo aos “alternas”. Faz parte. É a forma da miudagem, que está agora a formar personalidade, tentar destacar-se dos demais, fazer-se passar por floco de neve e ao mesmo tempo tentar passar a imagem de que o faz sem esforço.

Agora, importa também reforçar que a nova escola não se prende só com o material que anda a proliferar pelo YouTube fora. Há muita malta a fazer coisas muito interessantes longe dos lugares cimeiros e popularuxos nas redes sociais.

Claro que é muito conveniente para mim apontar o dedo considerando que é um dos meus principais objetivos, mas de uma forma muito geral, acho que cada vez mais o talento para a escrita é um dos últimos fatores a ditar sucesso ou fracasso, o que é irónico num  género em que a palavra supostamente tem um dos papéis principais, mas isso é assunto que explorarei mais a fundo no meu futuro EP.

Não quero começar a “velhar”, dizendo que agora os estilos que derivam do rap são mais vazios em termos de conteúdo ou que os putos não respeitam a “cultura”. Não me faz sentido dizer “hey, não estás a respeitar a cultura” a quem deixa claro que se está bem a cagar para isso. Em todo o caso, essa suposta ignorância nas letras não vem de agora. De repente todos os “real heads” são defensores dos valores dourados da cultura. Tudo grandes filósofos. Uau. Engraçado, que a maioria já me parecia bem burra e vazia, dotada de escrita bem rudimentar, vários anos antes do trap e afins. Mas é tudo ok. Melhor para mim, acho.

No fim do dia, interessa-me ouvir talento. Desde que encontre talento, por mim ‘tá tudo.

HHR: Para finalizar, com um pouco de curiosidade, qual é a música, na categoria do hip hop, que achas que toda a gente “amante” da mesma deveria ouvir quase que por obrigação?

Nerve: Qualquer faixa minha lançada desde 2014. Agora a sério, não acredito nessa “quase-obrigação”.

Entrevista por: Diana Reis

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