Hip Hop Rádio

Mundo Segundo e Sam The Kid: Uma noite de Storytelling no Campo Pequeno

No passado dia nove de junho de 2021, o Campo Pequeno recebeu uma dupla capaz de incendiar qualquer recinto: Mundo Segundo e Sam The Kid.

Este concerto surgiu no âmbito da segunda edição de Santa Casa Portugal ao Vivo, que teve início a 21 de maio e terá fim a 26 de junho, a decorrer na Super Bock Arena no Porto e no Campo Pequeno em Lisboa. Esta edição conta com nomes de cartaz como Carlão, Anselmo Ralph, Linda Martini e Pedro Abrunhosa.

A tua rádio esteve presente no Campo Pequeno em Lisboa, numa das noites mais quentes, para testemunhar esta que era uma das mais aguardadas uniões: ligando Lisboa ao Porto, Gaia a Chelas, os dois veteranos do storytelling escolheram a arena como palco para apresentarem a sua narrativa. E não desiludiram.

Foram os míticos Dj Cruzfader e Dj Guze que iniciaram o ato assim que as luzes do recinto se apagaram, mostrando os seus dotes nos pratos, o que levou a plateia -que esperava em êxtase- ao rubro, vincando o início do espetáculo.

Esta entrada abriu caminho para a primeira apresentação, uma junção de “Gaia/Chelas”- primeira música da noite- seguida de “Não Percebes”, “Crise de Identidade” e “Recado”, tendo esta última sido introduzida por Mundo Segundo e Sam The Kid de forma cómica, criando um diálogo: “Alô Samuel ligou a tua mãe…precisa que vás lá fora fazer um recado”. Este que é um dos maiores sons de storytelling da tuga arrancou vários gritos e coros da plateia.

Este primeiro medley terminou com uma nota de apreço pela parte de Sam The Kid, que agradeceu a quem estava presente, tendo aproveitado também o momento para “apresentar” os Djs presentes na casa, que já dispensam apresentações.

A festa continuou logo de seguida com o tema “Não há Competição” de Mundo Segundo, faixa que partilha com Bezegol “um amigo que não está cá hoje”, como o próprio lamentou. Este tema fundiu-se com “A Partir de Agora”, uma atuação que levou a plateia à loucura e fez entoar, em uníssono, a frase: “Só confio na minha mãe E MAIS NINGUÉM!”.

Seguiu-se outro momento de interação com o público, algo que não faltou, onde Mundo Segundo avisou que iriam viajar uns anos atrás para o álbum Pratica(Mente), acrescentando: “O meu mano Sam precisa de ajuda para fazerem a parte de uma pessoa chamada Sofia”; foi assim dado o mote para o começo do instrumental de uma das mais famosas faixas do hip hop português, “16-12-95” a.k.a “Sofia”.

O público, que já estava completamente em delírio, foi surpreendido quando STK desceu à plateia, ficando assim ainda mais próximo dos fãs, que estavam decididos a cantar toda a letra, de cor e salteado.

A faixa não foi, no entanto, cantada por inteiro, tendo feito medley com “Solteiro”, outra famosa faixa, e “Brasa”.

Para surpresa de todos, o momento que se seguiu contou com um convidado muito especial, oriundo de Torres Vedras: NBC. Com a sua chegada ao palco iniciou-se a música “Juventude (É Mentalidade)”, música bem conhecida pela plateia, de onde se ouviu alguém gritar entusiasticamente “granda som!”. Momentos depois a arena encheu-se de lanternas, o que criou um bonito momento.

Seguiu-se “Era uma vez”, uma música “dedicada a alguns amigos que já faleceram”, como explicado por Mundo Segundo, e “Tu não sabes”.

Um cúmplice aperto de mão entre ambos os artistas abriu alas para um discurso sobre a importância do DJ no hip hop, o que acabou com uma reflexão de Mundo Segundo: “Como já perceberam nós gostamos muito de DJs, há projetos que nem um DJ têm, nós temos dois. Dito isto, este é o momento em que os microfones ficam em silêncio”.

Procedeu-se uma apresentação efusiva pela parte de Dj Cruzfader e Dj Guze, que rasgaram pratos, acompanhados de jogos de luzes e fumo, mostrando assim as suas habilidades numa das mais importantes artes dos quatro pilares do hip hop.

A próxima música apresentada foi “Vício” de Mundo Segundo, uma música, nas palavras do próprio, “para todos aqueles que como eu são viciados em hip hop, nos seus quatro elementos.”

Não faltaram momentos de conversa e reflexão, assim como histórias, não fossem eles os reis do storytelling. Para suportar este facto, apresentaram “Deixar de ser”, com direito a história no final.

De acordo com Mundo Segundo, para além de ter sido a primeira vez que cantaram esta faixa “em terras de LX”, esta foi também a primeira música que gravaram juntos “em 2011 ou 2012”. O artista terminou este relato, afirmando que “Deixar de Ser” foi gravada em casa de New Max e só foi lançada em 2020, uma prova que tudo tem o seu tempo, pois assim, nas suas palavras, “a cena sai sem pressões”; uma transição imaculada para a próxima faixa “Sendo assim”.

Esta música juntou-se a “Raio de Luz”, que contou novamente com a participação de NBC, e levou a plateia de tal maneira ao rubro, que fez os artistas agradecerem a energia que se sentia no recinto.

Seguiu-se outra breve história relacionada com a produção da música “Raio de Luz”, onde Mundo Segundo falou sobre as dificuldades de gravação antigamente, samplers com pouca memória , caixas de ritmos e o processo de ir a casa de Sam The Kid gravar. Eram “outros tempos, outros aparelhos”, o que levou o artista a terminar a história dizendo: “gostava que o Sam fizesse uma retrospetiva…essa retrospetiva de um amor profundo”; outra grande transição para a próxima faixa: “Retrospetiva De Um Amor Profundo”. Esta faixa fundiu-se com “Sou do tempo” de Mundo Segundo.

Já na reta final, a dupla perguntou ao público se gostaria de ouvir mais uma ou duas, uma pergunta que resultou em inúmeros gritos de apoio, palmas, e euforia geral. Cumprindo a promessa, apresentaram “Bate palmas”, uma produção de STK, “ diretamente do sétimo céu”, como explicado por Mundo Segundo.

Em tom de conclusão cantaram a icónica “Poetas de Karaoke”, que se anunciou com sendo a última…,mas não foi.

Com a plateia ainda em chamas de experienciar este hit ao vivo, STK afirmou: “Ninguém tem concertos há algum tempo, bora fazer mais uma que o pessoal merece”. Depois de terem falado um pouco relativamente aos entraves causados pela pandemia, refletiram sobre como os obstáculos também fazem parte, dando-se assim a última ‘flawless’ transição para “Também faz parte”, a última música da noite, que, mesmo assim, deixou o Campo Pequeno a gritar: “só mais uma!”.

Este concerto veio relembrar-nos, numa noite quente de junho, das saudades que temos da abertura da época onde ocorreriam os mais variados concertos, não estivéssemos nós a viver em contexto de pandemia. Estes espetáculos são assim fundamentais para que não seja esquecida, nunca, a importância que a cultura tem na vida das pessoas, e como a música terá sempre um papel inigualável, no que toca à sua capacidade de unir centenas de desconhecidos, mesmo em tempos tão conturbados como estes.

Sam The Kid e Mundo Segundo mostraram, para além da já sabida destreza lírica e capacidade incrível de performance, uma grande cumplicidade e amor conjunto pela cultura, algo sempre bonito de se ver, e que cativa qualquer plateia. Prova disso foi também a grande variedade de faixas etárias presentes no concerto, todas elas completamente incapazes de ficar indiferentes à apresentação de hinos já consagrados na cultura portuguesa, por lendas deste calibre.

Quer estivessem a ouvir pela primeira vez – como talvez fosse o caso dos pais a acompanharem os filhos (ou netos), ou das crianças mais novas lá presentes- ou pela milésima, Mundo Segundo e Sam the Kid é para todos. É certo e sabido que, naquela noite, toda a arena percebeu o Hip Hop.

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