No dia 27 de fevereiro, Mizzy Miles subiu, pela primeira vez em nome próprio, ao palco do Campo Pequeno. Numa das maiores salas do país, o produtor transformado em protagonista mostrou que o seu Fim do Nada não é apenas um álbum colaborativo — é um manifesto que vive, respira e ganha outra dimensão ao vivo.
A noite começou com um estilo de narrativa. Um vídeo protagonizado por Pepê Rapazote e pelo próprio Mizzy abriu o espetáculo, construindo uma pequena história que serviu de rampa de lançamento para o que viria a seguir. Quando o ator surgiu em palco para anunciar a entrada do anfitrião, percebeu-se que não seria apenas um concerto normal.
A primeira investida fez-se com os Wet Bed Gang “Worldwide” abriu as hostilidades e aqueceu de imediato o Campo Pequeno, com a plateia a reagir à altura da dimensão do tema. “No Teu Brain” seguiu-se, ainda que com uma adesão mais contida. O arranque estava feito.
Pouco depois, Ivandro assumiu o palco para “Im Sorry” e “Tóxico”. Foi aqui que se sentiu uma das poucas lacunas da noite: a ausência de Piruka e do artista brasileiro WIU, dois nomes aguardados pelo público. Ainda assim, Ivandro segurou o momento com competência, embora se percebesse que aquelas faixas pediam o elenco completo.
Mas se houve falhas pontuais, também houve explosões. A entrada de King Bigs foi uma delas. Energia crua, presença intensa e um Campo Pequeno literalmente ao rubro — um dos pontos altos do concerto, sem margem para discussão.
A meio do espetáculo, Mizzy apresentou o segmento Make It Inside, iniciativa pensada para dar palco a novos talentos. Kennis e Vietos aproveitaram a oportunidade para mostrar serviço, num gesto que reforça a visão do anfitrião: não se trata apenas de brilhar, mas de criar espaço para os que vêm a seguir.
Seguiram-se mais participações do universo Fim do Nada. Nenny, Chelsea Dinorath, Agir e SleepyThePrince trouxeram as suas cores ao palco, reforçando a diversidade sonora do projeto. Até que o concerto sofreu uma viragem inesperada.
Se durante grande parte do espetáculo Mizzy foi dando backup e sustentando os seus convidados, houve um momento em que voltou às origens. Subiu à mesa de DJ e, num regresso simbólico às raízes, disparou clássicos de Drake, XXXTentacion e Travis Scott. Abriram-se moshpits, a plateia saltou sem reservas e o Campo Pequeno transformou-se numa arena global. Foi, talvez, o momento em que mais se sentiu a fusão entre producer e performer.
A reta final foi novamente guiada pela narrativa em vídeo com Pepê Rapazote — o início do “fim do nada”. As luzes apagaram-se e, ao som do hino da Liga dos Campeões, o público percebeu que algo grande estava prestes a acontecer. “Champions League” reuniu em palco Slow J e Gson, formando um trio de ataque demolidor. Foi o auge da noite — um hino cantado como se fosse uma final europeia.
E se a energia já estava no máximo, o público ainda puxava por Lon3r Johny antes mesmo da sua entrada. Quando surgiu, incendiou definitivamente a sala. Seguiram-se T-Rex e Zara G para “Fim do Nada”. T-Rex ofereceu um recital intenso e emotivo, culminando num discurso sentido dirigido ao próprio Mizzy. O produtor não conteve a emoção e o Campo Pequeno respondeu em uníssono, entoando o seu nome.
Já na despedida, Van Zee e Bispo trouxeram “Benção”, num momento coletivo e simbólico — quase cerimonial. Mas ainda faltava uma última viagem. “Europa” fechou a noite, sem Deejay Telio e Teto, mas com Mizzy e Gson a conduzirem um Campo Pequeno inteiro numa catarse final. A música que mudou o estatuto de Mizzy Miles no panorama do Hip-Hop nacional soou maior do que nunca com todos em palco.
No balanço final, foi um espetáculo bem conseguido, ambicioso e emocional. Infelizmente nem todos os artistas com participação no álbum marcaram presença, e talvez aí esteja a maior lacuna da noite. Num Campo Pequeno aquecido contra o frio lisboeta, Mizzy Miles provou que o produtor que construiu pontes entre artistas é agora, também, capaz desustentar uma das maiores salas do país. O Fim do Nada foi, afinal, o começo de uma nova era.


