Hip Hop Rádio

Meo Sudoeste 2018: Rap tuga, nunca me falhas

Texto por Daniel Pereira

Fotografia por Nayara Silva e Daniel Pereira


Mais uma edição de MEO Sudoeste e novamente o hip-hop fez-se ouvir no Alentejo.

O início do mês de agosto é já sinónimo de uma coisa: MEO Sudoeste. O icónico festival da Zambujeira do Mar esteve este ano na sua vigésima (20ª) edição e, para quem é fã de Hip-Hop, dificilmente se pediria um cartaz melhor, pelo menos no que toca aos nomes nacionais… A realidade é esta: no que ao rap diz respeito, os nomes que saltavam à vista no cartaz eram Lil Pump e Desiigner.  Os cabeças de cartaz (atuaram no mesmo dia) . o resto do nomes hip-hop confinados no habitual “E muito mais”. E na verdade havia muito mais para ver e ouvir, mais e melhor, mas já lá iremos.

Por motivos de agenda não pudemos estar presentes no dia em que o recinto abriu pela primeira vez ao público. Este é portanto o primeiro dia oficial de MEO Sudoeste, apesar de há dias terem havido os já habituais concertos no campismo. Do que chegou até nós, Piruka deu um excelente concerto no palco principal, com direito a alguns momentos especiais (a família do rapper subiu a palco), deixando já a sensação de que os concertos dos rappers portugueses iriam ser bons. Na realidade isso seria já expectável, visto que a vontade dos artistas nacionais em atuar neste que é já um dos mais importantes festivais do país é imensa.

Algo para constatar no segundo dia de festival. Muitos eram os concertos a ver e começaram cedo. Por volta das 19h30 entraram no palco LG os Richfellaz, banda de 5 elementos, da cada um com o seu estilo musical, criada neste ano de 2018. Devido à hora precoce do concerto e ao desconhecimento por parte do público seria de esperar uma pequena audiência –  assim foi. No entanto, os que lá estiveram passaram um excelente bocado com a energia ao vivo que esta banda proporcionou. Um nome a manter em conta.

A partir das 20h30 o recinto do palco LG começou a encher. Fácil de adivinhar o porquê, o senhor que se seguia era Papillon. “Deepak Looper”, primeiro álbum do MC de Mem-Martins, por muitos aclamado como álbum do ano, ia ser apresentado ao vivo no MEO Sudoeste e ninguém queria perder. O concerto começou e a enchente revelou-se. Muitos foram os que vibraram com as letras e flows do rapper do grupo GROGNation, mas também com Dj e a banda que Papillon normalmente leva para os seus concertos a solo. Nota para um momento emotivo do concerto, antes de cantar a faixa “Imagina”, em que o artista revelou e admitiu perante o seu público que não tinha preparado cantar essa faixa e que não sabia se conseguiria. É notória a ligação sentimental do rapper com o tema e verdade é que esta foi executada, sim, e da única forma que Papillon sabe fazer as coisas: na perfeição. O público ficou arrepiado. A partir daqui a festa continuou até por volta das 22h, hora em que acabou. Foi “só” um dos melhores concertos que pudemos ver na edição deste ano de MEO Sudoeste.

O Hip-Hop não parava no palco LG e de seguida tivemos Eva Rap Diva, MC que tem ganho cada vez mais espaço no panorama do rap nacional. A rapper angolana não desiludiu e apesar de ter contado com um público em menor dimensão comparativamente com o concerto anterior, viveu-se uma autêntica “Hip-Hop Party”. E claro está, os habituais e exímios freestyles e empatia com o público não faltaram no concerto de Eva.

Passámos de seguida para o Moche Ring e, por falar em empatia, se houve senhor que teve empatia com o público foi Cálculo. Cada vez mais o público o adora e é merecido. O rapper de Barcelos conta com dois álbuns espetaculares e cheios de boa vibe (“A Zul” e “Tourquesa”) que começam cada vez mais a entrar nos ouvidos dos portugueses. Ainda por cima estamos no verão, e é este o tradicional tipo de música para a época em questão. Cálculo fez o seu concerto passando por estes seus dois trabalhos e o público não poderia pedir mais.

“Pessoal, não tenho mais nada para tocar para vocês portanto vou meter a música do Dragon Ball”. Sim, o final de concerto foi com a música de genérico da série “DragonBall GT”, deixando claro está, todos bem dispostos para os concertos que se seguiriam.

Neste palco tivemos depois Phoenix RDC, Estraca, Nasty + Harold, Mike El Nite e DJ Kronic para finalizar a noite.

Phoenix teve uma das mais bem ensaiadas plateias, foi um dos melhores concertos que já assistimos do MC de Vialonga.

Estraca mostrou a todos que numa época em que o mumble rap ganha cada vez mais seguidores é ainda possível dar concertos de rap com mensagem e pôr todos a cantar.

Nasty Factor e Harold foram um bocado prejudicados pela atuação dos Wet Bed Gang no palco principal (tal como Kura, colmataram o cancelamento do concerto de Hardwell) mas não deixaram de animar o público que fez questão de os ver neste novo formato em que são cantadas músicas em conjunto dos dois rappers do coletivo GROGNation, mas também faixas “a solo”.

Mike El Nite fez um autêntico riot com direito a arremesso de rebuçados Dr. Bayard para o público. O rapper contou ainda com a participação especial de SippinPurp neste tema e o concerto acabou em êxtase com “T.U.G.A.”.

Ainda neste dia e em relação ao palco principal, descurámos completamente o concerto de Wizkid, pois ficámos na dúvida se realmente estava a acontecer uma perfomance do artista nigeriano ou se se tratava de um DJ Set. No que ao rap internacional diz respeito, não estava a começar bem.

Wet Bed Gang foi o completo oposto. Simplesmente espetacular. Avisados 4 horas antes de que iam atuar no palco principal do MEO Sudoeste (GSon fez questão de mencionar isto várias vezes ao longo do concerto), não deixaram de ter a pujança que lhes é habitual. Sem banda mas com Conductor nos pratos muitos foram os hits tocados na Zambujeira Do Mar e que puseram todos a cantar. Feedback brutal do público visto o cada vez maior número de seguidores da banda (perdemos o número das vezes que ouvimos músicas de Wet Bed Gang a “bombar” nas colunas dos campistas) e mais um concerto que nos faz pensar que estamos perante o maior fenómeno atual do rap português.

Depois de tantos concertos de hip-hop neste dia, passamos agora para o terceiro dia de Meo Sudoeste.

O dia começou perto das 21h com Domi no palco LG. Por volta das 21h30 começaram Mundo Segundo e Sam The Kid no palco principal. A Hip Hop Rádio teve portanto de fazer “piscinas” para poder ver os dois concertos. Pudemos constatar uma coisa: o público para o concerto de Domi esteve sempre presente em enorme quantidade. Raros foram os que arredaram pé para ver o concerto de Mundo Segundo e Sam The Kid, fazendo-o apenas quando Domi finalizou o seu concerto. O MC do Algarve, que recentemente assinou pela Universal, deu um concerto seguro e cheio de energia que não deixou ninguém indiferente. Começa a ser um caso sério no panorama do rap nacional.

Entretanto Mundo Segundo e Sam The Kid atuavam no palco principal e contavam com um público não em grande número para o habitual número que este palco fiel costuma trazer. Concerto que contou com os clássicos do costume, executados com perfeição pelos dois MC’s, DJ Guze e Cruzfader. Maze apareceu para tocar alguns temas em parceria com os dois MC’s e o seu “Brilhantes Diamantes”, música icónica do Rap Português. Nota ainda para o facto de Sam The Kid ter cantado “Retrospectiva De Um Amor Profundo”, faixa que não era cantada ao vivo há já algum tempo e que infelizmente não foi executada na totalidade. Bem, deduzimos o porquê de Sam The Kid ter optado por não cantar os oito minutos da música. A realidade é que muito do público presente não “aguenta” mais do que dois minutos por faixa ora não estivesse a marcar presença neste concerto pura e simplesmente para guardar lugar para os concertos de Desiigner e Lil Pump.

Sobre estes dois concertos internacionais: já lá iremos. Antes ainda tivemos Bispo no palco LG. O MC de Algueirão Mem-Martins contou com a maior enchente que pudemos ver neste palco e com um público fiel. Bispo atua agora com banda e os seus concertos estão cada vez melhores. Deezy marcou a sua presença para cantar “Nós2”, tema recente em parceria entre os dois e que está a fazer um enorme sucesso. Bispo é provavelmente um dos nomes que mais está a subir a pulso no panorama do Hip-Hop nacional e é fácil perceber porquê. A qualidade está toda lá e capacidade de se reinventar também e o público percebe isso.

Vamos então agora falar de Desiigner e Lil Pump e perceber o porquê do facto de Mundo e STK abrirem para estes dois concertos ser ridículo. Sim, o hype está lá, os hits também e a histeria do público sem dúvida mas será que tudo isto vale a pena quando as performances em palco são sofríveis e descomprometidas? O rap tuga responde a esta pergunta com um redondo não, acreditamos nós.

Se Desiigner foi razoável, Lil Pump foi péssimo.

O primeiro ganha pontos pela sua energia e pujança em palco (em palco como quem diz porque esteve maior parte do tempo agarrado às grades que separam o público do palco). No entanto não podemos deixar de dizer que o concerto de Desiigner foi um autêntico mar de adlibs.

O segundo, é difícil arranjar palavras para descrever. Acreditamos que qualquer miúdo da frontline, fã acérrimo do rapper de Miami, Florida, caracterizado de forma a fazer parecer ele, se tivesse ido a palco atuar, ninguém notaria a diferença. Do que a Hip Hop Rádio apurou com os festivaleiros, alguns já esperavam um concerto duvidoso, outros esperavam ansiosamente pelo concerto do seu trapper favorito e muitos estavam simplesmente curiosos para saber o que Gazzy Garcia, MC com 17 anos, na altura (fez 18 anos no passado dia 17 de agosto) seria capaz de fazer ao vivo. A realidade é que Lil Pump não esteve em palco mais de meia hora e mesmo assim foi muito. Dúvida desfeita.

Antes de passarmos para o último dia de festival em que pudemos ver o concerto de Yuzi, notas de destaque para o palco Vila Santa Casa no campismo que contou ao longo dos quatro dias com vários DJ Set de Sensi a começar os dias dos festivaleiros, a Curadoria de Xeg com o projeto “Animação Em Acção”, a Curadoria de Francisco Rebelo com o projeto “OPA” e a Curadoria de Capicua com o projeto “OUPA!”. Iniciativas de louvar que permitem mostrar novos talentos do Hip-Hop Nacional. Também uma ressalva para Krayze, que animou todos com os seus passos de dança no Palco EDP nos intervalos entre concertos.

Como dissemos, no último dia de Meo Sudoeste pudemos ver Yuzi,  rapper que tem ganho cada vez mais notoriedade no panorama do trap nacional. Assistimos a um dos concertos mais enérgicos do palco LG e provavelmente ao maior mosh pit de todo o festival (nem no palco principal assistimos a um maior). Yuzi não estava sozinho, Benji Price acompanhou-o nos pratos e Yellow nas backs. Por lá passaram também Profjam, SippinPurp e Lon3r Johny como participações especiais e os restantes membros da Think Music que marcaram presença apenas para ajudar à festa. O único que não esteve presente foi Fínix MG. Yuzi deu uma autêntica lição do que é um bom concerto de trap, ao contrário de Desiigner não deslizou apenas por adlibs e ao contrário de Lil Pump… bem… simplesmente não esteve parado em palco.

Já demonstrámos o quanto gostámos do rap tuga ao invés do rap internacional na edição deste ano?

Os Karetus fecharam o palco principal e felizmente pudemos ouvir Hip-Hop mais umas quantas vezes, fosse através dos pratos do DJ ou através da chamada ao palco, mais uma vez, de Wet Bed Gang para o sempre espetacular e poderoso “Maluco”.

Fiquem com as nossas Foto-Galerias:

Nayara Silva – Galeria 1

Daniel Pereira – Galeria 2

Até para o ano MEO Sudoeste!

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