Hip Hop Rádio

Hip to da Hop: “Uma aventura de quatro sentidos com uma única direção”


Durante dois anos, António Freitas e Fábio Silva agarraram em duas câmeras e percorreram Portugal de Norte a Sul, com a missão de transmitir, para o seu filme, “as quatro vertentes” do Hip Hop. No passado dia 28 de abril, esgotaram o emblemático Cinema São Jorge. Por Bruno Fidalgo de Sousa e Nuno Mina

O culminar da jornada

Durante o filme, é TK que relata o que foi este caminho: uma aventura de quatro sentidos, por quatro vertentes, com uma única direção. A arte do rap, a arte do djing, a arte do breakdance e a arte do graffiti (um assunto bastante discutido – e um tema para mais tarde) em união, no documentário que António e Fábio montaram. O primeiro era writter, o segundo escrevia para a H2tuga. Agora, compõem, juntamente com a produtora Sofia Rivas, a CreativeStudio.

Esta não foi uma mera viagem pelas origens e história do hip-hop. António e Fábio pintaram uma moldura humana que vai muito além de Miratejo, Chelas ou Gaia. É um retrato social daquilo que foram as fundações do movimento, pincelado pela mão de uma cultura que se fez sentir em massa na sala Manoel de Oliveira, a maior do Cinema São Jorge. TK enfeita a história, à falta de narrador e voz-off, numa tentativa da dupla de realização de fugir ao género documental. Frame frame e faixa a faixa, a banda sonora de Hip to da Hop esteve ao encargo de António Lopes Gonçalves, Lost Soul e Sleep Patterns.

A linha narrativa é traçada pelos convidados. Sensei D, Slow J, Mundo Segundo e Sam The Kid, Odeith, NBC ou Beatbombers são alguns nomes, entre mais de 30 entrevistados. Músicos, DJ’s, writers, b-boys e outros nomes da cena musical portuguesa (casos de Paulo Pinto e Rui Miguel Abreu) deram rosto e voz a Hip to da Hop. De pioneiros do movimento e new-comers, a palavra foi dada. A reflexão, contudo, viria a chegar no final, para alguns. Fábio Silva afirma mesmo que “há ali um momento onde se coloca a questão sobre o que é o hip-hop”, no discurso que deu com o colega de trabalho no final da sessão e onde também NBC subiu a palco.

A ruptura do graffiti com o movimento, a solidificação do trap e dos restantes subgéneros na cultura musical das massas ou a perda da essência do hip-hop foram alguns dos temas em debate.

“Nós nunca pensamos em fazer “rap” a brincar”

“Eu achei sempre que um dia haveria de estar no São Jorge a falar para todos vós. E isso está a acontecer” – foram as palavras de NBC, um dos pioneiros do rap nacional (fundou, com o irmão, o grupo Filhos D1 Deus Menor, nos primórdios da cultura em Portugal) e “um mentor” para os dois realizadores. Sublinhou ainda que as “histórias que podemos ver no filme são a materialização efetiva e verdadeira que foi preciso muito mais do que só vontade de fazer. Demos e damos a nossa vida por esta causa”.

Numa plateia mista de ouvintes e artistas, Capicua foi uma das que se pronunciou no final, inquirindo sobre a falta de representatividade feminina no documentário, pergunta à qual António e Fábio se justificaram com a multiplicidade de pessoas que compõem o movimento. António Freitas afirma que “é difícil contar uma história de um movimento como este, mas se conseguires chegar às pessoas certas, poderás contar uma boa história, independentemente de uns pintarem, cantarem ou fazerem scratch.”

“Falando de mim e “gajos” como o Samuel [Sam The Kid], nós nunca pensamos em fazer “rap” a brincar”, reflete NBC. O hip-hop, como movimento e cultura, foi recebido de braços abertos pelos 800 espectadores presentes.

Dar voz ao movimento

Até à data, tinha sido o segundo filme a esgotar no festival de cinema IndieLisboa International Film Festival. Na semana seguinte, Não Consegues Criar o Mundo Duas Vezes, documentário sobre o rap do Porto com realização de Francisco Noronha e Catarina David, voltou a ser uma das atrações do evento.

Hip to da hop tem data de estreia na cidade do Porto marcada para 30 de maio, no Cinema Passos Manuel, pelas 22h. Até lá, fica o momento para, primeiro para quem já assistiu, refletir sobre a evolução do hip-hop nacional. 2018 chegou com dois documentários sobre esta arte e a popularização do género nota-se, agora, em tantas outras vertentes culturais. Segundo, para quem tem a oportunidade de assistir, é importante recordar que Hip to da Hop é um processo, muito mais que um produto. E que é sempre importante dar voz ao movimento.

 

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