Hip Hop Rádio

Hip-Hop numa festa “à moda antiga”

Fonte: Madblox Creative Studio

A Rap-A-Holic realizou-se pela segunda vez este ano, desta feita na cidade Invicta. O evento que celebra e representa o Hip-Hop como Cultura estreou-se no Porto, no passado dia 22 de julho, e teve todas as vertentes do Movimento bem presentes numa noite “à moda antiga”.

DJing, B-Boying e Graffiti a abrir

Fonte: Estrela Douro & D’ouro Club

 

À porta do D’ouro Club a expectativa pairava no ar. O ambiente era promissor, visto que, a uma hora da festa começar já se observavam fãs, em aglomerados, à espera para garantirem o melhor lugar. Conversavam revelando conhecimentos pela Cultura, perspetivavam sobre as atuações da noite, visivelmente ansiando o início do espetáculo. Foi fácil de reconhecer artistas nos diferentes grupos, como é o caso de Buli 2B ou de T-Jay.
Estavam os ponteiros do relógio da Torre dos Clérigos a indicar a meia-noite e meia, e já, a tempo e horas, se abriam as portas do espaço que iria então celebrar a cultura Hip-Hop. Os que fizeram questão de entrar no momento de abertura, puderam ainda ver o B-Boy que iniciaria a festa, a aquecer, com outro dançarino do breakdance. Dois artistas a prepararem-se para mostrar as suas skills, com um graffiti do artista RUMO a servir como pano de fundo. Não poderia ser uma festa totalmente de Hip-Hop sem o graffiti marcar presença. Enquanto isso já os DJ’s Score (Gatos do Beko) e Serial (ex- Mind da Gap) passavam clássicos do RAP. Serial e Score, atualmente juntos no grupo Pro’Seeds, com o MC Berna, conduziriam a noite, nas suas transições, com o melhor do RAP old-school e atual.

Fonte: Danny Teixeira & Joana Rodrigues – A-Holic

A festa começou, oficialmente, às 00:50 horas. O host e mestre de cerimónias Milton Penelas deu o tiro de partida. Com uma casa ainda por preencher, mas com cerca de uma centena de aficionados no público, os B-Boys AIAM e Mike tomaram conta da pista ao som de clássicos. De Beastie Boys à voz de Lauryn Hill, o comando estava repartido entre Score e Serial, que brilhavam também no scratch. Os dois dançarinos alternavam a sua presença no centro de uma roda, formada a fazer lembrar os primórdios do breakdance, mostrando o melhor entre power moves e freezes. Com um público ainda adormecido, os artistas procuravam esmerar-se enquanto apelavam ao despertar dos espectadores. Um dos momentos de maior entusiasmo surgiu de forma inesperada, apanhando toda a gente de surpresa, incluindo os B-Boys em cena. A B-Girl Tânia Monteiro, dominou o centro do círculo e mostrou que o breakdance também se faz, e bem, no feminino.
Cerca de 20 minutos depois os B-Boys e B-Girl retiravam-se sob aplausos de uma massa que vagarosamente se ia compondo. Enquanto o público aguardava pelo coletivo de Vila Nova de Gaia, RockitMusic, Score e Serial animavam o espaço com “Nas – I Can”, “Jay-z – 99 Problems” e “Mundo Segundo e Sam The Kid -Tu Não Sabes”, música esta que abanou com os presentes provocando o primeiro momento em uníssono.

Podem começar a “Cuspir”

DJ Slice foi o primeiro a subir ao palco, 20 minutos depois da uma da manhã, para dar início ao espetáculo da RockitMusic, surpreendendo com um remix do instrumental de “Shook Ones Pt.2” de Mobb Deep, com o verso de Boss AC em “CARAVANA”. De seguida entraram SP e Duplo, com o primeiro a cantar “1999” e o segundo a promover o single, então por estrear, “Dito e Feito”. À medida que os outros MC’s se juntavam, o coletivo revisitou os maiores sucessos dos elementos, a solo ou em conjunto.

Fonte: Estrela D’ouro & D’ouro Club

Dogma trouxe “Manos Querem”, Smélio e SPPraga”. Smélio foi quem provocou a maior reação no público, com a música “A Lúcifer”. Numa meia hora enérgica em palco, com os diferentes artistas a mostrarem uma entrega notória aos presentes, a RockitMusic fez-se sentir. O espetáculo da RockitMusic acabaria com “Carga”, faixa com todos os membros envolvidos, mas não sem antes oferecerem alguns projetos da editora, a quem não quis faltar. Os trabalhos “Puro e Duro” de Mazter e “Génesis Vol. I” e “Génesis Vol. II” de Dogma foram atirados para regozijo dos contemplados que agarraram os CD’s.
Numa surpresa(outra), o MC Se7 subiu ao palco antes da ZNT, para rimar, acapela, a letra da música “Vandalismo”, de cariz interventivo. O artista que já colaborou com Malabá, por exemplo no último projeto MVSJ, na faixa “Saco de Boxe”, arrancou um salva de palmas da plateia. A surpresa foi, novamente, um fator positivo, com o visível agrado provocado pelas fortes punchlines proferidas por Se7, entre os que estavam no D’ouro Club.

Fonte: Danny Teixeira & Joana Rodrigues – A-Holic

 

A ZNT (Zuka na Tuga), estreou-se na cidade Invicta, ao subir ao palco às 2.00 horas em ponto. Diretamente de Viseu, os artistas brasileiros trouxeram energia e alma dando resultado a uma performance que seguramente despertou a atenção dos mais atentos e menos céticos. O produtor MZK e o rapper D.I.C.K. partilharam o palco durante a primeira metade do concerto. A eles juntou-se Vinny que trouxe ainda mais garra, determinação e vontade de criar impacto. Assim foi, com um espetáculo de 40 minutos de interações, ainda que nem sempre correspondidas, com o público, e momentos de qualidade como com as músicas “Tou Revoltado” ou “ZNT Life”. No fim, os restantes associados da ZNT também subiram ao palco para finalizar da melhor forma possível.
Com a noite a chegar a meio, o público já bem composto reagiu freneticamente à entrada de Sacik Brow. Foi por volta das 2 horas e 40 minutos que a atuação começou. Abrindo logo com um dos seus clássicos “Só Queria Ser Alguém”, Sacik Brow tocou ainda “Não Era Isto que Queria”, ou “O Que Querem que Eu Rap?”, último single do MC algarvio, acompanhado de Fragas. Deambulando entre sons mais recentes e outros mais antigos, Sacik deixou o público eufórico com o seu fast flow impressionante, como o demonstrado na música “Histórias que Marcam”.

 

Fonte: Danny Teixeira & Joana Rodrigues – A-Holic

Numa prestação elucidativa da experiência do rapper, Sacik mostra ter uma base de fãs considerável e que ele faz questão de aumentar com prestações deste calibre. Deixando ainda o público “Hardcore“, aproveitou para anunciar o lançamento do projeto “Made in Ghetto 2” (projeto adiado em 2016, para setembro deste ano). Aproximadamente às 3 horas e 20 da madrugada, Sacik Brow despediu-se, com a certeza que deixou um público satisfeito e a desejar por mais.
Enquanto se esperava o próximo artista, os DJ’s Serial e Score colocavam alguns dos bangers da atualidade a tocar, tais como, “Kendrick Lamar – Humble”, “Future – Mask Off”, “XXXTentácion – Look At Me”, entre outros.

 

 

Senhores do Underground – A Bruxa e o Inspector Mórbido

Fonte: Danny Teixeira & Joana Rodrigues – A-Holic

Finalmente a assistência deixou a espera de lado e o mestre Fuse entrou em palco, colocando o local num clima apoteótico. O Inspector Mórbido entrou com a faixa “Revolucionário“, da “Caixa de Pandora”. Fuse prosseguiu acompanhado de um público incansável, até ter de parar para confessar a incredulidade que sentia. A plateia repleta de fãs conhecia, de uma ponta a outra, as faixas e versos de Fuse, especialmente nos clássicos de Dealema. Muitas músicas intemporais de DLM foram recordadas e reproduzidas naquele palco. “Nada Dura Para Sempre,” “Família Malícia,” “Léxico Disléxico”, foram algumas delas, com Fuse a cantar as suas partes das emblemáticas faixas. Em 45 minutos, Fuse mostrou total domínio na interação com as centenas de fãs em êxtase pela sua presença. Com muitos anos de estrada, a mestria do rapper vem ao de cima quando se denota a facilidade que tem de puxar pelo público e reconhecer o amor que lhe é dado, reenviando de volta para as multidões que o ouvem. Vários momentos impressionaram, não só pela forma como as letras eram cantadas na totalidade, como pelo o entusiasmo vibrante. Houve tempo para mais músicas da “Caixa de Pandora”, como “O Mágico” e “Provavelmente“. A última serviu como de despedida do músico de enorme sucesso, tanto a solo, como em grupo.
Chega então o momento de Halloween. Às 4h30 entrou em palco de forma fantasmagórica, acompanhado de um instrumental sinistro, soturno, obscuro. Tudo o que se ouvia era o público a gritar pela Bruxa. Allen entrou “a matar” com o seu grande clássico, “Drunfos“, que foi, sem dúvida, o grande momento da noite. Muito graças ao público, que contribuiu ao cantar, em uníssono, toda a letra num momento de loucura e ebulição. Mal Halloween pega no microfone e projeta a sua voz, faz-se notar o seu poder vocal, porém, a comoção e o delírio eram tais que a voz de Halloween era inaudível. A partir da zona central, onde as pessoas se concentravam, vislumbrava-se um efeito especial provocado pelo jogo de luzes. Allen surgiu sob a forma de um vulto, algo que tão bem combina com o artista e o seu estilo.

 

Fonte: Danny Teixeira & Joana Rodrigues – A-Holic

Com a habitual sonoridade pesada, passou por clássicos como “SOS Mundo“. Ainda assim, Halloween concentrou-se mais no seu último álbum “Híbrido”, com “Mr Bullying“(outro extraordinário momento), “Gangsta Junkie“, “Rap de Rua“, entre outros, a serem entoados. Destaque ainda para a emoção que “Livre-arbítrio” consegue carregar consigo. Num concerto que não pode ter desiludido quem o viu pela primeira vez, Halloween fez-se acompanhar de elementos da sua crew. No fim da atuação, Allen Halloween “sofreu” um corte de luz na música “Killa Me“, mas isso não foi motivo para impedir a continuação da sua performance, e de ouvir o público a entoar “Killa me, Killa me, Killa me Cabron“, noutro momento fantástico, que fechou a noite em beleza. Halloween parece ser a prova que nem todas as Bruxas são amaldiçoadas, já que esta, só pode ser abençoada com um talento genial.
Mesmo sem ouvir a tão esperada “Obsessão e Lucidez“, dos cabeças-de-cartaz do evento e até alguns clássicos dos mesmos, a noite foi, ainda assim, bastante positiva. No fundo foi uma noite “à antiga”, tal como o próprio Fuse disse na sua atuação, foi uma noite à “8 mile português”. Um evento com todas as vertentes, bem organizado e que terá, com certeza, edições futuras que celebrarão cada vez melhor esta Cultura. Foi sem dúvida uma noite de verdadeiro Hip-Hop.

Artigo por: Emanuel Cirne e Jéssica Sousa

Leave a Comment