Hip Hop Rádio

Harold – O Último Malmequer: Casa Capitão

Harold está de volta aos palcos para celebrar o lançamento do seu terceiro álbum a solo, O Último Malmequer.

Cinco meses depois do lançamento do seu projeto, o rapper de Mem-Martins subiu ao palco da Casa Capitão numa noite marcada pela tempestade, que não deixou os fãs ficarem em casa. O seu último álbum – que teve direito a emissão e artigo aqui na Hip-Hop Rádio – destacou-se por explorar a vulnerabilidade e a resistência que atravessam a vida de Harold, afirmando-se como o trabalho mais pessoal da sua discografia até agora. 

Em palco, Harold fez-se acompanhar por Épico como dj, Loic António no baixo e na guitarra, e Rafael Furtado na bateria, dando nova vida às músicas do seu último projeto e estreando-se com banda. A verdade é que cada vez mais artistas optam por levar instrumentos para cima do palco – e com bons motivos. Nota-se logo a energia que a banda transmite, trazendo outra força às músicas e buscando ainda mais a energia do público. O primeiro convidado da noite foi Yang, que subiu ao palco para assinalar a colaboração em Pésnochão, uma das faixas mais mexidas do projeto. Mais tarde, xtinto e L-ALI juntaram-se a Harold para dar voz às faixas de Mãe Um Dia Ganho Um Diamante e, em seguida, nastyfactor – amigo de infância de Harold e ex-membro do grupo mútuo GROGNation – entrou para formar dupla em Bora. Cada participação acrescentava uma nova camada de energia ao concerto, preparando o palco para o que viria a ser o momento mais especial da noite. 

Com um sorriso na cara de Harold e nastyfactor, Prizko e Neck subiram ao palco para relembrar os velhos tempos. Quem estava na sala certamente acompanhou o grupo criado há 14 anos, que encerrou a sua trajetória em 2022, e sentiu de perto a emoção de os ver novamente em palco. Há sempre algo especial em celebrar o passado, e a Distante foi a faixa escolhida para a homenagem. Momentos como este revelam o verdadeiro impacto da música urbana no público, vendo várias gerações a entoar a mesma canção e também, chegando até a quebrar a postura de quem normalmente se mantém mais contido nos concertos. Afinal, a energia e a união que se via em palco estava também na plateia.

Harold fechou a noite com Vento em Popa, acompanhado por uma plateia que cantava por ele. Embora não estivesse a casa cheia, as centenas de fãs que se deslocaram para o ouvir fizeram questão de mostrar o seu apoio deixando o artista visivelmente grato, marcando a noite de apresentação do seu projeto. Depois de carimbar a sala lisboeta na noite passada com o seu nome, o rapper segue agora rumo ao Porto, onde sobe ao palco do Maus Hábitos já no dia 21 de novembro.

Antes do concerto, a Hip-Hop Rádio teve ainda a oportunidade de conversar com o artista sobre O Último Malmequer e a noite que se adivinhava em Lisboa.

Queria começar por abordar o teu último álbum. O O Último Malmequer traz muitos temas pessoais, com quais talvez muita gente se possa identificar. Em faixas como a Vidrado, por exemplo, sentes que deixares ali aqueles sentimentos te ajudam de certa forma a falar com alguém?

A Vidrado acaba por ser um daqueles sons em que expões bué o teu coração, sim. As minhas músicas são sempre muito pessoais – uso-as para contar as minhas histórias – mas é sempre provável que haja pessoas que se vão ligar a elas e identificar-se. Olho para as minhas músicas como um diário, um desabafo de como tu te sentes e de como estás, de como te queres expor ao mundo, por assim dizer. E depois, quando estás a ouvir um instrumental, chegas a um ponto em que fica muito fácil exprimires tudo o que estás a sentir.

Estás a falar dos instrumentais e gostava de tocar nisso. Tens muita facilidade em pôr essas temáticas mais azuis em ritmos mais mexidos, mas também em melodias mais melancólicas. Onde é que gostas mais de deixar estes sentimentos?

Hum, não sei, pá. Acho que vou sempre experimentando vários géneros e depois acaba por ser meio uma cena de moods. Um som como o Vidrado foi a primeira vez que fiz algo naquele registo, que é muito diferente dos sons em que posso estar a cuspir mais, e que sempre foram mais o meu registo. Mas como também gosto de explorar cenas fora da minha zona de conforto, um bocadinho fora de pé, acabo por tentar ir para outras cenas. E como, na Vidrado, queria expor os meus sentimentos de uma forma mais melódica e não ir tanto para barras, aquele instrumental encaixou perfeitamente.

Tu trazes muitos temas para o álbum, mas queria notar aquele que sinto que seja o mais pesado – que está identificado principalmente na Éder – que é o racismo. A música tem várias particularidades: pode ser um meio de comunicação, uma forma artística ou algo de puro entretenimento. No entanto,  a música também é capaz de ensinar, porque age diretamente nas pessoas. De que forma sentes que os teus relatos, comos os que trazes aqui para o álbum, podem agir na transformação e na consciência social?

Eu sou uma pessoa que tenta, já no meu meio – com os meus amigos e com os meus mais próximos – e também na internet, passar a mensagem que tenho na Éder: consciencializar. Na música acho que vai ser sempre a forma mais eficaz de o fazer, porque é a minha maneira mais forte de me exprimir. A Éder foi uma música que teve imensos tipos de reações de bué gente diferente, especialmente pessoal de Moçambique, que também se identificou e percebeu a mensagem.

Como é que a malta que te segue de Moçambique recebeu a Palavras?

A Palavras acabou por ser um som que bateu mais forte, principalmente pelo que tinha acontecido naquela altura. Teve um feedback bué fixe lá, e ainda bem, porque é daqueles sons que a malta destacou mais, mas que traz uma mensagem mais pesada. O áudio no fim do som é do meu primo, que trabalhava num hospital lá, e que todos os dias estava sempre a atender pessoas baleadas, e via-se na situação de ter de escolher vidas. Na altura estávamos sempre a falar e ele mandou-me aquele áudio, então encaixou perfeitamente. Naquele áudio ele transmite de forma muito mais intensa e real um relato de como as coisas estavam em Moçambique. Foi um dos sons essenciais do álbum para formar uma viagem e dar outros sabores ao que O Último Malmequer pode trazer.

Desde o Tudo Tem Seu Tempo até agora, foram 6 anos, tendo tu no meio ainda lançado um ep com o Lunn, o Mãe Um Dia Ganho Um Diamante. Durante este tempo exploraste outras formas artísticas ou estiveste sempre focado na música para te expressares?

Estive sempre ligado na música ya. Fiz bués participações com malta, lancei o EP e ainda demorei uns 2 anos até começar o álbum.

Quando começa o processo de criação do O Último Malmequer?

Ui, final de 2022, por aí. O álbum saiu em junho desde ano, então foi um processo demorado. Tive algumas pausas porque fui para Moçambique, mas estive quase sempre a trabalhar no álbum.

Tu tens vindo a antever estes concertos de apresentação através de uma forma muito gira no Youtube, chamada: A caminho de novembro. Sentias que fazia falta mostrares esse lado de quem é o Harold fora da música?

Ya. Eu acompanho alguns artistas que fazem vlogs, por exemplo o Filipe Ret – um rapper brasileiro que acompanho bué – que o faz semanalmente. Quando comecei a ver esses vídeos, senti que me liguei à arte dele de uma forma diferente, porque comecei a perceber a trajetória e a luta dele. Depois, como o nasty (nastyfactor) faz muito conteúdo, acabei por sentir que, agora com os concertos, seria fixe mostrar o meu próprio processo, desde a preparação até aos dias dos concertos. Por isso, fui acumulando conteúdos de estúdio e dos ensaios. Há malta que só quer ouvir as músicas, mas também há quem curta este tipo de conteúdo.

É a tua primeira vez aqui na Casa Capitão, também por ser uma sala de espetáculos muito recente. Vais te apresentar com banda em palco, como foi planear o concerto? 

Vou-me apresentar com banda, mas também vou ter partes só com dj. Quero dar à malta os dois flavours e fazer uma espécie de transição. Com a banda vamos dar uma nova roupagem às músicas do álbum, e vai ser fixe porque vai ser a primeira vez que toco assim. Como atuei poucas vezes em Lisboa, quero dar à malta que nunca me viu ou que já não me vê há muito tempo a oportunidade de ouvir as músicas de uma forma mais raiz. 

Trazes contigo também o L-ALI, o xtinto, o nastyfactor e o Yang. 

A ideia é trazer a malta que acompanhou comigo esta trajetória. Não dá para trazer toda a gente [risos] mas tentei juntar algumas músicas que eu achei que fossem importantes partilhar hoje e que, dentro da viagem do álbum, ajudem criar um bom momento. 

Com expetativas para hoje?

A expetativa é festa [risos] e boa energia. Estou bué ansioso, tenho estado a contar os dias para chegar este momento de para apresentar o meu álbum. Estou bué contente para subir a palco.

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