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Haka: “Já tinha bué certezas quanto ao rap desde puto”

Foi à janela de casa que Moisés, Haka no mundo do hip-hop, conheceu o Claustro. MCF já era um velho conhecido e Litos e Johnny Nolas não faziam rap. Embora os dois últimos não rimassem, foi ao morar todos juntos que o coletivo Vasconcelos Crew surgiu. O nº 83 da Rua António Vasconcelos, em Coimbra, foi o primeiro palco. O Quente Bar é o “tasco do costume”. Haka, rapper de Ílhavo, Aveiro, é talvez o seu membro mais experiente: a solo conta com dois EP, “Purga” e “Grumpy Moses” e várias faixas soltas, para além do seu contributo diário ao hip-hop nacional com o podcast Mic Matina. Moisés aka Haka tem 27 anos e muitos “Sonhos e Fumo” na bagagem. Por Bruno Fidalgo de Sousa.

 

Antes de mais e para contextualizar um pouco, como é que te iniciaste no mundo do hip-hop? Como surgiu o Haka?
O gosto para a música surgiu naquela idade normal, naquela fase de descoberta com a música que os tios ouvem, que a mãe ouve. Mas gostava de música de uma forma completamente normal, não tinha nenhuma paixão pela música. E depois, como no sétimo ano mudei de escola e fui para a secundária, já havia pessoal mais velho, em Aveiro, e a malta do new metal era completamente predominante, em todo o lado mesmo. Eu nunca me identifiquei com o new metal e cheguei a um ponto onde com 11/12 anos pensava que afinal eu era diferente de toda a gente, que não gostava assim tanto de música. Isto para dizer que depois ouvi a “Não Percebes” e foi esse o momento. Foi o beat, foi a cena do flow, foi o ritmo, foi tudo junto. Percebi que gostava mesmo a sério de qualquer coisa. Depois por acaso coincidiu com ter a TV Cabo em casa. Passados uns meses houve um especial hip-hop 2002 da Sol Musica, passou os clipes todos que estavam a bater naquela fase. Foi talvez o segundo boom do rap tuga, não foi o que fixou, mas foi importante. Descobri Mind da Gap, Dealema, Micro, Boss AC, toda a gente. Nesse ano, 2002, conheci tudo o que era atual e tudo o que era anterior.

E agora, como descreves a evolução? Sentiste as mudanças desde 2002 até agora?
É estranho porque eu era o único, ou dos únicos, a ouvir rap, e eu era o único que ouvia rap no sentido cultural, de movimento, não era só Chullage ou o Sam porque batia. E eu sempre desejei o contrário, ter amigos para falar de rap e para falar de hip-hop. Agora que isso aconteceu e que finalmente é assim, onde a maioria de uma população de uma escola ouve rap, é aquela cena do “cuidado com o que desejas”, porque agora que toda a gente ouve rap aquilo que eu gostava e que eu desejava nisso, nessa circunstância, que era poder haver discussão e partilha e movimento e cultura está lá, mas está muito difundido na música pop. Portanto, aquilo que eu gostava aconteceu em parte, que foi na massificação da música só, da música em si, não do movimento. Sinceramente acho que o movimento em si está igual ao que estava quando eu tinha doze anos em termos de intervenientes, pessoas, valores, está praticamente igual. Claro que há sempre ouvintes novos que se vão identificar e entrar de cabeça e quando a moda passar não vão sair e nesse aspeto claro que a cultura cresce. Mas acho que está muito parecido, sinceramente.

O teu percurso foi-se também construindo com a coletividade. Qual é a tua história tanto com o coletivo AVC como com a Vasconcelos Crew?
Eu já tive vários coletivos ao longo deste percurso. Começou com 12 anos, em que passado pouco tempo conheci o Spasm, o gajo da AVC que também é de Aveiro. Depois viemos a conhecer um amigo nosso na escola que também fazia rap e a partir daí fizemos um coletivo, uma cena de estar em casa com os amigos só. Depois AVC já foi uma cena mais a sério, que eramos nós, eu e o Spasm de Ílhavo, e dois amigos nossos, o Sarcamo e o DJ Profail de Ovar e acabamos por nos conhecer, por sermos da mesma zona, por nos identificarmos. Na zona centro o rap de punchline ou de egotrip não era muito aceite, tinha de ser streetrap, quanto menos flow tivesse melhor. Nós identificámo-nos uns com os outros e assim começou a AVC. Entretanto cada um foi para o seu lado, eu vim para Coimbra e comecei a passar bué pouco tempo em Aveiro. E aqui conheci a malta da Vasconcelos Crew. Eu tinha o microfone em casa, gravávamos todos juntos, eu ia trabalhar e eles ficavam lá em casa no meu microfone, até que surgiu o chavão: “Vasconcelos Crew”, por ser o nome da rua, António Vasconcelos. Pegou o nome, e pegou o nome até antes de ser um grupo, eramos um grupo de amigos e depois pensámos: “já temos três ou quatro sons gravados” e eles como nunca tinham gravado tinham aquela pica de meter na net, ver as reações, e foi assim.

Como foi estudar e rimar ao mesmo tempo?
Foi péssimo. Péssimo mesmo. E a faculdade foi a que sofreu mais. Eu, se trabalhar numa cena fora da área, seja na minha área de formação ou da música, vou dispersar. Comecei a ver que estava a dispersar muito. Entretanto, eles, também com música e faculdade, começaram a trabalhar. Os objetivos de vida foram mudando um pouco, também. Eu já tinha bué certezas quanto ao rap desde puto, não quero dizer necessariamente viver disto, mas fazê-lo para sempre e arrumar a minha vida de acordo com isso. Eles não, e descobriram isso numa altura mais tardia do que eu. Então tomaram a decisão para que nem que seja daqui a um ou dois anos fazer rap regularmente.

E a relação entre vocês?
Somos amigos porque já éramos antes do rap e isso aí facilitou muito as coisas. Claro que também arrasta bué discussões só que agora neste momento já somos um grupo de amigos adultos, que trabalham. O dinheiro pesa bué em todo o tipo de decisões quotidianas ou em relação ao rap e em relação a estarmos juntos mais vezes. Tem as dificuldades e as benesses de qualquer grupo de amigos.

E agora, como está a Vasconcelos?
Vivíamos todos na mesma rua, agora, entretanto separamos-nos um bocadinho. Agora só vive o Carlos lá, mas o café é o mesmo, vamos sempre ao mesmo tasco. Estamos sempre juntos, claro. No outro dia o MCF teve lá na minha casa em Aveiro a gravar comigo e a preparar o EP da Vasco.

Como é que está a correr?
Lentamente. Já está escrito e produzido. Agora é termos tempo para arranjarmos folga e irmos a Aveiro gravar as demos comigo e depois para o estúdio.

Depois de uma fase onde foste lançando sons com mais regularidade, o que anda o Haka a fazer agora?
Se um rapper se sente bem a fazer só um som por ano, por exemplo o Dillaz, cujo primeiro som do ano foi este mês, acho que isso não tem mal nenhum e acho que a cena do teres medo de ser esquecido é idiota. Mas funciona assim. Eu tive bué tempo em que fazia um som por ano ou três participações, este ano gravei bué sons, um por mês durante uma fase, agora só não lanço musica há um mês ou dois, mas já se nota a falta de ritmo. Mas há o podcast também, não quero estar a fazer isso e a lançar música à pressa. Estou em casa a fazer música sozinho e sinto que o tempo que estou a perder ainda não compensa o alcance que está a ter, então quero limar melhor a cena e continuar a trabalhar.

Grumpy Moses foi o teu último trabalho. Em entrevista à R&B, afirmaste que “‘Aqui sou normal, nos círculos sociais convencionais sou grumpy, e desta vez colei o rótulo a mim próprio por uma questão de comodidade.” Consegues desenvolver essa questão de comodidade?
Um gajo que gosta de discutir é tido como resmungão ou casmurro ou o que quer que seja e antes que mo digam vou eu dizê-lo sobre mim próprio. Eu usei o adjetivo por achar que não temos mesmo uma tradução literal que reflita a palavra. Sou refilão, se tiver que dizer mal também digo, às vezes exagero-me e sou um gajo que considero que tenho um sentido de humor nada óbvio, mas isso não me impede de dizer as merdas à minha maneira. Mas não gostei nada desse EP, foi na fase em que quis gravar regularmente e lançar regularmente e foram algumas das piores músicas que fiz este ano.

Quem ouve a tua música não consegue deixar de reparar em paralelismos como a “Foder Contigo” e “Cortar Contigo” ou “Índico” e “Pacífico” …
Olha, pegaste nas anteriores à Grumpy e nas posteriores, gosto muito de todas.

Como surgiram estas semelhanças?
A “Índico” surgiu antes da “Pacífico”, e fiz a “Índico” sem pensar em mais nada. Mas depois apetecia-me fazer uma cena na mesma onda, cantar um bocadinho. E depois pensei que condizia bué bem com a “Índico” até porque a foto da capa fui eu que a tirei e depois a fazer a capa para a “Pacífico” a foto que eu curti mais também era minha e as cores são bué quentes e bué frias e achei que condizia.

A tua música é um retrato teu?
Sempre. Às vezes exagerado, às vezes também escondo, não digo tudo, mas também perco um bocadinho por isso, mas sim, são retratos do dia-a-dia.

Olhando agora para o início deste percurso, o que sentes? Nostalgia?
Normalmente a minha tendência é de avaliação, é ver como é que a música envelheceu, aquilo em que se tornou boa, aquilo em que se tornou má, e o overall. Nostalgia? Às vezes. Acho que todos os anos existe aquela fase em que se ouve sons antigos e pensa-se: “eu aqui é que tinha alma, é que tinha feeling, é que tinha aquela pica”. Mas depois tens as outras fases em que pensas “ainda bem que envelheci e mudei isto”. Independentemente de tudo pode haver pormenores que cada vez menos gente gosta, mas desde que eu goste deles cada vez mais que se foda. Mas isso também é um problema de estarmos a lidar com um público que não é público especifico do rap, porque o público especifico do rap nunca se preocupou que um Sean Price tivesse muitas pausas na sua métrica. É uma cena que qualquer gajo do rap aprecia. Eu aprecio bué isso na minha escrita. Uma cena que eu ouço desde sempre é “olha, ali pausaste demasiado”. Eu gosto, eu cada vez gosto mais e não vou sentir-me nostálgico, lá está, por ter evoluído num sentido contrário.

Também produzes?
Fiz três beats na vida. O único que eu gostei foi o Centenário, o da Purga, o meu EP. Mas nesse beat também foi curioso ser o único que gostei porque foi o único que fiz de raiz já a saber o que queria fazer. Cheguei a casa, sentei-me e pensei: “hoje quero fazer um beat. Quero fazer um beat com um loop em reverse e com helicópteros. Quero um sample em reverse para dar a ideia de confusão e uma bateria normal de 4×4.” Conheces os centenários das Repúblicas (tradição coimbrã)? Era isso que eu queria mostrar, uma noite dessas, a confusão, o barulho, em que se tudo correr bem não te vais lembrar dela. E por acaso consegui reproduzir bué bem o que tinha imaginado e por isso é que o usei.

Porquê Centenário?
A Purga, no fundo, é uma cronologia. Por isso é que acaba no trap, por exemplo. Não é só a minha cronologia, mas também a cronologia daqueles anos em que fiz o CD.

Quantos anos ao certo?
Foi desde o fim do verão de 2013 até ao fim do verão de 2016. Aliás, fiz em meses porque tudo o que fiz nos primeiros dois anos e meio não serviu para nada, sinceramente. Serviu para purgar muitos assuntos, mas que não senti necessidade depois de os explanar.

Tens neste momento um podcast online, o Mic Matina. Qual a grande diferença deste projeto para tantos outros no YouTube?
A diferença é o conteúdo. Sinceramente, tirando o Três Pancadas e pouco mais, eu acho que sou, tirando os grandes inevitáveis, o único gajo na tuga que é um gajo do hip-hop a fazer um podcast para um gajo do hip-hop. De resto há o pessoal dos reacts que fazem vídeos para dizer bem de tudo, seja o Waze ou seja o Sam vão dizer bem de tudo porque dizer mal de alguma coisa hoje em dia é um tiro no pé. Mas eu estou-me um bocado a cagar porque eu como público também sempre senti falta de ter alguém que falasse de nós para nós, é mesmo isso, e o Sam disse isso “meio na tanga” no Três Pancadas, “for us by us”. Mas isso faz todo o sentido e eu sou um gajo que não tem pudor nenhum. É altamente discutir e dizer “não gostei” e nada me impede de ser contraditório o suficiente para gostar hoje e não gostar amanhã e vice-versa e é também por aí que eu quero ir com o podcast.

Foste talvez o primeiro MC a utilizar o Patreon. Qual o feedback?
Falando de hip-hop, em Portugal fui, possivelmente. Tem corrido bem porque tenho crescido bem. Comecei no fim do verão com três patronos, dois dos quais eram amigos. É o que conta mais, e tenho amigos a dizer-me “oh, mas eu nem vale a pena ser patrono, um gajo já está contigo e apoia-te no dia-a-dia” mas não, porque os olhos também comem e veres uma página que já tem 20 ou 30 seguidores dá-te outra confiança para apostares na cena. Mas cresceu bem, agora estou com 19, que já não é nada mau, pelo menos para aquilo que eu estava à espera. Até ao fim do ano é muito bom. Quer queira quer não são 19 pessoas que escolheram ouvir o que eu tenho para dizer e que valorizam aquilo que eu tenho para dizer e sei que não são só 19, por isso já vale a pena.

Podemos então dizer que tens uma fanbase?
Eu acho que podemos e porquê? Para já tenho bué patronos não oficiais que me fazem transferências e que me dão aquele feedback diário e tenho os do site que todos os dias falam comigo por chat, pelo Patreon ou que já eram meus amigos antes e que agora para além de falarmos das nossas cenas falamos daquilo e todos os dias sugerem e dizem o que está fixe. É a tal cena, se concordar é na hora porque adoro perceber-me das merdas. Mas a fanbase é brutal. Por exemplo, quando fui tocar ao 36, a Lisboa, ao Bairro Alto, estava lá bué pouca gente mesmo, mas estavam lá cinco, seis bacanos de Lisboa presentes e cantaram as letras todas. Músicas antigas, músicas recentes, e no fim ficamos lá horas a conversar, a beber, a fumar uns cigarros, a conversar como pessoas que se conheceram, criaram uma empatia, porque ela existe e é muito bom quando digo uma dica que ninguém percebe (penso eu) e alguém te perguntar “olha, o que querias dizer naquele som de 2012?”. Tu não sabes se é possível, e conhecê-los pessoalmente e reconhecê-los como pessoas que eu já tinha visto o nome da net e dali a uns tempos estar novamente com eles ou falar novamente com eles é incrível. Vale a pena por cada 19 pessoas.

Algum futuro projeto para revelar?
A cena é que não sei mesmo. Tenho escrito bué e não tenho gravado para não cair na tentação de despejar música à toa na net e quero fazer qualquer coisa com isso. Mesmo em termos de flow, de entrega, tenho tentado, não digo variar, mas fazer outras merdas, outras métricas, e ando a gostar bué do processo criativo e ando a gostar tanto que o quero guardar por enquanto.

Podemos esperar um novo trabalho para o ano?
Quase de certeza. Este ano pode-me cair a ficha e querer gravar alguma coisa de repente, mas nada programado.

Para finalizar, uma pergunta que gosto sempre de fazer, como descreverias a tua música a um surdo?
Era uma questão de estar comigo e de observar, acompanhar. Era a melhor maneira. E depois ler as letras e imaginar o flow.

 

Fotografia cedida pelo artista.

 

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