Hip Hop Rádio

Guia HHR: em dia de festa e Natal, atesta a barriga, não faz mal

Em dia de festa e Natal, atesta a barriga, não faz mal. Este mês, sem mais delongas, publicamos o Guia Hip-Hop Rádio ligeiramente mais cedo, não contando com a eventualidade de ver mais um álbum de excelência nas ruas até ao tão próximo final do ano. O Natal já passou mas a festa continua e, por isso e como explica o ditado, “atesta a barriga” com os distintos e diversos álbuns, EP’s ou mixtapes que tantos rappers, produtores e engenheiros trouxeram para a mesa em celebração do que está para vir. Segue-se um pequeno ensaio sobre os doze projetos que mais se destacaram no movimento – e porquê – em 2018.

Tourquesa – Cálculo

Os instrumentais são dele. A singularidade também. Cálculo, rapper e produtor de Barcelos e ex-emigrante londrino (“A pátria deixou despesa e deu-me um bilhete de ida/ e o D. Sebastião ficou na terra prometida“), como tantos outros artistas nacionais, editou em fevereiro o seu segundo longa-duração: Tourquesa, que espelha nitidimente o registo e cunho de Hugo Martins, ainda que já o seu álbum de estreia A Zul, de 2015, não tenha deixado dúvidas sobre o boombap frenético que se assumia nas batidas por ele produzidas e nas rimas dissecadas “à velha escola”. Cálculo sabe bem qual a direção a tomar e de onde surgiu: “Comecei a gravar raps com o Cuss/ hoje em dia dizem que sou a versão tuga do Russ/ boy, isso é dor de cotovelo ou pescoço?“. Entre a cidade nortenha e Londres, entregou-se de alma e coração à criação deste álbum – e chegou a desabafar com “as estrelas” (“Parei para ver as estrelas/ não consegui contá-las/ não vou subir com palas/ nem com balas, vou com falas“) no single. 

Tourquesa tem 13 temas e a ajuda de DJ Flip nos pratos de “Bala”, o MC alinhou-se com Ace, Harold, Macaia, Fábia Maia, BRDZ e Cuss, apostando em formato de vídeo também para “Iguais” e “Melhor de Mim“, para além do segundo single, “Saíste“, com arranjo de guitarra de Beni Mizrahi, e do terceiro, com a guitarra de André Sobral, “Não Páro“. De temas mais focados no foro emocional, ao egotripping de “Bala”, ao “som mais gozão” que é “Creme“, às “brincadeiras entre amigos” ou à narrativa de “Vem“, como explica Cálculo na dissecação que faz para a Rimas e Batidas, o alinhamento complementa-se e, aqui, respira-se rap e música (“Um balde de água fria/ na agonia da vida também faz falta/ como o Gabriel eu hoje sou um astronauta/ como Zeca Afonso quero animar a malta/ venham mais cinco porque é isso que faz falta“).

Com um flow muito próprio, apoiado por instrumentais trabalhados em torno das mais variadas vertentes, puxando do soul e de um jazz de forma tímida, mas melódica, e embora o ritmo que predomine em todo o álbum seja a sonoridade boombap, a mistura na produção, o atrevimento, as guitarras e a letra que o complementam tornam Tourquesa num dos melhores álbuns do ano, destacando o MC e produtor de Barcelos como um dos nomes a acompanhar desta nova escola de hip-hop lusitano.

“mas tu topaste o move
mas não mudaste o mood

assim desengonçada mas ganhas na atitude
numa dança improvisada risada só acompanha
se o beat se atrasa, não tarda que nos apanha”

HollyLandz – Landim e Holly

Um dos mais influentes representantes do hip-hop crioulo, pioneiro nas sonoridades trap, une-se a um prodigioso produtor e beatmaker, made in na “fábrica” artística que é as Caldas da Rainha e, juntos, constroem uma “Terra Sagrada”, convocam nomes como Allen Halloween, Bispo, Al-x, Singa, BTG ou Double Face para os ajudar a governar e, com a ajuda da Big Bit Música e de uma póstuma mão de Miguel Oliveira, Beatoven ou Ivo Cruz, erguem de raíz um EP de sete faixas a quem o nome HollyLandz assenta como uma luva – é uma paisagem sonora divinal, fruto da união de dois carismáticos criadores, versados na arte que cimentam nos alicerces deste projeto.

Do rap, trap e boombap ao drill e ao cloud, não há terreno que Holly ou Landz considerem pantanoso, numa prova de talento que poucos conseguem prestar de forma continuada, resistindo à passagem e às provações do tempo”, escreveu Moisés Regalado para a Rimas e Batidas. Também na temática Landim se desdobra, se deixa acompanhar, respira rap – “trata rap sima ki bu sa trata bu cota/ respeito, dedicaçon, kela ki ta conta/ rap ouve sota oras ki bu ta solta/kes palavra ki ta bai i ka ta volta– e partilha nos drums e melodias uma vibe inigualável.

HollyLandz tem uma sonoridade incrível, como Landim e Holly já nos habituaram, em separado, que se intensifica com a simbiose, com a mistificação de instrumentais, como o de “Essencial”, onde “A Bruxa” deixa um toque de magia, com a divinização de um vale acústico potente, com a vontade artística da influência, da vontade, da realidade – “se soubesses o poder da tua canção/ não desperdiças palavras nesse lugar/ não há como negar, rap é afirmação/ mas afirma quem te ouve, não uses para te afirmar”. .

E, por isso e muito mais, este EP merece ser um dos melhores trabalhos de 2018. Um dos grandes destaques nos portefólios de Landz e Holly.

“respeta rap bu ta anda
sima ki mundu é ka nada
bu ta flutua.. nigga rap é rua
é ka noitada.. playboyzada
exibi pa dipôs bu bem dadu banhada
rap é foda
rap é di tropas
rap é fronta
real dimás pa kes mofokaz”

Deepak Looper – Papillon

“Conhece-te a ti, conhece o Mundo
Conhece o Mundo, conhece-te a ti
Deepak Looper: olha para fora, cá dentro”

É indiscutível a presença de Deepak Looper nesta lista. O álbum de estreia, a solo, de Papillon, que até então tinha editado cinco projetos com o coletivo GROGNation, contou com a produção executiva de Slow J, que se reflete em toda a composição, ao mesmo tempo encaixando melodiosamente com o flow do MC de Mem Martins, renovado, cantado e multifacetado, que se completa com uma mensagem introspetiva, refletindo sobre a experiência de Papillon (o lugar onde vais encontrar as respostas é aqui/ na Escola da Vida) e a sua própria transformação à medida que passamos “1:AM”, “Imediatamente” ou “Impasse” (single com direito a vídeo), até “I’m The Money”, “Iminente” ou “Metamorfose Fase II”, outra das músicas abençoadas com videoclip

Com a particpação de Slow J, Holly, Lhast, Fumaxa e FreshBeats na produção e a colaboração de Plutónio na faixa “Iminente“, (com um dos melhores videoclips do ano), este longa-duração chegou em fevereiro aos ouvidos do público, assumindo-se desde logo como um forte candidato ao título de melhor álbum do ano, sem existir sequer competição – com múltiplas camadas e múltiplas histórias, não se restringindo em regras ou géneros.

Em entrevista para a Hip-Hop Rádio, quando do lançamento, Papillon afirma que “para mim, música acima de tudo é tu teres o poder de expressar, e quanto mais liberdade tu tens para te expressar mais “poder” tu tens como artista“. Dotado de um arsenal lírico potente, com a ajuda dos instrumentais aparados por Slow J, o MC dos GROGNation deixou no estúdio – e no CD – uma garra e uma vontade que deixou os fãs insatisfeitos. À Rimas e Batidas, Papillon explica que “o álbum é um deep loop e é o que eu acho que aconteceu na minha vida para poder aprender as coisas”.

No fundo, Deepak Looper é um dos melhores álbuns de estreia dos últimos anos – com o brio de um MC nada rookie no jogo, iluminando o caminho à medida que dispara rimas, muda de flow e canta com o acompanhamento tão bem limado por Slow J.

“ser ou não ser, deixou de ser questão
as respostas para os meus problemas sou eu
já tava na hora de acordar p’ra vida
música foi o impulso que a minha alma deu
imediatamente deixei de ser imbecil
e passei a seguir o íman interior
caguei na pressão social
primeiro as impressões que me faziam sentir inferior
sentir-me num impasse entre o quase e o fracasso
preso, nesse loop irreversível
imagina um gajo querer ser imune a tudo isso
e depois saber que é impossível
porque eu sou o todo, e o todo sou eu
casa organizada, harmonia caótica
I’m peace, love, money, health
também sou todo o inverso dessa ótica
apenas imito os malabaristas
numa mão tenho o yin, noutra mão tenho o yang

e vejo a importância do insignificante
e a insignificância de ser importante
e o importante é encontrar o diamante
que se esconde por detrás de cada instante

e com um diamante esculpir
a melhor versão em relação àquilo que eu era dantes
se eu morrer, isto é p’ra sempre
daqui p’á frente a mudança é iminente
se é p’a mudar então que seja agora
deixa o rap embrulhar o rap do presente
impec porque isto não é certo ou errado
é apenas uma perspetiva ou mindset
p’ra cada um usar conforme a sua vontade
p’ra cada cabeça o seu capacete”

 Auto-Sabotagem – Nerve

Deserto” foi o primeiro aviso – uma faixa solta que acabou por ser o single de Auto-Sabotagem, o sexto projeto de Tiago Gonçalves, escrita, produzida e gravada por ele mesmo. Seguiu-se “Chibo“, uma das músicas que acompanhou Nerve em concerto, versão à’cappela, durante os meses que antecederam o EP de seis faixas, constrúido de raíz pelo MC, masterizado por Zé Quintino, também conhecido por Dwarf. “”Plâncton“, “Loba“, “Simone” e “Breu” compõem o restante EP, que sucede a Trabalho e Conhaque ou A Vida Não Presta & Ninguém Merece a Tua Confiança, de 2015 e que, bem ao jeito de Nerve, se diluem em conceitos, troca de sentidos e metáforas, numa forma de expressão cunhada há muito por Tiago dentro da cena nacional de hip-hop que, neste caso, tanto se mistura com poesia (O demónio mora ali na porta em frente à porta em frente à minha).

Da crítica de “Loba” à eulogia de “Simone”, a auto-sabatagem de Nerve é a sua erosão interior, a degradação crescente que cresce nas rimas e nos versos acutilantes com que espezinha uma atípica forma de vida, enaltecendo-se na genialidade das suas letras (“Hey, hei-de viver longe deste meio frio/ onde firmei novo quando experimentei pôr voz na batida e reinventei fogo“), na excelente simbiose que passa dos instrumentais para a voz, tornando-se este EP numa verdadeira prova do trabalho de luxo que Tiago Gonçalves tem desenvolvido – marcando o seu regresso depois do sucesso de T&C/AVNP&NMTC.

Na última faixa, o “sacana nervoso explica”: “Eu faço música que dói/ faço música que mói ouvintes/ faço música morta e mostro ao vivo“. E continua: “Faço música danada, para nada“. Auto-Sabotagem é muito, quase todo ele, isto: o sujeito poético que nasce nos versos e nos palcos que Nerve percorre iluminando-se e escurecendo ao mesmo tempo, dançando no limiar, no espetro da virtude e do defeito, do perfeito e do imperfeito, do que é dele e do que é de todos. É música – limada ao detalhe, “música para ler com olhos de ouvir”, embelezada por produções vibrantes e pela aura carismática indivisível da música de Tiago Gonçalves.

E “próps p’ó Nietzche”.

“prioridade é outra
sei lá, um reino e um ceptro?
por ser um rapper e ter um cérebro?
será que isso não pesa na balança
e a minha última esperança
neste teatro de revista onde a minha rúbrica te cansa
é fazer música de dança?
pois que morra”

Lista de Reprodução – Colónia Calúnia

“sê bem-vindo à sauna do meu crânio afável”

Algures nos labirintos e recantos da música não-convencional, longe dos holofotes do mainstream, com uma fome insaciável de criar e lançar, comprovada pelo reportório de oito (!) projetos lançados, só este ano (!), no Bandcamp do coletivo, surgem os Colónia Calúnia, trazendo à tona as profundezas da estética, menos experimentalista, tão bem limado por VULTO., LISTA DE REPRODUÇÃO. L-Ali é o condutor da orquestra futurística que os sete temas do disco digital compõem, com uma incisiva missão: vim cá vincar nas rimas/a condicionar o dicionário a adicionar as minhas”. Já em “Mosa Rota”, música que introduziu, uns dias antes, o lançamento, rima “tou a ver s’apuro e paro lixo/ se sacudo, separo vírus de quem vai ficar nos livros”. A crença neste “culto” é maior que a fé. E o avant-garde é o “pão nosso de todos os dias”. E isso já e dizer muito do coletivo que se atreve a abrir a [caixa] de Pandora, mas já lá vamos.

dominar beat com flow e bom tino
L o minado

No YouTube, os visuals diferem conforme a música e estão assinados por L-Ali, VULTO. e Burno, com artwork de capa de Carolina Panta. Os autores de SURREALISMO XPTO e CAFÉ voltam a unir esforços e sete novos temas saem disparados do consórcio Colónia Calúnia – “LAURA”, “SILNA” “MOSA ROTA”, “SELO”, “MICA”, “REFRÃES DE BOLSO” e “PINGADO”, dissecados por Gonçalo Oliveira na Rimas e Batidas. Se L-Ali, quando escreve, quer “é foder as métricas todas”, VULTO. não se satisfaz por menos com as suas batidas, com um registo consistente, mais maduro, artilhado com uma sonoridade que já o identifica, prova da solidez do seu trabalho – e do que viria a seguir.

As barras saem naturalmente, como balas metafóricas em versos irregulares, despistam a audição e apelam às referências, “por onde quer que olhes tens me visto, Monalisa” ou “não vejo o mar há dias”, sobre Pesca, desafiam a interpretação e aguçam esta missa que o liga a VULTO., mais uma vez, numa das mais perfeitas simbioses do hip-hop nacional. Inserida num dos mais interessantes “ecossistema” que se tem visto por cá – Colónia Calúnia, um culto a acompanhar no atropelamento sonoro que os seus sacerdotes têm alcançado no último ano.

A palavra é ácida. Incisiva. Naturalmente desafiadora, crítica – tiros no escuro num beat de merda fazem ricochete”. Tiros de’L num beat de Vulto fazem dope shit.

“faixas com conteúdo tenho tido
vejo-te a contar contido
carrossel de rimas dão-te 100 motivos
para viveres mesmo sem motivos
coragem sempre tive
a lidar com seres vivos
a dar a volta ao globo em 80 dicas
baseando a escrita
esvaziando a litra
com vasilhame em rimas

com obras giras
tens brocas?
gira”

O Vermelho – Bob, O Vermelho

Se, em 2000, dissessem a Bob, O Vermelho, que demoraria 18 anos a lançar um disco, ele não acreditaria. Um dos pioneiros do hip-hop eborense, nomeadamente no graffiti, mas também nas rimas e na cultura como um todo, com dezenas de participações, nunca deixou o hip-hop de parte, mas o caminho até O Vermelho não foi fácil. Felizmente, Bob estreou-se este verão num LP que só peca pelo atraso, mas não é no valor monetário, e sim no valor artístico, que se destaca o álbum homónimo – “rasgo a tora, faço a trouxa/ acendo a tocha no silêncio de quem me ouça“.

Editado pela Sistema Intravenoso, de Dj Sims (“Uns gajos que fazem umas cenas.”), o longa-duração de estreia do MC, que também faz parte da Matilha 401 e que tem o seu próprio projeto, Resistência Estúdio, onde divulgou muito do hip-hop de Évora (e não só) que hoje se ouve, revela-se como um marco na “carreira” consolidada de Bob, O Vermelho no seio do movimento – ainda este ano esteve na curadoria do festival O Barro, inserido no Artes à Rua. Com a participação de um leque de convidados que partem tanto da Matilha como do Sistema (“não fumo sem fogo e eu jogo chamas na mesa/ se for o gajo mais magro só se for da crew mais obesa“), tanto nas rimas, como no beat ou no scratch – Valas, Badja, Pródigo,  Mr. Razor, ILL Mike, Tchino, Uput, Perez, D. Beat, Dj Sims, Xeg, Danny Stone, Jomes Gold, Brazza, Carla Diez, OH-SHIT e Raze acompanham O Vermelho – este álbum homónimo que regressa e dá voz às raízes do movimento e à própria história de Évora, rimada também com a ajuda dos conterrâneos e arquitectada por Bob. A argúcia da Avó Matilde é samplada na intro e no skit.

O Vermelho é um dos álbuns do ano, por tudo o que simboliza e pela representatividade e qualidade das suas faixas – uma sólida composição de puro boombap, um perfume de scratch em cada tema, por vezes também com o apoio do baixo e da guitarra e barras, barras, barras (“e eu ’tou à Paco, Bandeira no teu disco/ macaco, no fato que eu não dispo/ de facto, se penso logo existo/ vim para dominar o mundo eu matei o anticristo“) – à moda e flow de Bob, O Vermelho.

Um longa-duração de estreia com muito rap do zoo e raízes eborígenasE, acima de tudo, com uma produção bem limada, muito talento nas rimas e uma vibe nostálgica para qualquer hiphop head 

“tanto papagaio sem freio,
tanto a dormir e eu sem me apagar no meio
e se for para matar nomeio
quem não faz ponta de um caralho
e anda a querer mamar no seio
d’onde é que ele veio?
vá para a puta que o pariu brindar com o António Feio”

Esquizografia – Pibxis

No final de setembro saiu também um outro trabalho de estreia, desta vez, com a produção delirante de Keso e a singularidade nas rimas do MC portuense Pibxis, cujo papel na música tem sido intermitente – uma primeira música na compilação Invicta RAP e colaboração com o coletivo Métricas de Encaixa, tendo estado, em parte, afastado até 2017, “ouvi estórias tão belas daquelas que tiram sono/ sonhava com cinderelas e as sequelas eram porno/ estava a passar uma fase muito grave no entanto lógica/ tinha a tola num caco, babaruase mitológica”, estreando-se agora com Esquizografia, um EP de seis faixas, onde se inclui “Larga o garfo”, intro instrumental. Tem o carimbo Paga-lhe o Quarto, fundado por Keso, que também desenhou a capa, apoiado na produção pelo baixo de Guilherme Lapa e, embora sem formato físico, está disponível em todas as plataformas – o vídeo do último tema, “Brownshuga”, de André Oliveira e Sérgio Carvalho, está também disponível.

Pibxis pode ser um estreante, ou um newcomer com anos de rap, mas Keso não. A produção magistral e alucinante com que o autor de KSX2016 ou O Revólver Entre as Flores tão bem abraça as barras do rapper de Matosinhos alimenta um EP que só peca pelos minutos, um trabalho difícil de digerir, esquizofrénico e, como o nome indica, esquizográfico. Em entrevista a Alexandre Ribeiro, na Rimas e Batidas, Pibxis explica o processo de criação e o contexto em que surge Esquizografia:

“Com este EP pretendo fechar um ciclo da minha vida em que me vi condicionado por um estado mental que não era o mais saudável. Grande parte das letras foram escritas em alturas de crise e são por isso uma catarse de delírios e euforia na primeira pessoa. Pretendemos passar uma ideia de psicadelismo em toda a estética musical do álbum, algo que foi conseguido graças ao génio de Keso. Para além disso, este EP pretende ser uma dedicatória a todos os que sofrem, sofreram e sofrerão com doenças mentais.”

A atenção ao detalhe é exímia, seja no toque “iluminado” que se ouve em “Medicamentos” (“mas eu tenho de perceber que não posso/ estar em todo lado e dar no rap/ se há coisa que bate certo é o meu batimento/ vou usar o meu flow para sair deste sofrimento”) ou na narrativa claustrofóbica que as rimas de Pibxis limam em “Tóxico”. Em “Absurdo”, o MC tem um verso que pode explicar toda a música que aqui se ouve: “só vim lançar versos na desordem, não estou mais para ser o que outros comem” e acrescenta ainda “rimo o meu propósito, hoje acordei e senti-me mórbido”. É toda uma aura que se instala, uma nostalgia que se deixa ficar e que se euforiza no último tema, mas, acima de tudo, é uma ode e um projeto musical com muita qualidade, a prova final do potencial de Pibxis. 

“dou-te a dica mesmo à lei do retorno
já não sofro sem a tipa e digo-te é dor de corno
se eu pudesse ver a chica eu juro-te voltava ao nono
e não fazia o mesmo, fazia o dobro
parei no tempo em que me fez pensar na pausa
hoje clico porque não sei pensar sem browser
eu ‘tou na casa desde o tempo do Bowser
‘tás p’lo efeito, eu ‘tou pela causa”

Áquem-Mar – Subtil

Subtil, a.k.a. 100Nome, título com que primeiro se apresentou, quando da sua ligação à Kimahera, editora algarvia (com temas como “Simplicidade“) aliou-se no ano passado aos concertos do coletivo de Sines, Alcool Club, assim como aos instrumentais que Praso colocou à sua disposição na label ARTESANACTO. Dos temas a solo à participação de RealPunch, TOM, Mass, Dani, JV e Odeo foi um pequeno passo, mas os MC’s só participam em dois dos doze temas do LP Aquém-mar. Curiosamente, também Montana e RichardBeats contribuem, cada um, com uma produção, em “Eu Vou” e “Domingos“, respetivamente. Todo o restante disco tem o selo exclusivo de Praso, uma das suas grandes influências – “Já rimava antes dos 16, mas faltava-me algo/ estilo jazz, aquele baixo só em beats do Praso“.

Aquém-mar é o primeiro longa duração de Subtil, que percorre múltiplos caminhos com as suas rimas ácidas e corrosivas, disparando críticas às vissicitudes da vida (“tu não mudas, no máximo limas arestas/ no mínimo eles dão o máximo para provar que tu não prestas“) e reafirmando uma paixão notória ao movimento em cada verso – “eu já sou feliz a rimar noites completas” – e narrando a sua própria história e as suas aspirações, como em “Estrelas” ou “Por um triz” para além do single “Cada Um”, publicado, com vídeo, em fevereiro – “hoje eu vejo toda a gente como eu via antes/ ainda escrevo rap no meu dia de anos/ uma tigela de arroz, deus cá me pôs, acredito todos os dias são importantes”.

Está aqui um dos melhores álbuns de estreia dos últimos anos – para além de Deepak Looper, nenhum disco vindo de um newcomer como Subtil teve tanto destaque e tanta qualidade, mas compreende-se: o MC algarvio “já rimava antes dos 16”, tem uma escola de luxo ao seu lado (“não sou velha nem nova eu sempre fui expulso da school), apadrinhado por produtores de excelência, todos os dias escreve uma letra, esteve também recentemente no radar nacional com o tema “Mon(chique) – Eu vi o sol nascer” e prepara-se para apresentar este álbum no Titanic Sur Mer, a 28 de dezembro, na companhia de Praso e Fred Mineiro. É um poeta e um freestyler – o que, segundo “A receita“, só pode dar MC.

Áquem-mar, um LP pensado e produzido por Subtil e Praso no ARTESANACTO.

“eu já não sei, mas se tu sabes diz-me
o porquê de tanta inveja e tanto cinismo
ficou dez anos no meu canto hoje o meu íntimo diz-me
pa’ ir com tudo eu não nasci pa’ bulir no turismo”

https://www.youtube.com/watch?v=4_Xl2SabeBU&list=PLF374FfAS_kioVqSaFu0SxT8zn1cJ2y0R

Mechelas – Sam The Kid

Foi em 2016 que Sam The Kid, um dos maiores representantes do hip-hop nacional, pai de um aclamado Pratica(mente), talvez o disco mais icónico do movimento português, ergueu uma plataforma que prometia dinamizar e divulgar o seu trabalho, seja musical ou informativo, e fincar raízes enquanto um dos principais veículos de partilha da cena atual. Tinha – e tem – o nome de TV Chelas, uma referência ao local onde o MC cresceu e se estabeleceu. Em três anos, 18 faixas contaram com o carimbo da plataforma, iniciando com “Caravana” e terminando com “Sendo Assim”. Todos os temas lá reproduzidos contam com o instrumental do próprio STK, dispersam-se em múltiplas colaborações e, por ordem de lançamento, deram forma ao álbum independente Mechelas.

Boss AC. Sir Scratch. Beware Jack. Bob da Rage Sense. Francis Dale. Zuka. Bispo. Maze. Daddy-O-Pop. Muleca XIII. Nameless. Karlon. GROGNation. Lancelot. Blasph. Ferry. Kid MC. Sanguinário. Hernâni. Phoenix RDC. E o próprio Samuel. Todos eles contribuíram para as respetivas faixas, todos eles emprestaram um pouco da sua singularidade (“promessa de andar na praça não passa, eu partilho a tocha”) à compilação de três anos onde Sam The Kid só rima (com a exceção de alguns refrões ocasionais) na primeira e… na última, “Sendo Assim”, o primeiro tema a solo, quase dez anos findados, uma música que imediatamente se tornou a faixa de 2018, com barras que serão ecoadas até à eternidade – ou até o tempo o permitir. Afinal, “no meu ofício o que é difícil é manter silêncio”, e Samuel Mira nunca o esteve: partilha palcos com Mundo Segundo, prepara Classe Crua, com Beware Jack, produz e escreve a tempo inteiro, dispõe de variados podcasts no seu canal, pretende também reeditar Pratica(mente) em vinil e CD e tem agora este Mechelas à venda, por dez euros.

Do crioulo de Karlon ao “brasileiro” de Muleca XIII ou Zuka, dos guardas da velha turma, como Nameless, Ferry, Sir Scratch ou Lancelot, das rimas aguçadas da nova escola – GROGNation, Bispo, com a perícia de Phoenix ou Bob da Rage Sense, todos os temas, previamente divulgados, enquadram-se, por fim, no conceito que STK tentou dar ao álbum, como explica em entrevista à NiT. Entre samples e versos, este disco – ou compilação – marca o regresso ao formato físico de um dos mais importantes MC’s da nossa história, o culminar de um projeto que não tem data para terminar e, voltando ainda à famosa música, um tema a solo, que há tanto tempo os fãs pediam.

“Mas só quando começas a escrever a primeira frase é que começas a perceber por onde estás a ir: “há um silêncio que ainda me ensurdece”. Depois fiquei ali bué tempo só com essa linha, o que é que vou pôr a seguir?”


– Sam The Kid em entrevista à NiT.

Mechelas tem de ser um dos trabalhos do ano, ainda que grande parte dos seus temas tenham saído em 2016 e 2017. Mas é o produto final que conta. A arte. E, nisso, não há ninguém comparável a Samuel Mira no hip-hop português, o rapper e produtor que influenciou uma geração e se dá a conhecer (embora duvide que seja preciso) a uma nova camada de ouvintes de hip-hop. É um retorno. Uma mistura eclética onde é narrada “ A História” de um género, “De Experientes a Amadores”, “Eternamente”. E, “sendo assim, a cena sai sem pressões”. Porque tudo o que tem saído das mãos de STK não precisa de explicação.

“vi sonhos divinais
vi mil desilusões que trazem muitos afinais
o assédio não me embala e eu na calma nem respondo
a um armazém que esconde almas em desconto
prefiro fazer trips invulgares no meu KITT de cinco lugares
vou para longe, não me fixo em ver clicks e polegares
e eu só digo obrigado, por viver com agrado
por ter uma vida assim e não assim ao quadrado”

Santa Rita Lifestyle – Conjunto Corona

“Santa Rita Lifestyle (o 4º álbum de originais do Conjunto Corona) é a glorificação de Valongo, Ermesinde, Gaia, Trofa, Santo Tirso, Gondomar, Vila do Conde e até de Rio Tinto. Santa Rita Lifestyle é a religião onde as missas são substituídas por idas às bombas num Civic às duas da manhã para tomar café e fazer a rotunda de gazão com as sapatas a poliçar. Santa Rita Lifestyle é o sangue de Corona que será derramado sobre vós, agora e para sempre, ámen.”

Não acredito que haja outro grupo capaz de organizar o pré-lançamento de um álbum através do Facebook, marcando encontro num posto de combustível em Valongo e colocando Santa Rita Lifestyle a bombar nas colunas do carro, atraindo meia centena de pessoas e – muito originalmente – dedicando o álbum a “toda a gente que gosta de ir às bombas de combustível tomar café às 2 da manhã. De Honda Civic.” Estes “meninos” fizeram-no.

Há muito que o coletivo portuense Conjunto Corona tem dado cartas no hip-hop underground, iniciando o seu percurso com Lo-Fi Hipster Sheat, em 2014, voltando no ano seguinte para mais Lo-Fi, desta feita Hipster Trip, e depois em 2016 editam Cimo de Vila Velvet Cantina. Quando tive a oportunidade de ver um concerto, em 2017, fui obrigado, por descargo de consciência, a alterar a lista de melhores concertos de hip-hop português que já vi. “O Homem do Robe”, dB, produtor de excelência, e Logos, experiente MC, ex-Raíz Urbana, onde lançou três álbuns (metade dos trabalhos que editou a solo), são “muito gentis”, capazes de criar uma atmosfera incrível tanto dentro como fora de palco, agilmente desdobrando-se em temas que orgulhariam qualquer habitante do Grande Porto, distribuindo hidromel ou separando confrontos entre os fãs – que, provavelmente, estariam a discutir qual a melhor faixa de Cimo de Vila. Esta foi a minha experiência, mas aguardo pacientemente dois concertos já programados para 2019 para apreciar, ao vivo, o seu quarto álbum, Santa Rita Lifestyle, editado pela Meifumado Fonogramas em outubro.

Edgar Correia rima com o uso de expressões e chavões típicas da cidade invicta, num habitat de temas religiosamente ligados a uma imagética descontraída, despreocupada (“eu não bebo coca-cola, eu snifo”), desconcertante, apaixonante – é a afirmação da identidade portuense, afinal, a remontada, bairro acima, sem papas na língua (“- Para que é que eu preciso de Deus? – Tu andas com estes símbolos, aqui. – Isto são bandas de música, meu”) ou algo a esconder, temas dedilhados por David Bruno, recheado de samples e melodias “à moda do Porto”. É no panorama da cidade nortenha que este disco se foca. Na sua essência. Até os convidados a representam – Fred, Barra, Kron, 4400 OG e PZ: “perdido na Variante a pensar em ti/ e às tantas, saio ali nas Antas/ a fumar umas plantas Bem boas, mas só tu é que me encantas”.

E é, mais uma vez, Conjunto Corona com um dos álbuns do ano, uma Santa Rita Lifestyle recheada de boa música, a playlist de-quem-vai-fumar-à-varanda-de-madrugada, doze temas, samples de entrevistas que acrescentam ao álbum a vivacidade típica da dupla.

“ser G ou não
ser G, eis a questão
penso nisso enquanto fumo um pavão
sentado no sofá em frente à televisão
decido ir à rua de chinelo e calção
com ditas ideias de AVC ou depressão
meu Deus, tanta agitação
meu Deus, tanta agitação
maro a olho vivo rappers de revolução
enquanto volto a casa a fumar outro pavão”

[caixa] – Colónia Calúnia

“Algures nos labirintos e recantos da música não-convencional, longe dos holofotes do mainstream, com uma fome insaciável de criar e lançar” – bem, em LISTA DE REPRODUÇÃO já deu para passar a mensagem. Colónia Calúnia não tem fronteiras, não tem limites, não tem amarras. E, mesmo trocando os intervenientes, a destreza nos pratos ou no microfone é sempre a mesma, a produção excede as expetativas a cada projeto. Depois de quase uma dezena de projetos, abrem, por fim, pela habilidade de Metamorfiko e Secta, a [caixa] de Pandora que já fazia falta ao hip-hop nacional, a libertação de todos os males, todos os pecados, todas as assombrações que tão bem dignificam a arte e a vil forma de revolucionar o conceptual, o conivente. Rui Miguel Abreu descreve este disco com uma crítica excecional:

 “[caixa] exige atenção. Cospe na cara, chuta nos tomates, grita nos ouvidos. Não admite distracções. Não dá para ouvir a fazer o jantar ou enquanto se está de olhar perdido na janela que desenrola o caminho que falta para chegar a casa, ao sofá. Escutar no escuro, sem estímulos externos, é a melhor maneira de entrar neste labirinto de sons, de sílabas, de ideias, de nós de sentido, de pequenas torturas ao pensamento. Dói, mas é bom. Custa, mas é de borla.”

– Rui Miguel Abreu em Rimas e Batidas

É difícil escrever sobre este álbum depois de ler o elogio acima. Resta descrever [caixa] da maneira mais literal: “Caixão” antecipou o lançamento, acompanhado por vídeo da Uppercut (“Cócegas”, pouco depois, também teve direito a clip). Seguiram-se 13 temas, onde também um sacana nervoso conhecido por Nerve, L-Ali com a sua “caneta_b”, que habita regularmente nos lançamentos do coletivo ou Tilt, um dos eternos senhores do underground, emprestam flows e rimas que tão bem se conectam aos versos vorazes de Secta e aos loops e beats de Metamorfiko. Sem pudor – “rap tuga/ parece um Pokémon/ e joga poker com/ plateias que se cagam p’ó que é bom” – ou desatenção –  “hip-hop ‘tá morto ou vivo/provavelmente paguei bilhetes para ver um morto ao vivo” – Colónia Calúnia – “culto” – mostra-se cada vez mais digno de religiosa atenção. É indiscutível que não há nada parecido com este coletivo a atuar em Portugal. Terminam o ano com múltiplos trabalhos editados no seu Bandcamp, num momento em que são anunciados para o festival ID, em março, e onde só fazem falta, claro, Jota e Pesca a contribuir para gáudio dos fãs mais fiéis – e dos que estão, certamente, por vir. Caso não venham, não me parece que os planos de Colónia Calúnia se alterem: afinal, isto é arte pela arte e a arte não necessita de qualquer tipo de atenção para existir. Existe por ser diferente, nova, única.

Talvez seja essa a definição de Colónia Calúnia. Cada vez mais reinventando a forma de manobrar palavras e instrumentais, qualificando-se a entrar no altar de arte que se o seu culto se prepara para erguer, construindo uma estética sólida, ainda que nunca literal, nunca fechada, pois a [caixa] já foi aberta, o hip-hop nunca mais será o mesmo assim como certas colunas nunca mais filtrarão a música da mesma forma depois de sentir os males encantadores que Secta e Metamorfiko depositaram sobre nós.

Algures a meio do disco, num instrumental fantasmagórico e, por isso, “fantástico”, o rapper da Marinha Grande deixa a derradeira questão: “acham-se muito espertas, então digam-me: qual é a cor do céu da boca de um estrunfe?”. Quase no final, remata um verso com “atenção peço um minuto de mute mútuo”. Não requer interpretação. Mas pede silêncio. É só escutar.

“Este é o melhor disco do ano que quase ninguém vai ouvir. Mas a árvore que cai na floresta mesmo sem alguém por perto para ouvir a queda também rende uma boa fogueira se houver quem lhe chegue um fósforo… é só abrir a [caixa].”

Rui Miguel Abreu em RImas e Batidas

“vou roubar igrejas, fazer tráfico de órgãos
mete aviso parental e aqui boy vou só rimar para órfãos
brevemente perto de ti quando ouvires este
feat viral, olha Secta ali
como o Jota diz os
xhakras fazem-te esquecer tudo quando os alinhas
mas lembra-te que eu sou Deus quando usa linhas”

https://www.youtube.com/watch?v=bviiUMsiGmw&list=PLC2Ck2WPv2rke5M4KnenAHmXXrI_5nLkM

Inter-Missão – Mike El Nite

“enquanto eu existir eu vou exprimir-me mano, eu juro
se não é p’ra casa que agora eu vou
’tou em crash course no meu modo voo

Rusga em Concerto para G Menor; Vaporetto Titano; O Justiceiro. E, agora, Inter-Missão. O quarto trabalho de originais de Miguel Caixeiro é uma luz no fundo do túnel, um grito fantasioso de afirmação e experiencialismo, um confronto simbiótico de sonoridades, que reclama as raízes do nosso fado em “Carmen”, com a voz de Rita Vian  (Beautiful Junkyards) ou se arrisca em paisagens e sintetizadores pela mão de Lewis M. (Salto), em dois temas do álbum de oito faixas que também marca a estreia de Mike El Nite com o universo Think Music, depois de “Dr. Bayard”, um banger que já leva três milhões de visualizações no YouTube e que saciou ligeiramente a fome dos fãs do MC e produtor de Telheiras, que suporta o conceito do álbum com a criação de uma banda-desenhada inspirada nas suas próprias experiências (Qual é a piada disso? Passar a vida a preocupar-se não é nada fixe”), com argumento de Miguel Peres, desenho de Marcus Aquino, cor de Joana Oliveira e legendagem de Ivan Rego.

Inter-Missão é um conceito – que nasce da mente prodigiosa e fantasista de um dos mais geniais liricistas e pioneiros do trap nacional, que tem todo o potencial para marcar, se não o fez já, a música portuguesa e não só o movimento hiphopiano. Para além das colaborações já mencionadas, Dwarf volta a acompanhar Mike e também J-K empresta as suas rimas para “Caixa Negra”, sendo que a participação da Monster Jinx nesta produção termina com o instrumental de Maria. O coletivo Think Music é também representado por Fínix MG, SippinPurpp, Ice Burz, Osémio Boémio e Benji Price, que entre versos, instrumentais e engenharia de som se destacam novamente na criação de uma identidade sonora e estética muito própria, sem limites ou etiquetas. E porque “antes via tudo a preto e branco”, um arco-íris surge na música de Miguel Caixeiro – Olhar apenas para extremos p’ra quê? Até um básico vê RGB”, a fatalidade do reconhecimento, a fatalidade de ser diferente num universo que cada vez mais se normaliza – “Se cada maço tem 20 nites, chama-me Nite 21”, como explica na última faixa, “L.Y.B.Y.”, um autêntico hino trap.

Inter-Missão é um dos álbuns do ano, e ainda que tenha chegado nesta reta final, já tem um lugar marcado no topo. Poderá, um dia, ser um álbum de culto, um marco no género, fruto das múltiplas fórmulas utilizadas e exploradas, fruto da mensagem musical que já não invoca um justiceiro mas um artista, fundindo-os como um só, pois é assim que se assume Mike El Nite, “zona T finest”, e é assim que a sua música sem etiquetas se difunde pelos ouvidos antigos e recentes, é assim que se dilude pela multiplicidade de flows e melodias que tornam este longa-duração num must-listen indiscutível de 2018.

Depois tive uma epifania matinal/ tipo se eu não gostar de mim, quem gostará?”. Nós, Miguel. Nós gostamos. E muito.

“não que haja cura p’ra seres infeliz
já és um boneco falta-te seres animado
chegou-te ao nariz o cheiro a anis
vou deixar o país a ponto rebuçado”


E

O hip-hop assume-se como um género dominante na atualidade nacional, necessitando por isso de acarretar com as consequências de tal apogeu. Uma delas, e podemos afirmar que é positiva, é a proatividade. Todos os anos, o número de álbuns, EP’s, mixtapes publicados – quer em formato físico ou digital – sobem. E isso é positivo para todos nós – mas, atenção:

A apreciação de qualquer tipo de arte é subjetiva. Dezenas de discos editados este ano teriam lugar em qualquer lista de qualquer ouvinte: Adrenalina, Filho das Ruas 2, Risco, Delírio do Domínio, Catarse, Rosa Dragão, GLDNSHWR, Chá de Camomila. Inshallah. Estraca. Done Already. PLAGIIO, Aversão, IV. Muitos destes álbuns estão selecionados também nos 18 melhores álbuns que Emanuel Cirne escolheu, a dedo, e analisou nas duas últimas emissões do Mais Uma Sessão, assim como na primeiro emissão do Rapresentação de 2019, que faz a retrospetiva do ano que está a terminar. 

E ainda bem que assim o é. Afinal, “o que é difícil neste ofício é fazer silêncio”.

Um bom ano para todos vocês.

3 thoughts on “Guia HHR: em dia de festa e Natal, atesta a barriga, não faz mal”

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