Hip Hop Rádio

Guia HHR: a (outra) história do hip-hop tuga

No início deste mês, em pleno Dia da Mulher, teve lugar na Altice Arena um concerto único nesta cronologia que o hip-hop tem delineado ao longo dos anos, mais precisamente desde 1994, ano de lançamento da emblemática compilação RAPública. Mais de quarenta artistas, desde os MC’s e os Dj’s até aos writers, b-boys e b-girls, subiram a palco nessa noite para representar um pouco da sua marca na História do Hip-Hop Tuga – e a Hip-Hop Rádio fez questão de acompanhar a festa de perto, tanto antes como depois. Foram quatro horas de concerto e muitos e muitos êxitos – (quase) tudo disponível para visualização aqui. Não obstante, é claro que nunca nenhum evento conseguiria acumular todas as músicas que escreveram a “nossa” história. São centenas de hits que cimentaram o movimento e o fizeram chegar ao patamar atual, e dezenas de artistas que, por vários motivos, não estiverem presentes no line-up, muitos deles homenageados pela própria organizaçãoPara o Guia Hip-Hop Rádio de março, destacamos as músicas que constroem a (outra) história do hip-hop tuga, ao mesmo tempo que tentamos construir uma (outra) linha temporal do rap português.

(Este ensaio termina sem conclusão e, por isso, sinto-me na obrigatoriedade de fazer uma ressalva prévia: o facto deste ensaio ser possível é a prova viva de que o legado conquistado e a marca deixada na música nacional pelo hip-hop não tem limites de qualidade ou quaisquer fronteiras sonoras. Desde os anos 90 a criar arte sem barreiras.)

O primeiro nome desta lista é indiscutível: General D, que se apresentou com a sua banda, na Altice Arena, com a maravilhosa “Black Magic Woman“. Também do mesmo ano, do EP homónimo, “PortuKKKal é Um Erro” é outra das faixas que marcam a carreira do pioneiro – e, se olharmos pela perspetiva de que o rap nasceu da intervenção, podemos, talvez, dizer que esta é uma das primeiras faixas de cariz político do movimento? Desde o refrão “governo quer bumbo“, até às várias acusações sobre o racismo em Portugal (desde logo, o título da música), “Portukkkal é Um Erro” pode não ser um clássico no sentido lato da palavra, mas é, sem dúvida, um tema icónico do portefólio de um dos primeiros MC’s nacionais.

Dez anos depois – não ignorando os vários projetos lançados no entretanto, onde se incluem os veteranos Mind da Gap, Chullage, Boss AC ou as mixtapes de Bomberjack, todos eles presentes na Altice Arena – chegamos a 2004. Também lá esteve Carlão – também conhecido como Pacman, nos seus tempos de Da Weasel. E é precisamente com eles que nos chega outro dos grandes êxitos, uma das faixas mais repetidas da banda, “Re-Tratamento“, do disco Re-Definições. Um tema que, não obstante o sucesso já conquistado pela banda, os catapultou, em definitivo, para o topo do mercado e da música nacional e que colocou uma geração a cantar “Olá nina, quero tratar de ti/ Dar-te um mundo e o outro, tenho tudo aqui“. 

Um videoclip de hip-hop na SIC Radical? Claro – “Brilhantes Diamantes” foi um sucesso instantâneo e uma música que todos os adolescentes da década decoraram. O tema, divulgado no disco homónimo de Serial, conta com as rimas astutas de Maze (dos Dealema) e Ace (dos Mind da Gap, tal como o próprio produtor) e fez parte da banda-sonora da novela juvenil “Morangos com Açúcar”. A história do hip-hop tuga nunca ficaria completa sem esta faixa que tantos ouvidos abriu a um novo género musical que agora tão habitual nos é – à data, tinha sido aberto “o trinco, da porta do labirinto“. E dou por mim a trautear a letra depois de escrever este verso. É inevitável, “sai-me por instinto“.

A one night stand de Valete e Vanessa é já uma lenda no movimento. “Roleta Russa” é um tema do álbum Serviço Público e, muito provavelmente, o tema de Keidje Lima que a mais pessoas chegou. O rap do MC da Damaia atinge aqui um estatuto considerável, muito graças à exímia arte de contar histórias. “Olá Valete, o meu nome é Vanessa” é, sem dúvida, um dos versos mais repetidos do hip-hop nacional, e a faixa uma das mais propagadas na cena musical. E, ainda que tantos outros temas de Valete estivessem aptos a representar 2006, esta “Roleta Russa”, cuja moralidade final é também uma das virtudes que a tornou tão popular, representa um step up – ainda que demorado – no rap, destacando-se como um dos grandes temas do auge de Valete.

Também neste ano, os Nigga Poison editam Resistentes, álbum onde se inclui este tema, “Deixa Di Leru Leru“, um dos mais aclamados sons da dupla Karlon e Praga, formada ainda em 1994 e que já levava um EP e múltiplas colaborações no seio da comunidade. É uma das expressões musicais em língua crioula que mais se popularizou, tornando a dupla uma das mais lembradas do rap nacional, e este grande tema um dos clássicos made in Bairro dos Húngaros e um verdadeiro “tesourinho” no gigantesco baú que é a história do hip-hop tuga.

(N.R.: a icónica “Life Di Poison” também merece a devida atenção.)

Allen Hallowen. É impossível não reconhecer este nome. “A Bruxa” de Odivelas começou a rimar em 1999, mas o primeiro disco “nasceu” em 2006: Projecto Mary Witch, de onde surgiram temas como “S.O.S. Mundo”, “Fly Nigga”, “O Exorcismo de Mary Witch” ou a belíssima “No Love“. Contudo, é impossível esquecer o exemplo de um exímio storytelling: a história de um “cidadão do inferno“, um “Dia de um Dread de 16 anos“, uma música de mais de dez minutos sobre a “violência e delinquência” e a corrupção e racismo policial, enquanto narra as vicissitudes das ruas de Odivelas, encontrando-se com o dealer Dino Diacho ou com Varela, “felino desgraçado“, relembrando Bianca e Cinderela – “a dar o rabo para comprar cavalo“. Um clássico. 

A banda portuense Mundo Secreto não é, por certo, um típico e convencional grupo de hip-hop. Em 2006, quando do lançamento de “Põe a Mão no Ar“, eram quatro MC, dois guitarristas, um baixista, um teclista, um baterista e um DJ. O single, que fez parte da banda sonora da novela juvenil “Morangos com Açúcar”, acompanhou, assim como o próprio programa, o crescimento de toda a uma geração e foi depois, em 2007, introduzido no álbum homónimo da banda, o seu disco de estreia, onde também esteve incluído o tema “Chegámos à Party“. No Verão seguinte, os Mundo Secreto foram convidados a criar o genérico de uma nova temporada de “Morangos”, o que lhes granjeou novo reconhecimento nas rádios nacionais.

Depois da “1ª Jornada” e do “Tira-Teimas“, O Da Vila reapareceu com as mixtapes Kara Davis, em 2007 e 2009, ambas misturadas por DJ Kroniko e nascidas no seio da Horizontal Records, de Valete, com quem Regula já rimava – a dissecação completa da carreira do MC aqui. O vídeo acima é de “Kara Davis“, o single homónimo da primeira das mixtapes, editada em 2007, onde o MC dos Olivais rima sobre um instrumental de Ron Browz, onde também rimara 50 Cent em “I’ll Whip Ya Head Boy“. O tema soa – e é – a clássico instantâneo, mas Regula tem esse “toque de Midas”. O tema também constou no reportório de concertos do artista nos anos seguintes, e as “barras” bairristas e competitivas de Don Gula sempre foram cativantes.

Dialectos de Ternura” é uma das músicas do álbum Amor, Escárnio e Maldizer, dos Da Weasel, sucessor do multi-platinado Re-Definições. É outro dos temas que mais atenção obteve do público nesse ano, a par de “Toque-Toque“, e ganha um especial destaque por ser o último álbum de estúdio da banda, extinta em 2010. Composta por Pacman – atual Carlão -, Virgul, Jay-Jay, Quaresma, Guilherme Silva e Dj Glue, são ainda o mais emblemático coletivo nacional – com um registo notável a todos os níveis, da proatividade à qualidade, atuando como banda e conquistando um espaço cimeiro não só no hip-hop nacional como na cena musical do país. “Dialetos de Ternura” foi um dos seus últimos êxitos e merece ser recordado.

(Tenho uma memória bonita de um concerto bonito, de um velho ancião chamado Mundo Segundo. Lembro-me perfeitamente daquele momento em que entendi o que se estava a passar: iniciava o instrumental de um dos temas mais icónicos do coletivo dealemático, mas o MC não precisou de cantar. Ficou a olhar para nós – o público – com um olhar enternecido (juro!). Cantámos a música até ao fim – e Mundo e Maze a olhar para nós, sem rimar, porque não era preciso. Parecia que toda a gente sabia todos os versos de cor. Não foi só o fantástico refrão. Mas o tema por inteiro. Alguns afinados, outros aos berros. Mas todos em uníssono, do princípio ao fim. Tenho a crer que, naquela noite, um par de anos para lá de 2008, a sala estava lotada com a “Escola dos 90“.)

Alma & Perfil, de 2009, foi um disco “feito à mão”, como a própria label indica – ARTESENACTO, de Praso, já viu surgiu muitos projetos de excelência do seu seio, mas o disco do MC e produtor sineense é um marco no registo do selo editorial de Daniel Jones, que o reeditou em dezembro do último ano e que tem um novo disco pronto para sair a 25 de abril, de “Livre e Espontânea Vontade“, para descobrir mais aqui. Desde as batidas jazzísticas de Praso à coleção de samples presentes no disco, a qualidade e, principalmente, singularidade do álbum são facilmente identificáveis. Além disso, é daqui que saiu “Qualquer coisa e um pouco de jazz”, uma música bem conhecida do público mais atento e talvez a faixa mais famosa de Praso, a par de “Tempo, Amor e Saúde” e dos vários trabalhos enquanto Alcool Club

Ninguém se pode esquecer de no que toca ao pioneirismo no hip-hop portuense. O b-boy e MC, em conjunto com M´Cirilo , Buli 2B e P1, formou o coletivo Barrako27, onde sempre foi a figura mais influente e onde atingiu um estatuto intocável no movimento. “Abraço Forte” é dos temas mais intensos do grupo, em honra “aos meus manos, e a todos os anónimos que, de uma forma ou outra, contribuíram para o nosso regresso”, diz o próprio Né. No portefólio contam-se 12 trabalhos, sendo o mais recente Idade do Gelo, de 2017. “Abraço Forte” faz parte do EP Arte de Viver, de 2010. Um clássico sentido e em muitos concertos o tema mais esperado da noite, um verdadeiro agradecimento aos deuses do hip-hop.

O quinto disco de originais dos Mind da Gap, A Essência, foi editado em 2010, sendo o penúltimo álbum do coletivo portuense. “Não Pára” é uma das faixas que, a par da canção homónima, mais entusiasmo gerou por parte dos fãs, também por culpa – ou responsabilidade – de Valete, que subiu ao Norte para rimar com Ace e Presto e com Serial nos pratos. Desde o refrão sobre o “movimento, não pára, segue sempre segue, segue, quando arranca é para a frente” às rimas ácidas que o MC da Damaia emprestou (“e hoje o teu filho é um homem com dois H’s“), “Não Pára” é, sem dúvida, um tema familiar para qualquer hip-hop head e uma carta de demonstração sobre a identidade do rap dos Mind da Gap e de Valete.

E estamos novamente no Porto, mais precisamente em Vila Nova de Gaia e, um ano depois do “Abraço Forte” dos Barrako27, é a vez de Mundo Segundo, no segundo volume da sua mixtape homónima, escrever e rimar sobre “um grupo de amigos, alguns dos quais já nem se encontram vivos“. Os versos do MC dos Dealema percorrem alguns episódios sobre a juventude e enumera alguns dos amigos de Mundo e o seu “desfecho”. É um tema muito sentido e, mesmo inserido num disco com tantos temas de culto para a comunidade, tornou-se um ícone de tristeza e saudade e, por consequência, esperança: “Nada se perde, manos, e tudo se transforma/ e a batalha é infinita para quem não se conforma“.

As costas já não me doem muito… eu acho que o doutor deu-me Drunfos“, rimou Allen Halloween em 2011, para o seu álbum Árvore Kriminal, e os fãs rimaram com ele. Numa era onde a produção audiovisual começava a ganhar uma força maior e a invadir o mundo do rap, o ambiente soturno e a marginalidade das barras de Allen deram asas a um videoclip e à posterior aclamação do tema “Drunfos“, single e êxito do disco onde também se inseriam as canções “Killa Me” e “Um Jardim à Beira-Mar“, que regularmente constaram do alinhamento dos concertos do MC de Odivelas e, por mais uma vez, o colocaram nas colunas e playlists de milhares de ouvintes que acompanham “Hallowen Portugal most wanted”.

O Revólver Entre as Flores é, muito provavelmente, um dos trabalhos mais underrated do hip-hop nacional. O disco de Keso, que cantou o seu “Underground” na Altice Arena e que já se tinha estreado, em 2003, com Raios te Partam, é um trabalho coeso, pulsante e eclético em toda a sua composição, com excelentes produções e um lote incrível de convidados, de Nerve a Dj Kwan, que instrumenta “Eternamente em cena“, um dos temas que torna este álbum uma relíquia musical tão especial. Foi o regresso de um “Belarmino de volta ao ringue” – uma prova viva que o talento em Keso nunca faltou, quer no microfone, no beat ou nas tags, e que estamos perante um excelente disco, a par do mais recente KSX2016, que finalmente lhe garantiu o reconhecimento merecido.

Casanova” é talvez a música mais “comercial” da cultura hip-hop. Passou nas rádios nacionais, em todas as discotecas do país, atravessou fronteiras com a sua sonoridade e o jeito braggadocious de Regula catapultou o rap para o topo de vendas. O tema consta do disco Gancho, o opus magnum de Tiago Lopes, editado pela Superbad. Records, com a participação de Leftside e produção executiva dos Fyah Box Sound. As rimas ácidas (“de Lisboa para Kingston até Saragoça, duas garrafas na mão, estou a roçar na grossa” ou “metem as bolas na boca e dizem que ‘tão com anginas“) e a batida a puxar à dança, assim como a versatilidade de Don Gula, foram as principais valias de um tema tão partilhado quanto este disco é bom – e recheado de êxitos e hits instantâneos que merecem esta nota. 

Se “Casanova” foi um êxito comercial, o tema “Solteiro” não lhe ficou atrás e, se alguém disser que é “em homenagem à Amy“, todos sabem responder que “é só vinho em casa“. Novamente, Regula, aparando a barba de Sam The Kid, ambos servidos por um magistral instrumental dos Orelha Negra, remisturado por Roulet. A banda editara nesse ano a sua Mixtape II, com 21 faixas e com mais de uma dezena de artistas em colaboração, onde se incluem nomes como Valete, Stereossauro, NGA ou Da Chick. “Solteiro” depressa se tornou um hit noturno e o cativante refrão de Heber foi repetido até à exaustão, mas ainda hoje perdura em múltiplos sets e no próprio alinhamento de Regula, que costuma cantar sempre o seu verso. Um clássico por classificar. 

Um tema indiscutível. É aqui que o trap em português ganha expressão, ganha novos ouvintes e é este mesmo rap que influencia a atualidade – um aplauso para o Mike El Nite, que aqui rima e produz, para o Profjam, que já rimava como “professor” e para a Hip-Hop Sou Eu, que apostou nos dois MC’s, à data tão pouco conhecidos e hoje em dia no topo do “game”, assim como para a ASTRORecords, de Vilão, que editou o EP de onde nasceu este tema, Rusga para Concerto em G Menor, sucessor de Trocadalhos do Carilho.

(Recordo a primeira vez que ouvi este tema com carinho. Nunca tinha ouvido nada parecido no hip-hop nacional. Foi o dia em os dois MC’s e as suas skills me espantaram “como um canto direto. Golo.”

(Se não se notou ainda que sou, assumo, um fã de Regula, deixo-o explícito. E este som tem um dos seus melhores versos de sempre).

2014. Regula, Carlão/Pacman e o baterista Fred, dos Orelha Negra, preparavam novidades: o disco 5-30, com o mesmo nome do coletivo que viriam a fundar para percorrer o país em apresentação do álbum, onde também colaborou Sam The Kid (em três temas) e Richie Campbell. Este single, “Chegou a Hora“, serviu como aperitivo para o disco que, por momentos, deu à comunidade a esperança de continuidade, mas mais nenhum projeto saiu das mãos da dupla até agora. Ainda assim, 5-30 é um disco fenomenal, e esta música um das mais acarinhadas – e intensas – do reportório. 

Diretamente da Linha de Cascais, Kappa Jotta. O MC, que se estreou a solo com a mixtape Violência Musical, em 2010, à qual se seguiu Joker, com Lhast, Khapo e Dj Big e, também com este, A Firma. Mas foi com “Sem Convite” que Kappa se afirmou de uma vez por todas como uma das principais figuras da nova escola – foi o seu primeiro tema a chegar a um milhão de visualizações no YouTube. Com produção de Last Hope, o tema está incluído no disco de 2015 Vírus, onde também se encontram os sucessos “Mais Feeling” e “Vens ou Ficas“, com Carolina Deslandes e João Tamura, respetivamente. Dois anos depois, surgiu Ligação, mas foi com “Sem Convite” e Vírus que chamou em definitivo a atenção de todos.

Publicado a 31 de dezembro de 2015. Diz o YouTube. Porém, só em 2017 é que este tema foi incorporado em disco, no The Art of Slowing Down, sucessor do The Free Food Tape. Esta não é uma música qualquer. Foi com ela que Slow J se tornou viral, e ainda bem. O que seria o mundo sem a arte de João Batista Coelho? Podíamos nunca vir a saber. Felizmente, houve “Comida” para todos: “97, 98, 99, 100” barras, como fizeram “os gigantes”, e uma substancialidade que há muito não se via no rap português, uma voz e um flow singulares e uma produção minimalista e extremamente limada. Ainda não passaram quatro anos e parece evidente que esta será uma “daquelas” – um marco na história do hip-hop tuga.

Em 2016, os Alcool Club, coletivo sineense, editam o seu disco Rap Proibido, sucessor de Club 120º, um dos melhores álbuns do ano e cujo single, com direito a videoclip, foi “Honesto“, com Mass. Contudo, é “Equilíbrio” que mais se destaca e que melhor resulta ao vivo, sendo sempre acompanhado por isqueiros e pelo público em coro. O tema conta com as rimas e vozes de Praso e Montana e um refrão cantado por Sara D. Francisco. A produção é também do mais velho dos dois irmãos, com trombone de Marcolino. E é nela onde também se pode ouvir o famoso verso “e se a vida me convidar a dançar, eu tenho ensaiado e vou ser um bom par”. Uma canção fundamental no registo do coletivo.

É altura de Slow J regressar para a segunda dose, desta vez com “Vida Boa“, tema produzido por Intakto e que, segundo os números, é o mais reproduzido de João Batista Coelho – “Teu Eternamente”, deste ano, não entra no balanço. E é mais um tema do disco The Art of Slowing Down, agindo como segundo single (depois de “Comida” e um demo de “Serenata“) e primeiro videoclip do alinhamento de TAOSD – segui-se “Pagar as Contas“, com Gson e Papillon, e “Arte“, que só foi divulgado no dia da apresentação do álbum – o resto da tracklist ainda era desconhecido. Com uma vibe a puxar ao R&B e um mote que se repetiu sem fim (“não quero uma boa vida, quero uma vida boa”), foi um dos êxitos de 2017.

Mais uma entrada do rap crioulo neste ensaio, desta vez com a genialidade de Landim e de Holly, que produziu o instrumental desta faixa, “Real Dimás“, single do EP colaborativo entre o MC e o produtor, datado de 2018 e chamado de HollyLandz – trabalho que figurou no Guia HHR de dezembro, nos projetos que mais se destacaram o ano passado no hip-hop nacional. Foram apenas sete faixas, com a colaboração de Allen Halloween, Bispo, Al-x, Singa, BTG ou Double Face, mas é uma paisagem sonora impressionante. E “Real Dimás” foi o maior êxito do EP, recheado de barras e melodias como Landim sempre nos habituou e com grandes instrumentais do produtor e DJ que sobe ao palco do Coachella em abril.

Um dos melhores discos do passado ano, “Deepak Looper“, surgiu da mão, voz e cabeça de Papillon e Slow J, que assumiu a produção de múltiplos temas, inclusive este single, cujo videoclip é também um dos melhores de 2018, com conceito e realização de Vasco Reis Ruivo, que também empresta a sua guitarra ao tema (teclas de Francis Dale e bateria de Fred). E, ainda que praticamente todas as canção sejam dignas de destaque (a nível pessoal, “Metamorfose Pt. 2” é a favorita), “Impasse” foi um êxito e um excelente aperitivo para um disco completo e extremamente bem trabalhado, um dos álbuns do ano para a Hip-Hop Rádio e um dos melhores álbuns de estreia (a solo) da última década, de forma inegável.

A música que faltou no final d’A História do Hip-Hop Tuga. Não por ser o último êxito de 2018 (apesar de o ser), mas pelo peso que as palavras de Samuel Mira têm no registo de um movimento, no registo desta cultura que é o hip-hop português. “Sendo assim, a cena sai sem pressões” já se tornou um mote, o próprio tema é um clássico instantâneo e o prazer é nosso em sermos seus contemporâneos. Foi o regresso de Sam The Kid aos temas a solo, ao segundo verso, às compilações (Mechelas) e ao “hip-hop puro e duro” que tanto o caracteriza. São múltiplas barras e duplos-sentidos (“poetas eram pintores”, “assim ao quadrado”, “mil e cem romanos“) e tudo aqui é “sumo natural“. É a última grande faixa de 2018 – e uma das grandes faixas da década – e, mais uma vez o repito e termino com um dos versos que mais sinto, “o que é difícil neste ofício é fazer silêncio“. E ainda bem – há milhares de temas capazes de completar esta história do hip-hop tuga. 

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