Hip Hop Rádio

GrogNation comprovam que Nada É Por Acaso

Os GROGNation apresentaram o álbum de estreia, Nada É Por Acaso, no passado dia 30 de setembro, no Porto. O Hard Club recebeu de “braços abertos” o coletivo de Mem Martins, que deu um espetáculo repleto e bem preparado, justificando o facto de terem lançado um dos melhores projetos de Rap do ano de 2017.

GROGNation Mecânica

Harold, Nasty Factor, Neck, Papillon e Prizko mostraram, na sala 1 do Hard Club, a razão pela qual Nada É Por Acaso se apresenta como um dos álbuns concetualmente mais bem pensados, no presente ano. Tanto a qualidade do projeto, como a presença em palco, são paradigma da evolução constante do coletivo e do nível de maturidade já atingido.

 

Os 5 artistas tiveram um desempenho exemplar. E não apenas no que a rappar diz respeito. Foi fácil perceber a organização dos MC’s. Estrategicamente posicionados, a coordenação em palco denotou o cuidado tido para que não houvesse confusão ou atropelos na hora de cada um rimar. Cada rapper no seu espaço, à espera do seu momento para assumir a posição central, num sistema giratório e perfeito, como um relógio certeiro. Nos refrões todos se chegavam à frente, formando uma fila única, em linha. Até pequenas coreografias em momentos específicos saltaram à vista. As próprias backs que eram dadas, também elas se mostraram ordeiras e notoriamente combinadas a priori. Tudo fluiu devidamente e com uma preparação notável.

Para além disso, a parte da interação com o público foi sempre tida em consideração. Constantemente a puxar pela plateia, os GROGNation ainda tiveram a feliz ideia de trazer animações para acompanharem as músicas. Simples, mas apelativas, com elas deu para visualizar no pano de fundo pomadas Voltaren, 5 copos de Shot ou até âncoras, imagens alusivas às diferentes faixas que iam sendo tocadas.

GROG Club

Ao longo de mais de uma hora e meia, os GROG, acompanhados de DJ X-Acto, entregaram-se totalmente ao público, que tão bem devolveu a atenção, e dominaram a sala 1 do Hard Club. Com o Nada É Por Acaso em evidência, a verdade é que alguns dos maiores sucessos do passado também não foram esquecidos. Aliás, difícil é encontrar alguma faixa de maior que não tenha sido tocada pelo conjunto ao longo do concerto.

A faltar 5 minutos para as 00.30 horas, o coletivo entrou a todo gás com “VOU NA MEMA”, último single lançado do projeto, que colocou logo o espaço noutro patamar energético. Prizko inaugurou os momentos de destaques a nível individual. Mal se ouviu a sua voz pela primeira vez, diferentes focos no público aclamaram o artista com palmas e berros de entusiasmo.

Os dados estavam lançados e a partir daí foram faixas consecutivas do Nada É Por Acaso a serem reproduzidas. “ANKURAS”, $EM AVI$AR” e “PROBLEMAS” foram as escolhidas e serviram de exemplo para como decorreria a noite. A alternância entre Bangers explosivos e faixas mais tranquilas, intimistas e melódicas, foi uma constante do espetáculo. Emoções opostas foram sendo causadas na plateia, mas bem dirigidas e calculadas pelos intervenientes em palco.

A prestação continuou com “Ferro”, faixa solta lançada antes do álbum, e que muitos pensavam que iria ser incluída no mesmo. Os GROGNation, entretanto, aproveitaram para revisitar sucessos do passado, deambulando por projetos como a Mixtape Sem Censura ou os EP’s Dropa Fogo e Na Via. Um dos hits de maior sucesso de Dropa Fogo, “Dá-me Espaço” trouxe um dos primeiros momentos intimistas da noite. A música foi cantada quase na íntegra pela plateia, que ia exibindo o domínio das letras de quase todas as tracks. Saltando para o EP Sem Censura, surgiu outro momento mais calmo e pessoal, com outra faixa de destaque do conjunto de 2725. Em “A Casa dos 20”, as luzes baixaram, todo o espaço entrou no clima e palmas foram batidas ao ritmo da música no refrão. Só faltou NBC, senhor que dá voz ao refrão, para ser perfeito.

O ambiente de maior tranquilidade manteve-se, só que desta vez regressando ao projeto foco da noite. Do Nada É Por Acaso veio “LÁGRIMAS / NADA É GARANTIDO”, faixa dedicada aos homens e à sua sensibilidade muitas vezes reprimida. O plano escuro, com recurso a luzes de isqueiros e telemóveis na plateia trouxe ainda maior emoção ao contexto existente.

Numa mudança de tom, “CIRCO” veio trazer uma nova vida ao espetáculo, com Papillon a aplicar um fast flow imparável que levou o público a extasiar-se num dos momentos do serão. De ressalvar que Papi conseguiu tal feito mais duas vezes durante o concerto. “VOLTAREN/NADA SEI” foi reproduzida apenas parcialmente, dando espaço para X-Acto brilhar no scratch.

Num dos momentos mais aguardados, e com 5 shots de fundo a mudar de cor num estilo alucinogénico, entoou-se bem alto “Shot’s de GROG”. Num clima de apoteose, o público subiu ainda mais a fasquia do entusiasmo, elevando o nível do espetáculo. Sem perder tempo, seguiu-se “Na Via”, faixa homónima ao EP de 2015, que teve novamente um momento de loucura com o fast flow de Papillon, acompanhado ritmadamente pelas palmas da audiência. Realmente “ninguém (foi) só”, pois toda a gente acompanhava a faixa entusiasticamente.

De novo a acalmia emergiu. “Distante”, outro sucesso do conjunto de Mem Martins, trouxe a magia ao Hard Club. A meio da música, o instrumental dissipou-se, os rappers silenciaram-se, e a plateia assumiu protagonismo. Cantando em uníssono, os fãs de GROGNation, que são cada vez mais, mostraram ser um núcleo duro e compacto que tão lealmente conhece o trabalho da banda.

Com o concerto já a pouco mais de meio, os GROG insistiam em não deixar faixas do novo álbum por tocar. Seguiu-se “UMA BECA” e depois “CHAMA-ME NOMES”, um dos singles do projeto, causando nova loucura numa faixa que talvez fosse imprevisível que tal acontecesse.

Antes de deixarem o palco, o público gritava “ESTA M*RDA É QUE É BOA”, com Papillon e Harold no centro, a brincarem com um beatbox surpreendente. O abandono do espaço não foi para dar por terminado o concerto. Foi sim para se equiparem a rigor.

Os fatos-macaco não podiam faltar em “MOLIO”, primeiro single do projeto. No estilo de avacalho típico do grupo, a faixa gerou um caos positivo na festa, provocando outra reação efusiva nos que estavam no Hard Club.

Para refrear os ânimos ainda recorreram a “PAZ/NADA É IMPOSSÍVEL”. Antes de fechar, seria impensável não ser tocada “Voodoo”. Nasty Factor viu o público explodir no verso “És uma bomba atómica, anatomicamente”, entoado apoteoticamente a uma só voz, de forma ensurdecedora.

 

Para finalizar, e ao terem abandonado o palco mais uma vez, “BARMAN” colocou de vez o Hard Club num nível máximo de ignescência. Moches constantes do público celebraram um concerto de total afirmação dos GROGNation. Várias vezes se cantou pela cidade do Porto, que tão bem recebeu o coletivo, mas não tanto como no fim do concerto. Com certeza muitas vozes saíram roucas daquela sala. “Alright” de Kendrick Lamar foi mesmo a despedida do grupo de Mem Martins, às 02.00 horas.

Cálculo a abrir e DJ Glue a fechar

 

Às 23.30 horas, hora e meia depois da abertura de portas, o rapper/produtor Cálculo inaugurou oficialmente a festa de apresentação dos GROGNation. Também acompanhado pelo DJ X-Acto, o artista de Barcelos, que produziu duas faixas (“$EM AVI$AR” e “PAZ/NADA É IMPOSSÍVEL”) do novo álbum do coletivo que servia de cabeça-de-cartaz, entrou cheio de vontade de deixar o público bem animado e preparado para o que aí vinha. Mais do que isso, Cálculo não deixou de mostrar o porquê de ser um dos artistas em crescendo no panorama atual do Rap nacional.

Como que numa entrada introdutória, Cálculo começou pela faixa “Hugo”, nome de nascença do artista barcelense. Retirada do seu último projeto, de nome A Zul, esta não foi a única música do álbum de 2015 a ser reproduzida. Seguiu-se depois “Memórias do Meu Futuro” e perto do fim ainda se ouviu “Isto É (Hip-Hop)”.

Recentemente afiliado à editora algarvia Kimahera, Cálculo aproveitou para tocar dois singles já lançados através da label. “Saíste” e “Salvar o Mundo” ajudaram a promover o próximo trabalho que Cálculo se prepara para lançar. Denominado Tour quesa, o novo projeto é aguardado pelos fãs com alguma expetativa. Sempre puxando pelo público, procurando interagir, o artista ainda brindou ainda os presentes com dois exclusivos desse mesmo álbum. Pôde-se ouvir “Não Paro” e “Amar”, faixas que parecem enquadrar-se perfeitamente no estilo já muito próprio de Cálculo.

 

Para fechar a sua performance, o artista cantou talvez o seu hit de maior sucesso, a música “A Zul”. Nota ainda para a presença do conterrâneo de Barcelos Mace, que para além de ter dado apoio em palco a Cálculo, cantou “Quebrar O Destino”.

 

Depois de tudo isto, DJ Glue encerrou a pista com 2 horas das suas misturas. Inevitavelmente passou por alguns bangers da atualidade, do Trap ao Boom Bap. Ouviram-se artistas e faixas como: Future – “Mask OFF”, Kendrick Lamar – “DNA.” e também “HUMBLE.”, SahBabii e Loso Loaded com “Pull Up Wit Ah Stick”, Big Sean – “Moves”, Travis Scott – “Butterfly Effect”, entre outras mais. No início uma roda gigante formou-se num espaço já menos preenchido no Hard Club, e vários dos presentes iam ocupando o centro do círculo, alternadamente, de forma divertida e a dançarem ao ritmo do que passava.

Entre as músicas portuguesas ouviu-se “Anda Cá ao Papá” de Boss AC, “Olha Para Trás” de SP Deville, “Solteiro” de Orelha Negra, ou até “Fácil” de Holly Hood, numa agradável mistura com o instrumental de “I’m Better” de Missy Elliott.

 

Texto: Emanuel Cirne
Foto: Nês Cruz
Trabalho por: Emanuel Cirne e Nês Cruz

 

 

 

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