Dia 20 de fevereiro de 2026, xtinto deixou-nos com o seu segundo álbum de estúdio, em sonhos, é sabido, não se morre. O lançamento do projeto teve direito a uma conversa com o rapper de Ourém, aqui para a Hip-Hop Rádio, bem como uma emissão de rádio.
Depois da conversa, tivemos ainda a oportunidade de explorar detalhadamente cada uma das dezasseis faixas do álbum, explicadas pelo próprio xtinto.
Assunto Meu
Olha, a Assunto Meu foi uma malha que foi criada porque a MunnHouse tinha sido convidada para fazer um trabalho para uma inauguração de um hotel. Eu e o Beiro percebemos mal o briefing, o trabalho foi mandado para trás e nós ficámos tipo: «foi mandado para trás mas é uma grande música, temos que aproveitar». É engraçado porque escrevi-a a conduzir, fui gravando voice notes porque vinha ter com o Beiro a Lisboa para gravar essa música. Ele mandou-me o instrumental quando estava a começar a viagem e eu quis logo ouvi-lo. Ele estava-me a dar ideias melódicas e eu não as queria deixar escapar, então fui metendo logo algumas palavras e quando cheguei ao estúdio acabei por transcrever todos os voice notes que eu tinha feito na viagem, e surgiu assim a música.
Dividir
Foi no nosso primeiro camp e foi a malha mais unânime para toda a gente que ouviu o álbum até ao momento em que estávamos a decidir os singles. O instrumental é do Kidonov e o L-ALI deu-me uma ajuda na letra.
Sofá (feat.Ed)
Ela surge de uma das muitas sessões noturnas que eu faço com o Lunn, aqui na MunnHouse. E foi na verdade…provavelmente foi das primeiras malhas a ser começadas, porque já tinha surgido antes do camp, e das últimas a ser finalizadas porque só há pouco tempo, antes de entregar o álbum para masterizar, é que o Ed veio gravar o verso dele. Esse som teve muito tempo só com o meu verso, eu queria encontrar um feat e depois o Ed pareceu-nos perfeito.
Cidade
A Cidade foi feita também no primeiro camp, à imagem da Dividir. Foi produzida pelo Beiro e teve depois guitarras de Samuel Louro e saxofone do Tomás Martin. Deduzo que essa letra já tinha antes do camp. Muitas músicas minhas surgem a ouvir o instrumental e depois a dar scroll no bloco de notas para ver se alguma letra faz sentido. Foi o caso da Cidade e é uma música que eu gosto bastante.
Alecrim Freestyle
A Alecrim Freestyle foi também no primeiro camp. Foi o beat onde participou a MunnHouse inteira, acho que foi eu. Tem uma flautada do Billy, incrível ali no meio, e pá, é barras [risos].
Bobo da Corte
Foi também como a Sofá, numa das sessões noturnas com o Lunn. Quando eu digo sessões noturnas é mesmo tipo a gente janta, vamos ter a algum lado e depois ficamos até não ter mais energia para estar no estúdio. Essa malha começa por ser do Lunn, mas depois, inevitavelmente, acabou por ter mais pessoas a mexer. A nível de mistura o Kidonov também mexe e depois vai a master do Gui. Nestas faixas nota-se sempre a nível estético muitas parecenças com a Sofá e a Kintsugi.
Tempestade (feat. Iolanda)
Surgiu de um camp que fizemos em Torres Vedras em que eu convidei a Iolanda a ir lá. Era só eu, o Kidonov e o Lunn – basicamente o núcleo forte para este álbum. Convidámo-la até para ir lá dar umas ideias melódicas – era essa a minha ideia – e ela acabou por participar numa das malhas que já tinha em aberto. Na altura só tinha refrão e ela escreveu esse verso para aí em 15 minutos, foi mesmo rapidíssimo. Ficou logo ali esse som estruturado e a demo feita.
Nunca Mais
Olha, a Nunca Mais era na verdade… eu estava a dizer que a Sofá era o som mais antigo, mas a Nunca Mais era uma demo que o Guire – que é um amigo meu produtor que agora já não tem produzido música – tinha há muitos anos no computador, tipo pré-pandemia. Eu estava a escavar nas nossas conversas alguma cena que ele tivesse lá deixado, um instrumento algo assim, e encontrei a demo com ele a tocar a guitarra e a cantar esse refrão. Pela primeira vez na vida pedi uma música a alguém. Perguntei-lhe: «opá, tu nunca vais lançar isto? Isto é bué bonito e se tu nunca vais usar isto, eu quero usar isto e quero fazer uma música a partir disto». Estava inclusive a bué bonito na voz dele, eu gostava muito de ouvir aquilo. Ele aceitou e até na primeira vez que convidei o Samuel para o estúdio, mostrei-lhe essa demo. Ele sacou uma guitarrada lá para cima e eu gravei a demo. Depois o Kidonov disse que esta música era daquelas mesmo obrigatórias, e o resto foi magia dele e do Lunn. Esta música teve mesmo muitas etapas, é das histórias mais engraçadas do álbum.
Felismina
A Felismina foi a primeira vez que, na minha vida, que compus em banda – eu, Samuel Louro, Tomás Martin, Guilherme Simões e o Lunn. E pronto, é uma música que me diz bastante, tem uma carga emocional forte e marca também esse desbloquear de criar em banda que eu quero mesmo repetir.
Fora d’Horas
Surgiu assim de uma forma mais…não tanto na linha dos outros. O Luar, que produz também para a Iolanda, já falava comigo há algum tempo sobre a hipótese de fazermos uma sessão de estúdio. Houve uma dessas vezes que eu fui lá ao estúdio dele e saiu essa malha – que depois o Kidonov e o Lunn pegaram futuramente. Quando fizemos um balanço geral de todas as demos que eu tinha, concluímos que essa devia entrar. O Luar produziu maior parte desse som, as drums foram desenhadas pelo Kidonov e pelo Lunn e depois foram tocadas pelo Chico na bateria. E pronto, nesse sentido foi o único som que surgiu de um produtor que não é da MunnHouse.
Interlúdio da Casa do Vale
Convívio na Casa do Vale, escrevi uma letrazinha para uma guitarrada do Samuel e o Kidonov achou por bem, e muito bem, usar o dictafone para gravar. O que tu estás a ouvir são os nossos convívios, é genuíno mesmo.
Prisma (feat. L-ALI)
A Prisma foi também no primeiro camp. Era um beat do João Maia Ferreira e o Hélder (L-ALI) sacou logo aquele refrão que toda a gente amou logo no camp. E é tipo, quando toda a gente reage em uníssono, sabes que essa malha tem de ir, estás a ver? Tem de ficar, é obrigatório. Depois houve a parte fácil que fui eu escrever os versos [risos], a parte difícil foi ele sacar uma melodia catchy no refrão.
Kintsugi
Foi, como eu estava a dizer, criada numa daquelas sessões noturnas com o Lunn. Fala muito sobre a minha vontade de ser menos inerte e procrastinador. É uma das minhas letras favoritas do álbum. Eu até tive muito tempo a adiar escrever o segundo verso, meio a medo, porque não queria estragar o som e eu já gostava muito da letra dele. Adiei muito e ainda tentei convidar o Lhast para essa música, mas ele não estava muito a gravitar para essa. Depois acabei por escrever eu mesmo, e acho que fez jus ao que já havia do primeiro verso e até do refrão. Essa entrada do refrão é até das minhas favoritas de tudo que eu já fiz, acho que a entrada é engraçada e a frase impactante.
Tóxico (feat. João Não)
Essa surgiu também no primeiro camp e era um beat do Lunn, originalmente. Até foi o Hélder que deu o primeiro clique para escrever para esse beat e depois a malta também curtiu muito do refrão. Muito posteriormente, é que decidi convidar o João Não. Precisava de um segundo verso para ali e estava a tentar perceber quem é que seria a pessoa ideal e fiquei ya, tenho que chamar o João, este gajo tem que fazer parte do meu álbum.
Pergunta Honesta
Esta tem piada. Na casa onde estávamos no primeiro camp, havia três stations –a do Lunn, a do Kidonov e a do Beiro. Eu estava a trabalhar com o Lunn e eu disse-lhe só que ia à casa de banho. Só que quando estava a ir para a casa de banho, passei na station do Kidonov e o L-ALI estava a tocar uma grande pianada – que é a pianada da Pergunta Honesta. Eu fiquei ali preso a escrever e gravei logo essa demo – na altura uma demo até bastante rafeira. Durante muito tempo até foi essa demo que nós tivemos como referência, mas mais para o fim é que depois inserimos a flauta do Billy e regravamos vozes como deve ser. É uma das minhas letras favoritas deste álbum, foi mesmo um desabafo que me saiu mesmo como eu gosto. Parece que sou mesmo eu a falar e isso é algo que eu procuro imenso na minha escrita, tentar-me aproximar o máximo ao que eu diria se estivesse a desabafar com um amigo meu. Concretamente no rap, é o que eu procuro mais. Os artistas que eu ouço mais são aqueles que eu acho que me transmitem essa energia.
Vento
A Vento foi também no primeiro camp e foi logo uma das nossas malhas favoritas, apesar de na altura só ter refrão. O verso até foi uma coisa que fui escrevendo ao longo dos tempos e foi meio corte e cola de vários textos que eu já tinha. Há uma música que eu gravei na altura da pandemia com a Bia Maria – uma música que nunca saiu – que tinha a dica do «mas tu sabias ser melhor que a solidão então ficaste / melhor do que o silêncio, melhor do que os meus gatos». É uma música que eu gosto bastante, que tem uma guitarrada bonita do Samuel, uma produção do Lunn e do Kidonov, onde João Maia Ferreira também mexeu nela. E, obviamente, o fim incrível do álbum, que é um solo do Tomás Martin. Acho que acaba o álbum numa nota que não podia ser melhor.