Hip Hop Rádio

Vhils: “A ideia é expor a entranha dos materiais”

Alexandre Farto tinha pouco mais do que uma década de idade quando agitou uma lata pela primeira vez e deu vida a uma parede. Nessa altura, nunca lhe passaria pela cabeça que mais tarde seriam as paredes a agitar-lhe a vida. Diretamente do Seixal, Alexandre deu lugar a Vhils. E, entre sprays e explosões, tem apresentado, ao longo dos anos, técnicas e obras inusitadas que já percorreram o mundo. Hoje em dia é indiscutivelmente um dos mais importantes street artists do país. A Hip Hop Rádio esteve à conversa com o artista.

Conta com uma longa carreira: são dezenas os países por onde já passou e centenas as paredes que já teve nas mãos. Recuando no tempo, ainda se lembra do seu primeiro risco na parede?

Lembro-me vagamente. Comecei a interessar-me pelo graffiti por volta dos meus dez anos, em 1997. Coincidiu com o primeiro grande boom do graffiti em Lisboa e todos os dias via tags e bombings surgirem nas paredes ao longo do caminho que fazia para a escola. Comecei a escrever os primeiros tags e a desenhar os primeiros projectos em papel nessa altura mas foi só uns dois ou três anos depois que comecei a pintar tags perto de casa e da minha escola e pouco depois pintei a minha primeira parede a sério, embora ainda muito tosca, numa construção abandonada no Seixal.


Na altura, quais/quem foram os seus impulsionadores para praticar e desenvolver esta arte?

Comecei com alguns amigos da escola que também se estavam a interessar pelo graffiti na mesma altura, mas as minhas grandes referências eram writers mais velhos e as crews mais activas da Margem Sul e Lisboa que eu via nas paredes e comboios: Tape, Obey, Mosaik, Kreyz, Time, Darko, Iser, Roket, Sher, Byzar, Hium, Klit, Oxi, Ram, Mar, UCB, CIA, GVS, SKTR, R1, entre muitos outros.

Podemos considerar a sua arte como paradoxal? Ao mesmo tempo que remove algo da parede, está-lhe a acrescentar significado?

Em termos concretos, sim, mas prefiro vê-lo como um processo de tornar visível aquilo que já lá estava, embora estivesse invisível. Ou seja, prefiro pensar que o significado já está presente nos materiais com que trabalho, e que eu estou apenas a ajudar a trazê-lo à superfície. Um dos conceitos fundamentais do meu trabalho, e que deriva desses anos de vandalismo e graffiti ilegal que mencionei atrás, é o recurso a estas técnicas de remoção, decomposição ou destruição enquanto força criativa. A ideia é expôr a entranha dos materiais através desta subtracção, mas isto porque acredito que esta entranha é composta por várias camadas que se vão acumulando com o passar dos anos e que reflectem os acontecimentos e influências a que estamos sujeitos. O que o meu trabalho tenta fazer, de forma muito simbólica, é remover algumas destas camadas de modo a expor parte destas memórias perdidas que se foram acumulando. Neste sentido, pode ser visto como uma espécie de nova arqueologia urbana que procura entender o que se esconde sob a superfície das coisas, com essa ideia de expor o que já lá se encontra.


Já esteve em todo mundo, já “marcou” muitas cidades. Contudo, qual foi a cidade que mais o marcou a si?

Todas tiveram a sua importância e todas marcaram-me, cada uma à sua maneira. Obviamente que Lisboa teve e continua a ter um papel fundamental na formação da minha personalidade, nas minhas ideias e na minha percepção do mundo, assim como no meu trabalho. Londres também teve uma enorme influência nos anos em que lá vivi, que foram anos importantes para o desenvolvimento do meu trabalho e para a internacionalização do mesmo. E o facto de ter passado os últimos dois anos em Hong Kong, fez com que esta cidade também tivesse deixado marcas importantes em mim. Mas todas as outras cidades onde já trabalhei deixaram a sua marca, algo que é visível no meu trabalho e no modo como tem usado estes contextos diferentes para desenvolver a reflexão que o tem guiado sobre a condição humana nas sociedades urbanas presentes.


Ao nível da arte, quais são as sua referências?

Tenho muitas, sobretudo artistas que trabalharam ou têm trabalhado o espaço público e a cidade como forma de reflectir sobre a condição humana, como o Gordon Matta-Clark, o Banksy, o JR, o Shepard Fairey, mas também artistas contemporâneos como a Katherina Grosse, o Anish Kapoor, e muitos outros como Os Gêmeos, Barry McGee, Faile, Interesni Kazki, AkaCorleone, ±MaisMenos±, Conor Harrington…


Se agora lhe desse uma parede e lhe pedisse para inscrever nela um rosto de um escritor, o título de um filme e um excerto de uma música que o tenham marcado, o que é que nos apresentaria? E porquê?

Escolheria como escritor o rapper, cantautor e compositor Chullage; o título do filme seria o Good Bye, Lenin!; e a música seria a “A Luta Continua” do músico angolano de intervenção David Zé, assassinado no contragolpe fraccionista do MPLA em 1977. São tudo referências que me tocaram e me consciencializaram, e que mostram o potencial que a arte tem para tornar visível aquilo que se encontra invisível e para colocar o foco em assuntos importantes que, de outra forma, não seriam falados.


Para concluir, qual é o grande passo que ainda lhe falta dar?

Tenho ainda muitos por dar. Projectos e ideias não me faltam, o que por vezes se torna difícil é conseguir encontrar o tempo e os meios para os colocar em prática.

Entrevista por: Nuno Mina

2 thoughts on “Vhils: “A ideia é expor a entranha dos materiais””

  1. Olá , eu li seu blog de vez em quando e eu possuo uma similar e eu estava apenas curioso se você ganha um monte
    de spam observações? Se sim como é que parar , algum plugin ou alguma coisa que você pode aconselhar ?
    Recebo tanta coisa ultimamente que está me deixando insano
    então qualquer ajuda é muito apreciado.

  2. Pingback: Hip Hop Rádio – Fábio Nuno Mina

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