Hip Hop Rádio

Entrevista | Reflect.

 

Como começou o teu gosto pelo Hip Hop e qual foi o teu primeiro contacto com esta cultura?

 

“Quem não se lembra do arrepio, daquele primeiro som?
Falsos Amigos, Sem Cerimónias, És Como Um Don
Foi o início desta história, de certo parecida à tua
Usei estrelas para escrevê-la e pedi segredo à lua”
Assim conto n’O Arrepio, tema que divido com o Dezman no meu segundo álbum, o homónimo “Reflect“. Mas recuando um pouco no tempo…
Em criança, os meus pais meteram-me na música e, apesar de na altura aquilo ser uma seca para mim (porque queria era “jogar à bola”), algo ficou.
Das bases de piano cheguei mais tarde à bateria e durante o ensino básico integrei várias bandas de rock.
O baixista de uma dessas bandas, um dia empresta-me o “Sem Cerimónias” dos Mind da Gap e identifiquei-me tanto que até hoje a cultura Hip-Hop continua a fazer parte dos meus dias, agora como Reflect na Kimahera.

 

Porquê esse nome, Reflect?

 

Curiosamente, “Reflect” vem dos meus tempos de mIRC, quando ainda nem rimava. Em 2000 e pouco, comecei a escrever as minhas primeiras letras de Rap e esse nickname transitou naturalmente para aquele que viria a ser o meu alter ego na música.
Vem de reflexo. Vem de reflexão. Porque aquilo que escrevo e canto resulta das reflexões que faço, e porque o Reflect é o reflexo de mim onde deposito as emoções que não me cabem.

 

Lembro-me de ver o teu trabalho no Palco Principal (em meados de 2010 possivelmente)
Consideras que actualmente o Facebook é o Palco Principal de antigamente?

 

No auge do Palco Principal, fui um dos artistas em destaque e isso trouxe-me alguma visibilidade na altura. Se esse portal era uma janela para vários artistas do panorama nacional, hoje esse papel é repartido entre as redes sociais da moda, entre as quais, o Facebook. Mas…
Estou cá há tempo suficiente para saber que o mais importante é a música e não as plataformas. Por exemplo, o Spotify, não existiria sem música para alimentá-lo. Mas a música apareceu antes e vai continuar a existir para lá dele. Cabe-me a mim, como músico, estar atento à evolução das plataformas para saber onde posicionar a minha música, mas o reconhecimento e o respeito são responsabilidade da arte. Já o sucesso, da forma como o medem nos dias de hoje, infelizmente depende de muitas outras coisas que nada têm a ver com a música.

 

Se pudesses, de alguma forma, mudar algo na cultura de hoje em dia, o que seria?

 

Eu sei que a vida é feita de ciclos, mas este em que nos encontramos deixa-me apreensivo.
Eu cresci a ouvir uma geração de artistas que, através dos ideais que plantaram na sua música, me ajudaram a ser a pessoa que hoje sou. Essa geração que me inspirou “falava sobre dar”.
Muitos destes novos pseudo-artistas com um buzz social incrível só “falam sobre receber”.
Há espaço para tudo e todos na cultura e o Hip-Hop é liberdade, mas se pudesse mudaria aquilo que “as pessoas” têm feito com a sua liberdade. Porque nós que temos o microfone na mão também carregamos alguma responsabilidade.
Tu que és ouvinte, quando um dia tiveres a responsabilidade de educar alguém, vais ter orgulho em dar a conhecer o que ouvias?
E tu que fazes música, sentirás orgulho quando, um dia, a mostrares aos teus filhos?
Uma coisa é ter buzz, outra coisa é ter respeito.
Há coisas que se compram. Há coisas que se conquistam.
Uma coisa é ter um lugar ao sol, outra coisa é ter um lugar na história.

 

Qual foi o tema tocado ao vivo que mais te marcou, e porquê?

 

Assim que li a pergunta vieram-me duas noites à cabeça:
Actuar no Hard Club já seria motivo de muito orgulho para mim, mas ser em noite de Ser Humano ainda mais especial foi. Quem me conhece sabe que foi uma causa que abracei desde o primeiro momento porque o Fuse faz parte daquele tal lote de artistas que cresci a admirar e depois de tudo o que recebi, finalmente tive oportunidade de dar. E ao dar, recebi também a oportunidade de pisar aquele palco, com casa cheia.
O cenário perfeito… Mas cheguei àquele dia de Abril de 2014 completamente desfeito.
Ter subido àquele palco, naquela noite, foi das coisas mais difíceis que fiz na vida, mas acreditei sempre que seria capaz de fazê-lo; pela causa, por mim e também para deixar uma mensagem muito importante a todos, em jeito de homenagem.
O que aconteceu quando cantei a “Espera por mim” ficou registado em vídeo, mas só quem lá esteve comigo naquele momento sabe o quão forte foi a energia que se gerou entre aquelas paredes. A minha gratidão é eterna e o Porto ganhou um canto especial no meu coração.
Obrigado por me terem proporcionado um dos melhores momentos de sempre que pude viver num palco como Reflect e espero poder voltar um dia.
Depois de uma pausa como Reflect para primeiro conseguir voltar a ser o Pedro, no Verão de 2016 fiz um grande espectáculo em Armação de Pêra, com Orquestra.
Não foi uma noite fácil em termos de público porque tinha 2000 pessoas à minha frente, mas menos do que gostaria a conhecer o meu trabalho. Até que chega o momento de cantar o clássico “Infinitamente”.
Já canto essa música desde 2008, mas nunca a tinha cantado como naquele momento. Essa catarse que aconteceu em palco chegou ao coração das pessoas porque no final da música tinha a plateia em pé, a aplaudir-me. Conquistei-os.
E foi conquistados que me emocionaram quando na “Vida real.”, nesse mesmo concerto, começaram a aplaudir a performance de dança da Laura Abel quando a música ainda nem sequer tinha chegado ao fim.

 

Aquilo pelo que passaste no início de 2014 alterou, de alguma forma, o teu percurso artístico?

 

Sem dúvida que sim. Não me consigo sequer imaginar a ter de lidar com algo mais duro do que, de um momento para o outro, perder a pessoa com quem dividia a vida.
Foi o percurso mais difícil, mas se hoje estou aqui a responder-te é porque consegui fazê-lo.
E se assim é, existem formas de dar a volta, mesmo quando estamos a falar do pior do mundo.
Lidar com esse vazio deixou-me na sombra, é verdade, mas esse escuro também me permitiu ver a luz sem distracções. Conheci o fim do meu fundo, tive de escolher viver ou não, mas aos poucos esses pedaços de luz foram entrando em mim.
Das coisas que mais me emocionou foi sentir o carinho que recebi, muito dele para o Reflect.
Graças à viagem com o “De mim para mim”, conheci pessoas que ouvem a minha música por todo o país e se não fossem assim, talvez nunca tivesse assinado aquele “Último acto” de cartão gasto no final daquela apresentação em Guimarães, por exemplo.
Tudo o que fiz com aquilo que “me” aconteceu, me ensinou que impossíveis não existem e que há momentos na nossa vida em que se para nós faz sentido, siga. E acreditem que às vezes estamos mesmo sozinhos… Mas quem dorme com a minha consciência sou eu e felizmente durmo descansado porque foi sempre o meu coração a guiar-me, até aqui. Até hoje.
Até me ter apaixonado por uma mulher linda que me faz feliz e não foi preciso acontecer o que aconteceu para eu saber o valor que tem o amor de quem nos ama.
Agora só quero aproveitar a minha segunda oportunidade e ser feliz, com tudo o que mora em mim e com tudo o que aprendi.
Eu fico bem.

 

Para terminar, imaginas-te a fazer Hip Hop daqui a 20 anos?

 

Quando me enviaste a entrevista pensei numa resposta para esta pergunta, mas hoje na viagem entre Lisboa e Armação vim a ouvir o álbum do Fuse e quando cheguei a casa tinha o álbum do Ace à minha espera. Depois de ouvir o álbum do Ace, sim, imagino. Porque ele é a prova viva de que é possível renovar essa tal relevância a cada projecto e eu ainda tenho muita música para fazer, se o apoio de quem me ouve continuar a renovar a minha vontade de meter ar nos pulmões e ser o Reflect.